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	<title>Arquivos Romance - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Herança &#8211; Capítulo 12: Quando se perde uma alma</title>
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		<pubDate>Sun, 17 Jan 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 074]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Darlan Lula</p>
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<p>&#8211; Filho da puta, desgraçado. Quero ver ele bater em alguém do tamanho dele. Ele é covarde, mãe.</p>



<p>&#8211; Filho, não vai adiantar nada você ficar aqui. Você tem que ir pra escola. Leva a Aurora.</p>



<p>Ele estava jogado na cama, com sua consciência consumida entre os lençóis. Ouvia fragmentos de vida pela casa. O filho no quarto ao lado ressonava cheio de feridas pelo corpo. Naquele instante, Augusto saía de mãos dadas com Aurora em direção à escola. Aufredo ficava. Descansava da noite anterior, num pesadelo de mãos e costas no muro. </p>



<p>Um zumbido percorria a cabeça de Ricardo. Ele começou, entre dormindo e acordado, a se recordar das coisas. Sua boca seca consumia o líquido de seu corpo, num estalo de língua e lábios ressecados. Ao longe, um galo cantava anunciando a manhã. O sol refletia as sombras no chão, de tudo e de todos, num afã de tentar entender a alma e a essência da vida. O cheiro do café se fazia presente. E o zumbido em sua cabeça se misturava às cenas fragmentadas da noite anterior: “É só pilotar a moto, você vai ver como é fácil.” O filho jogado no chão, inerte; ele com as mãos entre a cabeça. Noêmia chegando amparada pelos vizinhos, que, num respeito por aquela mulher, não chamaram a polícia. Respeitaram a dor daquela mãe, a sua inquietação de ter, ao mesmo tempo, dois grandes problemas: o filho e o marido. Um provocando a desgraça do outro. E ela tendo que amparar, entender e absorver toda aquela agitação. E o zumbido não o deixava mais dormir.</p>



<p>Levantou-se, saiu da cama. Estava seminu. Passou pelo quarto das crianças. A porta estava encostada, parou ali por alguns segundos. Encarou a sua própria humilhação. Sentiu vontade de vomitar, uma ânsia lhe percorreu todo o corpo, não conseguia entender aquele fragmento de lembrança do filho desfalecido. Não conseguia entender por que isso não era somente um grande pesadelo. Era a mais pura e cristalina verdade, a verdade que ele teria que encarar pelo resto de sua vida. Correu para o banheiro, jogou-se na privada e enfiou a cara na latrina, escorrendo gosma pela boca. E o zumbido não o deixava, o inquietava, junto aos fragmentos da noite anterior e às sombras produzidas pelas luzes artificiais dos postes pendurados cortando o céu. Levantou-se com certa dificuldade. Limpou vagarosamente a boca com o braço esquerdo; e, com a outra mão, abriu o chuveiro e deixou escorrer água pelo seu corpo.</p>



<p>No princípio, escorreram gotas frias &#8211; como os pensamentos que vinham à sua mente, sobre seu patrão falando a ele da demissão, o deixando sem chão. Depois, as gotas se aqueceram &#8211; como o coração de sua mulher, arrefeceram os seus músculos, deixando-o inundar-se por aquela água. Passou as mãos pelo rosto, tentando se limpar, os fragmentos ruins de memória pelo ralo; mas era vã, a sua tentativa. Ele via as gotas escorrendo e fluindo até encontrarem o ralo. Era como sua vida, sentida naquele momento como uma aberração que só caberia mesmo ao esgoto. Como aquela água que se misturava ao seu corpo e o enchia de prazer. Pegou o sabonete, e uma fragrância adocicada misturou-se ao zumbido de sua cabeça. A dor foi aumentando e, à medida que aumentava, ele conseguia ouvir todos os barulhos ao redor. Ônibus passando na rua apinhado de almas mortas; cachorro latindo no vizinho; papagaio gritando o hino de um time ensinado pelo seu dono; o barulho da máquina de costura de sua esposa, que o fez lembrar-se da sua dor, não aquela dor do zumbido, mas a dor de não ter mais emprego, de não ter mais vida profissional, de estar jogado na existência longe de seus sonhos mais sinceros. A mulher teria que se virar muito nas suas roupas, em suas tesouras e sua costura, varando noites pra trazer algum alento pra aquela família fragmentada na alma de um ser fragilizado e fraco. Não tinha como ele se desvencilhar daquilo, poderia tomar quantos banhos quisesse. Aquele cheiro azedo de vida estragada não o deixaria mais. Não escorreria pelo ralo, como ele estava querendo. Não havia jeito. Ele estava fadado a pilotar a moto e a cair no esquecimento. Afundar-se na lama que sua consciência transformara.</p>



<p>Como eu sei disso tudo? Como consigo trazer tantos detalhes aos comentários sobre o que estou contando? Tive fontes precisas. Noêmia, Alciléia e tantos outros me contaram tudo. Pode não ser algo imparcial, mas o que é imparcial nesta vida? As pessoas envolvidas expressaram as suas dores e as suas angústias para mim. Contaram o que quiseram, o que elas entendiam da vida. O resto, eu vou preenchendo de acordo com as minhas experiências. E, naquele momento, eu sabia o que atormentava Ricardo: um misto de coisas e fragmentos, escorrendo entre seus dedos como aquela água, como a sua vida fedida e estragada. “É só pilotar a moto.” Ricardo veria o que o esperou. Mas antes, ele teria que trabalhar na fábrica de biscoitos. E teria que encarar novamente todas as pessoas que testemunharam a sua desgraça, o início da sua desgraça e seu tormento, a sua vida jogada no muro chapiscado como o seu próprio filho. Essa é a sua realidade, longe de seus sonhos de outrora. E o barulho da máquina de costura aumentava, junto com o zumbido agudo na sua cabeça.</p>



<p>Depois do banho, não teria salvação. Teria que viver aquilo, conviver com aquilo e aguardar a sua sina. E o pior seria novamente encarar sua família, sua mulher e seus filhos. Os olhos avermelhados latejavam por dentro e consumiam sua alma marejada de dor, que escorria com as gotas quentes pelo corpo de Ricardo, chegando ao chão e ganhando o ralo.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="768" height="768" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4adc4-darlan_png.png?resize=768%2C768&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13213 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4adc4-darlan_png.png?w=768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4adc4-darlan_png.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4adc4-darlan_png.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Darlan Lula&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.<strong><strong><strong><strong> <a href="http://www.darlanlula.com.br">Conheça mais sobre o autor e seu trabalho</a>.</strong></strong></strong></strong></p>
</div></div>



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		<title>Herança &#8211; Capítulo 11: A Tentação e o Filho do Meio</title>
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		<pubDate>Sun, 03 Jan 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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<p>&#8211; Você não vai se arrepender. É dinheiro fácil, amigo. É sem preocupação.</p>



<p>Após algumas horas no Vicente, Ricardo já conversava com Joaquim, que lhe oferecia uma maneira de conseguir uns trocados sem muito esforço.</p>



<p>&#8211; Basta pilotar a moto. Sei que você foi um motoqueiro e tanto. Basta fazer isso, parceiro!</p>



<p>Ricardo, com a cabeça curvada para o lado, ouvia atentamente seu colega de copo. Pensava nas crianças, pensava nos estudos delas, e reluzia dentro de si uma chama de esperança de conseguir algo melhor para os seus meninos. Por uns segundos, ficou imerso nesses pensamentos, esquecendo-se de tudo ao redor. Uma névoa já pairava sobre sua cabeça, e seus pés já não sentiam firmemente o chão cimentado do bar do Vicente. </p>



<p>Havia duas pessoas no balcão conversando animadamente com o dono do estabelecimento; Ricardo e Joaquim proseavam no fundo, ao lado da mesa de bilhar. O rapaz, de olhos vívidos e expressão corporal confiante, passava a imagem de um Yoda ensinando a um Jedi. De vez em quando, com um cigarro à mão, soltava baforadas no rosto do companheiro, deixando-o ainda mais atordoado.</p>



<p>A poucos metros dali, um grupo de crianças e adolescentes brincava na rua. Entre elas, o filho do meio de Ricardo, Aufredo. A origem de seu nome grafado dessa forma vinha da superstição de seu pai, que queria que todos os filhos tivessem a primeira sílaba do nome escrita da mesma maneira. Assim, veio Augusto; em seguida, Aufredo e Aurora. Esta última foi em homenagem à música “Aurora”, de Mário Lago; em que estivera num carnaval com sua então namorada Noêmia e trocaram suas primeiras carícias ao som dessa famosa marchinha de carnaval.</p>



<p>Aufredo era um garoto avesso a confusões. Tinha um temperamento bem diferente de seu irmão mais velho. Era o garoto em quem Ricardo depositava mais seus anseios e projeto de um futuro promissor. Sagaz, perspicaz, quieto e observador. Naquela noite, porém, algo o transtornava. Um rapazinho, que o vivia provocando, chamando-o de playboyzinho da favela devido ao fato de ele estudar em colégio padrão A na cidade, resolveu dizer o que um de seus coleguinhas de sala falava sobre ele: Que todos na sala não queriam, de maneira alguma, se misturar com aquele garoto franzino, pobre e preto, deixando-o jogado pelos cantos dos corredores nos intervalos das aulas e excluindo-o do convívio entre eles. Apesar disso, quanto mais todos o sujeitavam a esse tipo de constrangimento, mais Aufredo se comprometia em seus estudos e se juntava aos seus livros como grandes companheiros de jornada.</p>



<p>&#8211; Olha aí o playboyzinho da favela&#8230; O que vai fazer agora? Agora que seu pai foi esculachado na escola e virou um vagabundo sem emprego, o que vai fazer, playboyzinho?</p>



<p>&nbsp;Aufredo não pensou em outra coisa senão partir pra cima daquele moleque atrevido que ousava falar de seu pai. E a confusão estava formada.</p>



<p>Um dos garotos da vizinhança, sabendo do paradeiro do pai de Aufredo, correu até o bar e o chamou, que, atordoado e cambaleante, resolveu ir até o local. A confusão era na rua próxima, e, em pouco tempo, mesmo com dificuldade de reconhecer os obstáculos da calçada, Ricardo estava de frente pra aquele emaranhado de pessoas que gritava e batia palmas ao redor daqueles dois infelizes jogados no asfalto. Uma nuvem negra tomou conta daquele homem. Pensamento desconexo e confuso, como quem quer ver seus filhos felizes, educados e com uma profissão respeitável no futuro, ele atravessou aquele grupo, pegou seu filho pela parte de trás da camisa e o jogou com força sobre o muro chapiscado de uma casa. Seus olhos marejavam de raiva. Pegou o filho pelo colarinho da camisa já rasgada e desferiu alguns golpes em seu rosto com a palma da mão aberta. “Enquanto me preocupo com seus estudos, você fica brigando na rua!” O menino olhou assustado para o pai, sem reação, paralisado. O rosto começou a inchar, o nariz sangrou e suas costas estavam laceradas devido ao contato com o muro. Em instantes, Aufredo desfaleceu. O silêncio tomou conta de todos. Ricardo, ofegante, de frente pro filho caído, olhou ao redor, passou a mão pelo rosto e sentou-se ao lado daquele menino jogado no chão, com os olhos voltados pro nada.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Herança &#8211; Capítulo 10: Perambulações de um Errante</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Dec 2020 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ricardo havia feito o demissional. Agora era definitivo: havia se desligado de uma instituição de ensino em que servira durante 17 anos de sua vida.</p>



<p>Naquele momento, após sair do médico, ele perambulava pelas ruas da cidade sem saber o que fazer e pensar. O que mais o atormentava era a educação dos seus filhos, que ficava comprometida; teriam que conviver com o ensino fraco da escola pública do seu bairro. Não que os profissionais de lá não se empenhassem, mas ele sabia que era difícil, pois toda a estrutura educacional estava falida. Como um professor pode se dedicar aos seus alunos se, em apenas uma sala das mais de cinquenta em que ele tem que entrar toda semana, tem mais de 45 almas ávidas por algo? Como esperar que este mesmo professor se comprometa se tem que trabalhar em três turnos pra ganhar o mínimo pra viver? Ele refletia sobre isso do seu jeito, da sua maneira, com seu repertório de ensino médio conquistado a duras penas, tendo que trabalhar precocemente pra ajudar a família, pois seu pai havia morrido muito cedo, deixando uma herança maldita de dívidas de jogo.</p>



<p>Sem perceber, já havia saído da Getúlio Vargas e começava a subir o Calçadão da Rua Halfeld. Pessoas indo e vindo, apressadas, olhando pros seus relógios e com as testas franzidas, aguardando alguma suspensão divina do tempo pra não se atrasarem em seus compromissos. Ricardo não tinha perspectiva. Essa era a realidade. Com o dinheiro do fundo de garantia, teria que pagar um empréstimo feito para reformar a casa. Sobraria pouco. Nem abrir um próprio negócio poderia. A única esperança, e mesmo assim para viver mal e trabalhar muito, era falar com seu Nonô sobre a fábrica de biscoitos. A todo momento, vinham as falas do diretor da escola à sua cabeça. Ele não se conformava com aquilo. Uma crise mundial assolava e destruía todos os alicerces econômicos. Como o Brasil vivia um governo neoliberal e com enorme instabilidade econômica, os que mais sofriam eram os pobres, que não tinham condições de se defender diante das demissões em massa que começaram a surgir para arrefecer um pouco a crise do empresariado e dos setores que empregavam. Ricardo era o microcosmo do que muita gente vivia no período. Ele não conseguia entender tudo isso, mas muita gente no Brasil vivia alertando as autoridades sobre essa situação.</p>



<p>Já não havia mais Sol para perturbá-lo em sua errância pela cidade. No entanto, as nuvens no céu começaram a sua sobrecarga. Ele andava a passos lentos quando as primeiras gotas de chuva começaram a cair. Teve que se refugiar, espremido com algumas pessoas, numa marquise próxima à Praça João Pessoa. Olhava para o céu e para aquela chuva toda, que lavava tudo ao redor. Ao lado, uma senhora disse ser uma chuva passageira de verão. Ele virou e sorriu. Em seu interior, pensou que aquela situação atmosférica bem que poderia ser o reflexo de sua vida. Uma tormenta que surge, arrasa tudo que fora planejado até aquele instante, mas, ao mesmo tempo, promove uma limpeza, e depois tudo volta a brilhar como antes, renovado, sublime. Mas a vida é uma e a natureza é outra; não há simbiose perfeita entre as duas. Não há nada no mundo que crie um espetáculo perfeito de cores e vibrações o tempo todo. Tudo é dinâmico e complexo. Tudo é verdadeiro, real e confuso. Não é fácil viver.</p>



<p>Passados alguns instantes, Ricardo já estava livre para seguir com sua caminhada até sua casa. Subia a Independência, naquele momento. Pensava em questões práticas: juntar as papeladas para o seguro-desemprego, conversar com seu Nonô, tentar ajudar a esposa no que fosse necessário. Já próximo de sua rua, viu o carro do Dr. Rubens passar, imaginando que poderia ser uma visita para levar trabalho para Noêmia, da Sra. Eliana. Havia alguém ao lado do médico que ele não conseguiu identificar, devido ao vidro do carro ser muito escuro.</p>



<p>Por ter caminhado tanto tempo, estava com a boca seca. Já passava por uns três, quatro bares, em que os homens estavam sorrindo, com seus copos de cerveja à mão, discutindo algum assunto sobre futebol ou mulheres. Ele vinha pensando que aquela era uma semana difícil e que merecia um pouco de distração. Não havia mal algum entrar um pouco no Vicente e tomar uma cerveja, matar um pouco a sede. Ao passar em frente ao bar do amigo, já estava resoluto de sua decisão. Entrou.</p>



<p>Vicente lavava copos de clientes na pia, com seu pano de prato puído no ombro. Ricardo observava que o amigo envelhecia. Estava com os cabelos mais grisalhos que antes, a pele branca do rosto vincada pelo tempo, como linhas da palma da mão que ciganas leem por preços módicos nas esquinas da cidade. “Fala, Vicente.” “E aí, Ricardo. Como vão as coisas?” “Tudo bem.”</p>



<p>Havia algumas pessoas no fundo do bar jogando sinuca, entre elas um conhecido seu chamado Joaquim, o mais afamado malandro do bairro. Cumprimentou-os com um aceno de cabeça e sentou-se em frente ao balcão, pedindo uma cerveja e uma dose de cachaça.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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		<title>Herança &#8211; Capítulo 9: O que vem depois do começo</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/12/06/heranca-capitulo-9/</link>
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		<pubDate>Sun, 06 Dec 2020 21:30:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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<p>O Sol se punha entre duas árvores de copa larga. Alguns espectadores colocavam a mão aberta sobre a testa para ver melhor o jogo, que estava muito disputado.</p>



<p>Rubens passou por ali sem muitas pretensões de conseguir encontrar o garoto. Teve grande sorte, pois ele, fominha de bola como era, estava no time que havia ganhado todas até aquele momento. O médico vinha pensando no como seria bom ter um rapaz jovem entre ele e Alciléia. O que mais o animava era poder realizar grandes fantasias com a anuência da amante &#8211; uma vez que a esposa, nesse quesito, era extremamente conservadora. E o primeiro desafio era aproximar os dois.</p>



<p>Como faria isso, ele não sabia. Tinha que arranjar um jeito de fazê-los se encontrar antes mesmo do baile, e teria pouquíssimo tempo para arranjar isso. Sorriu entredentes para si mesmo, para seu íntimo, imaginando a sorte que o filho da Noêmia teria de, já tão novo, poder experimentar uma beldade como a sua garota. </p>



<p>A poeira subia no campo, com um zagueiro mandando a bola para o alto, evitando assim a aproximação indesejada do atacante do time adversário. Havia uma nuvem de poeira no ar. O clima estava abafado, e Rubens suava entre as axilas vestido numa blusa desconfortável, pensando em quanto fora esperto ao deixar o <em>blazer</em> no carro. O suor escorria por sua testa e por seu pescoço, deixando entrever a poeira do campo que se acumulava aos poucos no seu corpo febril de desejo ao avistar o garoto sem camisa, desfilando sua masculinidade toda naquele início de noite de verão. Como o campo não possuía refletores, o próprio tempo se incumbia de fechar as portas do estabelecimento a céu aberto. Um burburinho se formou no centro do campo. O juiz havia apitado o final da partida, decretando a vitória do grupo de Augusto, que foi carregado por seus convivas por ter feito 9 dos 12 tentos do time durante as disputas com os outros que iam entrando.</p>



<p>Passados alguns minutos, após sair daquele movimento todo, o garoto, com as sobrancelhas franzidas e uma enorme curiosidade na cabeça, avistou de longe o Sr. Rubens. Seguiu em sua direção, já que o homem se mantinha com o olhar fixo nele.</p>



<p>&#8211; Olá, senhor Rubens.</p>



<p>&#8211; Olá, rapaz. Por favor, sem cerimônias. Me chame só de Rubens.</p>



<p>Os dois se cumprimentaram. Rubens sentiu entre seus dedos aquela mão suada e áspera, suja de terra. O menino estava um pouco ofegante ainda, com a camiseta no ombro, pés descalços, carregando suas chinelas debaixo do braço. Trocaram algumas palavras sem muito interesse até que, num momento da prosa, Rubens sentiu liberdade de desferir o golpe: “Tenho uma amiga muito íntima que gostaria de ir num baile de Carnaval à fantasia. Como eu irei com minha esposa, e essa amiga não quer ir sozinha, pensei que você poderia acompanhá-la. O que acha?”. Augusto limpou o suor do rosto com a camiseta, suspirou profundamente e quis saber o dia da festa. “Será no próximo sábado.” Imaginando que o garoto diria que não tinha dinheiro para roupa, ele se antecipou: “Não se preocupe com a roupa. Eu vou encomendá-la pra você e pra minha amiga. Vocês vão como um casal. Por isso preciso que se conheçam antes, talvez na quinta de noite, depois de amanhã.”; “Neste caso, então, Sr. Rubens, acho que vou aceitar.” Os dois sorriram um para o outro, mostrando uma intimidade inexistente.</p>



<p>Apesar da pouca idade, Augusto sentia, naquele lance repentino e naquela proposta meio estranha, uma oportunidade de sair do marasmo de vida em que se encontrava, querendo mesmo aproveitar alguns instantes às custas alheias; nada melhor que um cara rico pra isso, pensava ele, vindo de brinde uma mulher que ele não conhecia ainda, mas que tinha a certeza de que não seria pouca coisa. Rubens puxou assunto sobre o futebol, Augusto retribuiu com a animação esperada, pois queria se vangloriar dos feitos realizados naquela tarde. Ficaram alguns minutos conversando. O médico passou o endereço de onde Alciléia morava, deu dinheiro para o táxi do garoto e combinaram às seis horas da noite. Ao final da conversa, antes de irem para o carro, Rubens o pegou pelo pulso e o olhou fixamente. “Augusto, gostaria que isso ficasse entre nós, somente nós, ok?”. O rapaz, a princípio incomodado com a atitude do novo amigo, logo depois percebeu sua preocupação, relaxando os músculos da face e tranquilizando o companheiro.</p>



<p>No mesmo instante, uma grossa gota caiu no polegar que segurava o pulso de Augusto, escorrendo pelo seu braço. Uma nuvem cinzenta, promessa de chuva à noite inteira nas redondezas, virava realidade.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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		<title>Herança &#8211; Capítulo 8: A Proposta</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/11/22/heranca-capitulo-8-a-proposta/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 22 Nov 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 072]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando ele girou a chave na fechadura da porta, ela já estava na cama, de bruços, com <em>lingerie</em> provocante e cinta-liga, transformando aquele espaço em um depósito de especiaria rara. Sem deixar ao menos que ele atravessasse a cozinha do <em>flat</em> alugado pra ela, Alciléia já perguntava: “Quem é o meu cachorrão?” </p>



<p>Então ele parava, erguia o queixo para o alto e soltava um uivado estrondoso e grave, ecoando sua posse pelos cantos do apartamento. Ela estava especialmente radiante àquele dia: os cabelos volumosos na altura dos seios, loiros como os raios do Sol que serpenteavam na janela do quarto do lado de fora; as sobrancelhas firmes, bem delineadas e grossas, demonstrando personalidade de <em>femme</em> <em>fatale</em>; seios à proporção do corpo, auréolas rosadas e intumescidas por dentro do sutiã vermelho sangue meia-taça rendado e transparente; cintura como que esculpida por Rodin nas suas inspirações mais divinas; coxas torneadas e femininas; suaves pelos percorrendo suas carnes, como se cristais cobrissem seu corpo nas regiões mais provocantes e desejadas; e uma calcinha discreta deixava entrever seus glúteos num horizonte infinito de possibilidades.</p>



<p>&#8211; Nossa! Como você está linda.</p>



<p>&#8211; Vem cá, meu cachorrão. Estava morrendo de saudades.</p>



<p>Ele se debruçou sobre ela e começou a beijar o seu corpo, a começar pelos pés. Alciléia fechou os olhos de desejo e mordeu o canto inferior direito do lábio. Rubens sabia conquistar uma mulher, principalmente quando a enchia de mimos. Aquela, ele queria só para si &#8211; pelo menos, era o que pensava quando resolveu tirá-la da vida e alojá-la num <em>flat</em> localizado no centro da cidade. Iriam completar um ano naquela vida clandestina e cheia de luxúria. </p>



<p>Não era o tipo de cara que chamava atenção. Já com seus cabelos grisalhos, pose de galã, mas pinta de meia idade, ele se esforçava para evitar ainda o resquício de um abdômen saliente que insistia em não abandoná-lo. No entanto, na cama, compensava com seu jeito atrevido de ser e suas inúmeras fantasias que espalhava pelo corpo e pela mente de sua ninfeta insaciável.</p>



<p>&#8211; Que delícia, amor. Hoje você se superou. Me deixou louquinha.</p>



<p>Ela se jogou sobre o corpo nu do seu homem e lhe deu um beijo demorado. O quarto era um misto de suor e perfume, de líquidos cúmplices que escorreriam pelo lençol, misturando-se aos corpos jogados e cansados sobre o ponteiro daquela tarde de fevereiro.</p>



<p>&#8211; Minha linda – ele pousou a cabeça em seu peito –, você se lembra daquele papo que nós tivemos mês passado? Aquele sobre apimentarmos um pouco a relação?</p>



<p>&#8211; Sim&#8230; lembro, sim. O que foi? Achou quem procurava? – Ela ergueu a cabeça num sorriso discreto e lascivo.</p>



<p>Ele a puxou para si e disse sussurrando em seu ouvido: “Você vai achar o garoto uma delícia&#8230;”.</p>



<p>&#8211; Quantos anos, Cachorrão?</p>



<p>&#8211; 19 aninhos.</p>



<p>Ela se animou, ajoelhou-se na cama batendo palmas com as pontas dos dedos.</p>



<p>&#8211; E quando vamos brincar com ele?</p>



<p>&#8211; Calma, minha cadelinha. Você estava reclamando que não ia à festa alguma, que eu sempre a deixo trancada aqui! Agora surge uma oportunidade. Vocês dois irão juntos na festa de Carnaval do Clube, no sábado.</p>



<p>&#8211; Ai, que delícia. E como ele é, hein?</p>



<p>&#8211; Você verá. Garanto que irá gostar. Mas antes tem que ser uma boa e comportada menina.</p>



<p>Disparou um tapa na bunda de sua amante e passaram a tarde entre afagos e devassidões.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Herança &#8211; Capítulo 7: O Encontro</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/11/08/heranca-capitulo-7-o-encontro/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Nov 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 070]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=12625</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ricardo e Noêmia passaram a manhã conversando. Aproveitaram que os filhos estavam para a escola e tiveram uma conversa franca um com o outro. Falaram da demissão, de como seria o acerto, do seguro-desemprego, de economizarem até tudo novamente se ajeitar; principalmente, falaram dos filhos &#8211; que teriam que procurar uma nova escola no ano seguinte, e chegaram à conclusão de que o jeito seria eles estudarem em colégio público, começando desde já, uma vez que poderiam economizar no ônibus e se matricularem na escola do bairro.</p>



<p>&#8211; Não tem solução, Ricardo. Eles vão se adaptar.</p>



<p>&#8211; Não quero isso, não quero mesmo. Eu não tive estudo, você não teve estudo. E olha como estamos hoje&#8230; quero dar uma vida boa pros meus filhos. Que merda! Vamos ter que arrumar um jeito.</p>



<p>&#8211; O que devemos pensar é em não gastar. Sexta-feira começa o carnaval. Aquele nosso plano de aproveitar e passear, devemos esquecer. Vou aproveitar e ver se pego o máximo de costura. É uma época boa pra isso, muitos bailes à fantasia para os grã-fino. Dona Eliana já é uma delas; quer uma roupa chique, vai trazer o pano ainda hoje; isso vai render pra gente um dinheiro bom.</p>



<p>Ela caminhou até o marido, que estava de pé junto ao filtro de barro, abraçou-o forte. “Tudo vai ficar bom de novo, meu nêgo! Vamos ter fé!”. Ele retribuiu o abraço sem muito entusiasmo e pensou no quanto deixou a desejar para sua família.</p>



<p>&#8211; Estive pensando, o seu Nonô trabalha na fábrica de biscoitos. Ele um dia me disse na padaria que estão querendo empregados para trabalhar lá&#8230; falou isso pensando no Augusto. Quem sabe não podemos pedir a ele pra ver se te empregam? Não precisariam nem assinar sua carteira, enquanto você está de seguro. Aí conseguimos algo a mais. O que acha?</p>



<p>&#8211; Vou pensar, criôla. Agora tenho que ir fazer o demissional.</p>



<p>Segurou a cabeça da esposa entre as mãos, deu um beijo em sua testa e saiu de casa, arrastando o corpo e a alma.</p>



<p>Noêmia preparou o almoço para os filhos, arrumou a casa do jeito que deu com o tempo que sobrou e seguiu para sua máquina de costura, que fica no fundo da casa, até esperar os meninos chegarem.</p>



<p>À tarde, os filhos no quintal brincando de bola, Noêmia ouviu o barulho da campainha de sua casa. Ao sair, encontrou-se com Rubens segurando uma sacola.</p>



<p>&#8211; Sr. Rubens! Como vai o senhor? Achei que Dona Eliana ia trazer o pano. Entra, por favor.</p>



<p>&#8211; Olá, Noêmia. Como vai?</p>



<p>&#8211; Tudo bem, senhor.</p>



<p>Enxugou as mãos molhadas de lavar as vasilhas no vestido e o cumprimentou meio sem jeito.</p>



<p>&#8211; Quer um copo d’água, um cafezinho?</p>



<p>&#8211; Não, obrigado. Só vim aqui trazer o pano para a roupa do baile da Eliana. Ela estava ocupada hoje e me pediu que trouxesse aqui para a senhora. Também mandou uma revista de moda, com o modelo do vestido que ela quer.</p>



<p>Noêmia recebeu a encomenda e logo foi abrindo a revista na página marcada. Olhou fixamente para o papel com o profissionalismo que a ocasião exigia e se sentiu feliz por poder oferecer aquele tipo de serviço, pois era a melhor costureira que havia em toda cidade. Sabia como ninguém cerzir, elaborar vestidos, imitá-los de grandes marcas e modas.</p>



<p>&#8211; Obrigado, Sr. Rubens. Diga a ela que conseguirei fazer o vestido, sim. Para quando ela precisa?</p>



<p>&#8211; O baile é no sábado. Acredito que sexta esteja ótimo.</p>



<p>&#8211; Preciso, então, que ela venha experimentar o vestido para os ajustes finais depois de amanhã.</p>



<p>&#8211; Pode deixar. Eu avisarei a ela. Tem preferência por horário?</p>



<p>&#8211; Não, senhor. Só pede a ela pra ligar um pouco antes de vim, pra ter certeza de que estarei por aqui.</p>



<p>&#8211; Tudo bem.</p>



<p>Naquele momento, surgiu Augusto vindo do quintal, sem camisa, todo suado. Ele observava o movimento na casa e, antes, um carro estacionando em frente. Tinha um jogo no campo do Lacet em meia hora e via naquilo uma oportunidade para pegar uma carona, pois sabia que aquele homem era conhecido da família.</p>



<p>&#8211; Ôh, moço, me dá uma carona!</p>



<p>&#8211; Quê isso, menino, isso são modos! – Noêmia toda ruborizada com a liberdade do garoto.</p>



<p>&#8211; Não há problemas, Noêmia. Pra onde vai, rapaz?</p>



<p>Rubens observou o garoto, ainda ofegante, suor escorrendo pelo rosto e pelo tórax torneado, sorriso displicente nos lábios.</p>



<p>&#8211; Vou pro Lacet.</p>



<p>&#8211; É o seu dia de sorte. Estou indo lá pra perto.</p>



<p>&#8211; Beleza!</p>



<p>Foi até o quarto, enfiou qualquer camisa e saiu de casa, esperando seu bilhete premiado no portão.</p>



<p>&#8211; Tchau, Noêmia. Obrigado.</p>



<p>&#8211; Por nada, Sr. Rubens. Eu que agradeço.</p>



<p>Já no carro, vidros fechados, conversa amigável entre os dois, Rubens perguntou a idade do moço. “19 anos”. O médico respirou fundo, semicerrou os olhos, esboçou meio sorriso e pousou a mão na coxa esquerda do rapaz, sentindo um frio na barriga. “Acho que vamos nos dar muito bem, garoto.” Ao que foi retribuído com outro sorriso. Enigmático. Suficiente, porém, para unir aqueles dois seres aparentemente tão incompatíveis entre si.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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		<title>Herança &#8211; Capítulo 6: As Agulhadas</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/25/heranca-capitulo-6-as-agulhadas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 068]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde a promoção do marido, Noêmia não precisava mais se desdobrar em suas costuras para poder complementar a renda da casa. O seu trabalho era hercúleo. Chegava a trabalhar, em média, 18 horas por dia &#8211; contando os cuidados com os filhos, que também exigiam demais dela. Apesar de sempre estar com o dedal, não eram raras as vezes ela se machucava com suas agulhas, pois o sono era seu grande inimigo nas madrugadas de intensas costuras.</p>



<p>Ricardo valorizava, e muito, esse empenho da mulher. Não à toa torcera muito para que a esperada promoção no seu emprego viesse, para fazer com que sua esposa diminuísse ou até mesmo cessasse com aquilo tudo. Quando ele conseguiu tal feito, a casa toda se animou com a notícia. Tiveram um domingo de festa naquela semana, todos felizes, esperando novas idealizações, novas promessas da vida, novos sonhos realizados. E Noêmia pôde se dar ao luxo de pegar somente encomendas de quem ela gostava ou desafios de costura que lhe aguçassem o espírito empreendedor.</p>



<p>E, agora, a realidade jogada na cara como excremento de porco, sem ter como pedir socorro a ninguém. Aquela noite, em que Ricardo voltava a beber depois de tantos anos, era a promessa de dias difíceis; de lutas diárias para que o vício não o consumisse novamente. Ela sabia que ele se encontrava destroçado, arrasado, perdido no mundo como um pardal: distante de seu ninho, voando ao sabor das intempéries do tempo. Noêmia não dormiu nada – enquanto o marido, ao seu lado, ficava jogado na cama como um títere sem dono, quebrado, pronto a ser arremessado ao lixo.</p>



<p>Ela pensou a noite inteira em como contornar aquilo tudo, como reorganizar a sua história. Precisava de um plano. E não deixaria nada nem ninguém abater sua família. Apegava-se no Cristo, em quem ela tanto confiava.</p>



<p>Quando o marido acordou, ela esperou que ele se recompusesse, tomasse um banho. Na cozinha, com uma xícara de café quente à mão, oferecida por ela, Ricardo, de cabeça baixa, tamborilava na mesa, e lembrou-se das falas do Sr. Miranda: “Eu não tive como segurar o seu emprego”. Como isso! Se há poucos meses havia sido promovido. “Não tive”. Num gesto intempestivo, Ricardo soltou a xícara e deu um soco de punho cerrado na mesa, assustando sua companheira.</p>



<p>&#8211; Gordo filho da puta. Como ele fez isso comigo?! Eu era o seu melhor funcionário.</p>



<p>Noêmia, passado o susto, recompôs-se, foi até ele e o abraçou por trás. Ricardo arrefeceu os músculos, inclinou a cabeça para o lado e deu um beijo em sua esposa. Ficaram unidos assim por alguns segundos, tempo necessário para recobrarem-se as forças um do outro, para uma estrela longínqua se apagar no céu definitivamente.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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		<title>Herança &#8211; Capítulo 5: O Beliscão da Realidade</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/11/heranca-capitulo-4-o-beliscao-da-realidade/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 066]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sentou-se no sofá amparado pelo filho. </p>



<p>Noêmia estava de pijama, ar de cansada, cabelos revoltos. Encarou-o de frente, de pé, suspendendo o seu queixo e fazendo-o encará-la também.</p>



<p>&#8211; O que houve, Ricardo? Você não pode voltar a fazer isso comigo! Pelo amor de Deus, homem. Pense nas crianças! Você ficou doido?</p>



<p>Ele não conseguia encará-la, desviando o olhar, indo parar sobre a Santa Ceia colada na parede da sala. Augusto também o encarava com olhos piedosos e, ao mesmo tempo, risonhos, lembrando-se de tantas vezes que chegara a casa tarde da noite e sofria com as ameaças do pai – era bom sentir o efeito inverso, a figura paterna jogada no canto do sofá da sala.</p>



<p>Noêmia não acreditava no que acontecia. Tentava fazer Ricardo falar a qualquer custo; mas, naquele momento, ele encarava Jesus na parede, rodeado de seus apóstolos e dizendo para todos: “Alguém aqui comprometerá a sua família!”, e lembrava-se do Sr. Miranda. Ele era um apóstolo despejado, despedido, despreparado. Um Judas contemporâneo, cuja vida permanecia suspensa naquele momento, como as lágrimas nos cílios inferiores de seu olho.</p>



<p>Naquele exato momento, Noêmia percebeu a gravidade da situação para além de uma mera embriaguez. Lembrou-se das falas premonitórias de seu marido àquela manhã, dizendo que aquele não era um bom-dia. Sacudiu-o, para ver o que o homem lhe falava, porém as únicas cartas que embaralharam sua vida foram as lágrimas que se desprenderam dos cílios, indo parar no dorso de suas mãos.</p>



<p>Ricardo ajoelhou-se e despencou a chorar no colo de sua esposa, molhando o seu ventre e pedindo perdão a ela, que, sem saber o que fazer, atônita, pousou as mãos na cabeça do marido e se lembrou das agulhadas do passado como costureira.</p>



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<div class="wp-block-media-text is-stacked-on-mobile alignwide" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>


<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>


<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>

</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>Herança &#8211; Capítulo 4: Negro</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/09/27/heranca-capitulo-4-negro/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 064]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=12139</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Augusto era o tipo de garoto que toda mulher gostaria de ter. Tipo atlético, pele negra brilhante, expressões bem alinhadas, como numa escultura de Michelangelo. Por onde passava, as mulheres suspiravam, apesar da ainda pouca idade.</p>



<p>Havia sido reprovado duas vezes na escola. Isso lhe amargava a triste convivência com seu irmão do meio na mesma sala &#8211; não porque não gostasse do garoto, mas porque sua presença o lembrava sempre de seu fracasso escolar, esse menino, que era uma criança ainda, tamanha era já a vivência do filho mais velho de Noêmia. E o irritava ainda mais o fato de aquele garoto ser meio <em>bilolado</em> das ideias; parecia não ter a idade que tinha, sempre carinhoso com a mãe, sempre querendo mais do pai. Não era possível, um irmão desmiolado.</p>



<p>Augusto era o tipo de garoto que inspirava atenções. Na escola, nem tanto, pois sabia se comportar bem no local de trabalho do pai. Além do mais, era um rapaz deslocado por lá. Achava todos os seus colegas metidos à besta, filhinhos de papai. No entanto, em seu bairro, era ele o mandachuva. Já novo, aprendera a lidar com sua sexualidade e o prazer que seu corpo lhe proporcionava. Aos 12 anos, com um amigo mais velho, num lote vago, descobriu que sua mão poderia realizar feitos enormes diante de seu sexo. A própria saliva de seu corpo fazia sua mão deslizar por seu pênis, proporcionando-lhe prazeres enormes. A partir daquele instante, não parou mais de se saciar diante de uma réstia de tesão que tivesse. Não havia um buraco que ele não preenchesse. Seja ele qual fosse.</p>



<p>Garoto extremamente rebelde, só quem o segurava era sua mãe. E, mesmo assim, por pouco tempo. Adorava jogar bola, era o rei das peladas. Na mesma intensidade, era o senhor das brigas de rua; e não levava nunca desaforo pra casa. Em certa ocasião, bateu tanto num rapaz mais velho que, dias depois, ele teve que fazer novo retrato do rosto. Ricardo, na ocasião, desdobrara-se para evitar um tumulto maior entre as famílias, pagando, em horas extras no trabalho, todo o tratamento do rapaz.</p>



<p>Faltando um ano pra atingir a maioridade, Augusto não via a hora de acontecer, apesar de já ter uma carteira falsificada, identificando-o como um garoto de 19 anos. Não havia lugar na cidade em que ele não entrava.</p>



<p>Não possuía grupos, não tinha amigos íntimos; era múltiplo, diversificado, convivia bem com todos, apesar do temperamento explosivo. Uma coisa ele não deixava barato: se mexesse com seus irmãos, quem quer que seja, iria pagar caro pelo que fizesse. Era super protetor deles, sentia-se na obrigação de ser, por ser o primogênito.</p>



<p>Apesar dessa relação com os irmãos, não tinha muita paciência com seus pais. Achava os dois uns coroas babacas &#8211; principalmente seu pai, que não tinha o tato de Noêmia, sua mãe; falava as coisas para o filho mais velho de maneira direta, objetiva. E, naquela noite, em que vira seu pai voltar a beber depois de tantos anos, percebera o quanto realmente estava distante do seu velho. Ao mesmo tempo, sentia o quanto ele era fraco, não se importando de saber sequer o porquê de Ricardo estar assim.</p>



<p>Aquilo era apenas o começo, mal sabendo o quanto puxara de seu pai tantos defeitos, deixando as qualidades estacionadas em algum canto da consciência.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/09/27/heranca-capitulo-4-negro/">Herança &#8211; Capítulo 4: Negro</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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		<title>Herança &#8211; Capítulo 3: No bar do Vicente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 13 Sep 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 062]]></category>
		<category><![CDATA[Herança]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Romance]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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<p>O rádio tocava no fundo do bar uma música rançosa enquanto Ricardo tomava, da já acabada garrafa, a última dose, debruçado sob o balcão. Vicente já o havia perguntado por que voltava a beber depois de tantos anos sem precisar daquilo. Ele o mandou calar a boca e servir. Habituado já a esse tipo de tratamento em seu bar, torceu o nariz e fez o que sua profissão mandava.</p>



<p>Já tarde da noite – Noêmia preocupada em casa –, estava ali, servindo-se com moscas que zumbiam e estalavam no vidro da estufa quebrada. Já não raciocinava direito. Sua vida estava em espiral, soltando palavras desconexas na cara dele, que balançava a cabeça feito lagartixa.</p>



<p>&#8211; Não entendo isso. Tive uma promoção, Vicente. Noêmia parou de trabalhar, só está pegando grã-fina agora. E agora, Vicente? Como vai ser, Vicente?</p>



<p>Seus olhos marejavam, começou a soluçar de angústia. Vicente sabia que acontecera algo com seu amigo, que há tantos anos dividia com ele aquele bairro calmo, tranquilo. Só não sabia o que era. E não importava naquele momento procurar saber. Ele se compadeceu pelo Ricardo, limpando as mãos sujas de gordura no pano de prato sempre recolhido no ombro.</p>



<p>&#8211; Ricardo, ô Ricardo! A mãe tá preocupada. Vamos pra casa.</p>



<p>Era Augusto, seu filho mais velho, aparecendo na entrada do bar.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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