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	<title>Arquivos Vinícius Lara - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>UMA RELIGIÃO SEM DEUS</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Dec 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 121]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p class="has-text-align-center"><em>Terceira carta para Isabela</em></p>



<p>Minha filha, quero escrever para você a respeito do Natal. Jesus não nasceu em dezembro; tudo indica que tenha nascido entre março e maio, na verdade. Sei que essa, às vezes, é uma informação que pode parecer um tanto sem sentido, mas preciso dizer pra você desde já que esse Jesus do Natal não existe. O homem inventa seu deus, para que este invente um homem que dá conta de viver com menos sofrimento e tendo sempre um colinho de pai ou de mãe para se aninhar quando as coisas ficam duras demais.</p>



<p>Isso não quer dizer que um outro Jesus não tenha vivido no mundo. O que o pai está tentando falar é que aquele para quem você olha e sorri, no quadro pendurado no quarto de sua avó, loiro, de olhos azuis, ele não é real. Houve, sim, um galileu que encarnou os valores mais importantes de que tenho notícia, meu amor; que respeitou pessoas, ofereceu escuta, cuidado, afeto, ira. Um homem que ensinou sobre a revolta de viver numa realidade tão castigada pela dor e pela morte. Um homem que quebrou templos e acolheu prostitutas. Esse Jesus não era loiro; provavelmente era negro. Um homem entre tantos homens, como eu, seu avô, seu bisavô, com a única diferença de que foi transbordante de coragem. O que fizeram dele é outra história, porque, da cura, transformamos Jesus em veneno, pintando sua face de gente com o pó dos templos e das formalidades. Seu pai, Isabela, acredita num Cristo que dança, bebe, fala alto e tropeça na rua.</p>



<p>Te digo essas coisas para que você saiba que a vida precisa de pessoas assim como ele. Seus olhos são azuis, e desde cedo, mesmo que você não se lembre, essa cor no olhar te dá um privilégio tremendo no nosso país. Por isso, desejo que você seja forte e destemida para fazer da sua vida uma constante carta de indignação contra os excessos que separam pessoas pelo tom da pele, pelo tipo de cabelo, pela cor dos olhos, pela forma de amar e ser amado. Existe uma comunhão muito grande e bonita no mundo quando o <em>outro</em>, esse grande desconhecido, pode sentar-se na mesa conosco sem precisar ser adversário. Desejo que possamos nos lembrar sempre disso, porque do contrário, qualquer Jesus será só um enfeite inútil.</p>



<p>Também vou te falar um pouco a respeito da minha vida. Veja só um paradoxo, desses que deixam a existência irremediavelmente humana. O ano de 2021 seria um daqueles que, caso pudesse, eu apagaria do calendário. Tantas mortes, um tirano no poder, amigos que sempre considerei parte da minha alma demonstrando como são feitos de interesse, de covardia e de julgamentos, enfim, um ano que poderia ser perdido, não fosse a sua presença nele. Ter seu corpinho nos meus braços, e seu calor, são coisas que não consigo descrever sem me emocionar. Seu pai escreve esta carta no dia 19/12/2021, um domingo. Ontem você comeu ovo e passou mal; vomitou, ficou prostrada, abatidinha&#8230; daí fui ver você. Foi só chegar na sua casa &#8211; sua casa n°01, porque você precisa saber que a minha também é sua &#8211; e logo pulou para o meu colo, se aninhou, me vomitou inteiro e dormiu por quase duas horas. Naquele tempo, tudo podia acontecer; eu era seu abrigo e seria capaz de te proteger de qualquer coisa. Fica sempre na minha mente uma fotografia de como se sente segura em mim e, aí está o mistério.</p>



<p>Que me respeitem os religiosos e os tradicionalistas, inclusive, que me compreenda Jesus, mas meu Natal não cai em dezembro; ele acontece de agora em diante todo dia 14 de abril. Você é minha religião, filha, do Gênesis ao Apocalipse. Talvez seja difícil para alguém que não tem filhos entender esse sentido de coisas, porque não é sentimento. Um rasgo no tecido do tempo, e de dentro dele, saltando como se fosse uma represa de vida que rompe a casca do ventre da mãe, nasceu um pequeno tesouro. Nessa parte estou incluído também, porque me sinto o próprio Sísifo, rolando uma pedra gigante e rindo de orelha a orelha, já que quando ela desce a montanha faz o barulho do seu sorriso, e eu posso sentir suas mãozinhas fazendo carinho na minha nuca.</p>



<p>Já fui muito mais crente, Bebela, o que não desautoriza minha forma desconjuntada de olhar para cima. Talvez seu pai seja atualmente o ateu mais crente do mundo, ou o crente mais cético que você vai encontrar &#8211; o que só te apresenta mais uma das tantas contradições a meu respeito com as quais terá que lidar; mas não se preocupa, o amor de verdade torna todos os loucos mansos. Desse lugar em que brigo com deus por permitir no mundo tanta desgraça, ao mesmo tempo em que tento disputar com ele a função de olhar só para a frente, espernear e dizer “<em>deus, você é péssimo!</em>”, também me faz bem imaginar que ele gosta de mim, e de festa, e de cerveja, e de Gabriel Garcia Marquez. Seu pai, vê só, acha que deus é um grande histérico, e que coisa fantástica! O mundo se colore com ele, o que torna mais fácil para que as pessoas sejam só elas mesmas. Fuja de uma ideia de sagrado que te diga que você está salva, meu amor; ou nos salvamos todos, ou esse salvador é só mais um iludido.</p>



<p>Ainda assim, penso em José da Galileia, o pai daquele Jesus de quem eu te contava logo no começo da carta. Você vai ouvir muito falar sobre a mãe dele, Maria de Nazaré, mas bem pouco sobre o pai. Isso é natural: a mãe é algo místico em si mesmo, seu único momento de totalidade foi ali, dentro daquela barriga, e por isso sua mãe é também um pouquinho mãe de Jesus e vice-versa. O pai não, é um estrangeiro que se atravessa, que chega nesse um e faz dois, para depois fazer três. O pai é uma cunha inserida na madeira da alma. Todo pai é adotivo, meu amor, mesmo que seja consanguíneo, porque ele é o de fora capaz de te trazer para dentro, ele gera e pare no mundo.</p>



<p>Lembro de José da Galileia, já que ele foi esquecido. Santo padroeiro dos trabalhadores, está ali escondidinho nas anáguas da história, porque um pai humano talvez pudesse constranger um Pai divino. Vejo você no meu colo e penso quantas vezes não foi ele quem fez Jesus dormir, para que Maria descansasse. Imagino a angústia de fugir para o Egito e depois o medo de ver o filho tão intenso em seu movimento de indignação, viajando e tentando convencer as pessoas de que é possível fazer diferente. José passou pelo mundo sem entrar para história, é um silêncio presente. Gosto de me ver como ele.</p>



<p>É natal de mentirinha e você não estará nos meus braços, porque viajará com sua mãe. Há uma família imensa e festeira para conhecer da parte de lá da sua genética, são pessoas incríveis quase todos. Mas você volta e vai me contar entre sílabas soletradas ao acaso cada detalhe do que aconteceu. Vou escutar, e entender, porque temos a nossa língua secreta. Nosso mundo precisa resgatar a esperança, ele precisa de um Jesus que seja capaz de incomodar, revirar, tirar a calma das pessoas; mas ele precisa de Bebelas também. A cada bebê, uma nova humanidade resiste. Você é minha religião sem deus, por isso te peço sua benção, meu amor. Feliz 25 de dezembro!</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="853" height="853" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=853%2C853&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13649 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?w=853&amp;ssl=1 853w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="(max-width: 853px) 100vw, 853px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>RESPOSTA A VINÍCIUS</title>
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		<pubDate>Sun, 12 Dec 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p class="has-text-align-right"><em>Moraes, Vinícius de. <strong>Mensagem à poesia</strong>. In: Vinícius de Moraes: poesia, prosa, teatro.</em><br><em>Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017, p. 252-254.</em></p>



<p>A vida produz em seu fluxo algumas croniquetas que parecem produzidas por algum deus estranho e perdido por aí. Posso me explicar melhor, embora acredite que não exista a menor necessidade disso. Talvez certos acasos existam para florescer e dar fruto em texto. Gosto de pensar assim.</p>



<p>Acontece que a história aconteceu num sebo na cidade de São Luís, mais especificamente na Casa do Livro Usado, que fica na rua do Egito, perto da brigaderia. É válido dizer que meu primeiro interesse era o doce, e o segundo era conseguir caminhar tranquilo até a Beira Mar. No caminho, eu só pensava em como o Brasil são muitos. Estava no Maranhão há três dias e meus olhos tinham visto de tudo. Eu fumava também, debaixo do sol. Tudo isso dito para destacar a raridade da chance de topar com a Casa do Livro Usado, às 16h47 de uma terça-feira, com o sol rachando e ainda assim perceber que eles estavam vendendo coisas boas na banca de 15 reais.</p>



<p>Alguns exemplares do tipo Johanna Lindsey e seu soft porn, Robson Crusoé, um exemplar com as cartas de Jung, A Metamorfose, de Kafka, todo amarelado e manchado, um ou outro título obscuro daqueles que são vendidos em supermercados e basicamente era isso, ou pelo menos eu achei que fosse. Quando não esperava mais nada, ali por debaixo de um exemplar carcomido de O Livro dos Espíritos, vi a pontinha do nome “oética”. Chafurdei entre mofos e cheiro de velha até resgatar o livrinho branco com uma harpa que se transformava em flores desenhada na capa. Antologia Poética de Vinícius de Moraes, edição original de 1954! Um achado, sem dúvidas.</p>



<p>Não era obra grossa, pelo contrário. Passei pelo índice, muita coisa conhecida. Folheando para de fato conferir se valeria meus quinze reais, dei com um papel dobrado exatamente onde começava o poema Mensagem à Poesia. Óbvio que a curiosidade me fez desdobrar o sulfite. Ali, escrito a mão e ocupando os dois lados da folha eu pude ler algumas coisinhas. No canto direito, quase na quina da folha, três rosinhas feitas com pressa, abaixo delas, pelo que pude perceber, o mesmo nome riscado três vezes, preso debaixo de rabiscos de insegurança e urgência. Suspeito que fosse nome de mulher, porque a letra do texto era de homem. Também posso supor, pelo L mal coberto no início e as costas de um a no final, que se dirigia a uma Lúcia, Luisa, Lara, Leia, Laura, Lígia não sei. De certo não era para nenhuma Letícia ou Luciana, se tratava de nome curto. Ocupando o restante do espaço, o texto que segue abaixo com o título: Resposta a Vinícius.</p>



<p><em>“É com o peito aberto e descolado que te respondo, Vinícius, mesmo depois de tantos anos, ao bilhete, me dizendo que já não viria até mim pois que a realidade estava em desordem. Não existe dúvida sobre a intensidade do amor que nos uniu de assalto desde aquele enamoramento religioso tão besta entre a criança e seu pai. Da mesma forma também não me ocupa mais o pensamento a escolha de palavras corretas, seja em sonetos ou versos livres, com que por tantas vezes me enfeitei para visitar você durante as noites em que a solidão era maior do que o mundo. Importa dizer que amor não basta sem presença e é da tua presença que meu ventre é oco desde Adão.</em></p>



<p><em>Não te respondo em rimas, porque a poética deve falar de si sempre em prosa, sob a pena de perder a objetividade das coisas que deseja dizer. Te escrevo do tênue espaço entre o abandono e a saudade, dali onde existe um sopro de esperança que aponta para os ponteiros do relógio e sonha com a morte envolta em muitas anáguas, se aproximando suavemente, como uma amante mais esperada que a própria vida. Respondo porque sinto saudade, porque amo, porque desejo, e ao mesmo tempo, para registrar &#8211; como você fez &#8211; a certeza de sua mensagem, que premia a honestidade do homem com o vazio e a noite.</em></p>



<p><em>Talvez seja mal dos poetas, Vinícius, mas quando me escreve, diz que não vem pela necessidade de permanecer alerta, aberto para os caminhos já trilhados, e que perigam se desfazer. Me diz que não vem, não porque não queira, mas por heróis, lavradores, náufragos no oceano, tiranos no poder, homens arrependidos… São muitas coisas, eu sei…</em></p>



<p><em>Imagino quantas noites sem dormir, a arder com o devir de uma presença que te acariciou por dentro, mas que de longe, enlaçada em outros nós, outros braços e mãos, te observa com medo. E existe muito medo da minha parte. Imagine você quantos e quantos poetas não escreveram a mim desejando firmar um compromisso de segurança por toda a vida, alguns mesmo por toda a eternidade. Me deram templos, e ouro, e livros, e todos se foram um dia me deixando amortalhada sobre o divã. Satisfeita? Exausta. Tanto foi assim que aprendi a ser só, a me apaixonar uma vez a cada século e a não me deixar tocar senão pelo meu marido anônimo. Olho o mundo sem me espantar com as guerras, as mortes, as paixões de colégio, ou as bacanais de todas as semanas, aprendi a passar por isso mirando os olhos da minha calopsita e o infinito das miudezas diárias. Isso eu te conto, para que saiba o que me fez sentir, poeta, antes de partir.</em></p>



<p><em>Lembro da única vez em que me neguei a atendê-lo, exatamente porque alguma coisa me dizia que você seria como César conquistando as Gálias e voltando confortável ao senado, sem se dar conta de que a terra que havia pisado e o sangue derramado sobre ela, eram agora também seu sangue e a sua vida. Não desejo ter o mesmo destino das outras meretrizes que vi nascer e enterrei. Sumi de ti por um dia apenas, mas o suficiente para que você se aventurasse na prosa e no teatro, o que sempre fez pior do que na poesia. Voltei como a arrependida que não sabe do tamanho que tem, para te ouvir dizer, entre as apalpadelas indiscretas, que amanhã partiria sem volta. Voltei porque amei você, Vinícius. Permaneci.</em></p>



<p><em>Numa tarde de terça-feira, você partiu alegando sua missão em ser pai do mundo que construiu. Não havia palavras a serem ditas porque não se pode julgar os heróis, eles existem para demonstrar que vale a pena permanecer de pé. Tenho aqui seu bilhete nas mãos. “Mas não a traí. Em meu coração vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa envergonhá-la. A minha ausência é também um sortilégio do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la.” De fato, o que habita na presença que sua falta deixa em mim é o desejo pelo sortilégio, mas não diga que não traiu. Demos fogo aos homens, trapaceamos todos os deuses. A diferença, no entanto, é vetorial. Você conquistando os picos da virtude celeste, eu descendo à calçada da via comum. Nos encontramos sempre a distância, nos tocamos no sono, nos despedimos na lei.</em></p>



<p><em>Agora estamos os dois, cada um de seu lado do espelho, admirando tantos reflexos bons e capazes de aquecer o ventre, crispar a carne e ascender a alma. Você, com sua rima, sua falta de palavra, sua piada, sua bebida, sua paternidade. Eu, com minha prosa, com minhas palavras, a acidez, o remédio, a maternidade.</em></p>



<p><em>Não te digo adeus, meu poetinha preferido, porque das ardências que já me deram, foi você quem melhor me ocupou o espaço entre as coxas, que vai dos joelhos até a testa. Te digo que mesmo partindo eu permaneço aqui. Eu espero. Não porque você seja único, mas exatamente porque é tantos ao mesmo tempo. É possível que nunca volte, eu sei. É provável que perca um de seus três corações, mas não se esqueça de que aqui há uma cama arrumada, a mesa posta, e aquele silêncio tão íntimo que aprendi a escutar flertando contigo.</em>”</p>



<p>Não é uma resposta, não tem desfecho, não tem solução. Obviamente comprei o livro.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>TRATO FEITO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Nov 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 119]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>“<em>Suponho que você vá escrever sobre mim</em>”. Esse não é o jeito mais tradicional de se puxar assunto numa mesa de café, e com certeza não é o mais efetivo para garantir que alguém escreva realmente sobre você. Na realidade, eu poderia estar escrevendo qualquer coisa ali. Seis da tarde de uma quinta-feira, na mesa mais afastada, computador aberto e virado quase todo para mim. Eu detesto ser incomodado, quanto mais por alguém que eu não conheço, mas confesso que aquela mulher tinha o excesso de confiança em si mesma que fazia com que habitasse no exato limite entre a certeza e a completa falta de senso. Levantei os olhos sem muita expectativa.</p>



<p>“<em>Você escreve histórias, eu sei. Tem cara de cdf</em>”.</p>



<p>“<em>E por acaso eu não posso estar fazendo a retificação do meu imposto de renda?</em>” &#8211; O que de fato é uma questão relevante, talvez eu fosse mais feliz atendendo ao leão.</p>



<p>“<em>Não. Você não faria isso em público. Olhei e tive a impressão de te conhecer. Acho que vi você em algum vídeo na internet, falando sobre o que não me lembro mais. Eu gostei. E aí entro aqui um pouco mal e te encontro. Curioso isso tudo, não acha</em>?”</p>



<p>Adiantava pouco qualquer discordância porque, enquanto falava isso, já tinha puxado a cadeira e sentado à mesa comigo. Fosse uma mesa para quatro lugares e estaria relativamente bem, mas era daquelas pequenas, feitas para se assentar só, com duas cadeiras mais por educação com o restante do mobiliário do que por utilidade. Mesmo conhecidos de muito tempo não se sentam em mesas de dois lugares a não ser por excesso de necessidade. Melhor permanecer sozinho, ou usar aquele lugar com a esposa, a mãe, a filha. Estava eu ali, curioso, irritado, levemente acuado, mas sem dizer a ela que se levantasse.</p>



<p>“<em>Acontece que eu não te conheço, moça. Não me importo que esteja aqui, na verdade eu fico feliz até, por ter me reconhecido, mas daí escrever sobre você eu não sei. Precisaria de um mote</em>”.</p>



<p>“<em>Eu te dou. Qual mote você quer? Sou casada, tenho uma filha linda, trabalho, pesquiso os preços da gasolina e de vez em quando escrevo algumas coisas também. Isso é o suficiente? Pode ser que não seja, afinal, você não vive essa vida perto de mim, você não me conhece. Para escrever sobre meu casamento teria que conhecer meu marido, e minha filha, e dar uma volta de carro na cidade ao meu lado. Nenhuma dessas coisas você vai conseguir fazer na noite de hoje. Melhor mudar o plot</em>.”</p>



<p>E ela continuava ali. Pediu um capuccino brasileiro com um pedaço de bolo de banana fit. Não prestei atenção, mas ela disse que tinha alergia a lactose ou glúten ou farinha, qualquer coisa dessas. Estava na minha frente como uma esfinge estranha falando com total naturalidade sobre coisas que eu não sabia por quê, me prendiam a ela. Quando chegou eu pensava em como estender uma crônica sobre Pedro III, da Rússia. Depois de começar a ouví-la, tive a impressão de que ninguém quer saber sobre esse ou qualquer outro tzar. Na cadeira, me olhava com brilho nos olhos uma mulher comum que esbarrou comigo, só. Uma estranha coincidência dessas que só acontecem nas novelas ou nas maldições.</p>



<p>“<em>Se sua vida não é o enredo, sobre o quê eu escreveria? Primeiro, qual o seu nome?</em>”</p>



<p>“<em>Luisa, igual aquela da música do Chico Buarque</em>.” &#8211; Uma especificidade bastante pertinente, afinal. “<em>Escreve então sobre uma ilha, sobre uma ilha desconhecida. Um casal naufragou ali e agora precisam decidir o que fazer. Ela deseja entrar na mata, conhecer os nativos, construir uma casa na árvore. Você já assistiu A Lagoa Azul? Sei que é cafona, mas é por aí. Ele, por sua vez, deseja construir um barco para sair da ilha. Exatamente! Escreve sobre isso, mas escreve de uma forma inteligente. Pode colocar algumas pitadas de religião também, como se para sair ou ficar na ilha eles precisassem descobrir sobre um deus novo, diferente. Você está entendendo?</em>”</p>



<p>“<em>Estou sim, pode continuar</em>” &#8211; Na verdade eu entendia nada, mas estava me divertindo. Melhor ainda. Estava descansando, e tão à vontade como não me sentia desde muitos anos atrás.</p>



<p>“<em>Eu não sei como funciona essa história de escrever textos, mas eu penso que sempre fica mais interessante se tiverem algumas coisas, três coisas. Romance, mistério e aventura. A parte do mistério eu já te contei, você pode usar a coisa de deus. O romance é entre os protagonistas, mas não só entre eles. Quem sabe como fica se um dos dois tiver pensamentos estranhos</em>?”</p>



<p>“<em>Pensamentos estranhos</em>?”</p>



<p>“<em>Isso, se lembrarem de outras pessoas na ilha, você sabe como é. Ou então, se por não se decidirem em ficar ou partir, se estranharem, não porque não se amam, mas porque se amam de um amor já esvaziado de improvisos</em>.”</p>



<p>“<em>E como terminam eles? Juntos, afogados, fora da ilha?</em>”</p>



<p>“<em>E lá sei eu? Mas não tem como saber, a história ainda não aconteceu. Na medida em que for escrita, a gente descobre</em>” &#8211; E, dizendo isso, ela entrava com os dois pés no terreno do meu modo de escrever, histórias que começo sem saber onde terminam. Enquanto meus dedos tocam as teclas do computador, as personagens ganham vida e morte mais por desejo delas que pelo meu. Criatura envolvente, essa Luísa.</p>



<p>“<em>Uma vez vi em um filme, não sei se foi do Indiana Jones, uma coisa com uma escada onde o herói devia subir, mas só era possível se alguém segurasse. Lá em cima estava uma pedra preciosa, um ovo, não sei. Mas se você conseguir colocar essa parte, pode funcionar como a aventura. O que você acha? Não parece m</em>uito ruim. No fim, penso que o título poderia ser O conto da ilha desconhecida, ficaria bom?”</p>



<p>“<em>Esse texto já existe, Luísa, foi escrito pelo Saramago</em>.”</p>



<p>“<em>Bosta. O meu ficaria bem melhor, eu acho. Enfim, quem escreve é você. Não vai ser difícil criar outro nome.</em>”</p>



<p>Depois dessas síntese, ela ainda ficou me olhando e falando sobre mil e uma coisas diferentes, cada uma delas de um jeito que misturava alquimicamente uma certa selvageria com pitadas de sensibilidade. Fosse eu apostar, diria que trabalhava com algum tipo de bichogrilice da contemporaneidade, porque vez ou outra dizia coisas como “te aceito”, “joga para o universo”, “te acolho”. Expressões, todas elas, suficientemente fortes para me fazer encerrar uma conversa e acender um cigarro. Ali não, eu ria. Na verdade, me peguei rindo de canto de boca em muitos momentos. Por algum mistério, eu comecei a sentir que conhecia aquela mulher desconhecida.</p>



<p>Não marquei no relógio, mas conversamos intensamente por três horas, que poderiam muito bem ser três semanas, não faria a menor diferença. Eu adorei tudo aquilo, tanto que ainda voltaria ao mesmo café e escolheria deliberadamente aquele mesinha desconfortável mais um sem número de vezes para esperar que ela voltasse ali e se sentasse novamente e dividisse comigo o peso de beber café só.</p>



<p>Pedimos as contas e ela voltou a dizer.</p>



<p>“<em>Depois dessa conversa toda, você vai escrever sobre mim</em>?</p>



<p>Eu estava dramática e toscamente fisgado por aquela completa desconhecida que me aqueceu o coração, mas não dei o braço a torcer.</p>



<p>“<em>E por que eu deveria?</em>”</p>



<p>“<em>Porque eu fui com a sua cara logo, e seus braços parecem abertos demais. Quando é assim, ou eles viram colo, ou ponte ou palavra</em>.”</p>



<p>“<em>Pois então eu vou escrever sobre você</em>.”</p>



<p>“<em>Por qual motivo</em>?”</p>



<p>“<em>Pelos três</em>”.</p>



<p>Nos despedimos naquela noite, trocamos telefones. Chegando em casa, eu contei a história para o meu cachorro, que riu de mim como ele ri do passarinho tomando banho na tigela de água. E foi assim que tudo aconteceu.</p>



<p>Não sei se está por aí, Luísa, mas este aqui é o seu texto.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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		<title>UM DIA, ELE VOLTA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 15 Nov 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 117]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde bem pequeno ele precisava lidar com uma maldição estranha. As pessoas diziam sempre, “<em>Vai Sebastião, você consegue”</em>, ou então, “<em>Meu filho, como você é abençoado! Nada nessa vida há de faltar”.</em> E ele ia, conseguia até, mas o fim era sempre muito parecido. Com a faca e o queijo na mão, faltava fome ao Sebastião. Não pensem que isso fazia com fosse triste, não. De modo semelhante, ele também não era feliz. Sebastião era normal, absolutamente mediano e concretamente vulgar. Mesmo tendo feito anos de terapia, nunca foi capaz de se curar de si, da mesma forma que não o curaram. Sempre me pareceu mais uma coisa de astrologia que de genética. Vocês vão concordar comigo.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para começar, nasceu em agosto, no dia dezessete. Meio do ano? Não, mas também não é início nem final. Que é que se deu em dias dezessete e que valha a pena? O Combate da Roliça? A primeira reunião dos narcóticos anônimos? O nascimento de Elba Ramalho, de Zezé de Camargo, de Diogo Antônio Feijó? Pessoas de alguma forma até importantes, mas não importantes demais. Veja só, ninguém questiona o padre Feijó ou a Roliça, mas o mundo poderia ter passado sem eles, o Brasil poderia. Sebastião estava no limite.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se era bonito eu também não sei, e digo isso menos por pudores masculinos do que por desajeito de visão. Ele tinha o rosto assim meio gordo, mas com ossos aparecendo nas bochechas. A pele era clara, mas aqui e ali apareciam olheiras e outras marcas de tempo e de sol. Quando sorria, podíamos ver que tinha todos os dentes na boca, só que eram amarelados. Ria um riso nem muito alto, nem muito baixo, e o que mais chamava a atenção era como um lado do rosto &#8211; o direito &#8211; ria mais do que o outro. Sebastião tinha um riso torto, uma boca torta, mas acredita que eram harmoniosamente tortos?</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gordo ele não era também. Olhando de fora eu daria uns setenta quilos, mas o Sérvulo, do açougue, tinha certeza de que seriam uns oitenta e sete. Pois é, como todos no bairro conheciam o Sebastião, mas não o suficiente, era comum quando ele passava, que nós ficássemos apostando e tentando adivinhar alguma coisa sobre sua vida, o período que serviu o exército, seu casamento &#8211; se é que foi casado. As principais discussões eram sobre banalidades como o peso, o tamanho da pica, o número de calçado &#8211; todos sabem o quanto estes dois itens se relacionam -, se ele namorou ou não aquela morena que mora na rua da esquina com o colégio. O mais interessante, pensando aqui, é que mesmo nesses momentos jamais alguém dizia coisas exageradas sobre ele. Nunca uma suspeita de morte, de crime, de fuga espetacular. Ele estava ali, morava por ali, passava por ali.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A impressão que me dava era de que Sebastião era todo contado. Cada pedaço seu era o suficiente para que não faltasse, e também para que jamais sobrasse. No tempo em que os deuses eram muitos e outros, em que eram mulheres também, tenho a sensação de que ele seria um sacerdote de Nêmesis. Amor demais? Melhor cortar. Dor demais? É justo que se acalme. A medida é a salvação do gozo, e só sofre quem quer demais, por isso, como uma espécie de procurador da justiça distributiva, qualquer desmesura estaria fora. Comer demais constrange os famintos, namorar demais incomoda os feios, dormir demais ralha com os operários. É muito mais seguro estar ali no meio, balançando os quadris de um lado para o outro como quem segura um bebê que precisa cochilar no colo &#8211; se for em duas dimensões &#8211; ou como quem mete com ritmo &#8211; se for em três. Importante é deixar uma pontinha de cada lado a cada vez. Esse é o homem.</p>



<p>Aconteceu, no entanto, que um dia ele deixou de passar na rua, como era o costume. Pouco foi preciso para que o desregulamento do Sebastião bagunçasse todo o Sagrado. Em cada rua alguém esperava que iriam encontrá-lo saindo da banca, da quitanda, da farmácia… Provavelmente teria um resfriado, nada demais, ou naquele dia resolveu cuidar das plantas que ficavam no corredor lateral da casa. Ele deveria estar por ali sim, era uma questão de olhar com jeito. Um homem que fazia o mesmo caminho há mais de trinta anos, um herói da mesura e do recalque, Sebastião era um exemplo na comunidade. Em algum momento ele iria aparecer com um guarda-chuva nas mãos dizendo que não tinha saído ainda porque estava em dúvida se iria ou não chover. Todos ririam daquele homem de meia idade com um capote nas mãos enquanto o dia era claro e quente.</p>



<p>Mas ele não apareceu, nem no primeiro dia, nem no segundo, nem no terceiro. Como sabíamos de cor a rotina daquele sacerdote da temperança, a polícia foi avisada, colocaram um punhado de cartazes lambe-lambe nos muros e postes: “<em>Procuram-se Sebastião Ribeiro. Sujeito comum e de boa praça</em>”. O texto foi escrito assim mesmo, com essa imprecisão do vernáculo, afinal, quem tomou as tintas imaginava que Sebastião nunca iria discordar de seus conterrâneos e por isso, procurar deveria concordar com o número dos que estavam atrás dele, e não do sumido. Um erro de concordância formal, mas questionável, afinal, todos concordavam que era fundamental encontrar o sujeito.</p>



<p>O primeiro lugar onde deveríamos ter olhado, é óbvio, seria a casa do Sebastião, mas por ser tão óbvio assim, foi o último. Olhamos nas igrejas católica e protestante, em um centro espírita que guardava as pessoas em uns quartinhos nos fundos, para que dessem santo &#8211; vai que Sebastião dava Oxóssi? Fomos também na beirada do rio do peixe, e nalgumas casas de facilidade ali da região, onde sabíamos que viviam mulheres nem tão bonitas nem tão feias, daquelas mesmas que sabíamos que ele gostava. Mas nada, em nenhum desses lugares havia sequer rastro do homem. Foi aí que decidimos arrombar a casinha dele.</p>



<p>Imaginem vocês uma casa bem pequena, nem dois quartos tinha. Janela de madeira, bem cuidada, ainda que descascada pelo tempo. Contornando as janelas da frente e a porta, uma moldura pintada em azul celeste. No corredor ao lado da residência, que dava para os fundos, algumas plantas bem cuidadas, mas sem flores. Dava para se ver no quintal dois varais, um com um lençol e outro com algumas cuecas. Tudo esticado, bem lavado, seguro. A multidão de fronte à casa do Sebastião estava agitada. E se ele estivesse morto ali dentro? Não estaria, porque o cheiro teria denunciado. Então ele foi sequestrado. Talvez tivesse sido, mas como saber? Será que um bandido experiente teria levado o homem sem família exatamente porque sabia que a cidade toda tinha o adotado? O resgate seria altíssimo, o que com certeza não se faria problema para nós.</p>



<p>Ali, diante da casinha hermeticamente fechada, a tensão no ambiente poderia ser segurada com as mãos. Sherlock Holmes não encontraria as pistas. Não existiam pistas. O Nicolau, filho do outro Sebastião, que foi o primeiro chaveiro da cidade, acompanhado pelo guarda e pelo vice-prefeito, primeiro abriu o portão de fora, com cuidado. A multidão se espremeu um pouco mais, enquanto ia sendo contida pelos gritos de alguém que falava “<em>Devagar, devagar, primeiro as autoridades</em>”. Ninguém ouvia, é verdade, mas se não falassem dariam falta. Enfim a porta estava aberta.</p>



<p>No interior da sala tudo bem arrumadinho. Sofá, rádio, uma samambaia presa no teto. Sobre o portal que dava acesso ao quarto uma bandeira do sagrado coração de jesus. Nenhum sinal de luta, de violência, de crime. O guarda foi quem viu que no quarto, ao lado da cama perfeitamente arrumada estava um pedaço de papel rasgado com vários rabiscos, como se o Sebastião estivesse brincando de riscar paredes. No verso, porém, quem estava lá dentro podia ler “<em>Cansei</em>”. É verdade que estava escrito “<em>Cansei dessa merda</em>”, mas a memória não saberia guardar um santo boca suja. Sebastião evaporou.</p>



<p>Chegou-se à conclusão de que não se matou, afinal, quando foram examinar seu guarda-roupa, a gaveta das cuecas estava vazia. As do varal eram poucas demais. Sebastião se desmaterializou com suas cuecas e meias.</p>



<p>Mesmo vivo a cidade fez luto. Bandeira semi hasteada por três dias, por ordem do prefeito. Sem família, o espólio da casa ficou para a municipalidade, que depois de alguns anos transformou o lugar em uma biblioteca infantil. Biblioteca Municipal Irmão Sebastião Vivente. Não era esse o sobrenome dele, é claro, mas era um desejo honesto. Aos poucos a lenda deu lugar às efemérides. A merda sumiu do bilhete, ficando só o cansaço. Uma dinâmica altamente seletiva, como deve ser. Desde então todos esperam que Sebastião volte, e isso já faz mais de quinze anos.</p>



<p>Um dia, conversando com um vendedor de bíblias que tinha vindo do Rio de Janeiro, ele me disse que em Portugal também esperavam a volta de um Dom Sebastião, e isso há mais de quinhentos anos. Se esperavam a volta de um Sebastião desconhecido por tanto tempo, que será do nosso? Foi quando me acomodei ao tempo desregulado&#8230;</p>



<p>Nosso sebastianismo é vivo até hoje. Um homem medíocre faz tanta falta. Olhar para quem anda sempre no meio, faz os dois lados parecerem menos piores.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>VERSAILLES</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Marina Alexiou</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">“Criaturas dos meus sonhos despertam e dançam
Construtoras do meu reino, mágico e inacabado”

Venha sonhar, 
E conhecer os parceiros dos seus sonhos.
Gentis e silentes, curiosos dos seus pensamentos.
Sussurrantes entes que observam o seu coração e ordenam,
As imprevisíveis vontades.
Imperiosos comandos...
Companheiros de Hypnos, desenhem um belo caminho a ser vivido.
No abrir dos olhos desses que te seguem
Sem se perturbar e sem se amendrontar.
És como um rio que corre placidamente 
Mirando-nos desde a sua morada. 
Eternamente próxima
Eternamente invertida...</pre>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="685" height="685" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=685%2C685&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18178 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?w=685&amp;ssl=1 685w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/255de-marina-alexiou.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 685px) 100vw, 685px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Marina Alexiou</strong> é mestre em Filosofia pela PUC/SP e estudiosa das Artes. Escritora de prosas poéticas desde 2009, participou do livro “Coimbra em Palavras,  lançado em Portugal em 2018. Gosta de colecionar belas imagens, pois elas a levam para o seu mundo simbólico inspirando a sua escrita.</p>
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		<title>ESTAMOS NO VESTÍBULO, CARO AMIGO</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Sep 2021 22:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 109]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p>Aconteceu exatamente desse jeito que vou contar. Quando ainda não havia mundo do jeito que o conhecemos, no momento em que Lúcifer sentiu inveja de deus e toda criação foi fendida, algo mais relevante do que a própria queda se passou. É fácil compreender que o criador não pudesse tolerar um assessor invejoso entre os seus, sob o risco de que assim colocasse a perder o respeito dos demais. Era preciso, mesmo necessário, que no teatro daquela ruptura, o Opositor fosse exemplarmente punido. Deus sempre soube que no seu universo existiam defeitos, mas era melhor não dizê-los, sobretudo porque ele sabia bem que era capaz de criar dizendo palavras. Ele sentiu medo de estar nu, sabia que a um deus nunca é dada beleza genuína, senão aos olhos de quem o cultua. Nu e se sentindo pouco atraente, ele traçou uma linha no chão e pediu para que todos da firma se reunissem e escolhessem um lado. Quem concordasse com Jeová, ficasse à direita, e quem escutasse o Outro, fosse à esquerda. Debates ocorreram, e todos eles muito calorosos. Não estava clara a punição para o galante causador da cisão. Deus, por ser deus, não poderia punir efetivamente, afinal, não seria racional que uma infinita bondade criasse de si a maldade sem fim. O mais baixo que poderia lançar seu adversário era na condição de ser humano, e sabendo que Ele esculpiu as pessoas à sua imagem e semelhança, o tribunal era de mentirinha. Um giro de 360 graus.</p>



<p>Seria isso, se o fato de tornar-se ofendido não fizesse dali surgir uma categoria não imaginada: a dos indecisos, dos indiferentes. Alguns daqueles anjos não se importavam com a briga do patrão e do gerente. A eles mudaria pouco. Sabiam das falhas, mas gostavam de estar ali, usufruindo do que podia ser gozado. Entretanto, se há uma linha, há dois lados, não três. Os indiferentes foram a genuína criação de Deus, porque estavam no meio. Nem tinham a energia do mal, nem a do bem. Eram anjos indiferentes, nem à imagem de deus, nem à do diabo, talvez à imagem dos homens, porém com um defeito. Os indiferentes formam bandos, sem jamais criarem laços. Por uma estética contabilística estavam ali, naquele lugar onde não se é nem de um, nem de outro, possivelmente dos dois, provavelmente de ninguém. Onde colocar esses?</p>



<p>Após a contagem dos votos a sentença: os questionadores seriam deportados para o mundo humano onde criariam um reino próprio, o inferno &#8211; a ironia está aí, deus pune seus anjos como a justiça brasileira pune seus juízes corruptos, ou seja, oferecendo aposentadoria, mantendo-se o salário. Os indecisos constrangiam o Pai. Não eram próximos o suficiente de deus para permanecer no céu, ou distantes o necessário para construir o reino do hades. Foi daí que surgiu a ideia vaga, de alocar os indecisos em um vestíbulo do submundo. Ali, sobre o portão dos infernos, antes que se desça aos círculos do pecado voluntário. Como indiferentes e sem laços, não sei dizer se gostaram da decisão, mas é fato que não tinham capacidade de discordar. Gostavam igual dos pelejadores. Dizem que eles habitam ainda hoje sobre os muros do reino inferior. Anjos, bons amigos, folgadores, retos, mas condescendentes. Nem quentes, nem frios o suficiente. Se quiser conferir está no texto de Dante, não com os mesmos detalhes, mas está lá.</p>



<p>O que quero com isso? Ora meu amigo, quero acusar todos eles. Se falo de política? Claro que não, te pareceu? Acredito que a política é feita pelos indivíduos à imagem de deus, cheios de linhas e de suscetibilidades. É a terra dos homens, semelhantes a anjos, que por sua vez são semelhantes a deus. Uma sucessão ininterrupta de tradição. Eu não falo da política te contando como surgiu tudo isso. Estou falando sobre a sina de ser esse sujeito do meio. Quanto mais o tempo escorre dos relógios, tenho certeza maior de que a nossa geração não é descendente de Adão, mas de Pedro.</p>



<p>A mulher não goza porque teme o amor. Ao mesmo tempo, o homem não deseja vínculos, porque receia a liberdade. Diante de um divórcio, os amigos todos sobem no muro, se vestem de vento, enviam mensagens motivadoras à distância. Nada que interrompa um passeio, uma novela, a ida ao circo. Tente o sujeito se matar, então, para ver se os amigos aparecem ou não. Quase sempre batem na porta, implicam com o cigarro, apontam os dedos, conferem os argumentos e depois sobem no muro outra vez. É assim com a amante, e com os filhos em certa idade. Cobram o tempo inteiro honestidade, quando gostariam de pedir, se não corassem de vergonha, mais tempo sem notícias, independência emocional, poliamor, e menos intensidade.</p>



<p>Deus opera no campo da propaganda, e por isso a imagem é importante. “<em>Que tudo corra bem</em>”, “<em>tenha paciência, já vai passar</em>”, “<em>você é forte</em>”, “<em>seja você mesmo</em>”. Pessoas compram esse produto como água, e ele é bom para quem tem gosto de água. Uma vez uma editora de vídeos com quem trabalhei numa campanha eleitoral me chamou de blasé. Logo eu, sardônico e autoproclamado nudista moral? Blasé é não se magoar, é a propaganda de margarina assistida na casa de um espancador de mulheres. deus é blasé.</p>



<p>O diabo é prático, é a formiga da fábula. Te diz: “<em>olha, faz o que quiser, tem refrigerante na geladeira e às quartas é quintes o ifood não cobra taxa de entrega.</em>” Claro que existe uma espécie de troca, a corvéia do desejo. Se não te irrita, te chamam de sem gosto; mas se deixa que as veias dos olhos saltem e a respiração ofegue, é óbvio que está perdendo o controle. Nunca se é suficiente, mesmo que por algum milagre ou sorte consiga transar por horas, ou seja capaz de encostar a língua no cotovelo. Vivemos no tempo do insuficiente, meu caro. Estamos no vestíbulo, vivemos ali.</p>



<p>Você entendeu errado, em nenhum momento eu disse que a vida é ruim. Receio que em algum momento a minha explicação foi deficiente. Penso exatamente o contrário. Deus criou Júlio Cesar, que por sua vez, aprendeu que a melhor forma de conquistar é dividindo. Deus dividiu seu reino em dois, criou três, e hoje sofre na inadimplência de seus fiéis. O Outro, por sua vez, não é necessário. Foram os homens que colocaram pedras debaixo das pontes, para evitar que mendigos durmam ali. Também foram eles os criadores dos campos de concentração, da inquisição, do apetite maior que a fome. Na melhor das hipóteses o diabo é irrelevante, na pior, já cometeu suicídio.</p>



<p>O império da realidade é o capital anônimo. Limpo. Irrastreável. A indiferença solene e caprichosa daquele tanto faz que oscila sendo cinza desde o pior crime até a bolada lotérica. Nem o céu nem o inferno estão aqui, a Terra é o muro. Mas ele é vasto, ele é colorido. Se dança sobre o muro, sem a necessidade de ter um lado, compreende? De tempos em tempos surgem acusados e condenados, no entanto, sem laços, nunca somos nós os culpados. Melhor ainda, não existem culpados. Corrijo mais uma vez, somos todos culpados. Vê aqui a ironia? Não faz a menor diferença! O ser humano é a secreção da falta de gosto angelical. </p>



<p>Não me lembro exatamente porque comecei essa história, na verdade… Acho que me lembrei de certa amiga adúltera que julgava meu divórcio enquanto sugeria frases motivacionais. Lembrei com afeto dela. O vestíbulo é isso. A indiferença, meu caro, é o novo Jeová destronando Júpiter.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>O SER BREVE E AS CRIANÇAS DE CABUL (MINHA SEGUNDA CARTA PARA ISABELA)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem pode ficar impassível às crianças de Cabul? Entre todos os espasmos recentes dessa humanidade que vai convalescendo e delirando dia após dia, talvez o sentimento se aproxime, para mim, apenas daquele que senti quando, em 2015, vi a imagem do menino sírio morto, afogado, em uma praia da Turquia. O sofrimento de uma criança é dolorido e angustiado, porque é a dor de um inocente social, quase sempre marcado pela cicatriz de existir pobre &#8211; o que é geralmente um crime pago com a morte, que pode ser de doença, de fome, de fuga ou de tiro. Existem pessoas que sequer se deram conta das crianças afegãs sendo lançadas através dos muros entrincheirados do aeroporto, aos braços de oficiais americanos completamente desconhecidos. Mas eu hoje sou pai de uma bebê. Minha filha naquele muro, e o mundo inteiro ruindo. A morte de uma criança não se justifica pela religião nem pela moral. É o tilt de uma divindade. A brevidade suprema diante do existir animal, exatamente naquela encruzilhada em que nos fazemos humanos. Aquele bebê sobre o muro diz do que passa e do que pode permanecer. Eu hoje quero escrever de novo a você, Bebela. Mas agora uma carta de dor.</p>



<p>Me lembro bastante de Albert Camus nesses tempos, filha. Muitas coisas não fazem sentido. É da própria ordem da peste transportar tudo da esfera do privado &#8211; que é humano, sensível, intimista &#8211; a uma outra &#8211; aquela das medidas de estado, da celeridade, da urgência e do protocolo. Sentado na cadeira do meu consultório, eu escrevo pensando que, até agora, mais de 575 mil pessoas morreram de uma doença para a qual já existe vacina no nosso país. Dia sim e dia também, um boçal ameaça a tão jovem democracia do Brasil, cercado por macacos de circo que aplaudem a barbárie, e a inflação aumenta, fazendo a pobreza sofrer ainda mais. Você não sabe o que é inflação, meu amor, ou o que é fome, ou o que é morte, mas seu pai que escreve tem uma sensação meio amarga sobre o que fica para o seu futuro. Antes daquele dia 14 de abril, havia um mundo racional e instrumentalizado para mim; mas na madrugada do seu nascimento, essa razão foi atravessada pelo afeto. Você nascer meu deu à luz, ao mesmo tempo que me fez sentir um pouquinho pai de todos os bebês do mundo, e consideravelmente mais tolerante com os adolescentes. Aqui está a metafísica do corpo, da espécie, do desejo e do amor.</p>



<p>Dedico três noites semanais a dividir com sua mãe os cuidados do seu sono, do seu mamar e da sua brincadeira. Cada uma delas carrega consigo a manhã do dia seguinte e nele, um eventual passeio ao supermercado, ao parque, à feira, à pracinha. Tenho meus rituais com você dormindo e com você acordada. Quando chego do trabalho à casa da sua mãe, quase sempre te encontro já no sono. Espero você acordar a primeira vez para te ver e sentir seu cheiro de bebê. Como isso costuma acontecer em um universo de possibilidades entre a meia noite e as duas da manhã, te ofereço aquela insônia que é minha, e espero, seja lendo ou só vendo você dormir. Contemplo cada traço do seu rostinho bochechudo e penso como está mais linda hoje do que era na semana passada. Aprendi a te admirar assim, como deve ter se sentido orgulhoso um pintor que termina um quadro, mas com a diferença estruturante de que você é um quadro vivo. Pintei metade do começo, sem a menor ideia de como será o meio ou o final.</p>



<p>Quando você acorda de manhã &#8211; por volta das 5 horas &#8211; nós brincamos, ouvimos fado, descobrimos as primeiras notícias do dia. Troco sua fralda, fazemos café e escutamos juntos alguns podcasts. Inicio minha rotina em grande estilo e bem animado quando isso acontece. Às vezes, me pego pensando na falta que faz ter você ao meu lado mais tempo, de mais jeitos. Imagino você perguntando, quando chegar essa hora, sobre o porquê de seu pai não estar na mesma casa que você e sua mãe, os motivos dele sempre ir embora e sempre voltar, mas não permanecer. Te prometo que, quando esse momento chegar, não vou te responder que isso seja coisa de adulto &#8211; porque, na realidade, se trata de assunto de crianças. Crianças que <em>adulteceram </em>de uma forma não tão boa, mas que possuem certos consensos já definidos, outros nem tanto. Mas de todos eles, Bebela, você sempre foi o mais poderoso e o melhor. Tá certo que você tem ainda quatro meses, mas é importante que isso fique registrado aqui.</p>



<p>Na última quarta-feira, nós fomos a um parque caminhar e percebi o quanto você me fez desacelerar. No tempo em que eu normalmente faria duas ou três voltas em torno do lago, caminhamos uma só. Eu com dor nos joelhos e você apagada no sling. Depois me sentei ao lado da Val &#8211; fique tranquila, eu também não tenho a menor ideia de quem seja &#8211; mas que estava como babá da pequena Manu, linda. Conversamos sobre amamentação, sobre sono, marca de carrinho de bebê. Você, no colo, faz sempre do pai um centro de atenções. Aquela manhã foi incrível, como muitas delas têm sido, mas chega sempre a hora em que é preciso deixar você em casa, seguir. Ali tem nascido em mim uma consciência fulminante em torno da brevidade da vida.</p>



<p>É tão rápido o tempo que tenho contigo, quando ele já passou e eu olho para trás. Ao mesmo tempo, é tão grande estar ao seu lado e sentir que está pertinho. O paradoxo de existir mora no espaço de um abraço, um cheiro e um beijo na testa. Está tudo ali. A isso, damos o nome de amor &#8211; o que um astrólogo me disse uma vez ser o sentido dessa minha vida. Vejo você cochilando, gritando, dando gargalhadas com sua avó. Penso em todos os sacrifícios que faria por você, e quando isso acontece, filha &#8211; não se sinta mal &#8211; não consigo deixar de lembrar das crianças de Cabul e da Síria. É sempre quase certo que te verei novamente, e posso sentir nesse meu coração de pai o que significou aos outros pais &#8211; dos quais você também deveria ser um pouco filha &#8211; abrir mão de seus bebês porque tinham medo da violência e da morte…</p>



<p>Resgatei um antigo sonho de viver até os meus 117 anos, mas pode ser que as coisas não aconteçam assim. Vai que a existência capota em uma ou outra curva do caminho, e que o pai precisa ir antes da hora, seja de fatalidade, de doença ou de resistência a um governo autoritário que ameaça destruir o Brasil? Tudo isso pode acontecer, Isabela, e nós devemos ser fortes.</p>



<p>É provável que a vida te reserve oportunidades incríveis de estudo, de trabalho, de afetividades. Cercamos você de muitas coisas boas, para que possa crescer e escolher com o máximo de consciência. Mas o pai te pede que não se esqueça das crianças de Cabul do seu tempo, ou das afogadas no desamparo de existir sem colo. O mundo do pai, e também o de seus avós, faliu. Nos esquecemos como se faz literatura e coragem. Compramos tudo. Dormimos mal. Já não se sonha. Deixo a você a herança da boa revolta que espero poder viver contigo.</p>



<p>A arte existe, para lembrar de novo Camus, &#8211; você vai ouvir muito falar dele &#8211; em algum lugar entre o sofrimento e a beleza. Este texto, por exemplo, deveria ser uma crônica, da qual te fiz uma carta. No espaço entre te sentir aconchegada no meu colo e tudo que queima ao redor, brota uma flor. Manterei ela viva, meu amor, para que você faça dela sua arte de existir, vivendo e defendendo o direito que todos têm de também viver.</p>



<p>Amo você.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>BARULHO</title>
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		<pubDate>Sun, 01 Aug 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 102]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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<p>Ele acordou e o relógio marcava cinco e quarenta e três. O dia estava frio, ainda que sentisse uma certa opressão quentinha sobre as coxas, fruto do gato bem gordo com quem partilhava a cama nos últimos anos. Havia ali uma intenção de levantamento, mas não do corpo, que se enrolava e tornava a cair por debaixo da manta grossa, queria levantar a alma, porém, como era presa da carne, foi a carne que ditou o ritmo. Primeiro esfregar os pés, apertar os olhos, conferir notícias pelo telefone, espreguiçar deitado espantando o gato para depois espreguiçar de pé.</p>



<p>Era quinta-feira, coisa da qual se lembrou apenas porque precisava tomar seu inibidor seletivo de recaptação de serotonina, o polivitamínico e o comprimido de óleo de peixe.  Na caixinha em que guardava os remédios estava escrito QUI, por isso o dia da semana. Há mais de doze anos, não come de manhã a menos que esteja em viagens ou hotéis. Rotineiramente faz um café preto forte, um copo e meio de água, daqueles maiores, e três colheres de sopa bem cheias de pó. É com isso que engole os remédios desde bem novo, desde quando não tomava remédios.</p>



<p>Enquanto bebe uma xícara dupla, confere mais notícias, agora prestando atenção. Outros incêndios no Brasil. Olimpíadas. Um abrigo para moradores de rua. Xuxa postou uma foto sem maquiagem, mostrando o que todos já sabiam: ela está velha. Há uma construção na rua de trás, que até aqui possui seis andares, e faz pensar que no inverno vai tapar o sol de pelo menos oito ou nove casas. Faz frio, e ainda vai fazer mais na medida em que as pessoas preferem morar para cima umas das outras, mesmo que uma ironia qualquer faça com que, mesmo empilhadas, nunca se vejam ou se toquem.</p>



<p>Pela janela, o céu bem azul do inverno e o sol são um convite para ir à rua. Precisava comprar essência para o ambiente, porque a casa e o consultório estavam sem perfume desde março. Uma quinta-feira, feliz, enfim. Feliz, porém, taciturna. Na noite anterior, ele adormeceu lendo José Saramago, mais especificamente &#8220;O ano da morte de Ricardo Reis&#8221;. Entre 1935 e 2021, o mundo foi desconstruído e refeito algumas dezenas de vezes, assim como entre Lisboa e Juiz Fora, ente Ricardo e Ele, moravam distâncias tão grandes que faziam a volta no sentido, tocando suas pontinhas no casaco cor de musgo e na meia grossa enquanto o vento cortava o ar bem rente às orelhas, enrijecendo a mandíbula. Chovia quando Reis desembarcou no Velho Mundo, e em Minas Gerais chove o tempo do relógio, o que igualmente encharca.</p>



<p>Desceu de escadas porque era preciso fazer algum exercício. O porteiro tomava água num copo de geléia. “<em>Bom dia, dr., o boleto do apartamento chegou. Pega agora ou na volta?</em>” Como ele sabia que pagava a prestação do imóvel financiado, não era possível precisar, se bem que há toda uma mística em torno dos porteiros. O prédio tem onze andares, cada um com oito apartamentos. Todos os dias quase oitenta <em>bom dias</em>, <em>boa tardes</em>, <em>boa noites</em>. Fora correios, visitas amorosas, entregadores de delivery, lixo na rua, discussões de casais, brigas de vizinhos. Ele gostava de pensar que os porteiros são deuses pagãos em um edifício cristão. Significantes para quaisquer significados.</p>



<p>Enfim, já na calçada, colocou os fones de ouvido e desceu a Av. Independência &#8211; não há pessoa com mais de trinta anos que tenha aceitado chamá-la de Itamar Franco &#8211; até a altura da Rio Branco. Virou à esquerda porque aproveitou para passar no consultório e recolher também as correspondências, já que não iria atender na quinta. Uma travessia de pistas não compreensível. Ônibus, e ambulâncias, e Kombis de lavanderias, tudo passa por ali, pelo X do mapa do tesouro juizforano. Foi descendo a avenida que ele começou a pensar, o que só fez na ida, no caminho para a Floriano Peixoto, onde compra seus perfumes domésticos.</p>



<p><em>Deus do céu, como a cidade é barulhenta</em>. Chico Buarque cantava no fundo, mas por cima da história da Rita, uma infinidade de ruídos estalando nos ouvidos e cadenciando o fluxo de sangue nas artérias da cidade. Naquele momento o celular estava no bolso e, talvez porque pensasse, olhava pra frente e também para cima, para as fachadas dos prédios. A maioria, porém, parecia dançar no ritmo do ronco de motores e do grito de buzinas. Andar era depressa, atravessar a rua era depressa. Parado um instante o corpo no sinal, os olhos correm à tela refazendo o rito de conferir quem incomoda. Isso durante o percurso inteiro. Desceu a São João, Teatro Central, Marechal, Galeria dos Pobres, Getúlio Vargas &#8211; a quase nacionalmente avenida do esculacho &#8211; até chegar na sua loja.</p>



<p>Estava esbaforido, ansioso, apressado, urbano. Logo ele, que vinha do interior e que nas noites de sábado escutava fado enquanto fumava charutos, bem no estilo novo burguês de resistir. Se lembrou de Sábato que, no final da vida, andava em Buenos Aires com tampões de ouvido para ver melhor. Só que Sábato passava dos setenta e escrevia com as entranhas, ele não tinha nem quarenta e escrevia com os rins. Tampões não cabiam, mas aquele estupro sinestésico também não. “<em>É só não sair de casa”. “É só evitar o centro”. “É só aumentar o volume”. “É só voltar para a roça</em>”. A cidade não era dele? Terceirizar, assim, aquele lugar de memória ao excremento na máquina?</p>



<p>Comprou flor de cerejeira. <em>Ótimo custo benefício</em>! Foi fazendo o caminho de volta até chegar à Halfeld quando teve a ideia de combater uma guerra diferente, e tirou os fones de ouvido. Toda a voracidade daquelas mil vozes arrombaram sua cabeça no lugar da melodia de Zambujo. Pedintes, vendedores, entregadores de panfletos, vendedores de sorte. Todos juntos. Apertou o passo até chegar novamente na Rio Branco, agora subindo. Na volta, pensava, estava ali.</p>



<p>Completamente absorvido no transe da pequena Babel da Zona da Mata, quando passava em frente à Catedral Metropolitana &#8211; dessa vez não se lembrou do medieval bispo da cidade &#8211; um velhinho vinha na contramão. E veja que ironia a das palavras criando vida. O velhinho, que vinha na contramão, fez o sinal da cruz. Silêncio. Não na rua, carnaval do inferno!, no homem.</p>



<p>Nosso personagem não era católico, talvez fosse deísta, definitivamente não acreditava num deus que precisasse ser o tempo inteiro lembrado pelos homens de sua virilidade magnânima, mas aquele gesto sacralizava o velho. O velho era o deus da calçada domando o barulho com um cruzar de mãos na frente do rosto. Pode ser que aquela aparição, na verdade, fosse maior ou igual ao deus cristão, exatamente porque se lembrava de fazer aquele cumprimento secreto, quase esquecido, como se gritasse de cá da rua “<em>Ei, Senhor, tudo bem? Ruim aí na cruz, ruim aqui na rua. Vamos seguir!</em>”. Ele estava taciturno, acho que já disse, saiu para ouvir o vento cantar e comprar um sinal de benzeção legítima. Enquanto os velhos andarem na rua, uma parte preciosa da cidade sobrevive. Aquela cidade que é feita de gente boa, mas tão boa, que consola o próprio Cristo.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>DESAPOLOGIA DA COMUNHÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Jul 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 100]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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<p class="has-text-align-right"><em>“Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria… Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua.”&nbsp;</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>&#8211; João Guimarães Rosa,&nbsp;Sagarana.&nbsp;</em></p>



<p>Biscoitos chineses da sorte não parecem algo muito higiênico, e embora seja ponto pacífico que recortar tirinhas de papel sulfite impresso com tinta Epson e colocar dentro de massas crocantes é no mínimo estranho, mais&nbsp;estranho ainda é não aceitar pegar o seu quando pede a conta no restaurante. Mas existiam ainda outras contradições.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Estava em Mariana, Minas Gerais, e no cardápio, além pratos orientais, era possível pedir uma Tubaína ou um frango com ora-pro-nóbis. O freguês deve ter razão no seu paladar, não importa qual seja; importante é vender bem. Não julgo o dono do lugar. Julgo, talvez, quem come ali. Mas todo esse ambiente barroco e pós-moderno não é o ponto alto. Eu comia sentado à mesa 16, debaixo de um peixe empalhado que ficava na perpendicular da janela da fachada do prédio. Dali, eu poderia chamar o garçom e também continuar olhando para fora e vendo as casas tortas na rua torta, onde turistas como eu iam e vinham com suas&nbsp;papetes, suas companhias e seus sorrisos de recesso profissional.&nbsp;</p>



<p>Pedi a conta e o Jorge, um garçom angolano que estava em Minas há mais ou menos oito anos, me trouxe dois biscoitos embrulhados num papel branco com detalhes vermelhos. “Dois, Jorge?”. “Claro! Se não gostar do primeiro, você escolhe o outro; e se os dois forem ruins, meu nego, você tá fodido.” Ele era sábio. Eu já vinha pensando nisso, inclusive. É cada vez mais difícil viver sem acreditar que alguma coisa transcendente está guiando você de um mundo invisível. Seja essa coisa deus, sua lua em escorpião, as reações a uma foto de maiô em Búzios… Acredito um pouco em cada uma delas, mas não o suficiente. Seria mais fácil se acreditasse, teria bordas esse buraco que parece ser a ausência que habita em mim. Faltavam catorze horas para o&nbsp;Reveillon. O tempo parecia auspicioso para dar um voto de confiança aos folheados de papel e coliformes.&nbsp;</p>



<p>“A vida trará coisas boas, se tiver paciência”. Não posso condenar a mensagem, embora fossem oito palavras do mais puro suco do clichê motivacional que transborda no mundo. Eu ri. O tempo vinha me trazendo surpresas. Meia dúzia de cabelos brancos, mais barriga, menos pescoço, estabilizantes de humor, o gosto por charutos. Também estava com certeza mais titulado, embora tenha dúvidas honestas a respeito de estar ou não mais sábio. Ganhei mais dinheiro do que imaginava. Perdi mais do que precisava. Uma vida pateticamente comum que já deixava no rosto, antes liso, os vincos de preocupação e cansaço com que pude domar o desejo de ser simplesmente feliz. Mas minha sorte era péssima… Não&nbsp;me via mais como alguém paciente, tenho urgência.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Mostrei o papelinho ao Jorge. “Só esperar então, meu querido, vem coisa boa aí”. E foi atender a um casal bem gordo que estava sentado perto do balcão. O problema é esperar. Nunca compreendi como pode se comemorar aniversários ou anos novos. Nunca é mais um de vida, ou de trabalho, ou de realizações; é sempre menos um de funcionamento. Menos um porque tive vergonha, medo, raiva do vizinho do 1006 que transa gritando em plena quarta-feira. Só quem ganha com isso são os calendários, eu não. Os joelhos estalam, a ereção demora, a companhia mais duradoura é dos gatos. Não,&nbsp;meu camarada, esse biscoito é&nbsp;de&nbsp;des-sorte. Tanto faz, na verdade. Meti o outro biscoitinho no bolso e saí para caminhar porque estava fresco.&nbsp;</p>



<p>Acendi um Derby vermelho e deixei que minhas pernas levassem meu espírito para um passeio. Andava e me lembrava do meu pai quando eu era pequeno. Muito religioso, eu detestava que ele fumasse ou bebesse cerveja. Não ia à padaria comprar nenhuma das duas coisas porque achava um desaforo sem tamanho. Ele fumava Derby branco, coitado. O tempo muda as coisas de lugar sem cerimônia. Se pudesse me ver hoje, o velho saberia que me tornei alguém bem mais parecido com ele do que eu jamais quis. Já não pesa saber disso. Brinquei com um vira-lata encardido na pracinha, conversei com um pipoqueiro que aproveitava o clima do interior para vender pipocas com bacon, bebi mais uma cerveja e voltei para minha pousada. Faríamos uma pequena festinha de confraternização.&nbsp;</p>



<p>O lugar em que estava hospedado era bem pequeno, mas incrivelmente charmoso. No total éramos cinco pessoas, sendo que duas eram o casal de donas. Fizemos comidas comuns. Uma carne de panela, frutas, arroz, acho que salpicão, ou maionese. Colocamos a mesa na garagem e ficamos ali, escutando playlists aleatórias de mpb enquanto comíamos e bebíamos mais. A conversa girou em torno de fisioterapia, e de um vizinho da frente que costumava implicar com a dona da pousada. Erramos a contagem regressiva por alguns segundos, o que fez com que entrássemos no ano novo mais cedo que a cidade. Ficamos ali, daquele jeito, sem muita pressa de nada. Não me lembro bem, mas acredito que tenha subido ao meu quarto por volta das duas horas da manhã. Ainda mexi com o Jorge, que ia pra casa passando em frente ao casarão quando eu estava fumando na janela.&nbsp;</p>



<p>Sentado na cama, tateei o bolso da bermuda pra tirar a chave, a carteira, o maço de cigarro e o isqueiro, e aí me lembrei do segundo biscoitinho: ele estava ali. Ora, um ano acabava de terminar e eu estava oficialmente abrindo novo ciclo; por que não tirar mais uma vez minha sorte? Ainda que não estivesse bêbado, me sentia mais leve, meio dormente. Quebrei a casquinha sem comer dessa vez; eu tinha comido quase meio pudim feito pela Ana. “Ninguém nos ensina a ser só.” Dessa vez, eu não tinha alguém para mostrar o oráculo e pedir opinião. Todos estavam em seus quartos ocupados. Eu, não. Eu estava sozinho.&nbsp;</p>



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<p>Crise de meia idade é uma coisa que começa quando o sonho da vida adulta se transforma na realidade do desencontro banal. “Você deve se amar primeiro”. “Ninguém muda ninguém”. “Tudo na vida passa”. “É preciso perdoar e seguir”. “Cada momento é único”. “Sinto muito, me perdoe, eu te amo, sou grato”. Eu mesmo seria capaz de escrever biscoitos da sorte a minha vida inteira, de uma forma que em algum momento fosse capaz de desbancar o&nbsp;Pastorino. O meu augúrio de réveillon, porém, não era tirado de um gueto&nbsp;gratiluz. O biscoiteiro foi perverso e sofisticado, ele fez uma citação. Jacqueline&nbsp;Kelen, 2001, O espírito da solidão.&nbsp;</p>



<p>Na cozinha do lugar havia um relógio que, na minha cabeça, marcava sempre 10h28 da manhã. O ponteiro menor era um garfo; o maior, uma faca. Fui beber água e fiquei ali, recostado na pia, olhando para o relógio enquanto ouvia o ronco vindo de um quarto e o barulho abafado do casalzinho que transava com cuidado no quarto dos fundos para não chamar atenção.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Ninguém ensina mesmo”.&nbsp;</p>



<p>Desejei do fundo do meu coração que a&nbsp;roncadoroa&nbsp;virasse de lado para não ressecar a garganta e que o casal pudesse gozar com a mesma intensidade e quantas vezes fosse possível. A gata arisca que também era hóspede subiu na pia e pediu água da torneira. Conversei com ela por alguns minutinhos até que a casa ficou quieta. Dormindo, eles estavam todos sós como eu. Me senti acompanhado e com vontade de&nbsp;deitar&nbsp;também.&nbsp;</p>



<p>Acordei cedo no outro dia e já fui procurar alguma referência de Camus na biblioteca da&nbsp;Madá, só encontrei coisas de Sartre. Tomamos café todos juntos e saí por aí à procura de um baú antigo para guardar roupa de cama. Hoje eu penso que nunca voltei naquele lugar, embora morra de vontade. Acho que, lá no fundo, eu quero voltar do mesmo jeitinho. Repetir me deixa confortável. Quero voltar e encontrar as mesmas coisinhas ali. Reificar um ritual.&nbsp;</p>



<p>Nada aconteceu desse jeito.&nbsp;</p>



<p>Foi exatamente assim.&nbsp;</p>



<p>Nesse meio, existo eu.&nbsp;</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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		<title>MINGAU, O SELVAGEM (OU SOBRE A MORTE DE UMA MÃE)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Jul 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 098]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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<p>Segundo as anotações na folhinha atrás da geladeira, neste domingo se contariam seiscentos e quarenta e dois dias desde que ele se separou e Rita se mudou para São Paulo; trezentos e dezenove dias desde que começou a fazer academia; e sessenta e oito que estava assinando um novo serviço de streaming onde conseguia assistir filmes gregos e ucranianos. Esse tipo de anotação se tornou crônico depois do início da pandemia, embora ele nunca tenha realmente superado a morte do cachorro naquela sexta-feira, dia quatorze de agosto de noventa e nove, nem cada um dos seus dois términos de relacionamento. É curioso, porque aparentemente não havia motivos para isso.</p>



<p>Ricardo foi o terceiro filho de uma família, temporão. Quando foi parido, o irmão do meio já tinha doze anos, o casamento dos pais cumpria conveniências católicas, e não era segredo para ninguém do condomínio que o pai sustentava outra família em Bento Ribeiro. As coisas não aconteciam escondidas, ficavam à mostra. Sua mãe não suportava mais os homens que desde nova lhe demandavam uma boceta fresca, mesmo tendo um pau mal limpo. Atendia aos caprichos do marido até que descobriu a segunda família, cuja mulher era mais nova; foi quando rompeu com as coisas da cama e do banho, cuidando apenas da mesa. Não significava que ela o odiasse, pelo contrário, havia dias em que sentia o amar mais por não ter que desejá-lo. Se não faltasse aquilo de que precisavam ela e os filhos, o marido poderia apagar seu fogo onde quisesse. Nessa altura da vida, estava mais preocupada com a salvação do que com o pecado.</p>



<p>Como a cama da mãe estivesse vaga desde cedo por quase metade dos dias da semana, Ricardo podia se deitar ali para dormir. Na casa de dois cômodos ele dormiria no chão, junto com os irmãos no quarto, se não estivesse deitado com D. Ruth. A mãe fazia gosto de que o filho caçula lhe fizesse companhia, e essa foi a primeira coisa que ele aprendeu a contar, ainda usando apenas dos dedos das mãos como referência: quantos dias meu pai ficava fora? Quantos ele estava em casa? Aos poucos, o pai foi dormindo menos na cama e mais no sofá, o que significava mais espaço, e a mãe sempre dormia abraçadinha com ele, mantendo as pernas do pequeno entre as suas coxas, de um jeito que ele ficasse quentinho e não pegasse friagem. As coisas eram como eram, mas se algum dia o pai desejava dormir na cama, seja por que as costas doíam ou porque tinha brigado com a outra, nesse dia a contagem falhava e Ricardo não dormia a noite inteira. Alguma coisa estava fora do lugar, isso era assustador.</p>



<p>Na adolescência, adquiriu um hábito estranho: ele colecionava grampos que encontrava pelo chão, na rua. Para quem não procura, encontrar essas coisas pelas calçadas é um detalhe lotérico, mas ele procurava, e quando topava com um fazia sempre do mesmo modo. Se abaixava, tomava nas mãos, soprava e limpava o grampo batendo três vezes na lateral direita da calça. Limpo e conferido, Ricardo abria a carteira e fixava seu pequeno achado no bolso dos cartões. Perto dos dezenove anos, chegou a ter trinta e sete deles consigo.</p>



<p>Viveu dois relacionamentos longos antes do início do fim do mundo. O primeiro foi uma amiga de colégio, loira, e que usava muitos coques. Como esses penteados precisam de grampos, foi assim que a conheceu e depois, também foi assim que encerrou sua coleção. Se podia ter uma mulher que possuía caixas dessas coisas, não tinha necessidade de pegar do chão. Jogou tudo fora. O namoro não durou mais porque Ricardo não conseguia viajar fora do período de férias, e além disso ficava analisando as letras das músicas que Isabela escutava. O eu lírico fazia com que desse gargalhadas do forró universitário, mas ela só queria se esfregar com ele enquanto dançava, só que analisar e dançar ao mesmo tempo era impossível. Terminaram durante uma exposição agropecuária. Ela saiu com as amigas, ele foi dormir na casa da mãe.&nbsp;</p>



<p>Depois começou a fazer faculdade, e foi aí que conheceu a Rita. Foram seis anos de convivência quase diária. Moraram juntos, na casa dele. A mãe não aprovou nenhum dos namoros, mas ele era independente. O pai já tinha morrido, de um câncer de próstata. Com a Rita, tudo parecia melhor; até os nomes combinavam. O término, aqui, veio por uma questão mais pragmática: nessa altura, Ricardo entendia que não se analisa e dança ao mesmo tempo. Ela foi aprovada em um concurso federal em São Paulo, e ele não podia ir porque não teriam como levar o gato, e o gato precisava de cuidados. Desde então, vivia sozinho. Parcialmente sozinho, na verdade; tinha o Mingau.</p>



<p>Uma coisa curiosa era que, cada vez mais, ele demorava para fazer as atividades cotidianas. Ir ao banheiro era especificamente demorado. Eu não sei se mencionei, mas Ricardo era contador, o que permitia que trabalhasse de casa, sempre de pijamas da cintura para baixo e com camisa de botões da cintura para cima. Quando bebia café com leite ou cappuccino, sentia vontade de ir ao banheiro. Entrava, trancava a porta, desabotoava a camisa, tirava-a, pendurava no registro d&#8217;água sobre a pia. Sentava na tampa do vaso ainda de calças, para esquentar, e então tirava também as calças e cagava pelado. Sempre lia alguma coisa nesses momentos e o quanto podia, só começava mesmo a se aliviar quando terminava um parágrafo ou uma página inteira, o que podia variar conforme o dia. Isso lhe dava algum prazer estranho. Terminado o esforço, lia mais, até encontrar uma página que terminasse em ponto final. Normalmente, Ricardo ia ao banheiro duas vezes por dia e levava, em cada uma delas, pelo menos uma hora e meia.</p>



<p>Afora os filmes gregos e ucranianos, a contabilidade de um supermercado grande, alguns impostos de renda e, finalmente, degustar literatura no vaso sanitário, seu gozo era controlar a folhinha contando dias e alimentando Mingau. Não ia na rua, pedia comida por aplicativos, lavava cada embalagem com álcool quando chegavam. Não se sentia exatamente feliz, mas estava tudo sob controle. Sentia saudades da Rita, mais que da Isabela; e da mãe, mais do que da Rita.</p>



<p>Acontece que a vida é curiosa às vezes. Era domingo, e o Ricardo precisou descer até a garagem do prédio para colocar o lixo no cesto de coleta seletiva. Desceu e deixou a casa como sempre fazia, mas não combinou com o pet. Fazia um sol gostoso no vão de sua vaga, o que acabou roubando mais alguns minutos do tempo daquela saída, algo além do habitual. Mingau era neurótico. Subiu no aparador, se debruçou na porta e espreguiçou arranhando a folhinha, que não resistiu aos sete quilos do felino gordo e caiu no chão. Dali para diante foi uma carnificina de papel. Quando abriu a porta de volta, viu o papel espalhado, o gato sentado no sofá lambendo a própria virilha e suas marcações cuidadosamente transformadas em papel picado. Naquela tarde de domingo, Ricardo teve uma vertigem. Estranhamente culpado, ele tinha a impressão de que o Mingau havia picotado sua mãe.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
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