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	<title>Arquivos vivências negras - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A HISTÓRIA DOS MEUS FIOS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 May 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 092]]></category>
		<category><![CDATA[Empoderamento e negritude]]></category>
		<category><![CDATA[relato de experiência]]></category>
		<category><![CDATA[Transição Capilar]]></category>
		<category><![CDATA[vivências negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Thalita Alvarenga</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cresci com a minha mãe trançando os meus cabelos, um cuidado precioso que eu não valorizava. Meu sonho era poder usar o cabelo solto, mas não imaginava um cabelo crespo, e sim um cabelo liso. Na época, esse era o costume das mães negras; antes das suas filhas atingirem uma idade considerada normal para alisar os fios, as mães os trançavam.</p>



<p>Ainda hoje me recordo que sempre passava parte das minhas férias na casa da minha avó. E em uma delas, ela me sentou na escada que dava acesso à casa para trançar os meus cabelos com aquelas mãos negras, suas unhas longas pintadas em vermelho. Ela falava: nunca deixei a sua mãe sem arrumar o cabelo, andava com ela sempre com os cabelos trançados e com fita na cabeça.</p>



<p>Essa era a única condição aceitável para os cabelos crespos. O ato de trançar o cabelo era lindo por ser uma tradição, mas também era triste, pois não podíamos usar os nossos cabelos naturais se não fosse com tranças. As mulheres negras e crespas não nasceram para andar com os cabelos soltos.</p>



<p>Quando comecei a frequentar o jardim de infância, via minhas colegas de cabelos lisos soltos e, para mim, aquele era o ideal a ser alcançado. Além de ter várias bonecas Barbie com cabelos longos, lisos e loiros. Eu não me via nas bonecas e na TV. Então comecei a pedir a minha mãe para me deixar de cabelo solto &#8211; e eu pensava que ele ficaria como o das meninas da escola ou o das bonecas, liso e com movimento. O alisamento foi a tendência natural que minha mãe seguiu para atender ao meu pedido.</p>



<p>É importante dizer que o alisamento, naquela época, era a única opção. Não existia a diversidade de produtos que hoje encontramos para cabelos crespos. Não sabíamos como pentear os nossos próprios cabelos, como cuidar deles. Não existia representação. Ser crespa era ter o cabelo duro e ruim, não era bonito. Nosso cabelo, naquela época, servia para nos fazer sofrer, para nos fazer sermos olhadas com olhos tortos.</p>



<p>O processo de alisamento dos cabelos era sempre sofrido. O produto queima a nossa cabeça. É preciso ir passando na raiz, mecha por mecha, até que tenha produto em toda a cabeça &#8211; e, se você for mais sensível, pode passar por muitas queimaduras que depois viram feias feridas.</p>



<p>Assim cresci, alisando as raízes do cabelo a cada três meses e submetendo os meus cabelos ao calor do secador com uma frequência absurda. Lembro-me o quanto eu odiava o dia de alisar os cabelos, porque significava ficar horas sentada para &#8220;arrumar os cabelos&#8221;. Quando ia ao salão de beleza para fazer o procedimento, ficava o dia todo e muitas vezes faltava à aula para passar por esse processo.</p>



<p>Lembro-me também que nos dias de chuva, em que, apesar de querer andar nela sem sombrinha, não podia porque acabaria com toda a escova e eu passaria vergonha. Sabe o filme &#8220;Felicidade por um fio&#8221;? Para nós que passamos pelos processos descritos no filme, ele faz total sentido.</p>



<p>Mas um dia decidi me libertar.</p>



<p>Tudo começou quando vi em um vídeo do YouTube uma propaganda de várias mulheres negras que decidiram assumir os seus cabelos. Eu ainda não fazia ideia de como fazer. Não fazia ideia de que precisaria parar de alisar o cabelo. Não fazia ideia de como era a textura dos meus fios, mas me joguei na pesquisa. Justo no dia em que minha mãe já estava pensando em alisar os meus cabelos novamente, eu disse: vou assumir o meu cabelo, quero ele natural.</p>



<p>Para muitos, essa jornada não é fácil. Cada um deve lidar de uma forma diferente nesse caminhar que faz parte de um autoconhecimento, mas também faz parte de um empoderamento. É impossível falar de transição capilar sem falar em empoderamento, pois por mais que você esteja tentando se livrar de um ideal, ainda assim existe para muitas meninas o ideal de cabelo crespo bonito.</p>



<p>Muitas meninas não querem ter um cabelo 4C e, por desconhecem a textura dos seus cabelos, podem acabar se frustrando ao final da transição. Então, desde o princípio, tomei a consciência básica de que o meu cabelo é o tipo certo para o meu corpo, e que eu queria amá-lo independente da forma. É importante dizer que, por ficar durante anos alisando o cabelo, não sabia mais como ele era. Sim, nós passamos a desconhecer essa casa que habitamos e chamamos de corpo.</p>



<p>E assim, fui lendo e compreendendo. Fui aprendendo a lidar com os meus fios, descobrindo qual a hidratação que ele mais gosta, a finalização que daria melhores resultados e aprendendo a me amar mais.</p>



<p>Foi todo um processo de me descobrir e aprender a me aceitar, mesmo que para muitas pessoas, ainda hoje, este seja um cabelo feio. Por isso, digo que a transição capilar não acaba com o BC (grande corte); é um processo que perdura por muito tempo, até que você aprenda a se amar de verdade e amar o seu cabelo. Se você está passando pela transição capilar tenha calma, se respeite e se apaixone por cada novo fio que nasce. Se apaixone por todo o processo. Vibre por cada centímetro de cabelo que cresce. Você verá que valerá muito a pena no final.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/345f1-thalita-alvarenga.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-15948 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong>Thalita Alvarenga</strong></strong></strong></strong></strong> é formada em jornalismo e estudante de Literatura.<br>Trabalha com redação de Marketing digital e é apaixonada por escrita literária.</p>
</div></div>



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		<title>NÃO TEVE CARNAVAL! MAS O QUE É (OU O QUE PODE SER) O CARNAVAL?</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/02/28/nao-teve-carnaval-mas-o-que-e-ou-o-que-pode-ser-o-carnaval/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 080]]></category>
		<category><![CDATA[carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[resistência negra]]></category>
		<category><![CDATA[vivências negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em tempos normais, passado o Réveillon, já começaríamos ver a divulgação da programação dos blocos e de festas pré-carnaval. Todo ano surge o discurso de que “o ano só começa depois do carnaval” &#8211; mesmo que algumas atividades sejam retomadas dias ou até um mês antes da festa, como as aulas, por exemplo.</p>



<p>Não é novidade a pandemia da COVID-19, que, no momento de escrita desse texto, já tirou a vida de 230 mil brasileiros, e vem trazendo tragédia para diversos países do mundo. A principal recomendação para evitar a contaminação, como tem sido repetido desde março do ano passado, é o distanciamento físico. Levando em consideração o momento, é preciso que percebamos que não é momento de festejar, ou aglomerar. É preciso que tenhamos ações diferentes daquela cenas que vimos nas praias na virada de ano.</p>



<p>Mas para além da festa, o que é o carnaval? o que o carnaval representa?</p>



<p>Desde pequeno, crescendo entre evangélicos e católicos &#8211; ou seja cristãos &#8211; ouvi todos os tipos de referências ao carnaval. A festa da carne, a festa pagã, festa em que os demônios andam soltos. É preciso levar em consideração essa ideia cristã, daqueles que julgam e taxam o carnaval a partir de suas religiões. É preciso considerar também aqueles que simplesmente não gostam do carnaval. Mas é preciso entender que o carnaval é muito mais do que festa.</p>



<p>O sociólogo Clóvis Moura, em seu livro <em>A Sociologia do Negro Brasileir</em>o, dedica algumas páginas pra pensar o carnaval. Após debater sobre a ideia de <em>grupos específicos </em>e de <em>grupos diferenciados, </em>o autor aponta no carnaval &#8211; ou melhor, nas escolas de samba &#8211; um exemplo negativo de grupo diferenciado. No entendimento de Moura, os negros que se concentravam nas comunidades, percebiam nas escolas de samba uma forma de lazer e resistência, quando:</p>



<p class="has-text-align-right">“<em>os figurantes das diversas escolas, durante o carnaval, ao desfilarem,</em> <em>realizavam catarticamente o seu desejo de participação social,</em> <em>de integrar-se e dominar a cidade branca. [&#8230;]</em><br><em>era a dominação da cidade pelos habitantes do morro, através da sua organização e da sua contracultura.”</em><br>(MOURA, 2019. p. 180-181)</p>



<p>A partir da citação acima, podemos fazer algumas afirmações. A primeira delas é o carnaval, especialmente o surgimento das escolas de samba em torno de comunidades negras. E também um momento de contracultura, onde aqueles marginalizados tomavam o protagonismo da festa.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“O carnaval era, assim, sociologicamente, uma festa de integração, mas, especialmente, de um ponto de vista mais analítico, um ato de autoafirmação negra. [..] O negro, dessa maneira, não via o carnaval como uma simpels festa da mesma forma que o branco vê. Era, de certo modo, o momento mais importante da sua vida, do ponto de vista de autoafirmação social, cultural e étnica”</em><br>(MOURA, 2019. p. 181-182)</p>



<p><strong>Carnaval é resistência e autoafirmação negra!</strong></p>



<p>De acordo com Moura, as escolas de samba ganharam destaque depois da sociedade branca perceber o caráter organizacional delas. Se apropriaram, embranqueceram socialmente e ideologicamente a festa &#8211; principalmente depois do interesse de grandes empresas e grupos em cima da divulgação que a festa propõe. Por isso, Clóvis Moura apresenta as escolas de samba como “um exemplo de degradação” da cultura dos negros, quando este elemento deixa de ser resistência e expressão de um grupo e passa a atender, principalmente, a interesses privados.</p>



<p>Com relação aos apontamentos de Clóvis Moura, lembramos também escritos de Luiz Antônio Simas, onde no livro <em>O corpo encantado das Ruas </em>este discorre que:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>O carnaval é perigoso. O controle dos corpos sempre foi parte do projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtoras de cultura. Este projeto de desqualificação da cultura é base da repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres, dos descendentes dos escravizados e de todos que resistem ao confinamento dos corpos e criam potência de vida</em><br>(SIMAS, 2019, p. 110)</p>



<p>A desqualificação do carnaval parte do controle dos corpos pretos. Da desqualificação da cultura preta.</p>



<p><em>***</em></p>



<p>Encaminhando para as conclusões, além dos entendimentos que foram expostos acima, devemos pensar no carnaval como um momento de movimentação da economia para cidades turísticas. Vivemos em uma sociedade de capitalismo dependente, como entende Clóvis Moura. Com isso, até que este sistema caia, a população precisa sobreviver. O Carnaval como forma de trabalho também é elemento a se considerar, seja nos barracões de escolas de samba, seja nos dias de folia os diversos vendedores ambulantes, funcionários de transportes públicos, entre outros.</p>



<p>Outro ponto que podemos pensar do carnaval é a perspectiva política. Apesar dos apontamentos feitos por Clóvis Moura, algumas escolas de samba ainda trazem temas políticos para seus enredos, que muitas vezes são próximos da realidade de suas comunidades, por exemplo o desfile da Paraíso do Tuiuti de 2018 questionando a narrativa sobre a escravidão no Brasil, o desfile da Mangueira de 2019 questionando a História oficial do país, ou desfile da Mangueira de 2020 questionando a imagem do Jesus eurocêntrico.</p>



<p>O desfile das escolas de samba já nos mostrou diversas oportunidades de politização de temas e transformação destes em arte para se apresentar na avenida durante cerca de 60 minutos. Com um enredo, alegorias, fantasias, bateria e um samba enredo que dá o tom do discurso. Não são todas as escolas nem em todos os anos politizam seus debates, isso é algo que devemos considerar.</p>



<p>***</p>



<p>Mesmo levando em consideração tudo o que foi exposto acima, a certeza que já tínhamos é que, em 2021, não haveria carnaval; e não houve. Foi preciso que não houvesse carnaval em 2021. É preciso que a gente se solidarize com as famílias que perderam parentes durante esta pandemia. E é preciso que sejamos conscientes com relação à circulação do vírus.</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p>REFERÊNCIAS:</p>



<p>MOURA, Clóvis. <strong>Sociologia do negro brasileiro. </strong>2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2019.</p>



<p>SIMAS, Luiz Antonio. <strong>O corpo encantado das ruas. </strong>1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/581c8-luan-pedretti.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13805 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
</div></div>



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<p></p>
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		<title>Reconhecer Brasis é para Ontem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Jan 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 076]]></category>
		<category><![CDATA[AmarElo]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[resistência negra]]></category>
		<category><![CDATA[vivências negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>É tudo pra ontem</em>. Esta ideia se refere a parte do título do documentário lançado por Emicida no final do ano de 2020. Este trecho, sem nenhuma outra associação, se mantém aberto sobre o que tem necessidade de receber a nossa atenção “pra ontem”, ou seja, o mais rápido possível. Ao contextualizá-lo com a narrativa do documentário, entendemos o que a pessoa que escolheu o nome do documentário, junto com roteirista e equipe de produção, entende que precisa receber a nossa atenção “para ontem” ao discutir e refletir o Brasil.</p>



<p>É um documentário longo, denso, que traz para a sua construção diversos pontos que carecem de atenção individualmente. O filme se desenrola em cerca de 1 hora e 30 minutos e traz em sua narrativa, antes de tudo,  a trajetória de construção do álbum AmarElo (2019): apresentação das inspirações que foram imprescindíveis para a construção do álbum, bem como do cantor enquanto sujeito e das subjetividades que o atravessam. Quanto a outros elementos presentes no documentário, pode-se destacar discussões políticas, sociais e culturais que se aproximam do debate sobre a população negra do Brasil. O documentário se apresenta como uma outra perspectiva de Brasil, a qual não tem presença nos espaços oficiais quando se reflete algum aspecto do país em que vivemos, sejam eles sociais e/ou educacionais. Dessa forma, esta produção se une a outros dispositivos &#8211; que aqui entendemos como dispositivos de educação não formal -, como por exemplo, o desfile da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira quando no seu enredo para o ano de 2019, se propõe a questionar <em>A história que a história não conta<a href="#_ftn1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a></em>, disputando no espaço público a ideia de outros Brasis.</p>



<p>Após mais de um mês de lançamento, é possível nos depararmos com algumas discussões, críticas, análises e <em>threads </em>rondando os temas que são apresentados no documentário. A intenção aqui não é promover uma resenha crítica ou resumo do documentário, entendendo que este movimento já foi feito anteriormente, por diversas pessoas, sejam negras ou não, elogiando ou apontando pontos que são críticos e carecem de atenção. Acredito que este espaço se apresenta, antes de tudo, como oportunidade de manter este instrumento no debate público, circulando, promovendo uma das funções ao qual entendo para o qual ele foi criado: apresentar outros Brasis. Portanto, tenho por intenção incentivar que vocês a partir de agora observem as minúcias daquela longa produção fílmica.</p>



<p>Ano de 1978, em meio a uma ditadura militar que perseguia e reprimia aqueles que consideravam adversários políticos e ideológicos do regime, algumas pessoas dissidentes da ideia de “democracia racial” &#8211; que era, até então, a interpretação oficial difundida sobre as relações sociais e culturais brasileiras no que tange às diversas raças, sociologicamente interpretadas, que constroem esta nação. Um grupo de pessoas se dirige à praça da Sé, em São Paulo, a fim de ler publicamente um manifesto. Como consequência dessas ações, formou-se o MNU (Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial).</p>



<p>Este não foi o primeiro movimento social, político, religioso ou cultural a ser formado principalmente por pessoas pretas. Na verdade, pode-se elencar a existência destes desde o período da colonização. Podemos interpretar estes sujeitos enquanto atuantes na sociedade em que estavam inseridos, por mais que submetidos a um sistema de violência e apagamento de suas subjetividades.</p>



<p>Este movimento social, formado em 1978 e relembrado pelo documentário, se constituiu como um dos principais motores para reivindicação do reconhecimento público da participação de pessoas negras na construção do Brasil enquanto nação. Na constituinte entre 1986 e 1988, havia reivindicações de pessoas ligadas ao MNU para a inclusão de demandas deste recorte populacional na carta, como por exemplo Abdias do Nascimento. Após a redemocratização, diversas pessoas públicas estiveram defendendo leis e projetos que apresentem outras perspectivas sobre pretos e pardos.</p>



<p>A proposta de revisão da História e da Cultura brasileira é uma das principais pautas de movimentos sociais. Reivindicações que chegaram a se transformar em leis. Como por exemplo a 10.639/03, que define a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira nos diversos níveis educacionais. Wanderson Flor do Nascimento, pesquisador de Filosofia Africana e professor da UnB, ressalta que a importância desta lei “<em>abriu espaço legal para que essas outras vozes pudessem ser trazidas de modo respeitoso, cuidadoso, para o espaço escolar, para além dos estereótipos racistas que circundam as pessoas negras</em>.” (NASCIMENTO, 2020, p. 39)</p>



<p>Este debate já existe dentro do espaço da academia há tempos. Novamente citando o desfile da Mangueira de 2019, o carnavalesco, ao ser questionado sobre a o embasamento para a construção do enredo, afirma que procurou por teses e dissertações<a href="#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>.&nbsp; Há uma barreira que impede com que os resultados destas pesquisas cheguem à população em geral.</p>



<p>Dessa forma, é importante perceber a narrativa oficial sobre a história do Brasil e como ela não representa a população em geral. Perceber que, com o passar dos tempos, elementos que questionam as narrativas oficiais sobre a história do Brasil têm, cada vez mais, saído dos muros da academia e atingido espaços culturais de divulgação de informação em massa. Perceber que os Brasis estão produzindo por si suas próprias perspectivas do processo histórico e, assim, promovendo tensionamentos contra a imposição que há décadas tem sido feita. <strong>Perceber que a nossa experiência não se resume à experiência eurocêntrica é para ontem.</strong></p>



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<p><a href="#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> Trecho do samba enredo da escola.</p>



<p><a href="#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> Como foi citado pela apresentadora Fátima Bernardes, durante a transmissão do desfile na TV Globo.</p>



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<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
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		<title>Ser assexual num corpo hiperssexualizado &#8211; Onde estão as vozes negras?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 069]]></category>
		<category><![CDATA[Ariel Strauss]]></category>
		<category><![CDATA[assexual]]></category>
		<category><![CDATA[assexualidade e racismo]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
		<category><![CDATA[vivências negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Ariel Strauss</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><em>Glossário:</em><br><em>Assexualidade</em>: uma das formas de manifestação da sexualidade<br>humana baseada na falta de atração sexual por outras pessoas;<br><br><em>Assexual (ou Ace):</em> pessoa que se identifica enquanto assexual;<br><br><em>Alossexual:</em> Pessoa que se encontra fora do espectro assexual;<br><br><em>Alonormatividade:</em> opressão às identidades assexuais construída<br>sobre a noção de que a verdadeira atração romântica e a verdadeira<br>atração sexual sempre se expressam de forma conjunta;<br><br><em>Amatonormatividade:</em> opressão criada a partir de suposições e <br>normalizações sobre sentimentos e práticas românticas, que corrobora<br>para a noção de que pessoas de diversas identidades &#8211; inclusive as<br>assexuais &#8211; sejam consideradas desviantes sociais.<br></p>



<p>Sou uma pessoa designada mulher ao nascer, negra e lésbica. Cada um desses grupos, de forma isolada, já é fetichizado pela sociedade. Os três juntos é como se fosse um combo de fetichização com o qual eu lido diariamente. E isso, com certeza, prejudicou o meu entendimento de mim mesma como assexual (ace). Eu era constantemente cobrada para ser altamente sexual, de despertar desejo, de fazer sexo… e eu não vejo a comunidade assexual debater sobre como a amatonormatividade afeta o psicológico das pessoas assexuais não brancas de uma forma diferente.</p>



<p>Veja bem, não estou dizendo que assexuais brancos não sofrem com a alonormatividade. Estou apenas dizendo que, quando imposta a corpos negros, ela se junta ao racismo, que hiperssexualiza nossos corpos. Isso precisa ser levado em conta.</p>



<p>A imagem que se tem de uma pessoa assexual costuma ser uma imagem branca. Parece que é absurdo pensar que uma pessoa negra ou não branca, em geral, não sentiria atração sexual. É como se a atração sexual fosse vista não só como algo intrínseco; a forma pela qual as pessoas tratam é como se o ser negro fosse dependente do ser alossexual para existir. Nossa comunidade, contudo, permanece em silêncio, sem levar esses debates muito para frente.</p>



<p>As comunidades LGBTQ+, em geral, são um reflexo da nossa sociedade. Por mais que nós tentemos criar a narrativa de que a comunidade é unida e de que ela funciona como uma espécie de sociedade paralela à  cis-heteronormatividade, nós mesmos sabemos que não é assim (por isso, inclusive, minha escolha em me referir a comunidades LGBTQ+ no plural). Nossa sociedade é extremamente racista, e o mesmo se reflete em todas as comunidades LGBTQ+ &#8211; e, dentro da comunidade ace, podemos dizer que um desses reflexos é a falta de discussões sobre a vivência assexual (e arromântica, diga-se de passagem) negra e não branca. Então, a única forma de mudar esse cenário é repetir o que deve ser feito na sociedade: dar voz e espaço a pessoas negras para falarem de como o racismo se une à alonormatividade para reprimir e controlar nossos próprios corpos.</p>



<p>Antes de me entender assexual, eu não entendia porque não conseguia dar o esperado de mim socialmente. Eu sempre ouvi que seria uma pessoa que chamaria a atenção (dos homens), mas, por algum motivo, quando essa atenção me era dada, me causava extremo desconforto. A minha decisão lógica, enquanto pré-adolescente que não podia conversar sobre sexualidade &#8211; porque imagina uma menina falar disso? &#8211; foi começar a esconder meu próprio corpo. E eu odiava cada segundo daquilo. Eu odiava as calças muito frouxas, as blusas muito largas e os casacos, usados mesmo no verão quente do Rio, para esconder cada curva do meu corpo. Afinal, a culpa era minha mesmo. Era o MEU corpo que chamava atenção, não?</p>



<p>Depois que eu me reconheci enquanto pessoa assexual estrita, e posteriormente também lésbica, o desconforto com meu próprio corpo começou a passar; nesse processo, eu vi que eu poderia ver o meu corpo além dos olhos que o hiperssexualizavam. Eu poderia amar e até mesmo exibir o meu corpo sem que isso fosse necessariamente uma afirmação de que eu estava procurando investidas sexuais. Mas até esse processo, foram anos me odiando, desenvolvendo transtorno alimentar, usando roupas das quais eu não gostava, fingindo ser quem eu não era. Quantas pessoas negras assexuais podem estar passando por situações parecidas causadas por essa intersecção de racismo e alonormatividade nesse momento? Por qual motivo esses relatos e essas vozes não viralizam e ecoam? Onde estão as vozes assexuais negras?</p>



<p>Por fim, tudo que quero é deixar como reflexão para a comunidade assexual se a comunidade está sendo antirracista e protegendo pessoas negras verdadeiramente. É fácil postar uma hashtag falando que vidas negras importam olhando pra longe, sem olhar para aquelas vidas negras embaixo do seu nariz. </p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Ariel Strauss </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é carioca, tem 22 anos e é estudante de Geografia na UFF. Se dedica a fazer divulgação científica da área e sobre estudos lésbicos no twitter (@urban_arie) e no instagram (@urban.arie).</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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