Fotografia, Memória e Ficção – Um Triângulo Amoroso

A exposição “Fotografia, Memória e Ficção – Um Triângulo Amoroso”, abrange o conjunto de obras que compõe a minha pesquisa de Mestrado em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2020-2023). Trata-se da produção de uma série de trabalhos associativos que, independentemente dos procedimentos empregados (apropriação, fotografia, vídeo, objeto, livro de artista), dialogam com as relações estabelecidas entre os conceitos de fotografia, memória e ficção, metaforizando essas possíveis relações tal qual um triângulo amoroso. As obras produzidas derivam de estudos que articulam reflexões e tensionam o modo de pensar, o tempo e o espaço na arte contemporânea, discorrendo sobre questões de registro, afeto e invenção, não apenas como uma forma de refúgio ou escape da realidade, mas como uma afinação do olhar para a vida enquanto potência poética.

Durante a minha pesquisa de mestrado, busquei relacionar os conceitos de fotografia, memória e ficção partindo de trabalhos artísticos que envolvem desde séries fotográficas a filmes de curta-metragem, produzidos por mim a partir da reconstrução de narrativas visuais feitas por outras pessoas em outros tempos. Procurei utilizar a natureza inventiva e imprecisa da memória e da ficção, para entrecruzar as estruturas que ambas possuem em comum, como, por exemplo, o ato de contar histórias e de produzir imagens mentais a partir de fotografias. Neste sentido, ao desenvolver a produção artística destes trabalhos, enquanto elementos de pesquisa, tive como objetivo analisar e investigar as possíveis diferenças e proximidades que podem ser estabelecidas entre a memória e a ficção, entre aquilo que vemos e aquilo que acreditamos ver em uma fotografia. Afinal, que movimentos poéticos seriam possíveis de operar em uma produção artística, para relacionar os conceitos de fotografia, memória e ficção? Memória e ficção são conceitos que podem ser tensionados por limites que os fazem recorrer aos mesmos elementos, sejam eles de caráter inventivo ou de algum fato. Uma memória quase sempre é a reelaboração de um pensamento, uma produção de algo que se ajusta ao fato ocorrido conforme a capacidade de compreensão atual do sujeito, enquanto a ficção pode ser vista como algo criado a partir da reelaboração de pensamentos feita pela memória. Ambas não podem ser consideradas iguais, mas podemos dizer de certa forma, cultivadas em um mesmo terreno composto de tempo e espaço. A criação de histórias geradas a partir de fragmentos de memórias, de narrativas visuais feitas por outras pessoas por fotografias do passado, parte de uma estratégia de garimpo utilizada por mim para a documentação de trabalho. A arqueologia realizada em primeira instância, remete ao modo de observação do trabalho e dos possíveis caminhos que ele pode seguir, a contar daquele momento. Tudo o que determinada fotografia pode despertar na memória de quem a observa e que vem acompanhada das referências pessoais deste observador, é levado em consideração para o desenvolvimento de uma posterior produção plástica ou escrita. A percepção relacionada às estruturas de pensamento organizadas pelas pessoas que relatam os “fatos”, desprendidos de suas memórias aos observar tais fotografias, levam-me a conduzir o trabalho por um caminho de dúvidas e experimentações, tanto práticas quanto teóricas. Utilizo isso que poderia parecer uma instabilidade, como um vaivém que derruba as paredes que tentam ocultar o que existe por trás de cada fotografia. Nas fotografias existe muito mais do que uma imagem e, geralmente, existem significações que nascem décadas após a produção das mesmas. Há tempos que me encanta a prática de colecionar fotografias antigas que por algum motivo me atraem, seja pela data de registro, cores, composição imagética, dados históricos, ou pelas informações contidas em anotações feitas nestas fotografias. Não me interessam os arquivos digitais disponíveis em bancos de imagens na internet. Prefiro as imagens físicas, as fotografias reveladas, que por um determinado tempo serviram para os seus donos como uma espécie de memorial, como um desejo de congelar o tempo e carregá-lo consigo para o futuro, tentando guardar as lembranças dos momentos vividos na época em que aquele registro foi feito. Interessa-me também, na minha pesquisa, esse tipo de obscuridade dada a determinadas imagens que, guardadas, perdem-se na memória de quem as possui. Assim, a exposição que recebe o mesmo título da dissertação, apresenta esses trabalhos que serviram como elementos de pesquisa, como obras de arte que pretendem dialogar com o olhar subjetivo do espectador, tentando colocar em evidência questões de registro, afeto e invenção e que, talvez, possam servir como disparadores, como um meio de reflexão poética da própria vida.

 

Diva – 1980 a 1981, 2021.
Slides Fotográficos sobre Caixa Backlight.
Dimensões: 80cm × 50cm × 8cm.
Fronteira da paz, 2021. Livro.
Letzter Tag, 2021. Fotografia.
Depois do Futuro, 2021. Videoarte.
Wunderkammer – Contando Ninguém Acredita, 2021. Livro de artista.
Câmera do Tempo, 2021.
Obieto/Dispositivo Óptico.
Porto Alegre × Braunlage I, II e III, 2022. Fotografia.

André Dias Vieira é artista visual e pesquisador, Mestre em Poéticas Visuais no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formado com Láurea Acadêmica no Curso de Graduação em Artes Visuais: Licenciatura pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. Sua linha de pesquisa investiga os desdobramentos da imagem, com ênfase nos temas de fotografia, memória, narrativas visuais, ficção e literatura. 

andredvieira 


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