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	<title>Arquivos Ano 003, N 106 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O SER BREVE E AS CRIANÇAS DE CABUL (MINHA SEGUNDA CARTA PARA ISABELA)</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/29/o-ser-breve-e-as-criancas-de-cabul-minha-segunda-carta-para-isabela/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quem pode ficar impassível às crianças de Cabul? Entre todos os espasmos recentes dessa humanidade que vai convalescendo e delirando dia após dia, talvez o sentimento se aproxime, para mim, apenas daquele que senti quando, em 2015, vi a imagem do menino sírio morto, afogado, em uma praia da Turquia. O sofrimento de uma criança é dolorido e angustiado, porque é a dor de um inocente social, quase sempre marcado pela cicatriz de existir pobre &#8211; o que é geralmente um crime pago com a morte, que pode ser de doença, de fome, de fuga ou de tiro. Existem pessoas que sequer se deram conta das crianças afegãs sendo lançadas através dos muros entrincheirados do aeroporto, aos braços de oficiais americanos completamente desconhecidos. Mas eu hoje sou pai de uma bebê. Minha filha naquele muro, e o mundo inteiro ruindo. A morte de uma criança não se justifica pela religião nem pela moral. É o tilt de uma divindade. A brevidade suprema diante do existir animal, exatamente naquela encruzilhada em que nos fazemos humanos. Aquele bebê sobre o muro diz do que passa e do que pode permanecer. Eu hoje quero escrever de novo a você, Bebela. Mas agora uma carta de dor.</p>



<p>Me lembro bastante de Albert Camus nesses tempos, filha. Muitas coisas não fazem sentido. É da própria ordem da peste transportar tudo da esfera do privado &#8211; que é humano, sensível, intimista &#8211; a uma outra &#8211; aquela das medidas de estado, da celeridade, da urgência e do protocolo. Sentado na cadeira do meu consultório, eu escrevo pensando que, até agora, mais de 575 mil pessoas morreram de uma doença para a qual já existe vacina no nosso país. Dia sim e dia também, um boçal ameaça a tão jovem democracia do Brasil, cercado por macacos de circo que aplaudem a barbárie, e a inflação aumenta, fazendo a pobreza sofrer ainda mais. Você não sabe o que é inflação, meu amor, ou o que é fome, ou o que é morte, mas seu pai que escreve tem uma sensação meio amarga sobre o que fica para o seu futuro. Antes daquele dia 14 de abril, havia um mundo racional e instrumentalizado para mim; mas na madrugada do seu nascimento, essa razão foi atravessada pelo afeto. Você nascer meu deu à luz, ao mesmo tempo que me fez sentir um pouquinho pai de todos os bebês do mundo, e consideravelmente mais tolerante com os adolescentes. Aqui está a metafísica do corpo, da espécie, do desejo e do amor.</p>



<p>Dedico três noites semanais a dividir com sua mãe os cuidados do seu sono, do seu mamar e da sua brincadeira. Cada uma delas carrega consigo a manhã do dia seguinte e nele, um eventual passeio ao supermercado, ao parque, à feira, à pracinha. Tenho meus rituais com você dormindo e com você acordada. Quando chego do trabalho à casa da sua mãe, quase sempre te encontro já no sono. Espero você acordar a primeira vez para te ver e sentir seu cheiro de bebê. Como isso costuma acontecer em um universo de possibilidades entre a meia noite e as duas da manhã, te ofereço aquela insônia que é minha, e espero, seja lendo ou só vendo você dormir. Contemplo cada traço do seu rostinho bochechudo e penso como está mais linda hoje do que era na semana passada. Aprendi a te admirar assim, como deve ter se sentido orgulhoso um pintor que termina um quadro, mas com a diferença estruturante de que você é um quadro vivo. Pintei metade do começo, sem a menor ideia de como será o meio ou o final.</p>



<p>Quando você acorda de manhã &#8211; por volta das 5 horas &#8211; nós brincamos, ouvimos fado, descobrimos as primeiras notícias do dia. Troco sua fralda, fazemos café e escutamos juntos alguns podcasts. Inicio minha rotina em grande estilo e bem animado quando isso acontece. Às vezes, me pego pensando na falta que faz ter você ao meu lado mais tempo, de mais jeitos. Imagino você perguntando, quando chegar essa hora, sobre o porquê de seu pai não estar na mesma casa que você e sua mãe, os motivos dele sempre ir embora e sempre voltar, mas não permanecer. Te prometo que, quando esse momento chegar, não vou te responder que isso seja coisa de adulto &#8211; porque, na realidade, se trata de assunto de crianças. Crianças que <em>adulteceram </em>de uma forma não tão boa, mas que possuem certos consensos já definidos, outros nem tanto. Mas de todos eles, Bebela, você sempre foi o mais poderoso e o melhor. Tá certo que você tem ainda quatro meses, mas é importante que isso fique registrado aqui.</p>



<p>Na última quarta-feira, nós fomos a um parque caminhar e percebi o quanto você me fez desacelerar. No tempo em que eu normalmente faria duas ou três voltas em torno do lago, caminhamos uma só. Eu com dor nos joelhos e você apagada no sling. Depois me sentei ao lado da Val &#8211; fique tranquila, eu também não tenho a menor ideia de quem seja &#8211; mas que estava como babá da pequena Manu, linda. Conversamos sobre amamentação, sobre sono, marca de carrinho de bebê. Você, no colo, faz sempre do pai um centro de atenções. Aquela manhã foi incrível, como muitas delas têm sido, mas chega sempre a hora em que é preciso deixar você em casa, seguir. Ali tem nascido em mim uma consciência fulminante em torno da brevidade da vida.</p>



<p>É tão rápido o tempo que tenho contigo, quando ele já passou e eu olho para trás. Ao mesmo tempo, é tão grande estar ao seu lado e sentir que está pertinho. O paradoxo de existir mora no espaço de um abraço, um cheiro e um beijo na testa. Está tudo ali. A isso, damos o nome de amor &#8211; o que um astrólogo me disse uma vez ser o sentido dessa minha vida. Vejo você cochilando, gritando, dando gargalhadas com sua avó. Penso em todos os sacrifícios que faria por você, e quando isso acontece, filha &#8211; não se sinta mal &#8211; não consigo deixar de lembrar das crianças de Cabul e da Síria. É sempre quase certo que te verei novamente, e posso sentir nesse meu coração de pai o que significou aos outros pais &#8211; dos quais você também deveria ser um pouco filha &#8211; abrir mão de seus bebês porque tinham medo da violência e da morte…</p>



<p>Resgatei um antigo sonho de viver até os meus 117 anos, mas pode ser que as coisas não aconteçam assim. Vai que a existência capota em uma ou outra curva do caminho, e que o pai precisa ir antes da hora, seja de fatalidade, de doença ou de resistência a um governo autoritário que ameaça destruir o Brasil? Tudo isso pode acontecer, Isabela, e nós devemos ser fortes.</p>



<p>É provável que a vida te reserve oportunidades incríveis de estudo, de trabalho, de afetividades. Cercamos você de muitas coisas boas, para que possa crescer e escolher com o máximo de consciência. Mas o pai te pede que não se esqueça das crianças de Cabul do seu tempo, ou das afogadas no desamparo de existir sem colo. O mundo do pai, e também o de seus avós, faliu. Nos esquecemos como se faz literatura e coragem. Compramos tudo. Dormimos mal. Já não se sonha. Deixo a você a herança da boa revolta que espero poder viver contigo.</p>



<p>A arte existe, para lembrar de novo Camus, &#8211; você vai ouvir muito falar dele &#8211; em algum lugar entre o sofrimento e a beleza. Este texto, por exemplo, deveria ser uma crônica, da qual te fiz uma carta. No espaço entre te sentir aconchegada no meu colo e tudo que queima ao redor, brota uma flor. Manterei ela viva, meu amor, para que você faça dela sua arte de existir, vivendo e defendendo o direito que todos têm de também viver.</p>



<p>Amo você.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="853" height="853" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=853%2C853&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13649 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?w=853&amp;ssl=1 853w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/45587-vinicius-lara.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w" sizes="(max-width: 853px) 100vw, 853px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Vinícius Lara&nbsp;</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo.</p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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		<title>MESMAS COISAS MUITAS OUTRAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Talisson Melo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Tálisson Melo</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>“Qual é o mesmo que me aproxima do outro?”</em></p>



<p>hoje, essa pergunta me parece um tanto ingênua, ou mesmo otimista. tende às aproximações quando há tantos afastamentos, segregações. mas, nos idos de 2015, essa questão motivou uma busca compartilhada entre mim e minha melhor amiga, a artista-pesquisadora Carolina Cerqueira.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="950" height="602" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=950%2C602" alt="" class="wp-image-17765" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?w=1304&amp;ssl=1 1304w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=300%2C190&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=1024%2C649&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=768%2C486&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0a083-mso_introd_olhomagico.png?resize=152%2C96&amp;ssl=1 152w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[página do livro Mesmo Sol Outro (2018), de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>naquele ano, o trabalho que ela vinha desenvolvendo em fotografia e gravura, insistindo em imiscuir seu autorretrato com retratos de tantas outras pessoas negras de África e da diáspora, foi premiado pela mostra JF Foto15. Carol me chamou para pensarmos juntos a expografia que contextualizaria a apresentação de sua série de montagens – <strong>Dessemelhança Construída</strong>, exibida no Centro Cultural Bernardo Mascarenhas e na Galeria Guaçuí, ambos espaços em Juiz de Fora-MG.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="950" height="634" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=950%2C634" alt="" class="wp-image-17766" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?w=1280&amp;ssl=1 1280w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9f0de-dessemelhanca_carol_jffoto15.jpg?resize=144%2C96&amp;ssl=1 144w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[montagem da exposição Dessemelhança Construída, de Carolina Cerqueira, na mostra JF Foto15, CCBM, Juiz de Fora, 2015. Foto: Tamires Orlando]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>uma série de outras perguntas foram se desdobrando ao longo de nossas conversas sobre identidades e relações raciais no Brasil e além. estabelecemos o começo de um contínuo diálogo aberto entre um homem branco e uma mulher negra, ambos de uma classe média urbana, com ensino superior completo. e formulamos isso enquanto um projeto para viabilizar nossos deslocamentos a outras partes, nos aproximar de outros contextos, nos testar, jogar nossos corpos no mundo e observar os efeitos dos encontros. atravessar o atlântico até terras africanas, e encarar os (des)encontros possíveis de nosso retorno a este aqui que segue se transformando, ao passo que também nos transformávamos&#8230; a pergunta se traduziu em projeto artístico que culminaria num livro-digital-de-viagens-de-artistas, partindo de materiais visuais coletados no curso de um trânsito traçado entre Juiz de Fora, Bias Fortes e a comunidade quilombola de Colônia do Paiol (em Minas), as cidades do Rio de Janeiro e Salvador, e capital de Angola, Luanda. o título proposto sintetizava a pergunta motriz inicial: <strong>Mesmo Sol Outro</strong>.</p>



<p>selecionado pelo Rumos Itaú Cultural em 2016, recebemos meios materiais de dar início à execução do projeto, à jornada. incluímos outros pontos de estadia – como as cidades de Cachoeira e São Félix no Recôncavo, que nos atraiu a um mergulho por alguns dias após o corpo pesar pelas ruas da capital baiana; e Johanesburgo, na África do Sul, onde Carolina passava a residir para realizar seu mestrado em artes na <em>Wits University</em>. última parada, onde nos despedimos, ela ficou e eu voltei para o Rio. seguimos trabalhando na concatenação dos materiais coletados, das ideias de narração, montagem, edição, etc. e isso se deu totalmente online, nos fazendo descobrir os caminhos de conversas criativas, afetivas e frutíferas por esse meio de contato em distância.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="1267" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=950%2C1267" alt="" class="wp-image-17768" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?w=1350&amp;ssl=1 1350w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=225%2C300&amp;ssl=1 225w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=768%2C1024&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=1152%2C1536&amp;ssl=1 1152w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/0ac2d-capa.jpg?resize=72%2C96&amp;ssl=1 72w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[imagem de capa do livro Mesmo Sol Outro (2018), de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>março de 2018 marcou um ponto do processo mais amplo que se tornou Mesmo Sol Outro, pois foi quando o ‘resultado’ de nosso trabalho pela primeira vez foi a público – na forma de um pdf que <a href="https://www.itaucultural.org.br/livro-digital-mesmo-sol-outro-e-disponibilizado-na-internet">pode ser baixado gratuitamente</a>. </p>



<p>de lá para cá, exibimos alguns experimentos de ensaio para uma versão impressa do projeto, que ainda se encontra em vias de formulação, maturando um pouco as ideias e aguardando um retorno dos encontros mais táteis com as coisas e as outras pessoas, rodas de conversa e aulas em rodas&#8230; também apresentamos o livro na Cidade do México e em Nova York, e participamos de uma maratona com editores de livros de artista no Fórum Latino-Americano de Fotografia, em São Paulo, meados de 2019, e fomos sedimentando o projeto através de conversações.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7878f-a-beira-do-tempo-visualizacao.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-17770" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[cartaz de divulgação da exposição “à beira do tempo”, Galeria Guaçuí (2019), com curadoria de Matheus de Simone, na qual foi exposta uma versão impressa do “apêndice” de Mesmo Sol Outro (2018), de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9df9c-apendicea5.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-17771" data-recalc-dims="1" /><figcaption>[folha de rosto do apêndice do livro Mesmo Sol Outro, de Carolina Cerqueira e Tálisson Melo, exposto em “à beira do tempo”]</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>diante da pandemia, decidimos desdobrar nossas conversas sobre os temas que acabamos circunscrevendo ao longo do Mesmo Sol Outro: identidade e relações raciais no Brasil, memória-patrimônio cultural e artístico africano-brasileiro, racismo, branquitude, desigualdades e segregação. passamos então a convidar pessoas para <a href="https://www.youtube.com/channel/UCmle5eFgvnE0td71LRnYhuw"><strong>“uma conversa sobre coisas que são muitas”</strong></a> – série de lives iniciada no fim de 2020 e programadas em ritmo quase-quinzenal ao longo de 2021, que podem ser assistidas, inclusive em retrospecto, através de nosso canal no Youtube, <strong>Mesmo Sol Outro redes</strong>.</p>



<p>até o último ‘episódio’, 14º da série – no qual recebemos as professoras-pesquisadoras Carolina Bezerra e Eliane Bettocchi para ampliar o entendimento acerca de <strong>pedagogias decoloniais</strong> –, colocamos de isca para as conversas os seguintes temas, partindo das falas de convidades que se dispuseram a contribuir com nosso processo/projeto:</p>



<p>1 – <strong>fotolivros? livrobjetos? livros-de-artista?</strong> ǀ c/ Ana Paula Vitório (jornalista, roteirista e pesquisadora, doutora em literatura pela PUC-Rio) e Leila de Souza Teixeira (escritora, mestre em artes pela UnB);</p>



<p>2 – <strong>curadoria de exposições: processo criativo, montagem fílmica, escrita da história da arte</strong> ǀ c/ Igor Simões (curador, historiador de arte e professor na UERGS) e Matheus de Simone (artista visual e curador, mestre em artes pela UFJF);</p>



<p>3 – <strong>contextos do livro</strong> ǀ c/ Larissa Andrioli (revisora e pesquisadora, mestre em literatura pela PUC-Rio) e Nathanael Araújo (antropólogo com doutorado pela Unicamp);</p>



<p>4 – <strong>movimento negro, luta, história da arte e direito</strong> ǀ c/ Lorraine Mendes (historiadora de arte, curadora, professora-pesquisadora, doutoranda na EBA/UFRJ) e Waleska Batista (advogada e pesquisadora, doutoranda na U.P. Mackenzie);</p>



<p>5 – <strong>sons em fluxos</strong> ǀ c/ Rosa Couto (cantora, compositora e historiadora, doutora pela UNESP) e Matheus de Oliveira (antropólogo, doutorando no Museu Nacional/UFRJ);</p>



<p>6 – <strong>arte, educação e questão indígena</strong> ǀ c/ Andrya Kiga (ativista trans e indígena da etnia Boe-Bororo, graduanda em pedagogia na UCDB) e Way Puri (ator, educador e pesquisador mestre em artes cênicas pela UNIRIO);</p>



<p>7 – <strong>linguagens artísticas contemporâneas</strong> ǀ c/ Luanda (artista visual, doutora pela EBA/UFRJ) e Paula Duarte (artista visual e jornalista, graduanda no IAD/UFJF);</p>



<p>8 – <strong>cinema: narrativas, representações e projeções</strong> ǀ c/ Kariny Martins (diretora, roteirista, curadora, doutoranda em cinema na UFF) e Michel Carvalho (roteirista, professor e antropólogo, doutorando no IFCS/UFRJ);</p>



<p>9 – <strong>coleções e curadorias em transcontinentes</strong> ǀ c/ Danilo Lovisi (historiador de arte e curador no Espace Culturel Gacha de Paris) e Nina Vincent (antropóloga do IPHAN/PB);</p>



<p>10 – <strong>lugares que insistem em não desaparecer</strong> ǀ c/ Analu Pita (diretora e jornalista, mestre em artes pela UFJF) e Paulo Stuart (poeta e arquiteto, mestre em arquitetura pela UFMG);</p>



<p>11 – <strong>contextos do corpo</strong> ǀ c/ Washington da Selva (artista visual, doutorando em artes no IAD/UFJF) e Vermelho (criatura poética, mestre em artes pela UFJF);</p>



<p>12 – <strong>arte contemporânea preta</strong> ǀ c/ Carolina Gracindo (artista, mestranda em estética no MAC/USP) e Karina Pereira (artista e educadora, licenciada em artes pela UFJF);</p>



<p>13 – <strong>performance e corporeidades</strong> ǀ c/ leo (artista, mestra pela Universidade de Artes de Berlim) e Matheusa Moreira (artista, graduanda na licenciatura em artes visuais da UFES).</p>



<p>a programação de conversas continua ainda neste ano e pode ser acompanhada através de nossas páginas no Instagram ( <a href="https://www.instagram.com/mesmo_sol_outro/">@mesmo_sol_outro</a> ) e no Facebook (<a href="https://www.facebook.com/mesmosoloutro">mesmosoloutro</a>). além disso, Mesmo Sol Outro integra outros eventos no Brasil e no exterior ainda em 2021: com a primeira exibição de uma versão em vídeo no 30º encontro online da Associação Nacional de Pesquisa em Artes Plásticas (ANPAP), e como mote para uma mesa redonda na conferência do SECAC sediada na School of Art and Visual Studies da University of Kentucky, em Lexington, EUA.</p>



<p>mais informações sobre Mesmo Sol Outro, acesse: <a href="https://linktr.ee/mesmosoloutro">https://linktr.ee/mesmosoloutro</a></p>



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<p><strong>Tálisson Melo</strong> é Artista-pesquisador. Doutorando em Sociologia e Antropologia na UFRJ. Publicou o livro &#8220;Mesmo Sol Outro&#8221; com Carolina Cerqueira (2018). Atualmente trabalha em projetos curatoriais-editoriais e de pesquisa em Montevidéu, Juiz de Fora e Nova York – emaranhando artes visuais, poesia, design, arquitetura, cinema, história e ciências sociais. @talisson.melo @mesmosoloutro</p>
</div></div>



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		<title>ALGUÉM DISSE &#8216;IDENTITARISMO&#8217;?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-left">Hoje em dia, ser acusado de algum tipo de adesão à “ideologia identitarista” é um risco que assombra o campo político. O uso de pechas como “identitário” para desmascarar ou mesmo ofender alguns movimentos se tornou aquela peça a ser evitada a todo custo – porém, praticada com veemência pelos mais diferentes espectros, indo dos argumentos mais ultrapassados até aos mais intelectualmente sofisticados. Algumas das posturas anti-identitárias podem ser distinguidas conforme suas respectivas retóricas:</p>



<p>&#8211; Numa versão mais conservadora, se ouve que “os identitários estão, sabidamente, na esquerda pós-moderna, que se vale de uma renovação da categoria dos oprimidos para privilegiar grupos minoritários como negros, mulheres, gays, trans, e toda sorte de “vitimistas” que querem subverter as leis naturais, com suas hierarquias imutáveis”;</p>



<p>&#8211; Do ponto de vista da esquerda mais radical, “o verdadeiro problema de nossa história é que ela já é, tradicionalmente, identitária. Mas o sucesso de sua dissimulação foi tomar-se como não-identitária, e por isso, mais poderosa, pois aposta no uso de sua suposta transparência para criar e aprisionar os minoritários em imagens”;</p>



<p>&#8211; No meio acadêmico marxista, a identidade é “mais um produto da indústria cultural. No mercado liberal, a própria ideia de espectros identitários, contextualizações e individualização é utilizado como esvaziamento de lutas verdadeiramente cruciais, criando uma nova moda, evidentemente oportuna para a lógica do consumo no qual “diversidade cultural” significa ampliação do mercado”;</p>



<p>&#8211; Por fim, aqueles mais alertados aos problemas da identificação no campo psicanalítico acabam por lembrar que “toda organização em torno da identidade só pode agir ao modo irracional de uma psicologia de massas¹. A identidade pode existir como ficção simbólico-imaginária, mas o excesso de positividade contida na afirmação da identidade leva, inevitavelmente, à alienação e ao totalitarismo”.</p>



<p>É claro que, tendo em vista a discussão que gostaria de suscitar, bastará termos alguns argumentos como esses em mente, uma vez que o propósito aqui será mostrar &#8211; de um modo um tanto quanto modesto &#8211; o quanto a pecha do <em>identitarismo</em> pode sustentar um desvio ante o horizonte emancipatório; quando a fobia da identidade insiste em imobilizar a crítica.</p>



<p>Quando Lacan fala a respeito da fraternidade, ele diz que ela se baseia num gesto segregador: “na sociedade, tudo o que existe baseia na segregação, e em primeiro lugar, na fraternidade”². Mas o que Lacan quer dizer com isso? É que, para ele, todas as formas de fraternização seriam reconhecidas através daquilo que se nega, e não daquilo que se afirma. Em outras palavras, é como se a questão não fosse a gestão do centro, mas o controle das margens, daquilo que não pode entrar. É quando você segrega algo, quando você mantém um objeto de fora, que uma fraternidade passa a subsistir.</p>



<p>Agora voltemos à questão do <em>identitarismo</em> de maneira mais objetiva: mas qual seria a palavra final sobre o “mal identitário” entre nós? Bem, se trouxe aqui dois insights psicanalíticos, é porque acredito que tais intervenções retratam o limite de nossa abordagem para o problema emancipatório atual. Pois, por um momento, parecemos estar diante de uma luta em que a própria crítica cria os limites imaginários de sua intervenção. Esse é o atestado de que o próprio liberalismo cooptou a gramática política com sua gestão do medo: medo de ser radical, medo de ser fisgado pelas armadilhas suntuosas da identidade.</p>



<p>Mas se há algo a aprender com tais limites, é a lição de que precisamos operar com as condições negativas de nossas identidades; operar com vinculações estratégicas, de modo que a afirmação de uma condição não crie necessariamente o objeto que represente o excesso do sujeito, elencando um grupo segregado. Aqui a própria psicanálise deve reconhecer sua modesta posição política: <em>não simplesmente interpretando o desejo das organizações, militâncias e coletivos a partir de sua psicologia de massas e de segregação, mas permitir-se castrada, operando junto com outras experiências de coletividade</em>.</p>



<p>Por fim, poderíamos dizer que o problema atual, não é o risco eminente de ser identitário. Nosso maior risco é cegar para o fato de que <em>uma identidade nunca representa uma totalidade</em>. Ela é uma bricolagem que sempre se desmente, e não há quem saiba melhor disso do que aqueles a quem são impostos tais destinos, a saber, os racializados, os expatriados, a comunidade LGBTQIA+&#8230; Contudo, aqui, a afirmação da identidade possuirá outro sentido: quando movimentos como esses se afirmam a partir da identidade, não é que seu destino foi reforçado; mas, pelo contrário, uma lacuna para a enunciação do sujeito se abriu. A identidade, aqui, opera como contradição produtiva: ela passa a cumprir uma função paródica, uma sátira. Leiamos Fanon!</p>



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<p><strong>NOTAS</strong></p>



<p>¹FREUD, S. Psicologia das massas e análise do Eu (1921).</p>



<p>²LACAN, J. O seminário – livro 17: o avesso da psicanálise (1969/1970).</p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 22 anos e é um escritor não-autorizado. Faz graduação em Psicologia e nutre interesse por Psicanálise, Cultura e Religião.</p>
</div></div>



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		<title>A TRAGÉDIA NA FICÇÃO CLARICIANA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Saul Gomes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A ficção de Clarice Lispector apresenta um caráter autenticamente trágico, cujos traços a identificam com a tragédia moderna, caracterizada por ser acidental, conforme expõe Raymond Williams: “As tragédias vivas do nosso próprio mundo não podem de maneira nenhuma ser assimiladas, ou seja, ser vistas à luz daqueles sentidos de antes; elas são, por mais dignas de pena que sejam, acidentais”<a href="#_ftn1">[1]</a>. &nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O cunho acidental da tragédia contemporânea se manifesta ao se perceber que ela se baseia, com efeito, em acidentes do cotidiano, sem estabelecer laços com a temática ostentosa da tragédia antiga. À imprevisibilidade do cotidiano – às vicissitudes que se configuram no dia a dia – volta-se a tragédia moderna.</p>



<p>Embora o tema clariciano se enquadre no âmbito da tragédia moderna, a ficção de Clarice comporta elementos formais próprios da tragédia grega<a href="#_ftn2">[2]</a>. Dentre esses elementos, destaque-se, primeiramente, a hýbris, inerente à personalidade de Joana, conforme observa Benedito Nunes: “Obscuro desejo e força instintiva represada, sede de liberdade e de expressão, a inquietação de que falamos domina a personagem [Joana]: é a sua <strong>hybris</strong>, sua vocação para o excesso e a desmesura”<a href="#_ftn3">[3]</a>.</p>



<p>A noção de desmesura caracteriza a protagonista de <strong>Perto do coração selvagem</strong><a href="#_ftn4">[4]</a>, envolvendo-a numa constante atitude de insolência: “Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave [&#8230;]” (<strong>Perto do coração selvagem</strong>, p. 201).</p>



<p>A hýbris é a falha trágica, o gesto por meio do qual o herói exprime toda a sua insolência. Josse Fares enumera os três elementos estruturais da tragédia grega: “[&#8230;] a <strong>hamartia</strong>, o pecado; a <strong>hýbris</strong>, a insolência ou ultrapassagem do <strong>métron</strong>; e a <strong>moira</strong>, o fado”<a href="#_ftn5">[5]</a>.</p>



<p>Presencia-se a hýbris, também, no ato criminoso de Martim, personagem principal de <strong>A maçã no escuro</strong><a href="#_ftn6">[6]</a>: “E abolira o próprio crime. Tendo certa prática de culpa, sabia viver com ela sem ser incomodado. [&#8230;] aquele homem se tornara um duro herói: ele representava a si mesmo. A culpa não o atingia mais” (<strong>A maçã no escuro</strong>, p. 35-36). Evidencia-se, assim, a falta de remorso da qual se imbui Martim, assemelhando-se, nessa perspectiva, a Raskólnikov: “[&#8230;] poderia arrepender-se, como antes, pelas ações estúpidas e odiosas que o tinham levado a prisão. Mas agora, no isolamento do cativeiro, refletia de novo sobre o seu procedimento passado e já não o achava tão odioso nem tão estúpido”<a href="#_ftn7">[7]</a>.</p>



<p>As hýbris cometidas por Joana e por Martim não lhes custam a morte ou algum tipo de autoflagelação, moiras frequentes na tragédia grega. Nesse sentido, a ficção clariciana assume outro aspecto da tragédia moderna, na qual o pior fado é o de viver, o de existir em meio às contingências da vida e à inexorabilidade da morte. Tal situação aflige a protagonista de <strong>Perto do coração selvagem</strong>, como se nota neste excerto: “[&#8230;] eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto o meu esgotamento em cada minuto que passa” (<strong>Perto do coração selvagem</strong>, p. 198-199).&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Na tragédia moderna, a destruição do herói se renovou, manifestando-se por intermédio de outras formas, que não a morte. Raymond Williams verifica: “O herói é sem dúvida destruído em quase todas as tragédias, mas esse não é, normalmente, o fim da ação. Uma nova distribuição de forças, físicas ou espirituais, comumente sucede à morte”<a href="#_ftn8">[8]</a>.</p>



<p>Essa reconcepção da destruição do herói se baseia num conceito moderno de existência, focalizado constantemente pela literatura e estabelecido pela Filosofia Existencial, para a qual existir é a mais pungente experiência do Homem, assinalada pela casualidade e pela angústia de se situar num estágio anterior à morte. Tal conceito justifica, de certa forma, o caráter epifânico da morte de Macabéa (personagem principal de <strong>A hora da estrela</strong>), cuja moira, ao invés de consistir numa punição, constitui-se uma salvação: “Então – ali deitada – teve uma úmida felicidade suprema, pois ela nascera para o abraço da morte. A morte que é nesta história o meu personagem predileto” (<strong>A hora da estrela</strong>, p. 84).&nbsp;</p>



<p>O perfil trágico de personagens como Martim e Macabéa estabelece um vínculo entre a ficção de Clarice e o estilo dramático de Eurípedes, para quem a fonte da calamidade humana é a preponderância da paixão sobre a razão. Assinala Kitto: “[Eurípedes] Está a apresentar-nos a sua concepção trágica de que as paixões e a ausência de razão às quais a humanidade está sujeita, são o seu maior flagelo”<a href="#_ftn9">[9]</a>. A ficcionista também fundamenta nessa concepção o sentido trágico de vários enredos seus, a exemplo daqueles que regem os contos integrantes de <strong>A via crucis do corpo</strong><a href="#_ftn10">[10]</a>.</p>



<p>Eurípedes condensou sua concepção trágica em Medeia, personagem que, a fim de se vingar de seu marido (Jasão, que a abandonara, para desposar Creúsa), assassina os próprios filhos: “Ai! morrerem-me assim!&#8230; eles!&#8230; Morrerem! / E às minhas mãos!&#8230; Horrendo pensamento!&#8230; / A quem mais do que a mim tais golpes ferem? / Quem como eu sentirá a dor que intento?”<a href="#_ftn11">[11]</a>.</p>



<p>A persona clariciana cuja passionalidade mais se aproxima daquela intrínseca a Medeia – numa proporção menor – é Leontina, personagem do&nbsp; conto&nbsp; Antes&nbsp; da&nbsp; ponte Rio-Niterói: “A mulher teve ciúmes e enquanto Bastos dormia despejou água fervendo do bico da chaleira dentro do ouvido dele que só teve tempo de dar um urro antes de desmaiar, urro esse que podemos adivinhar que era o pior grito que tinha, grito de bicho” (<strong>A via crucis do corpo</strong>, p. 58).&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O conto supracitado integra uma coletânea na qual o herói trágico é o Homem, sujeito ao domínio de suas paixões. Na denúncia dessa condição humana, baseia-se a tragédia de Eurípedes, consoante declara Kitto: “Eurípedes [&#8230;] vê também que temos em nós, além da razão, emoções não-racionais necessárias, mas que podem degenerar intrometendo-se na nossa razão e trazendo a calamidade”<a href="#_ftn12">[12]</a>.</p>



<p>O cunho trágico da ficção de Clarice incorre, embrionariamente, na ação de seus personagens, seres em constante movimento, à beira de uma resolução que lhes poderá alterar a vida, assim como se observa na tragédia grega. Jean-Pierre Vernant destaca: “[&#8230;] a tragédia apresenta indivíduos em situação de agir; coloca-os na encruzilhada de uma opção com que estão integralmente comprometidos; mostra-os no limiar de uma decisão [&#8230;]”<a href="#_ftn13">[13]</a>.</p>



<p>Dessa maneira, o herói trágico clariciano – a exemplo de Martim – concentra em si a progressão da trama, impulsionada pela decisão que o protagonista tem de tomar. Ao converter o percurso do herói em força motriz de suas narrativas, a escritora instaura um novo laço entre a sua ficção e a tragédia grega. Atente-se à afirmação de Vernant: “Colocado na encruzilhada de uma escolha decisiva, diante de uma opção que comanda todo o desenvolvimento do drama, o herói trágico se delineia comprometido na ação, em face das consequências de seus atos”<a href="#_ftn14">[14]</a>.</p>



<p>A ação do herói trágico apresenta um caráter dual, conforme expõe Vernant: “[&#8230;] de um lado, é deliberar consigo mesmo, pesar o pró e o contra, prever o melhor possível a ordem dos meios e dos fins; de outro, é contar com o desconhecido e incompreensível, aventurar num terreno que nos é inacessível [&#8230;]”<a href="#_ftn15">[15]</a>.</p>



<p>Assim, a tragédia grega antecipara, sob a ótica mítica, a noção de desamparo, sobre a qual disserta Jean-Paul Sartre, ao qualificar a natureza humana como uma “condição temerosa, incerta e desamparada”<a href="#_ftn16">[16]</a>. Desse ponto de vista, frisa-se a eventualidade à qual o Homem está sujeito, na qual se pode imprimir o cunho de fatalidade, como no caso de Édipo: “Não sei como poderia defrontar-me, no Hades, com meu pai, ou com minha infeliz mãe, porque cometi contra eles crimes que nem a forca poderia punir! E o semblante de meus filhos, nascidos como foram, como me seria possível contemplar? Não!”<a href="#_ftn17">[17]</a>.</p>



<p>Sobre o filho de Jocasta, pesa toda a casualidade inerente ao existir, sublimada em seu aspecto fatal, como se descreve na fala do Corifeu: “[&#8230;] em que torrente de desgraças [Édipo] se precipitou! Assim, não consideremos feliz nenhum ser humano, enquanto ele não tiver atingido, sem sofrer os golpes da fatalidade, o termo de sua vida”<a href="#_ftn18">[18]</a>.</p>



<p>Contra essa natureza desamparada do Homem, insurge-se a narradora de <strong>Água viva</strong><a href="#_ftn19">[19]</a>: “Eu é que sou doente da condição humana. Eu me revolto: não quero mais ser gente. [&#8230;] Quem tem piedade de nós? Somos uns abandonados? uns entregues ao desespero? Não, tem que haver um consolo possível. Juro: tem que haver” (<strong>Água viva</strong>, p. 84-85). Tal insurgência conduz a narradora à hýbris: “Recuso-me contra ‘Deus’. Vamos não morrer como desafio? Não vou morrer, ouviu, Deus? Não tenho coragem, ouviu? Não me mate, ouviu? Porque é uma infâmia nascer para morrer não se sabe quando nem onde” (Op. cit., p. 85-86).</p>



<p>No trecho anterior, sobreleva-se a oposição entre os planos humano e divino, fundamental para a ação trágica, segundo Vernant: “Para que haja ação trágica, é preciso que se tenha formado a noção de uma natureza humana que tem seus caracteres próprios e que, em consequência, os planos humano e divino sejam bastante distintos para oporem-se [&#8230;]”<a href="#_ftn20">[20]</a>. Essa oposição designa o aspecto místico da tragédia, notório, particularmente, no âmbito da culpabilidade trágica, a qual, na concepção teórica de Vernant, constitui-se “num constante confronto entre a antiga concepção religiosa da falta, polução ligada a toda uma raça, transmitindo-se inexoravelmente de geração em geração sob a forma de uma átē, de uma demência enviada pelos deuses, e a concepção nova, posta em ação no direito [&#8230;].<a href="#_ftn21">[21]</a></p>



<p>Nessa perspectiva, percebe-se que a tragédia une o sentido religioso da culpa à ação mítica do herói, ser que se aventura, que existe em meio ao desconhecido e ao imprevisível. Faz-se nítido, portanto, que na tragédia coexistem o místico e o mítico, coexistência que se inscreve na ficção clariciana.</p>



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<p><strong>NOTAS</strong></p>



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> WILLIAMS, Raymond. <strong>Tragédia moderna</strong>. Tradução de Betina Bischof. São Paulo: Cosac &amp; Naify, 2002, p. 76.</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Ressalte-se que tais elementos, na ficção clariciana, nem sempre se mostram interligados ou dispostos numa sequência rigorosa, como na tragédia grega. A essa, são intrínsecos devido ao tipo de ação trágica que denotam, e não exatamente em função do lugar que ocupam na ordem sequencial da trama.</p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> NUNES, Benedito. <strong>O drama da linguagem</strong>:uma leitura de Clarice Lispector. São Paulo: Ática, 1989, p. 20.</p>



<p><a href="#_ftnref4">[4]</a> LISPECTOR, Clarice. <strong>Perto do coração selvagem</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.</p>



<p><a href="#_ftnref5">[5]</a> FARES, Josse. <em>O Entorno da serpente</em>: um discurso do imaginário tecido em verbo e imagens. In: NUNES, Paulo; FARES, Josse. <strong>Pedras de encantaria</strong>. Belém: UNAMA, 2001, p. 21.</p>



<p><a href="#_ftnref6">[6]</a> LISPECTOR, Clarice. <strong>A maçã no escuro</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.</p>



<p><a href="#_ftnref7">[7]</a> DOSTOIÉVSKI, Fiódor. <strong>Crime e castigo</strong>. Tradução de Luiz Cláudio de Castro. Rio de Janeiro / São Paulo: Ediouro / Publifolha, 2003, p. 560.</p>



<p><a href="#_ftnref8">[8]</a> Williams, op. cit., p. 80.</p>



<p><a href="#_ftnref9">[9]</a> KITTO, H. D. F. <strong>A tragédia grega</strong>: estudo literário (Volume II). Tradução de José Manuel Coutinho e Castro. Coimbra: Arménio Amado, 1972, p. 26.</p>



<p><a href="#_ftnref10">[10]</a> LISPECTOR, Clarice. <strong>A via crucis do corpo</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.</p>



<p><a href="#_ftnref11">[11]</a> EURÍPEDES. <em>Medeia</em>. In: <strong>Tragédias</strong>. São Paulo: Edições Cultura, 1943, p. 196-197.</p>



<p><a href="#_ftnref12">[12]</a> Kitto, op. cit., p. 23.</p>



<p><a href="#_ftnref13">[13]</a> VERNANT, Jean-Pierre; VIDAL-NAQUET, Pierre. <strong>Mito e tragédia na Grécia antiga. </strong>Tradução de Anna Lia A. de Almeida Prado et al. São Paulo: Perspectiva, 1999, p. 21.</p>



<p><a href="#_ftnref14">[14]</a> Idem, p. 49.</p>



<p><a href="#_ftnref15">[15]</a> Idem, p. 21.</p>



<p><a href="#_ftnref16">[16]</a> SARTRE, Jean-Paul. <strong>O existencialismo é um humanismo</strong>. Tradução de Vergílio Ferreira. São Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 25.</p>



<p><a href="#_ftnref17">[17]</a> SÓFOCLES. <strong>Rei Édipo</strong>. Tradução de J. B. Mello e Souza. São Paulo: Ediouro, s/d, p. 62-63.</p>



<p><a href="#_ftnref18">[18]</a> Idem, p. 66.</p>



<p><a href="#_ftnref19">[19]</a> LISPECTOR, Clarice. <strong>Água viva</strong>. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.</p>



<p><a href="#_ftnref20">[20]</a> Vernant; Vidal-Naquet. op. cit., p. 23.</p>



<p><a href="#_ftnref21">[21]</a> Idem, p. 50.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-17786 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?w=3096&amp;ssl=1 3096w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=1536%2C1536&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=2048%2C2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=980%2C980&amp;ssl=1 980w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?w=1900&amp;ssl=1 1900w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/37ff3-saul-gomes-jr.png?w=2850&amp;ssl=1 2850w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Saul Cabral Gomes Jr</strong>.<strong> </strong>nasceu em Belém (PA) e graduou-se em Letras (Licenciatura em Português e Inglês) pela Universidade da Amazônia (2001). Possui mestrado (2006) e doutorado (2011) em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo. Em 1998, obteve o 4º lugar no Concurso Nacional de Contos &#8220;Cidade de Araçatuba&#8221;. A produção do ensaio <em>O romance regionalista: do panorama ao perfil</em> lhe valeu o prêmio &#8220;Carlos Nascimento&#8221;, concedido pela Academia Paraense de Letras em 2002. Em 2020, publicou o livro <em>Entre a História e o discurso: olhares sobre a obra de Gladstone Chaves de Melo</em>.</p>
</div></div>



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<p></p>
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		<title>CONCURSO CONVIDA FOTÓGRAFOS A COMPARTILHAR TRABALHOS SOBRE O IMPACTO DO COMÉRCIO NA INCLUSÃO</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/29/concurso-convida-fotografos-a-compartilhar-trabalhos-sobre-o-impacto-do-comercio-na-inclusao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">Um concurso<em> da UNCTAD convida fotógrafos em todos os lugares a compartilhar trabalhos que documentem questões de comércio e desenvolvimento.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>O prazo para a submissão é 3 de setembro e as 20 fotografias selecionadas serão exibidas virtualmente na conferência e, se possível, fisicamente em Genebra e Barbados.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>O principal objetivo da iniciativa é ampliar a narrativa visual sobre o comércio e incentivar a inclusão.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>A chamada ocorre no momento em que a agência se prepara para sediar a primeira conferência comercial do mundo em meio à pandemia de COVID-19, a UNCTAD15, que acontecerá de 3 a 7 de outubro, em Barbados.</em></p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<figure class="wp-block-image alignwide"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/brasil.un.org/sites/default/files/styles/large/public/2021-08/unctad.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Legenda: Os fotógrafos podem enviar até três imagens que relacionadas ao tema da conferênciaFoto: © UNCTAD</figcaption></figure>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) abre as inscrições para um um <a href="https://unctad15.org/photo-exhibition">concurso</a> que convida fotógrafos em todos os lugares a compartilhar trabalhos que documentem questões de comércio e desenvolvimento e o impacto dessas trocas. O prazo para a submissão é <strong>3 de setembro</strong> e as 20 fotografias selecionadas serão exibidas virtualmente na conferência e, se possível, fisicamente em Genebra e Barbados.</p>



<p>O tema da exposição é &#8220;Da desigualdade e vulnerabilidade à prosperidade para todos&#8221;, e foi idealizada diante da perspectiva da UNCTAD de sediar a primeira conferência do mundo sobre comércio voltada para a pandemia de COVID-19.&nbsp;</p>



<p>A 15ª conferência quadrienal da UNCTAD, a UNCTAD15, acontecerá online de 3 a 7 de outubro de 2021, e será hospedada em Barbados.</p>



<p>O principal objetivo da iniciativa é ampliar a narrativa visual sobre o comércio e incentivar a inclusão. Os fotógrafos podem enviar até três imagens que relacionadas ao tema da conferência, ou que se enquadrem em pelo menos uma das 10 categorias de áreas de interesse.</p>



<p><a href="https://unctad15.org/photo-exhibition">Acesse aqui</a>&nbsp;para submeter um trabalho.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em <a href="https://brasil.un.org/pt-br/141501-concurso-convida-fotografos-compartilhar-trabalhos-sobre-o-impacto-do-comercio-na-inclusao">Nações Unidas Brasil</a></em> <em>em 24/08/2021 – Atualizado em 24/08/2021.</em></strong></p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="768" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=768%2C768&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13654 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?w=768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas)</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>&nbsp;é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



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<p></p>
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		<title>[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] SAVE AS&#8230;</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/29/exposicao-virtual-save-as/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Estação Canelas]]></category>
		<category><![CDATA[Exposição de arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Estação - Canelas</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-2 wp-block-columns-is-layout-flex">
<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p>“Guardar como&#8230;”, conjunto de duas palavras que se tornaram comuns no mundo ocidental devido à evolução tecnológica. Dispositivos tecnológicos que nos permitem armazenar dados quase de forma infinita, deste modo conseguimos expor, documentar e arquivar dados, quer de interesse pessoal, quer do interesse comum.</p>



<p>De forma a entender o arquivo dentro de um contexto em que vivemos, Paulo Bernardino Bastos (2006) defende que com as novas tecnologias digitais, surgem cada vez mais projetos na Internet na procura de transformações desses locais, ajustados à velocidade contemporânea, na corrida por imagens interpretadas pela sociedade atual.</p>



<p>Com o desenvolvimento tecnológico, o arquivo sofreu grandes alterações, isto porque provocou consideráveis formas de produção e de acesso à informação.</p>



<p>Aplicações tecnológicas utilizados no nosso dia a dia em organizações, públicas e privadas, têm grande influência na gestão documental nos arquivos.</p>



<p>As questões arquivistas estão relacionadas com a organização, conservação e acesso à informação e até à forma de como o material é arquivado, sendo ou não sustentável, para ser consultado no futuro.</p>



<p>Na verdade, o arquivo tem vestígios do passado e isso confirma determinados acontecimentos históricos, mas não existe nenhuma fórmula que defina como esses acontecimentos têm de ser recordados.</p>



<p>Uma admiração pelas práticas arquivísticas através da junção de todos os tipos de arquivos, sendo possível debater vários temas desde a criação à destruição, da crítica à reflexão e das práticas artísticas, colocando em causa a relação de poder com movimentos não institucionalizados de manutenção de objetos, obras, imagens e coleções. </p>



<p>Este tema procura estimular o debate sobre a forma de explorar e mapear as relações entre o arquivo e a produção artística na arte contemporânea, porque tem capacidade de intervir na estética e na política, devido ao seu forte repositório com o passado.</p>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p>“Save as&#8230;”, set of two words that have become common in the western world due to technological evolution. Technological devices that allow us to store data almost infinitely, so we can expose, document and archive data, both of personal interest and of common interest.</p>



<p></p>



<p>In order to understand the archive within the context in which we live, Paulo Bernardino Bastos (2006) argues that with new digital technologies, more and more projects are emerging on the Internet in the search for transformations of these places, adjusted to contemporary speed, in the race for images interpreted by today&#8217;s society.</p>



<p>With technological development, the archive has undergone major changes, because it has caused considerable forms of production and access to information.</p>



<p>Technological applications used in our daily lives in public and private organizations, have great influence on document management in archives.</p>



<p><br>Archival issues relate to the organization, conservation and access to information and even the way in which material is archived, whether sustainable or not, to be consulted in the future.</p>



<p>In fact, the archive has traces of the past and this confirms certain historical events, but there is no formula that defines how these events need to be remembered.</p>



<p><br>An admiration for archival practices through the joining of all types of archives, being possible to discuss various topics from creation to destruction, from criticism to reflection and artistic practices, bringing into question the relationship of power with non-institutionalized movements of maintenance of objects, works, images and collections.</p>



<p>This theme seeks to stimulate the debate on how to explore and map the relations between the archive and artistic production in contemporary art, because it has the capacity to intervene in aesthetics and politics, due to its strong repository with the past.</p>
</div>
</div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:48.94801%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/c848e-20201114_122330-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/c848e-20201114_122330-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/c848e-20201114_122330-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/c848e-20201114_122330-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/c848e-20201114_122330-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 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<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>A exposição &#8216;Save As&#8230;&#8217; ficou aberta à visitação do dia 14 de novembro de 2020 ao dia 31 de janeiro de 2021. Ela foi composta por trabalhos dos artistas Ana Sousa Santos, Dedéia Rocha, Eric Costa, Georgina Kapralow, Ludmila Queirós, Márcia Correia, Mário Afonso, Rita Castanheira, Roberto Otero Gómez e Tiago Margaça, todos da Casa Municipal da Cultura de Estarreja; e Cláudia Brandão, Eamon Foreman, Guilherme Sirtoli, Gustavo Reginato e Veera Rustomji, estes da Estação Canelas. </p>



<p>Uma das principais peças de &#8216;Save As&#8230;&#8217; foi &#8220;Arquivo de Impressões&#8221;, da artista plástica e escultora Ana Sousa Santos.</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:40.57864%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/df7a2-arquivo-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/df7a2-arquivo-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/df7a2-arquivo-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1000 1000w" alt="" data-height="515" data-id="17807" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17807" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d9cc3-arquivo-1.jpg" data-width="1000" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/df7a2-arquivo-1.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/2ab41-arquivo-4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/2ab41-arquivo-4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/2ab41-arquivo-4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1000 1000w" alt="" data-height="513" data-id="17808" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17808" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/db39c-arquivo-4.jpg" data-width="1000" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/2ab41-arquivo-4.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:59.42136%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/caff0-arquivoa4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/caff0-arquivoa4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/caff0-arquivoa4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1000 1000w" alt="" data-height="707" data-id="17809" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17809" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7bb9a-arquivoa4.jpg" data-width="1000" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/caff0-arquivoa4.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p class="has-text-align-center"><em><strong>“Arquivo de Impressões”</strong><br>Caixa em madeira de pinho flandres; Interior peças em parafina, cera de abelha e pigmento,<br>diversos tipos de papeis impressos com beterraba diluída e sal.<br>158cm x 40cm x 25cm (caixa fechada)<br>Condições de apresentação: Caixa aberta<br>2017</em></p>



<p>O “Arquivo de Impressões” surgiu a partir da necessidade de organizar e arquivar todas as experiências feitas de moldes ao corpo, expondo numa caixa inúmeros positivos em cera de abelha, dum lado, e papéis com impressões da pele, noutro. Resulta das sensações que provoca no observador, tornando-se assim, um agente ativo e primordial para que obra esteja completa, procurando pelas sensações mais íntimas.</p>



<p>O corpo como arquivo, nele podemos encontrar todas as informações da impressão da pele, e do que é exterior. É portanto, uma criação completa de recolha de informação, um baú cheio de pequenos estudos.</p>



<p>A pele é o meio.</p>



<p>As medidas da caixa correspondem ao tamanho de uma pessoa, caixa esta dividida em 8 partes iguais.</p>



<p>*Esta obra faz parte de um conjunto, com um vídeo que expõe o processo das impressões da pele, em beterraba diluída.</p>
</div>
</div>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:23% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/24668-estacao-canelas.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14784 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Estação</strong> é um espaço cultural localizado na cidade de Canelas (Portugal), idealizado pela Junta de Freguesia de Canelas e pelo artista plástico Mário Afonso. O espaço tem o intuito de divulgar o trabalho de artistas nacionais e internacionais, de várias áreas artísticas, realizando exposições e oferecendo, à freguesia de Canelas, acesso gratuito a projetos culturais atuais.</p>
</div></div>



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		<title>ENSAIO AO PERTENCIMENTO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Apesar de ter nascido em Juiz de Fora, cresci em outra cidade e só voltei fixamente para meu território de origem na adolescência. Nunca reclamei, porque eu e minha mãe vínhamos mensalmente visitar a família. E por mais que eu amasse o casebre da minha vó, os gatos correndo soltos no quintal, as plantas cheirosas do jardim e as fornadas de broa, me lembro vividamente das ruas. Pegávamos o ônibus ainda vazio e antes de sair do bairro, todos os bancos já estavam ocupados. Os morros e as conversas e o sotaque. Tudo ensaiava casa. </p>



<p>Saltávamos na Getúlio e, enquanto minha mãe resolvia o que precisava, eu me admirava com o tamanho do calçadão da Halfeld, me divertia com as vitrines e fazia perguntas que ela não sabia responder. Íamos a um escritório em um dos prédios na Rio Branco para encontrarmos minha madrinha. Ela nos recebia no corredor e quando os outros funcionários pareciam distraídos, nos levava para o refeitório. Eu comia pão com manteiga e tomava café com leite enquanto ouvia as fofocas das duas. Tudo imitava colo.</p>



<p>Por mais que fôssemos fiéis em nossas visitas mensais e sempre caminhássemos pelos mesmos exatos lugares do centro, eu achava que nunca decoraria a ordem e a localização das galerias; o que, no fim das contas, era mais desejo do que certeza, porque tudo parecia novo e um grandioso mistério. Quando atravessávamos para a São João, o sol queimando os olhos sem arder calor, certamente haveria alguma colega antiga de minha mãe coincidentemente passando. Elas ficavam ali, no meio da rua mesmo, as pessoas desviando, a conversa alegre, eu dançando ao redor. Tudo cutucava saudade. </p>



<p>Quando vim para morar, só me senti plantada no território ao ter firme noção da localização da maioria dos bairros e do mapa das galerias. Andando sozinha pelas primeiras vezes, ainda bem nova, precisava perguntar o caminho para minha mãe. Me dirigia a passadas apressadas, o trajeto decorado ecoando em pensamento e a rua sem nem sequer ter chance de me ver leve da mesma forma que eu era na infância. Tudo ardia reconhecimento.</p>



<p>Depois de bons anos, criamos intimidade, eu e a cidade. Guardamos segredos e memórias, lutas e histórias, decepções e sonhos. Se antes me encantava a arquitetura, hoje me deslumbra a vida dentro dos prédios e os pés percorrendo o calçadão. Caminhando sem compromisso pelas mesmas galerias, plantadas nos mesmos lugares há anos, mas já tão diferentes, faço o movimento similar ao de minha mãe em esbarrar com alguns passados. Encontro amigos que já não são mais e brinco, por alguns minutos de conversa, de imaginar como está esta outra vida que, em outro tempo, era tão encostada na minha. Sinto o abraço e o corpo reconhece no cheiro, o lugar que habitei e me despedi sem saber. Tudo em movimento.</p>



<p>O escritório onde tanto comi pães de sal com manteiga e tomei clandestinos cafés com leite sentada na bancada agora é uma clínica médica. A cidade onde nasci é diferente da cidade onde passeei e a que moro também é outra. São todas chão de tímidas passagens das fases da vida, engenheiras de reencontros em fermentação. Tudo, finalmente, casa.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/73656-fernanda-zeloschi.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14057 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
</div></div>



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		<title>[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] ANCESTRALIDADE EM LINHA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Belízia Moraes</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/08/29/exposicao-virtual-ancestralidade-em-linha/">[EXPOSIÇÃO VIRTUAL] ANCESTRALIDADE EM LINHA</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<p>A minha relação com a costura é de profunda afetividade, pertencimento, história, memórias, ancestralidade. Logo me vem a lembrança dos meus sete, nove anos, sentada à máquina de costura manual e, ao lado, minha avó atentamente me conduzindo, ensinando o ofício da costura. E, acredito que para me deixar mais segura, me contava de como sua mãe, filha de uma africana escravizada na fazenda, lhe ensinava.  De fato já existia essa habilidade no DNA, saberes de uma herança que, enquanto pequena, eu desconhecia. </p>



<p>Dessa forma, diante dessa sociedade,  consulto minhas memórias, olho para frente consciente dessa carga ancestral. Utilizo a Costura na Arte como estratégia feminina de resistência social, política cultural. Desenvolvo meu processo de pesquisa, produção têxtil criativo em tecidos, retalhos, bordados, linhas, pespontos, zigue zague, em costura com máquina e manualmente, utilizando como estratégia feminina as multilinguagens têxteis sustentáveis e estética referente a Cultura Afro, sobretudo no que tange às noções de resistência. </p>
</div>
</div>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:24.99487%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/dd695-20210108_170158-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/dd695-20210108_170158-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/dd695-20210108_170158-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/dd695-20210108_170158-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/dd695-20210108_170158-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 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class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:24.99487%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/7047c-20210112_103802-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/7047c-20210112_103802-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/7047c-20210112_103802-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1200 1200w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/7047c-20210112_103802-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1500 1500w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/7047c-20210112_103802-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1800 1800w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/7047c-20210112_103802-rotated-1.jpg?w=950?strip=info&#038;w=2000 2000w" alt="" data-height="4128" data-id="17825" 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<p>Em um segmento mais artístico formal, desenvolvi a coleção Máscaras Contemporâneas (acima). Feitas com retalhos de tecidos, cada uma das peças possui uma sutil referência às tradicionais máscaras das culturas milenar, sobretudo Africana. Assim, trago um significado místico, um elo com a ancestralidade nos meus trabalhos.</p>



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<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:37.0718%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/ed4c8-thumbnail-25.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/ed4c8-thumbnail-25.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/ed4c8-thumbnail-25.jpg?w=950?strip=info&#038;w=1080 1080w" alt="" data-height="1080" data-id="17833" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17833" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9ad64-thumbnail-25.jpg" data-width="1080" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/ed4c8-thumbnail-25.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8e748-thumbnail-26.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8e748-thumbnail-26.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8e748-thumbnail-26.jpg?w=950?strip=info&#038;w=959 959w" alt="" data-height="959" data-id="17834" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17834" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/d987a-thumbnail-26.jpg" data-width="959" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8e748-thumbnail-26.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/d38fd-thumbnail-27.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/d38fd-thumbnail-27.jpg?w=950?strip=info&#038;w=900 900w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/d38fd-thumbnail-27.jpg?w=950?strip=info&#038;w=960 960w" alt="" data-height="960" data-id="17835" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17835" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/22aef-thumbnail-27.jpg" data-width="960" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/d38fd-thumbnail-27.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:62.9282%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8b652-thumbnail-31.jpg?w=950?strip=info&#038;w=600 600w,https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8b652-thumbnail-31.jpg?w=950?strip=info&#038;w=608 608w" alt="" data-height="1080" data-id="17836" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=17836" data-url="http://revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/624cc-thumbnail-31.jpg" data-width="608" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/08/8b652-thumbnail-31.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



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<p>Em outra produção, desenvolvo o Vestuário Conceitual Sustentável, reutilizando peças jeans descartadas e ressignificando-as, e fazendo o mesmo com os retalhos utilizados na produção de peças criativas e autorais.</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:23% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=950%2C950" alt="" class="wp-image-17840 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?w=1404&amp;ssl=1 1404w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=980%2C980&amp;ssl=1 980w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b5935-belizia-moraes.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong>Belízia Moraes </strong>é graduada em várias áreas das Ciências Humanas, daí sua habilidade na arte. Sua formação como Artista Visual se estabelece em cursos livres e acompanhamentos artísticos no Rio de Janeiro. </p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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		<title>VASSOURAS</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Aug 2021 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 106]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Caio Henrique Borges</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>I’ve still got the scars that the sun didn’t heal </em><br>– Bob Dylan</p>



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<p>I </p>



<p>Era uma noite como as outras. Leandro sentado de baixo do lustre da sala com as luzes acesas &#8211; não só a do cômodo em que ele se encontrava, mas todas as luzes de toda a casa. Tinha acabado sua tarefa de trocar as lâmpadas antes de elas queimarem e agora descansava, sentado no tapete da sala. Olhando ao redor, as paredes e mobília da cor branca, sentia-se mais calmo e preparado para atravessar a noite depois do trabalho concluído. Sem mais o que fazer, Leandro caminha até o quarto e encara o guarda-roupa, calcula se consegue entrar dentro dele. Pensa que sim, tira as pantufas, se senta encolhendo as pernas para dentro do móvel e, então, fecha as portas. Depois de 30 segundos, começa a sentir dor no peito e não consegue mais segurar os gritos.</p>



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<p>II</p>



<p>Com o fim da noite, vem a manhã, e as luzes da casa de Leandro se apagam. A chegado do sol representa a vitória contra a noite, contra o toque da noite, tanto para o mundo quanto para Leandro. Dos seus 42 anos, ele lembra de dormir tranquilo até os 6. Depois disso, começou aquilo que ele chamava de “escuridão total”, hoje conhecida como nictofobia. Para o menino de 6 anos, diagnosticado apenas aos 25, “escuridão total” dava conta de explicar o medo que tinha não só do escuro, mas do que poderia acontecer dentro dele.</p>



<p>Porém, durante a manhã, nada daquilo era lembrado. O que existia era o sol, astro rei, iluminando cada canto da rua para a tranquilidade de Leandro que, finalmente, abria as janelas sabendo que escuridão alguma iria lhe tocar. Café feito, dentes escovados, roupa colocada para o trabalho, luzes acesas, cada coisa organizada para que o retorno para casa não fosse envolto pelo escuro. Seu medo de faltar energia fez com que quatro luzes de emergência fossem instaladas pela casa. Elas eram fracas e espalhavam sombras, mas aliviavam um pouco os tremores causados pela “escuridão total”.</p>



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<p>III</p>



<p>Leandro estava no fim do seu expediente de trabalho e já sentia as mãos suarem em resposta à chegada do fim de tarde. Assim que o relógio atingiu a marca de 18:30, Leandro pegou suas coisas (que já haviam sido organizadas previamente), bateu o ponto e saiu, sem uma palavra de despedida para o escritório.</p>



<p>Dentro do carro, era hora da corrida contra a noite. Morando no centro da cidade, local sempre iluminado, Leandro demorava apenas 15 minutos para chegar em seu apartamento, garantindo alguma luz do dia durante todo o percurso nos fins de tarde do verão. O problema era o inverno, em que escurecia mais cedo e amanhecia mais tarde. Durante a fria estação, ele sempre dirigia com a luz interna do carro acesa, fazendo com que sua visão da rua ficasse um pouco prejudicada; isso, porém, garantia proteção contra as sombras que o cercavam. O abrir do apartamento e o encontro da luz do corredor já acesa era como um grande respiro depois de um tempo debaixo d’água, um alívio quase gozo. A respiração de Leandro começava a normalizar, o suor diminuía e os músculos relaxavam. Deitado no chão, exausto demais para se arrastar até o banheiro, ele sentia a luz banhar seu corpo e até conseguia expressar um sorriso.</p>



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<p>IV</p>



<p>Dos 36 anos convivendo com o medo, Leandro começou a tocá-lo apenas agora. Desesperado pela solidão extrema que dormir com todas as luzes acesas causa ou já disposto a enlouquecer totalmente, a verdade era que, todas as noites, ele entrava em seu guarda-roupa e tentava ficar lá o máximo que conseguisse. Algumas noites eram mais fáceis do que outras. </p>



<p>O foco era a respiração (dica do psiquiatra). O movimento do abdômen ao inspirar e expirar, inspirar e expirar, até que a pressão em seu peito se tornasse forte demais e ele precisasse pular direto para o chão com tremores por todo o corpo. Em outras noites, era como se ele estivesse de volta naquele quarto de vassouras escuro, tentado por uma falsa mão amiga a ir ver o coelho que havia se escondido lá, portador da inocência infantil que é arrancada ao longo do tempo, confiando no rosto humilde do zelador da escola&#8230; apenas para ter a inocência arrancada de uma vez só.</p>



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<p>V</p>



<p>As coisas estavam progredindo. O tempo dentro do guarda-roupa ficava cada vez maior, o trajeto trabalho/casa já não era tão amedrontador e o tempo deitado no chão, recuperando as forças, diminuía. Nesta noite, Leandro pensou que poderia ser a melhor das noites, que conseguiria ficar mais tempo dentro do guarda-roupa e, que se estivesse num espírito desbravador, apagaria a luz de algum dos cômodos em que não estivesse.</p>



<p>Preparou tudo que precisava. Colocou suas roupas brancas, acendeu todas as luzes da casa, descalçou as pantufas, encarou o guarda-roupa. Como se o mundo de Nárnia estivesse do outro lado, ele pensou se não se perderia ali dentro esta noite. Se sua vida não regredia por cada vez mais ele entrar no guarda-roupa, não sair dele.</p>



<p>De cabeça baixa, sentou-se dentro do seu caixão caseiro, puxou uma porta, depois a outra. Começou a respirar lentamente e tentou pensar no seu café da manhã iluminado pelo sol. Perdendo a noção do tempo, Leandro também se perdeu nas memórias de dias ensolarados, nos passeios pelo parque, na feira de domingo, na praia antes do almoço. Cada memória sua ia e voltava num caleidoscópio de passado e desviava os olhares do escuro. Até que nessas andanças imaginárias, ele lembrou dos 6 anos. Lembrou que o dia do quarto de vassouras era um dia ensolarado, que as crianças brincavam no parque, que os pais estavam longe no trabalho e ele, só ele, estava na escuridão sujeito ao toque. O sol abandonou-o nesse dia, não o salvou das trevas e não importava a quantidade de tempo que ele ficasse dentro daquele guarda-roupa, o quanto lutava para enfrentar o medo&#8230; O abandono já tinha acontecido a muito tempo.</p>



<p>Leandro gritou. Gritou o mais alto que pode sem sair do guarda-roupa. Como Edward Munch coberto em trevas, seu grito transfigurou seu rosto e corpo, as lágrimas molhavam seu peito, seus tremores aumentavam e, mesmo assim, Leandro não vinha para a luz. Tremeu lá dentro cada vez mais rápido, mais rápido, mais rápido, mais rápido, até que não tremeu mais. E as lâmpadas ficaram, para sempre, acesas.</p>



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<p><strong><strong><strong>Caio Henrique Borges </strong></strong></strong>tem 22 anos e é acadêmico do curso de Letras Português e suas Respectivas Literaturas na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Fez pesquisas na área de literatura sobre a obra de Veronica Stigger e Caio Fernando Abreu, e também manteve um projeto de escrita ficcional na forma de microcartas no Instagram chamado &#8220;In.Box: Conficcções&#8221;, que se tornou um minicurso de escrita criativa na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).</p>
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