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	<title>Arquivos Ano 003, N 110 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>A PSICANALISE DO HALLOWEEN</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Oct 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Toda cultura suporta uma verdade. Isso não é o mesmo que o dizer antropológico de que o estamento simbólico de uma comunidade deve ser interpretado de acordo com o entendimento de “verdade” localmente pressuposto. Pois a verdade teria a característica de não se confundir com os enunciados a respeito do que é verdadeiro; esta estaria localizada justamente naquilo de mais difundido na cultura popular que aparece como a ficção simbólica tacitamente aceita entre o grupo – algo no nível da enunciação.</p>



<p>Por isso a cultura, e especialmente a “popular”, deve significar (para nós) também um objeto de reflexão. Talvez a aproximação com aquilo em que insistimos em tomar como mero efeito secundário ou desvio com relação ao erudito/pedagógico consista em lidar com os fundamentos do nosso laço social com uma desconfiança reverente. Levar a sério, por exemplo, os rituais e os apegos mais paradoxais que constituem nossa vida social. Que teríamos a dizer, por exemplo, daquelas festividades que combinam oposições que fazem tocar externamente princípios aparentemente intocáveis, como os binômios <em>santidade</em> x <em>pecado</em>, <em>vida</em> x <em>morte</em>, <em>começo</em> x <em>fim</em>?</p>



<p>Na véspera do dia em que se comemora o “<em>halloween</em>” (dia das bruxas ou dos mortos), vemos o rito de sair pelas ruas ou participar de festas à fantasia em busca de doces ser ensejado de forma bastante afetuosa, no esforço de sinalizar uma estética onde os signos do terror são tornados meio que bobinhos ou fingidos. No entanto, essa data comemorativa não é tão boba assim, tampouco banal: ela expõe elementos de ordem traumática de forma lúdica, combinando personagens desde o folclore, estórias tradicionalmente conhecidas ou mesmo do mundo do cinema, como que assumindo sua parte na composição do corpo imaginário da sociedade.</p>



<p>Isso de imediato parece não constituir nenhum problema. Mas desde que pontuemos que a categoria dos monstros, assombrações e presenças aterrorizantes tem alta densidade traumática, deveríamos passar a rever o que essas personagens culturais representam, e qual seria sua ontologia. Na estética e na literatura, o campo conhecido como o da monstruosidade tem matrizes históricas. Os famigerados zumbis, tão consagrados no universo cinematográfico, inclusive, devem sua aparição à uma experiência real: um jornalista americano em expedição no Haiti, na procura de relatar um tipo de feitiçaria que supostamente fazia cadáveres voltarem a andar, é levado a testemunhar com os próprios olhos aquela presença; só que, para sua estranha surpresa, ele é esclarecido por um antropólogo da região de que aquela presença se tratava, na verdade, de haitianos explorados em troca de entorpecentes e sob o efeito de drogas, que lhes dava uma aparência fisicamente anormal<a href="#_ftn1">[1]</a>. Essa informação constitui um importante indício sobre o que era percebido primeiramente como algo terrífico ou sobrenatural, pois naquela experiência a diferença radical é posta sob a distinção do comum e do estranho, do eu e do outro que me assusta, me apavora. O zumbi, neste caso, assume a nomeação do que surge como alteridade para mim &#8211; um outro que é marcado seja pela diferença étnica, racial, de gênero, e por aí vai.</p>



<p>Ao seguir a aposta freudiana em torno do que há de universalmente estranho nos seres humanos, Mladen Dolar<a href="#_ftn2">[2]</a> aponta que “há uma dimensão específica do estranho que emerge com a modernidade”, uma dimensão que forçaria uma época presunçosamente desencantada a lidar com as aparições que não coincidem com a figura do humano no seio de seu humanismo. Como se justamente pelo fato de a modernidade ter abolido o lugar do inumano, este teria voltado com mais força sob a forma espectral de assombrações místicas nos porões da ficção e na despretensiosa cultura popular. Só que mesmo os zumbis teriam a função de figurar momentos da realidade muito mais acessíveis através da fantasia, onde aquilo que deveria estar “morto” ressurge com ainda mais perseverança, na medida em que não é simplesmente abatido pela morte, pois já é um <em>morto-vivo</em>.</p>



<p>Não faltariam exemplos de como o terror aparece de forma ficcional para nós: fantasmas, lobisomens, frankensteins&#8230; todas essas espécies do estranho compõem o limite de nosso senso de humanidade, pelo menos a princípio. Mas elas também podem ser tomadas como metáforas de um estado de coisas que acaba por nos afligir no campo social, como nos lembra o realismo capitalista estudado por Mark Fisher<a href="#_ftn3">[3]</a>, para quem o castelo dos vampiros, representante das categorias de aparente vítima, encoberta pelo desejo neoliberal de dropar a energia dos movimentos emancipatórios em favor dos interesses do grande Outro burguês, deve ser imediatamente abandonado&#8230; Se tomarmos o Halloween como esse momento da realidade expresso pela cultura popular, não perderíamos ao perceber que suas performances, metáforas e figuras dizem muito mais a respeito do modo como socializamos a dimensão do estranho e da alteridade do que gostaríamos. Talvez estejamos na vez de perceber o que Lacan chamara de Real, essa externalidade absoluta que nos impele desde dentro. Pois no <em>Real-loween</em>, as monstruosidades e seus modos de entificação exigem a dignidade de quem quer ser tratado com certa atenção. Com razão, essas exigências poderiam muito bem ser justificadas, já que o cerne das contradições sociais impera precisamente nesse limite entre o humano e o inumano.</p>



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<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Esse relato foi retirado da introdução do livro GONSALVES, R.; PENHA, D. <em>Ensaios sobre mortos-vivos: The Walking Dead e outras metáforas</em>, 2018. Leitura recomendada para algumas perspectivas contemporâneas sobre o tema.</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> DOLAR, M. (1991) <em>“Eu estarei com você em sua noite de núpcias”: Lacan e o estranho.</em></p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> FISHER, M. (2017) <em>Deixando o Castelo Vampiro</em>.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9d309-micael-correia.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14286 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 23 anos e é um escritor não-autorizado. Tem experiência em Psicologia Clínica e se interessa pelas áreas de Psicanálise, Filosofia e cultura popular.</p>
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		<title>A EMANCIPAÇÃO DAS COISAS COMUNS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 Oct 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A discussão a respeito do embate natureza x cultura quase sempre nos aparece como um conflito que impõe a pressuposição destas duas dimensões enquanto unidades tácitas, factualmente externas uma à outra. Sem entrar no mérito do possível avanço sinalizado através das abordagens interacionistas ou mediacionistas, pode-se perceber não apenas como <em>natureza</em> e <em>cultura</em> permanecem solidamente divididas, mas como essa pressuposição afeta a própria percepção que temos da exploração do <em>homem</em> sobre o <em>meio ambiente</em> &#8211; como um agente que inflige um <em>outro</em> <em>externo</em> desmedidamente. Parece conveniente falar nesses termos num momento em que a urgência da questão ecológica não nos permite ser indiferente, uma vez que somos inevitavelmente tangentes &#8211; seja pela culpa, pelo desamparo ou pela negação.</p>



<p>Uma mudança no modo de racionalização que não parece mais hipócrita (mas sim, cínica), aparece inclusive na forma discursiva dos ataques recentes àquilo que há de natural no nosso planeta: alguns anos atrás o discurso do grande empresariado se parecia mais um mascaramento em que as verdadeiras intenções eram relegadas a um subnível, enquanto a enunciação privilegiava a importância dos valores universais e ufanistas – como aquele que diz uma coisa perfumada e faz outra, i. e., age no final das contas conforme seus verdadeiros interesses de classe.</p>



<p>Hoje em dia a cena parece outra: não é mais necessário mascarar nada, pois os sujeitos agem conforme aquilo que, cinicamente, enunciam: “realmente as causas ambientais são importantes, porém, refrear nosso ritmo de produção não é mais possível. Só podemos tomar pequenas medidas pontuais”. Medidas que são bem exemplificadas por aqueles casos em que a empresa incorpora a crítica contra seu impacto ambiental disponibilizando meios de você contribuir com a causa ambiental através do próprio consumo interno à loja. Racionalidades cínicas<a href="#_ftn1">[1]</a>.</p>



<p>Como estamos acostumados a afirmar, a forma social do capitalismo avançado mantém ligações inegáveis com a disforia ambiental que nos cerca. Mas às vezes, dizer que existe uma relação entre isso e aquilo não explica muito. Afinal, desde que os sujeitos se relacionam com normas eles o fazem das maneiras mais distintas. Seria o caso de apontarmos elementos para uma mudança na posição subjetiva no interior de nossas formas sociais, ou melhor dizendo, um descentramento que nos reposicione ante a um problema normalmente dado como irresolvível.</p>



<p>Poderíamos nos interrogar de outro modo a respeito daquilo que está em jogo em situações como essa. Em vez de dizermos quais relações estão presentes nessa dinâmica, podemos propor a questão sobre <em>que tipo de relação está ausente quando as forças produtivas homem x natureza estão em ferrenha desigualdade</em>. Aliás, lembremos que se é verdade que o paradigma cultura x natureza ainda possui força perlocutória em nossa práxis, também é verdade que ela tem condicionado a ideia de que tudo se trata da ação de um sobre o outro, num modelo colonizador. É claro que tal noção não se constitui fundamentalmente como um erro de percepção, mas a chave de compreensão aqui pode ser acoplada à uma outra ainda mais virulenta. Pois <em>não é que natureza e cultura/sociedade se opõem numa polarização estanque, mas a própria definição de natureza/cultura já é uma produção psíquica, ou seja, ela já é uma ficção imaginária que exterioriza uma alteridade como sendo algo que nos olha de fora</em>. Na verdade, se podemos falar de natureza num certo sentido conceitual, é porque ela já é uma abstração da alteridade que nos cinde por dentro, o que é o mesmo que afirmar que a natureza é aquilo que age como corpo estranho em nós mesmos, nosso <em>não-eu</em> cultural.</p>



<p>Nesse sentido, vale reafirmar em tom materialista que a natureza depõe nossa humanidade – em um sentido bastante estrito. Ela, enquanto corpo estranho, acaba por anunciar que a divisão estável que nos define enquanto humanos tem suportes “frágeis”. Seria mais adequado reconhecermos tal ponto de inadequação como algo que nos permite romper com àquilo que chamávamos de <em>humano</em>.</p>



<p>Essa questão ainda nos levaria a reconhecer a ausência de uma categoria muito adequada para a realização de uma revolução em nossa estrutura social. Antes, veja como parece um debate muito pungente a venda da região Amazônica à produtores estrangeiros, por exemplo. A violência da mera existência desse debate, porém, tem raízes mais profundas: não se trata apenas da ameaça da venda de uma propriedade nacional, mas o fato de imaginarmos tal região como sendo uma “propriedade” já é a consumação daquilo que parecíamos nos prevenir. Porque seria equivalente a dizer que não existem mais espaços considerados <em>comuns</em>, e essa é a ausência que nos violenta atualmente. Se as relações de posse e propriedade definem as únicas formas de vida possíveis, é porque tudo aquilo que poderia ser chamado de comum já não existe mais para nós. Pois<em> o comum não é uma propriedade compartilhada. <strong>O comum é a abolição da propriedade</strong></em>. Desta forma, faz sentido falar em uma emancipação das coisas comuns. Emancipar não somente das mãos de um certo sistema, mas também das lógicas que a subjugam. Vale assumir, portanto, que isso implica a destituição de um paradigma humano que já não representa mais nosso estado de coisas, se é que um dia representou&#8230; não mais sustentar o jugo, mas rompê-lo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Ver mais sobre o cinismo como figura da racionalidade contemporânea em SAFATLE, Vladimir (2008) Cinismo e falência da crítica.</p>



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<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 23 anos e é um escritor não-autorizado. Tem experiência em Psicologia Clínica e se interessa pelas áreas de Psicanálise, Filosofia e cultura popular.</p>
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		<title>EQUINÓCIO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Carol Cadinelli</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Menos famosos que os tão celebrados solstícios, os equinócios são os únicos dois dias do ano em que o dia e a noite têm exatamente a mesma duração; o eixo de rotação da Terra fica paralelo ao do Sol, o que faz com que os dois hemisférios do planeta sejam iluminados igualmente. Essa supravalorização dos equinócios pode ser abordada enquanto metáfora para se discutir muita coisa: a política, as relações sociais, a estrutura capitalista&#8230; mas, como sou eu, e como o dia é hoje, quero falar sobre bissexualidades, mesmo.  </p>



<p>O dia 23 de setembro marca, anualmente, o Equinócio de Primavera para os territórios do Sul &#8211; e apesar de esse não ser o motivo da escolha da data (Freud explica), há de se convir que é um tanto poético que a Celebração Bissexual caia bem neste dia, em que celebramos o florescer pós inverno; em que noite e dia, Norte e Sul, ficam em pé de igualdade, em todos os 180 graus de latitude do planeta. Celebramos a nossa fluidez, a nossa completude, a nossa compreensão da diversidade e da multiplicidade justo no dia em que a natureza provê luz e calor em equilíbrio a todos os territórios e pessoas sem distinção.  </p>



<p>A noção real do que é a bissexualidade dialoga muito com isso. Ainda que leigos argumentem (até hoje!), com base numa etimologia rasa, que a bissexualidade é binária, transfóbica, excludente de identidades fluidas ou não binárias de gênero&#8230;  a verdade é que, assim como a luz solar, que toca os 180 graus de latitude por exatas doze horas no equinócio, a bissexualidade também toca todos os graus do espectro de gênero, se dando ao direito de primaverar, veranizar, outonar e invernar a cada vivência.  Ora; o Sol não precisa (nem deve) escolher iluminar apenas Norte, ou apenas Sul, ou apenas alguns graus entre os polos. Bem. Nós também não. </p>



<p>A noção real do que é a bissexualidade também dialoga muito com essas mudanças de estações, que variam de acordo com o deslocamento natural do corpo celeste nos eixos de movimento. A Terra, em sua rotação, não está indecisa nem passando por uma fase. Bem. Nós também não.</p>



<p>Bissexualidade é luta, é enfrentamento, é transgressão, é rompimento com tudo o que é compulsório na nossa vivência social. Ser bissexual é ser capaz de negar as imposições sociais limitantes no que diz respeito a quem e como devemos amar, considerando os constructos sociais de gênero e sexualidade em sua qualidade de construção &#8211; e, consequentemente, em sua possibilidade de desconstrução e mudança; não enquanto atributo fixo restritivo das identidades.</p>



<p> Cito, aqui, o recém publicado <a href="https://www.frentebissexualbrasileira.org/manifesto-bissexual-brasileiro">Manifesto Bissexual Brasileiro</a>: &#8220;E por isso lutamos. Contra a vergonha que nos impõem, contra o ódio que nos separa, contra o apagamento que nos fere. Lutamos por orgulho, respeito e visibilidade. Lutamos pelas nossas vidas. E continuaremos vencendo, pois a luta bissexual, assim como nós, não tem fronteiras nem conhece limites.&#8221;</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Carol Cadinelli</strong>&nbsp;</strong></strong></strong></strong>é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama. </p>
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		<title>UM PASSEIO ECOLÓGICO PELA IDEOLOGIA DO FIM</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Micael Correia</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em><em>O acaso fornece o chão para fantasias estéticas aterrorizantes</em></em></p>



<p class="has-text-align-right">&#8211; <em><em>Franco Berardi</em></em></p>



<p>O lugar-comum no uso do termo “ideologia” – isso no âmbito das redes sociais e na discussão mais pública &#8211; tem portado pelo menos dois sentidos anversos: o primeiro diz que é possível falar em algo como “multiplicidades ideológicas”, como se cada um possuísse seu edifício ideológico, sua montagem discursiva da realidade social; já o segundo tem caráter mais terrorífico ou <em>pós-ideológico</em>: ‘ideológico’ seria tudo aquilo que corrompe a ‘real’ economia das coisas para atender à interesses perversos e irracionais de seus proponentes; nossa chance então seria mantermos distância dessa <em>Coisa </em>ideológica diante de nós. Teríamos razões para dizer que essa própria forma de apresentar o campo da ideologia &#8211; restrito a um diagnóstico improvisado &#8211; possui desde já seu fundo ideológico. Mas por que isso?</p>



<p>O exemplo oportuno para designar o que prediquei como “anverso” é uma conhecida análise feita por Claude Lévi-Strauss¹ sobre os modos de organização numa aldeia indígena na América do Sul: os habitantes da aldeia foram separados em dois grupos e pediu-se que os indivíduos representassem em desenho a planta dessa aldeia. O experimento resultou em duas respostas diferentes: o membro de um grupo retratou tal planta como uma montagem habitacional em círculos ao redor de um terreno central; por outro lado, a outra resposta representava a aldeia como dividida em dois subgrupos de ajuntamentos, separados por uma fronteira imaginária. A análise de Lévi-Strauss aqui é certeira, pois, para ele, a verdadeira lição não é a constatação de desvios esquemáticos com relação a uma planta real, empiricamente demonstrável; nem mesmo a variedade de interpretações que perpassam a imaginação espacial. A sacada levi-straussiana é apontar <em>a constante traumática que atravessa uma construção pretensamente totalizante da realidade</em>. Há uma tensão que, em ambos casos, faz cindir o campo social por dentro, ratificando a diferença. (Ora, essa tensão pode mostrar como as duas noções de ideologia do início são, na verdade, dois lados de uma mesma moeda: enquanto uma aposta na “relatividade ideológica”, a outra estanca a diferença, exteriorizando o equívoco pro outro lado da fronteira.)</p>



<p>Esse experimento antropológico nos incita a pegar de empréstimo uma conceituação de ideologia bastante apropriada para este ensaio – pois (<em>spoiler alert!</em>) vamos aproveitar e ser conduzidos a uma reflexão <em>ecossocial</em>, digamos assim. É Louis Althusser quem irá formular um conceito de ideologia com cunho extremamente <em>espaçológico </em>ao descrevê-la como a <em>representação imaginária da relação do sujeito com suas condições reais de existência</em>. Althusser a define como quem, ao denotar um sentido ideológico, o faz na mesma dimensão daquilo que chamamos de fantasia (no sentido psicanalítico), isto é, a posição que presumimos ocupar diante do Outro; nossa resposta à pergunta “qual o meu papel no desejo do Outro?”.</p>



<p>Com essa formulação althusseriana, podemos dizer que se quisermos ter uma noção apropriada do sentido ideológico, devemos antes nos perguntar “como nos percebemos com relação à realidade social?”, quais são as visualizações que são tomadas como <em>possíveis</em> ou <em>impossíveis</em>, ou mesmo, o que esperarmos de nós diante dos problemas que nos circundam?</p>



<p>Toda essa introdução nos traz a uma questão aparentemente menos controversa, mas cheia de armadilhas. É de conhecimento geral que o atual estágio de “desenvolvimento humano” é marcado por uma profunda crise ambiental: aquecimento global, escassez de recursos naturais, catástrofes ecológicas, e por aí vai. Mais propriamente no caso da América do Sul, essa ameaça é composta de forças políticas que descaradamente competem pelo desmatamento da Amazônia em prol da irrefreada produção. Mas, ao mesmo tempo que somos todos tentados a recusar a tragédia do “fim da espécie” ou a defesa ecológica da vida na Terra, repudiando atos de auto-destruição, algo ainda nos parece impenetrável. É como se houvesse um nível acima do estrutural/sistêmico da dinâmica social – a natureza. Afinal, como reverter os impactos de uma força que parece não se reverter, uma vez que o mercado como ‘mantra intocável’ se tornou uma coisa automatizada, além da nossa própria capacidade de mediação? De repente, a escala macro dos acontecimentos – a camada de ozônio – se encontra interligada com nossos pequenos hábitos alimentícios &#8211; de forma infinistésima, na escala micro; e tudo vira uma questão de escala, de como se enxergar no meio desse espectro de tendências catastróficas, na maioria das vezes. É tendo fenômeno como esse em vista que um autor como Fredric Jameson pode notar que cerca de 30 anos atrás, apesar de já reconhecida a problemática ecológica face ao modo de produção capitalista, algo ainda podia ser notado no horizonte de transformação como possibilidade de abertura, ou uma novidade que viesse a aparecer. Atualmente, o clima é outro: não acreditamos que algo possa mudar, o capitalismo simplesmente se tornou uma força imparável e a noção de propriedade um Ente natural. Essa não seria a constatação de que não conseguimos representar num mapa cognitivo² nada além das abstrações impessoais de que nada mais pode ser feito? Será que o sumiço de categorias tão elementares como o comum, o indeterminado, o inexistente, ficarão para o passado, como resíduos do que já não pode ser mais? E se essa não for nossa resignação ideológica mais profunda &#8211; a de que nossa própria imaginação é incapaz de conceber condições de existência para fora do fatalismo?</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p>¹LEVI-STRAUSS, C. (1958) <em>Antropologia Estrutural</em>.</p>



<p>²Ver mais sobre “mapeamento cognitivo” em Jameson, F. <em>Mapeamento cognitivo</em>, 1988.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9d309-micael-correia.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-14286 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Micael Correia&nbsp;</strong></strong></strong>tem 23 anos e é um escritor não-autorizado. Tem experiência em Psicologia Clínica e se interessa pelas áreas de Psicanálise, Filosofia e cultura popular.</p>
</div></div>



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		<title>ANCESTRALIDADE, POTÊNCIA, EXPANSÃO&#8230;</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Micael Correia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Eliza Metzker</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8230;identidade, expressão, resistência, liberdade.</p>



<p>Esses são alguns dos muitos substantivos que podem ser usados para falar sobre André Medina. Da cidade de Teixeira de Freitas (BA), 25 anos, menino gay preto, os rumos desse excelente artista seguem expandindo horizontes e suas fotografias registram histórias que transcendem o momento presente a olho nu.</p>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:50.05196%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/cdb7b-andrmedia.jpg?w=950?strip=info&#038;w=320 320w" alt="" data-height="480" data-id="18309" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=18309" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/09085-andrmedia.jpg" data-width="320" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/cdb7b-andrmedia.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:49.94804%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/07c2f-andrmedia2.jpg?w=950?strip=info&#038;w=320 320w" alt="" data-height="481" data-id="18310" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=18310" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/6a328-andrmedia2.jpg" data-width="320" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/07c2f-andrmedia2.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



<p>Narrativas traduzidas em produções audiovisuais, performances potentes de afirmação identitária, enfoque em produções musicais de artistas negros. Uma junção rica e perfeita de suas duas paixões na vida.</p>



<p>Tudo isso se vê nitidamente no lindo e necessário trabalho de André.</p>



<p>E o que se sente?</p>



<p>Empoderamento.</p>



<p>Empoderamento ao passear pelo seu feed no instagram e acompanhar suas produções. Produções que visam negar os estereótipos construídos acerca do povo preto, que exotizam nossos traços, nosso cabelo, nossa cor e até mesmo, nossos sentimentos.</p>



<p>Empoderamento ao receber um convite dele e participar desses momentos tão únicos e marcantes. Se reconhecer e se afirmar. Despertar o poder adormecido e silenciado pela sociedade racista, machista e lgbtfóbica.</p>



<p>Durante séculos, o que nos foi ofertado se resume a apagamento. Não existir, não gritar, não amar e nem merecer ser amado, não ser.</p>



<p>Essa dívida histórica está bem longe de ser quitada. Mas é por meio da arte, que existe “porque a vida não basta”, que se percebe como a representatividade realmente importa! André Medina é referência nesse sentido, ao despertar nosso olhar poético e sensível, bem como a necessidade de apreciação.</p>



<p>Uma pausa em meio ao caos para admirar e refletir sobre suas fotografias e tudo que está por trás delas. Para se enxergar sob suas lentes, regadas de afeto, empatia e muita, muita autoestima.</p>



<p>Mulheres pretas, homens pretos, LGBTQIA+, crianças, famílias, gerações históricas que se repetem com um quê de autenticidade. Conexões são criadas através do fio da negritude. Um elo que se faz presente a cada novo ensaio e se fortalece em nós, por nós, para nós.</p>



<p>Para exemplificar, inspirada em um ensaio recente produzido e fotografado por @and_medinluiz, com a música <em>OUÇA-ME, </em>de Tássia Reis, do qual fiz parte juntamente com a Jéssica Silva (@jeez_z) e Ana Alves Martins (@ana25am), escrevi um poema no dia 25 de julho, Dia da Mulher Negra, Latinoamericana e Caribenha:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Eu me curvo diante das minhas ancestrais<br>E ouço o que elas têm a me dizer<br>Eu me curvo diante das minhas ancestrais<br>E me reconheço como parte de uma imensidão<br>Minhas raízes estão fincadas em solo fértil<br>Ontem, foram outras de mim<br>Hoje, minhas irmãs e eu coexistindo<br>Amanhã, outras virão<br>É no poder do toque das mãos, conexão<br>Da quentura que exala na correria do sangue nas veias históricas potentes<br>E assim, a linhagem continua<br>A herança se mantém<br>E a potência, além.</em></p>



<p class="has-text-align-right"><em>(@liz_metzker)</em></p>



<div class="wp-block-jetpack-tiled-gallery aligncenter is-style-rectangular"><div class="tiled-gallery__gallery"><div class="tiled-gallery__row"><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:49.46736%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/76aea-andrmedia3.jpg?w=950?strip=info&#038;w=406 406w" alt="" data-height="602" data-id="18312" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=18312" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f0649-andrmedia3.jpg" data-width="406" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/76aea-andrmedia3.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div><div class="tiled-gallery__col" style="flex-basis:50.53264%"><figure class="tiled-gallery__item"><img decoding="async" srcset="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/2a295-andrmedia4.jpg?w=950?strip=info&#038;w=412 412w" alt="" data-height="598" data-id="18313" data-link="https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?attachment_id=18313" data-url="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/2fb72-andrmedia4.jpg" data-width="412" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/09/2a295-andrmedia4.jpg?w=950" data-amp-layout="responsive" data-recalc-dims="1" /></figure></div></div></div></div>



<p>Conheçam e acompanhem o trabalho de André Medina nas redes sociais e contribuam na valorização e visibilidade das produções artísticas do extremo sul baiano, um berço riquíssimo de cultura e artistas potentes.</p>



<p>Instagram: @and_medinluiz</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="285" height="285" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c5635-eliza-metzker.png?resize=285%2C285&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-18316 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c5635-eliza-metzker.png?w=285&amp;ssl=1 285w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c5635-eliza-metzker.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/c5635-eliza-metzker.png?resize=96%2C96&amp;ssl=1 96w" sizes="(max-width: 285px) 100vw, 285px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong>Eliza Metzker&nbsp;</strong></strong></strong>é poeta, escritora, slammer, graduanda do Curso de Letras Português. Autora de dois livros não publicados (A Vida por trás do Caos &#8211; 2018) e (Sobrevivências &#8211; 2021/ em andamento), utiliza da sua poesia protesto para denunciar tudo aquilo que fere sua existência e a dos seus. Além disso, aborda sobre o amor preto como cura e os diversos atravessamentos, estereótipos construídos para inferiorizar os traços negros. Encontra na literatura marginal periférica sua válvula de escape, sua maneira de existir no mundo e contar sua própria narrativa. Se encontrou como este corpo feminino negro que sofre, mas que conquista espaços, que também sente e ama.</p>
</div></div>



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		<title>O CAOS CAUSADO PELO EFEITO BORBOLETA</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Amanda Andrade</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando estamos falando em metáforas, em teorias, existem pessoas que acreditam e as que não. Porém quando algo nos diz que um bater de asas de uma borboleta é capaz de causar um caos até no local mais afastado que tiver, é melhor nos cuidarmos.</p>



<p>O efeito borboleta é uma metáfora, fazendo parte da teoria do caos, é como dizer que algo simples e delicado como o bater de asas de uma borboleta é capaz de mudar o curso natural das coisas. E podemos acreditar que esse bater de asas pode ser mais forte do que parece. É como assistir ao filme e ver que o futuro sempre é modificado quando algo do passado acontece diferente, é como dizer que o que estou escrevendo agora possa ter uma mudança na vida de alguém, ou na minha própria.</p>



<p>Uma das coisas que percebo são pessoas agindo de uma forma sem se preocupar, sem acreditarem nas consequências, sem terem medo delas. E isso vai da crença de cada um, do que cada um quer para sua vida. Como um toque indesejado afeta sua vítima em diversos fatores, e quando falamos do seu agressor? O que acontece com ele? O que deveria acontecer com ele? E o que vai acontecer se decidirmos contar para alguém? Se acreditarmos nesse caos, toda ação deve ter uma reação, em muitos casos é difícil nós conseguirmos forças para causar isso, mas quando temos o poder, quando conseguirmos descobrir que nós temos a força, nós podemos transformar nossos futuros, nós podemos tentar mudar o percurso da nossa vida, não temos o controle de tudo, e nunca teremos, existem forças muito mais poderosas que as nossas, mas algumas nunca irão falhar.</p>



<p>Cuidem da natureza, cuidem das pessoas, dos animais. O mundo gira, de uma forma que foge ao nosso controle, nós podemos escolher o que queremos para a nossa vida, eu estou aqui escrevendo porque passei por muita coisa, e cheguei até aqui, hoje eu quero escrever, quero estar aqui. Algumas coisas fogem do nosso poder, e em muitos casos isso inclui outro fator, uma tragédia, um acidente, algo causado por outra pessoa. </p>



<p>Se pensarmos que toda ação tem uma reação, deveríamos ter mais cuidado com o que fazemos, em todos os sentidos, se machucarmos uma pessoa, se não cuidarmos da natureza, qual será nosso fim? Qual será o resultado desse caos? E porque deveríamos nos preocupar? Porque as coisas podem mudar, esse caos pode ser maior do que imaginamos, e se eu decidir contar tudo o que me passou? Tudo o que me fizeram? O caos será grande, em partes será para mim também.</p>



<p>Eu gostaria de salvar o mundo, infelizmente eu não consigo sozinha, eu gostaria de encontrar pessoas que pensam assim. Eu acredito que se juntarmos as forças do nosso bater de asas, poderíamos causar um efeito que mudaria o percurso de tudo, que poderia transformar as coisas como são, salvar animais, salvar pessoas, crianças, mulheres. A natureza tem uma força capaz de nos salvar ou nos destruir. E se a nossa sina for pegar cada ser, cada borboleta, cada folha, cada fruta, salvá-los e nos salvar também? Unirmos todas as nossas forças e sermos capazes de coisas grandiosas, de mudarmos todo o percurso da terra e das nossas espécies?</p>



<p>Sei que nossa força pode ser maior do que acreditamos, quando unidas, e espero que quando formos bater nossas asas, que seja para ajudar, para salvar, para fazer o bem para algo ou para alguém, e que essa seja a nossa sina, e que possamos aproveitá-la.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Amanda Andrade </strong></strong></strong></strong>é estudante de turismo e de administração. Amante da arte e da literatura, planeja ir mais a fundo nessa área e publicar alguns projetos.</p>
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		<title>[PODCAST] Arte e Gastronomia</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[Trama Podcast]]></category>
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		<category><![CDATA[pessoas medíocres]]></category>
		<category><![CDATA[PodCast]]></category>
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		<category><![CDATA[redes sociais]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  ARTEcast Bodoque</p>
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<p>Sejam bem-vindas e bem-vindos ao nosso podcast!</p>



<p>No episódio de hoje o Kariston e o Fred batem um papo super descontraído sobre as múltiplas relações entre a arte e o alimento, passando pela gastronomia, pela representação e até mesmo pela dinâmica social junto à mesa.</p>



<p>Siga o nosso ARTECAST através do perfil da Trama (tramabodoque) no Instagram, da Bodoque (artebodoque) e aproveite para seguir o Kariston (karistonfm) e o Fred (fredslopes), nossos dois hosts de respeito!</p>



<p>Então já sabe, coloque os fones de ouvido e boa audição!</p>



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<p>Ouça no Spotify:</p>



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<p><strong><strong>O ARTECAST Bodoque</strong></strong> é um canal de aprofundamento das discussões levantas aqui na revista Trama. Nosso objetivo é fomentar o pensamento crítico e a valorização do conhecimento da arte e da cultura como ferramentas capazes de promover mudanças de olhar.</p>
</div></div>



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		<title>PREVENIR VIOLÊNCIA DE GÊNERO DEVE SER PRIORIDADE EM EMERGÊNCIAS HUMANITÁRIAS</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas na pandemia]]></category>
		<category><![CDATA[ONU Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>Em evento paralelo à Assembleia Geral (UNGA), oficiais da ONU se reuniram para discutir a urgência da defesa das mulheres e meninas contra violência de gênero em contextos humanitários incertos.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>Seja conflitos, mudanças climáticas, deslocamento forçado, fome e insegurança, ou a pandemia, todos esses fatores aumentam as vulnerabilidades de meninas e mulheres. Neste sentido, surge um apelo por ação.&nbsp;</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>Foi o que destacou a diretora executiva do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Natalia Kanem, ao revelar a questão de violência baseada no gênero como uma das prioridades da agência, que destinará 43% do financiamento humanitário à organizações nacionais e locais de mulheres.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>A notícia foi bem recebida, visto que, embora mulheres sejam geralmente as primeiras a sofrerem e agirem contra atrocidades em momentos de crise, muitas vezes o papel crítico e essencial das organizações femininas locais é negligenciado.</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>Os representantes de outras agências da ONU também presentes na reunião, destacaram as múltiplas barreiras enfrentadas por mulheres e meninas inseridas em conjunturas de crise, desde o pouco investimento até a falta de divulgação de informações sobre serviços destinado a elas.</em></p>



<figure class="wp-block-image alignwide"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/brasil.un.org/sites/default/files/styles/large/public/2021-09/image1170x530cropped%20%2835%29.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="mulher com marcas de violência no braço" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Funcionários da ONU dizem que a violência de gênero é uma “pandemia sombria”, oculta sob a COVID-19<br>Foto: © PNUD</figcaption></figure>



<p><a href="https://news.un.org/en/story/2021/09/1101012">Altos funcionários da ONU</a>&nbsp;se reuniram paralelamente à 76ª Assembleia Geral na quinta-feira (24), para lançar um forte apelo à ação para erradicar a violência baseada no gênero (VBG), em meio a um aumento no deslocamento forçado e outras emergências humanitárias em todo o mundo.</p>



<p>A violência de gênero inclui atos que infligem danos físicos, sexuais ou mentais &#8211; ou outras formas de sofrimento, coerção e limites às liberdades pessoais &#8211; e tem &#8220;consequências de longo prazo na saúde sexual, física e psicológica das pessoas sobreviventes&#8221;, de acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).&nbsp;</p>



<p>Esses casos estão sendo impulsionados cada vez mais por conflitos, mudanças climáticas, fome e insegurança, aumentando as vulnerabilidades de meninas e mulheres.&nbsp;</p>



<p><strong>‘Vontade de agir’ &#8211;</strong>&nbsp;A diretora executiva do UNFPA, Natalia Kanem, disse na reunião intitulada ‘Localizando a VBG em crises humanitárias’<em>,</em>&nbsp;que paz, justiça e dignidade são “direitos inerentes de cada mulher e menina”.</p>



<p>Kanem descreveu o projeto do Fundo para 2021-2025 como “claro e ambicioso”, que reflete uma visão compartilhada e ressalta a necessidade de criar novos caminhos para garantir esses direitos.&nbsp;</p>



<p>A diretora do Fundo, também enfatizou a necessidade de responsabilidade “perante nós mesmos e uns com os outros”, e reforçou seu mandato à frente da agência líder da ONU sobre o assunto. “O UNFPA está comprometido em permanecer forte”, afirmou.&nbsp;</p>



<p>Ressaltando a vontade da agência em atuar no tema, ela destacou também a importância de colocar as vozes das mulheres &#8220;no centro&#8221; das atividades.&nbsp;</p>



<p>“Agora mais do que nunca, elas precisam de nós”, insistiu Kanem, que dedicará 43% do financiamento humanitário do UNFPA a organizações de mulheres nacionais e locais.&nbsp;</p>



<p><strong>Lembre do Afeganistão &#8211;</strong>&nbsp;O coordenador do Escritório das Nações Unidas de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), Martin Griffiths, chamou atenção para a situação preocupante de mulheres e meninas em conjunturas incertas ao destacar que o Afeganistão é “um importante lembrete da vulnerabilidade primária de mulheres e meninas em crises”.&nbsp;</p>



<p>O especialista do OCHA reforçou o papel vital das comunidades locais lideradas por mulheres, destacando que elas atuam como as primeiras a responder à crise.&nbsp;</p>



<p>Mencionando uma recente viagem à Etiópia, onde ouviu relatos em primeira mão sobre os traumas sofridos por mulheres na região em conflito de Tigray, Griffiths relatou que foram as comunidades locais as que primeiro responderam às atrocidades. Para ele, isto ressalta a &#8220;importância absoluta&#8221; de ouvir e proteger mulheres e meninas, e também de “proteger as comunidades locais para que façam o que naturalmente desejam”.&nbsp;</p>



<p>No entanto, lamentou o chefe da ação humanitária da ONU, a proteção das mulheres é uma das partes menos financiadas do programa humanitário.</p>



<p><strong>Divulgando informações&nbsp;</strong>&#8211; A diretora executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), Henrietta Fore, alertou que, para cumprir “a ambiciosa chamada à ação”, é importante divulgar para as meninas e mulheres em campo os serviços disponíveis. “Isso não fica nada claro”, lamentou a chefe do UNICEF.</p>



<p>Fore fez referência ao relatório do UNICEF “<a href="https://rdsh-hq.un.org/RDWeb/Pages/en-US/Default.aspxhttps:/voiceamplified.org/report-summary/"><em>We Must Do Better”</em></a><em>,</em>&nbsp;que fornece uma avaliação feminista global das experiências de mulheres e meninas, e das organizações lideradas por elas, durante a pandemia COVID-19. O relatório destaca que as necessidades das mulheres e meninas são ignoradas ou tratadas como uma reflexão tardia; e que, apesar de estar na linha de frente das crises humanitárias, as mulheres não são levadas suficientemente a sério.</p>



<p>Embora a demanda por serviços de violência baseada no gênero tenha aumentado durante a pandemia, os recursos não aumentaram, lamentou mais uma vez a diretora do UNICEF pedindo maior apoio, inclusive financeiro, para grupos locais de mulheres.</p>



<p><strong>Burocracias que dificultam &#8211;</strong>&nbsp;Combater a VBG também é uma prioridade importante para a Agência de Refugiados da ONU (ACNUR), de acordo com o alto-comissário da agência, Filippo Grandi. Ele destacou que em situações de deslocamentos forçados há uma janela de oportunidade para que essas violações ocorram.</p>



<p>Grandi reconheceu que durante crises humanitárias, como todos estão se movendo rapidamente, muitas vezes o papel crítico das organizações femininas locais é negligenciado.</p>



<p>A principal autoridade do ACNUR afirmou que fornecer recursos “substantivos, flexíveis, diretos e rápidos” para organizações lideradas por mulheres e sediadas em comunidades sem burocracia indevida é “uma das formas mais importantes” de empoderá-las. Ele, no entanto, admitiu que “este é um apelo difícil”, já que o financiamento humanitário segue a tendência de ser burocratizado.&nbsp;</p>



<p>Clique&nbsp;<a href="https://media.un.org/en/asset/k1c/k1c3jbwfgs">aqui&nbsp;</a>para assistir a reunião na íntegra (em inglês).</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em&nbsp;<a href="https://brasil.un.org/pt-br/145928-prevenir-violencia-de-genero-deve-ser-prioridade-em-emergencias-humanitarias">Nações Unidas Brasil</a></em>&nbsp;<em>em 24/09/2021 – Atualizado em 24/09/2021.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="768" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=768%2C768&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13654 size-full" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?w=768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/3a58a-onu-brasil.png?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w" sizes="(max-width: 768px) 100vw, 768px" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas)</strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>&nbsp;é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



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		<title>PELE CORTADA COM LÂMINA DE APONTADOR</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Ada Medeiros]]></category>
		<category><![CDATA[Análise Curatorial]]></category>
		<category><![CDATA[crítica de arte]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Victoria Abdalla]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Wudson Marcos</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center has-text-color has-background" style="background-color:#d80606;color:#ffffff"><strong>ALERTA DE GATILHO: SUICÍDIO. Caso você esteja precisando de ajuda, busque o Centro de Valorização da Vida através do telefone 188 ou do site cvv.org.br </strong></p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Toque piano com os vinte dedos quebrados. Por favor, não ache absurda essa sugestão. Aprendi que, independente da sua enfermidade (temporária ou definitiva), é possível fazer tudo o que precisa. Pelo menos é o que dizem. Por isso, quando eu dizia que tinha uma dor imensa na minha alma, meu pai dizia que, mesmo assim, era possível caminhar até o ponto e pegar um ônibus cheio de gente, pra ir pra escola.</p>



<p>O gesso, cheio de assinaturas coloridas do pessoal da sala, deixava muito evidente que o braço da Clarisse a estava impossibilitando de executar suas funções, mesmo as mais simples, como escrever. Estávamos estudando o filósofo René Descartes e tínhamos que escrever pelo menos quinze linhas sobre o que havíamos aprendido na aula anterior. A professora deixou Clarisse fazer isso oralmente. As duas foram pra fora da sala e uns cinco minutos depois voltaram.</p>



<p>Um pessoal, como sempre, estava esperando alguém terminar pra poder copiar. Reproduziam basicamente o mesmo conteúdo do colega, mas com palavras diferentes, claro. Eles reclamaram dizendo que ela poderia escrever com a outra mão, mesmo tendo visto ela fracassar miseravelmente nessa tentativa. Mas a maioria da sala, pelo menos aqueles que se pronunciaram, disse que deveríamos nos colocar no lugar dela.</p>



<p>Imagine se você estivesse com sua mão quebrada e sua letra fosse totalmente ilegível quando usasse a outra mão. Algum gênio pode dizer: “Ah&#8230;mas tem pessoas sem os dois braços que conseguem fazer pinturas lindíssimas”. Sim, tem mesmo. Também tem gente que cai do sexto andar e não morre. Quais são as chances?</p>



<p>Descartes dizia que não podemos confiar em nossos sentidos, pois eles nos enganam. Por exemplo: você vê alguém na esquina e pensa ser um amigo seu, aí você grita o nome dele. Quando a pessoa te olha diretamente você percebe que não é o seu amigo, é um total desconhecido. Meu Deus! Isso dá uma vergonha! Ou quando alguém te liga e pede pra você adivinhar quem é, aí você tenta reconhecer a voz que fala com você. Quando a gente erra é muito chato. A pessoa pode dizer dramaticamente: “nossa, você não reconhece minha voz, blá, blá, blá&#8230;”</p>



<p>Eu poderia falar sobre os outros sentidos. Mas vou direto à minha parte preferida desse tema. Este texto que você está lendo agora, você pode não estar lendo. Você pode não estar no lugar que pensa estar neste momento. Em muitos dos nossos sonhos, acreditamos estar na vida real. Por isso ficamos aliviados ao acordar e não mais estar pelado no meio da quadra da escola. Alguém aqui já teve esse pesadelo? Comigo acontecia o seguinte: Eu chego com toda a roupa, normal. Em segundos, minha camiseta sumiu. Daqui a pouco, estou só de cueca no meio do pátio. Então, de repente, estou pelado. Acho que acordar cedo pra ir pra escola só é realmente bom quando se trata de um despertar desse tipo de pesadelo. Podemos também despertar decepcionados ao descobrir que o beijo que parecia tão real, ao ponto de sentir o gosto, nunca aconteceu na realidade.</p>



<p>Mesmo depois de tratarmos sobre essas questões, a maioria não duvidava que a Clarisse tinha quebrado o braço de verdade. O gesso estava ali, eles assinaram nele, sentiram o cheiro da tinta das canetas e, principalmente, lembram do grito ensurdecedor que ela deu quando caiu durante o jogo. Continuavam confiando em seus sentidos.</p>



<p>Ninguém vê o vazio que você sente. Nem você mesmo. Não dá pra ver o vazio. Sobre pessoas que não têm empatia pelo sofrimento evidente de um maltrapilho, fedido e com fome – Como elas terão sensibilidade por um sofrimento que não dá pra captar por nenhum dos sentidos humanos?</p>



<p>Tem uma menina da minha sala que vai sempre de casaco pra escola. Todo mundo sabe que, embaixo das mangas, ela esconde os cortes que faz em si mesma. Alguns, eventualmente, conseguem ver os riscos da lâmina em seu braço. Uns idiotas ainda ficam <em>zuando</em>, dizendo ser modinha ou pra chamar a atenção. E se for? Será que não tem um motivo pelo qual ela, indiretamente, pede socorro? Ninguém se importa se ela está triste todos os dias ou se, por causa da ansiedade, tem dificuldade em todas as provas. Não veem esse sofrimento. Só vão enxergar quando ela tiver se matado. Aí vão postar discursos nas redes sociais. Bando de hipócritas! Quando o professor de Geografia, por causa de uma crise dela, “perdeu” cinco minutos da revisão para a prova, a maioria ficou reclamando.</p>



<p>Sabem do que mais? Se ela fosse gostosa, iam tentar ajudá-la. Mas a maioria faria isso com a intenção de pegar ela depois da consolação. Ou talvez queiram usar a desculpa da consolação pra dar uns <em>amassos</em>. Eu não estou falando isso aleatoriamente. Tem gente da sala que já disse que ela é feia demais pra fazer o esforço valer a pena. Bando de egoístas! Até nas atitudes aparentemente boas têm o intuito de satisfazerem apenas seus próprios desejos.</p>



<p>Ela tem três casacos. Pelo menos foi o que eu contei. O que ela mais usa é um preto, com a imagem da <em>Hinata</em>. Eu não falei o nome dela aqui porque ela pediu pra eu não dizer. Quer dizer, ela sabe que escrevi essas coisas, mas não quer que ninguém mais descubra. Ela já é ignorada por um número suficiente de pessoas. Na verdade ela nunca gostou desse lance de descobrir – me refiro às mangas da blusa. Uns babacas tentaram erguer as mangas do casaco pra <em>zuar</em> ela. Sempre me pergunto – Por que o ser humano tem tanto prazer diante do sofrimento alheio? Talvez, depois que ela se matar, vão se sentir culpados. Mas não porque, repentinamente, passarão a amá-la. Mas porque haverá uma cobrança dentro de cada um. Aí vão se incomodar com o peso sobre seus ombros, não com o buraco enorme que ela sempre teve no coração.</p>



<p>Como todo mundo sabe que ela se corta? Bom, eu também me cortava. Desde os 12 anos. Quando eu sentia a lâmina na minha carne e, em seguida, via o sangue escorrendo, era um alívio. Era bom me cortar porque assim eu me sentia mais perto da morte. Há muito tempo eu não queria estar vivo. Um dia, ouviram a menina dos casacos dizer que “a vida é muito pesada”. Alguém disse: “Só não é mais pesada do que você”. Ela então sussurrou no meu ouvido: “Acho que se eu tivesse outro corpo, teria pessoas que se importam comigo. Ou, pelo menos, fingiriam que se importam”.</p>



<p>Lá em casa, depois que meus pais descobriram meus <em>mini suicídios</em>, eles não falavam em outra coisa além de “automutilação”. Você sabia que automutilação não é só se cortar? Um dos vários outros métodos é usar um elástico como pulseira. Aí você estica e deixa ele bater no seu pulso. Faça isso continuamente, então sentirá o efeito da sequência dos golpes do elástico. Depois que meus pais descobriram, eles esconderam as facas e todos os outros objetos cortantes que haviam na casa. Aí eu fui pesquisar na internet e vi depoimentos de gente que se corta com lâmina de apontador. Perfeito! Afinal, ninguém confiscou meu material escolar. Arranquei as lâminas dos meus dois apontadores. Guardei dentro da capinha do celular.</p>



<p>Um dia desses, na escola, a menina dos casacos e eu nos encontramos novamente. Na verdade, só eu e a Clarisse conversávamos com ela. Fazia uns dias que eu não via cortes novos nos braços dela. Ela sempre me mostrava. Quando perguntei por que ela tinha parado, disse que a sua vó achou as lâminas que ela usava e jogou não sei onde. Foi aí que eu dei a ideia das lâminas de apontador pra ela. É só guardar na capinha do celular e já era. A propósito, foi nesse dia que ela me contou que ia se matar. Ela já tem um dia e um horário marcado. É hoje, daqui a exatamente uma hora. Não sei se é possível impedi-la. Ela está mil vezes mais escondida do que os cortes por baixo das mangas dos seus casacos. Se ninguém frustrar o plano, prepare-se para ver um monte de palavras hipócritas nas redes sociais amanhã de manhã.</p>



<p>Quer saber por que ela se cortava? Desculpa. Ela disse pra eu não entrar em tantos detalhes. Se você, por um acaso, estudou com ela, poderia ter perguntado antes.</p>



<p>Eu, ao contrário dela, era um aluno popular e, aparentemente, estava sempre feliz. Acho que eu usava o humor para, inconscientemente, esconder minha angústia. Conversava com todo mundo e todo mundo conversava comigo. Conseguia fazer as provas sem nervosismo, apesar de não ir tão bem em exatas. E, o mais importante, ninguém via os cortes que eu fazia em mim mesmo. Eu não ia de casaco quando estava calor. Não tinha nada pra esconder nos braços. Eu fazia os cortes nas pernas, a maioria na coxa direita. Quase ninguém sabia. Descobriram ontem.</p>



<p>Eu me enforquei na árvore que fica na frente da escola. Imagine a cena. Eu imaginei umas mil vezes antes de executar o plano. Consegui. Neste momento, eu não existo mais. Mas a imagem do meu corpo pendurado ali talvez nunca mais saia da mente dos meus colegas. Em alguns minutos, a menina dos casacos também será um cadáver. Ou não. Boa sorte pra ela! Talvez você queira que eu te fale como é aqui do outro lado. Mas não vou contar, nem que me implore desgraçadamente. Você não se importa com as pessoas que vê todo dia. Acho que, bem perto de você, ainda tem muita coisa pra observar antes de querer aprender sobre outras dimensões.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong>Wudson Marcos </strong></strong></strong></strong></strong>é graduado em Filosofia pela UFMS, pós-graduado em Sociologia e Orientação Educacional pela Faculdade Dom Alberto. Trabalha como professor, faz mestrado em Estética e Filosofia da Arte pela UFSC. Também é poeta, autor do livro CGS, e futuro pastor excomungado, sendo que a excomunhão já foi efetivada.</p>
</div></div>



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		<title>O AR QUE FOR PRECISO</title>
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		<pubDate>Sun, 26 Sep 2021 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 110]]></category>
		<category><![CDATA[Criatividade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Fernanda Zeloschi]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Prosa poética]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Fernanda Zeloschi</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ao amanhecer, levanto o corpo carregando o desejo de permanecer na cama e logo as sandálias estão se segurando nos pés e o café queimando a língua no movimento apressado do atraso diário. O ônibus cheio, meia dúzia de pessoas com suas máscaras, com sorte consegui me sentar perto da porta de saída. O sol fermentando o dia, o silêncio diante do mistério de escrever mais vinte e quatro horas iguais por um papel potencialmente diferente.&nbsp;</p>



<p>No prédio, os elevadores fazem viagens lotadas e a fila para subir espreme o saguão. Na minha frente uma senhora, um homem careca e o resto não vejo porque prefiro observar nossas solas sujas fazendo trilhas no chão recém lustrado. Entram no cubículo uma, duas, cinco pessoas quando eu levanto meu olhar e reconheço um corpo lá dentro. Os ombros caídos, o cabelo comprido, a mesma jaqueta: o primeiro homem para quem falei de amor. Antes que eu fuja para as escadas, o porteiro me convida, <em>ainda cabe você, pode vir</em> e enquanto entro, quero dizer que nunca me coube nada ali.</p>



<p>Meu peito esquenta e eu finjo que é raiva de estarmos tão apertados. Quero dizer ao zelador para voltar a limitar a entrada de pessoas, embolo uma reclamação na boca querendo soltá-la ali mesmo, <em>minha gente, é pandemia ainda. </em>As palavras, com sorte, não saem. A falta de espaço faz minhas pernas se lembrarem da angústia de não conseguirem fugir. Minha pele arrepia numa tentativa de levantar espinhos ao meu redor. São claustrofóbicos os segundos subindo no silêncio da negligência, paralisada pelo medo de ser inconveniente. Escondida na ausência dos meus desejos e impulsos, sinto o corpo tomar sua forma pequena e transparente — aquela que aprendeu tão bem para ser capaz de ouvir do amor na relação com aquele homem.&nbsp;</p>



<p>O elevador estaciona no sétimo andar e ele sai dos fundos da minha memória, esbarra no meu ombro pedindo passagem e ganha o corredor. Não me olha, naturalmente não pede desculpas, e no vazio lateja no meu peito a re-vivência do não-lugar.&nbsp;</p>



<p>Atravesso o dia sem saber: não me lembro de bater o ponto, não me interesso pelas fofocas entre as outras secretárias, não abro minha marmita e não finjo a mesma surpresa para o mesmo pote de comida. Meus braços se arrepiam sozinhos lembrando das roupas compridas, meu rosto passa o dia derretendo a maquiagem da época. E meus dedos, insatisfeitos em digitarem o dia inteiro, insistem que há ali um anel sufocando os movimentos.</p>



<p>Pouquíssimas vezes imaginei encontrar Tadeu. Nesses ensaios, eu usaria palavrões e vestiria o melhor ar de superioridade. Diante da espiada clandestina e despretensiosa que fiz durante aqueles segundos da vida dele, me vi esquecida no não-olhar. No dele e no meu. No sopro de liberdade que tive quando finalmente rompemos, me concentrei tanto em fazer vento e depois brisa contínua que não tive fôlego para perdoar meu corpo por tamanha falta de ar. Eu me abandonei. Para Tadeu bastou meu último respiro de raiva antes do esquecimento e da indiferença, mas a mim ainda é pouco. Quando meus ombros soltarem a culpa, tomando o ar que for preciso, serei a refrescante certeza de que no pulmão cheio mora o mundo.</p>



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<p><strong><strong>Fernanda Zeloschi </strong></strong>é estudante de Psicologia, escritora teimosa e acredita nas faíscas do afeto através do @<a href="https://www.instagram.com/fazerafetar/">fazerafetar</a></p>
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