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	<title>Arquivos Em Tempos de Estricnina - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>30. Metamorfose</title>
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		<pubDate>Sun, 02 Aug 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 056]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Ele não sabia o que fazer com aquela luz intensa ofuscando seus olhos. Mesmo de óculos escuros, não conseguia fixar-se em um ponto sequer no horizonte de seu raio de ação. A única coisa que lhe surgia eram sons que vinham do vizinho, indiscerníveis ainda, pois não conseguia conectá-los, afundá-los em sua mente, criando a harmonia necessária. Sujeitou-se ao caos, às ruínas de sua obscuridade mórbida. Pegou um cigarro amassado do bolso, acendeu-o com certa dificuldade e puxou um grande trago pra dentro de si, aliviando a tempestade interior. Sentou-se num toco de madeira, ao redor de um grande jardim florido, soltando baforadas intermitentes e suavizantes. Abaixou a cabeça, percebendo-se descalço, pisando na grama, remoendo-a entre os dedos. Os sons vieram agora aos ouvidos, invadindo a sua tortuosa alma, sua inquieta percepção sensorial. Dele, podia-se ver tudo: alma, cabelos, cérebro, corpo, troncos, excrementos existenciais rolando da face, respingando na grama amassada pelos pés já serenos. Tudo ali buscava por ele, mas ele mesmo não estava presente, perdido em algum canto de flor, em algum jarro de planta, em alguma pedra digerida pelo tempo, em algum tronco carcomido pela umidade. Fragmentos de outro homem, na melindrosa trilha de formigas que trabalham para a natureza. Ele trabalhava não sabemos para quê ainda, mas, mesmo fragmentado, tinha noção de que não sairia ileso disso, não sairia o mesmo. E não saiu.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>29. Todos os dias</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Os limites do Tempo&nbsp;
não demarcam nossa história&nbsp;
apenas se assentam&nbsp;
em marcas terrenas&nbsp;
Darlan Lula</em></pre>



<p class="has-drop-cap">O telefone está sobre a mesa assim como todos os dias é dia. Marcos debruça o olhar nele. Não sabe ao certo o que fazer. Sente o gosto amargo da bebida que penetra o estômago. Não sabe o que o levou ao desatino do álcool. Não havia bebido antes na vida. No entanto precisava estalar a língua e porejar algo que não fosse saudável. Sua mente em torvelinho inebriava-se com o líquido consolando os nervos, e a azia não o deixa sobreviver ao contato com o aparelho telefônico. A bebida foi um consolo, mas incomoda a inquieta mente.</p>



<p>Ele olha o telefone. Fica eternos minutos vivenciando a matéria sobre a mesa. A vida ali está exposta como um banquete posto aos porcos. Presencia em si o sofrimento voluptuoso de quem perdeu algo e não sabe o que é e tivesse certa convicção de que a qualquer momento alguém ligaria e diria com a doce voz dura: “Ligue agora mesmo, antes que seja tarde, antes que o mundo resolva esconder de vez o que o aflige, antes que você se torne um penitenciado por não saber o que perdeu, e assim sofrer horrorosamente desse mercado de perdas e ganhos”. E, ao atropelar os olhos naquele aparelho, ele passa a visitar constantemente a confusa mente. A tarde aqui fora gotejando raios tênues de luz mortiça e ele em seu apartamento não sabendo o que fazer da vida, ela presente no quarto, toda incógnita. Ele olha o telefone. O embaço da imagem compondo seu corpo o deixa inquieto. Exagerou na bebida, tinha a certeza quase lacônica de que exagerara, já que não consegue mais suportar os pensamentos e organizar as ideias. Os olhos recheados de preguiçosas veias e as pálpebras sustentando com coragem e dedicação as cores do mundo. Arrefece a garganta abrindo a boca e traga um gole seco de ar. Sente sede e ânsia. Os dentes rangem e a cabeça recosta-se no ombro provocando um estado de vigília. Ressona por alguns minutos.</p>



<p>Esses minutos na vigilância do sono trazem a ele, de uma maneira atormentada, a memória da infância. Num misto de sonho aparente e realidade fantasiosa, Marcos se vê uma criança novamente, percorrendo as ruas de sua terra. As ruas, as vielas e os lotes abandonados eram outra casa repleta de vivência lúdica. Nessas perambulações estranhas provocadas pela vigília veio à cabeça a criança de sua infância, cheia de desejos repletos de carinhos, desvelos que nunca vieram à tona. A criança de Marcos em pé no alpendre da porta de casa, bolinhas de gude à mão, sorrindo para a vida e tendo a sua frente a figura paterna. O pai que nunca lhe dissera nada, nem sequer um afago nos cabelos com seus grandes, longos e grossos dedos de comerciante, o anel de formatura inexistente no anelar da mão direita. Nem sequer um “vem cá, meu filho”, expressão esta substituída por olhos que visam à vaguidão de sentimentos. E a mãe incerta na subordinação. E o filho criança ruminando a indiferença patriarcal, única na presença diária da casa. Crescendo a cada passo, sofrendo a cada gesto. O começo de uma vida sem saudades e sem boas recordações.</p>



<p>No ano em que seu único irmão nascera, ele tinha 20, já estava ausente de casa por quatro anos para estudar fora. Recebera a notícia da gestação com satisfação, sendo que logo depois franziu os cenhos e preocupou-se com a sorte do pequeno diante do pai. Mas o pequeno está crescendo e, graças a experiências outrora vivenciadas e sentidas, ele recebe doses homeopáticas de carinho paterno. Com Marcos ficaram o travo e o rancor, as feridas de uma dor sentida dia após dia no convívio com os outros, pois os filhos e os pais conhecidos e amigos e carinhosos entre si abrem as chagas da sua vivência malsucedida com o seu&#8230;</p>



<p>Assim ele vive. Nunca experimentara nenhum tipo de droga lícita ou ilícita até aquele momento. Porém, só lhe bastaram a carteira no bolso e a cara lavada de fios crescidos do dia anterior condenando-lhe responsabilidade para a compra de bebida alcoólica destilada na venda da esquina. Voltara satisfeito, carregando o embrulho num abraço paterno. Entrou a casa e depositou a garrafa sobre a mesa da cozinha. Coçou a sua abestada fisionomia num gesto irrepreensível e deu as costas para o líquido engarrafado. Com passos lentos, marcadamente destinados a um funeral cerimonioso, seguiu para a sala onde se encontrava o aparelho telefônico. Parou a uns cinquenta centímetros dele e, numa atitude hostil, pegou-o como se fosse um bicho feroz pronto para a fuga ou para o ataque, e como se fosse preciso domesticá-lo agarrando-o com força, apertando-o com seguida resolução, para logo depois reanimá-lo com afagos e carícias. Desistiu do intento antes mesmo de ouvir as respostas sintomáticas do aparelho. Era como se não tivesse forças para sustentar a posição. Era aniversário de seu pai e ele queria e tinha de ligar, pois já não via a família há mais de três meses, apesar da curta distância entre uma cidade e outra. Ficou ali, de pé olhando o telefone, espremendo o sumo de uma fruta imaginária entre os dedos, os olhos crispando o excesso líquido e salgado, marejados de intensas sensações. Elevando o antebraço à altura do rosto, Marcos dividiu a angústia de se sentir tão humano com outras regiões do corpo. Novamente com passos vagarosos, porém agora ressentindo-se consigo mesmo, ele retornou à cozinha, avistou a garrafa sobre a mesa, recostou um copo entre os dedos e desatinou a beber no descompasso de ideias.</p>



<p>Agora a garrafa já não é mais a mesma, o líquido está pela metade e Marcos se encontra jogado no sofá feito mosca de asa partida. Já é noite e os móveis e tudo ao redor já não se reconhecem na penumbra. Como que sobressaltado, ele, de um salto, suado e sentindo um gosto acre na boca, acorda. Os olhos, no início incomodados com a situação nova instaurada, perquirem o lugar como fera enjaulada. O gosto acre na boca acentua-se incontrolavelmente e ele se convulsiona tentando lidar com aquilo. A cada investida sua a coisa lhe sobe pela garganta afora, sobrando-lhe um resto de tempo para a chegada no banheiro. A cara enfiada na latrina e a imitação de uma cascata de coisas mal digeridas dão certo alívio a Marcos. A opressão do álcool fora combatida, restituindo-lhe algo. Logo lhe vem um líquido gosmento o qual ele tenta expurgar com sofridas e preguiçosas cusparadas. Seus olhos dorminhosos piscam lenta e intermitentemente ao contato cinzento com a lavagem estomacal, reconhecidamente o almoço e o lanche do dia. Suas mãos abraçam a privada fria que gela o rosto colado a ela. Ele sente que toda a força empenhada para chegar até ali o consumiu ao máximo. E por isso mesmo esmorece ainda mais o corpo ao chão. Como não há mais o que fazer senão esperar o restabelecimento, ele pensa. E pensando chega ao motivo de ter comprado a bebida, e o motivo leva-o ao pai. É aí que lhe vem novamente o gosto na boca, as convulsões e o jorro da água. Sim! água porque já não há mais nada sólido para expurgar. Água e a gosma cuspida, recuspida, lavrada nos dentes e língua. E novamente a paz do corpo e o silêncio em volta, os olhos piscando até chegarem ao sono.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>II</strong></p>



<p>Após algumas horas, Marcos acorda sentindo uma profunda dor. Pouco a pouco ele junta os fragmentos ao redor e recombina o vivido. Levanta-se cercado de estilhaços. O chuveiro aberto e as milhares de gotas tocando em seu corpo nu levam-no para o prazer daquele instante. Suas mãos percorrem o corpo em movimentos voluptuosos, as sensações afloram e o cheiro ressequido do álcool escorre pegajoso pelas pernas e desce pelo ralo dando adeus àqueles momentos de cólera fisiológica interna. Marcos quase está feliz na imersão de lascívias agradáveis, mas a brecha de outro instante, o suficiente para perenizar certos acontecimentos, para surgir no Universo um buraco negro do tamanho de nossas inquietações, suficiente a ponto de nos trazer o conforto inescapável da cova, trouxe a ele a memória do pai. A água quente escorre pelo rosto e o que antes era prazer torna-se incômodo, pois ele não pode se enganar, já que sua vida é fria como a privada fria que suas mãos abraçaram momentos antes. E a água continua a incomodá-lo com suas gotas quentes porque tornam seu olhar também quente e avermelhado. E esse mesmo olhar torna-se denso, suado, líquido e crispado a ponto de não se aguentar em suas órbitas e querer sair de suas margens penetrando surdamente no lado de fora; e, quente, torna-se gota e mistura-se às outras já quentes gotas que o incomodam.</p>



<p>A toalha enrolada em seu corpo no meio da sala. O telefone impassível no mesmo lugar. O começo da madrugada já não o deixa ter dúvidas. A provável sentença do pai já estar dormindo cercado de desesperanças diante da total ausência do filho mais velho é como um som agudo ressoando além dos tímpanos do sossego. Marcos sente a profundidade de sua respiração inquieta e pouco a pouco trabalha para que aquele momento não se torne ainda mais angustiante para pulmões já tão oprimidos. A garrafa com o líquido restante ainda está sobre a mesa. Marcos já nem sabe o que sentir, tamanha é a insensatez de sensações. Procura com os dedos o cheiro entorpecente do álcool. Esta fragrância suscita uma leve dor na região dorsal da cabeça e ele a repele instintivamente como a fruta madura caída do pé. A dor arrefece à medida que se veste para dormir; deitando-se tenta pensar em coisas agradáveis, em momentos prazerosos, em instantes indistintos e sem grande notoriedade, mas ainda assim notáveis pelo conforto e paz de espírito, sem constipações interiores. Contudo, o ser humano, por mais que tente ao agradável, tem sempre que se desfibrar perante a própria imagem refletida no espelho, ainda que seja a mais bela figura já vista pela matéria refletora, ainda que esteja contente minutos atrás por haver escapado das próprias imagens chocantes vindas do pulsante coração. E Marcos se desfibra naquele momento, assim como em outros instantes já vistos, ao pensar em uma melodia, e a melodia sugere tambores militares, e os tambores trazem Geraldo Vandré, e Vandré traz sua música Porta-estandarte. Ele que passara a não ter nenhum estandarte em sua vida, lembra-se dos versos musicados: “Olha que a vida tão linda / Se perde em tristezas assim”. Lembra-se em pequeno ao redor da mesa, seu pai triturando o almoço com dentes ferozes. O seu aniversário, ele teria que ligar, mesmo que fosse tarde. O seu aniversário, mesmo que fosse no dia seguinte ele teria que ligar e dizer “Parabéns”. Só não sabia de onde viria a força, só não sabia por que dizer isso. “Na avenida girando / Estandarte na mão / Pra anunciar.” Mas teria que dizer, mesmo que fosse por um instante, só por um instante apenas, o suficiente para amainar os corações. “Olha que vida / Tão linda, tão linda / Perdida, perdida / Tão linda, perdida.” Recosta-se no travesseiro e ressona ao embalo do som moroso de Porta-estandarte ativado por recordações infantis.</p>



<p class="has-text-align-center"><strong>III</strong></p>



<p>Marcos, já na rua, segue para o trabalho. Ele nem sequer imagina que sua mente tão atarefada e cheia de rotina diária irá pensar no dia anterior. Ele nem imaginaria pensar em seu pai. Porém foi o que lhe ocorreu. No momento exato em que o pensamento começa a se transformar em reflexão, ele, de prontidão, desvencilha-se e entra em uma padaria. O café quente é sorvido com gosto e excita-lhe o corpo, fazendo-o sentir melhor, mas novamente lhe vem a figura do pai e ele sente um rancor tão grande que dá para ouvir a bile amarga porejar no corpo. O trabalho, a partir daquele instante, ocupa os seus momentos e pensamentos, convidando-o, e obtendo sucesso em seu desígnio, a entrar no mundo exaustivo do recalque.</p>



<p>Alguns dias se passam sem grandes novidades até Marcos receber uma carta. Sua mãe. Ao perceber isso, seu coração contrai-se com tanta força que parece querer voltar à condição de feto, o ser inaugural no princípio humano. Não a abre de imediato, prendendo-se a outros afazeres como se os dizeres presos no envelope fossem a representação contemporânea de uma caixa de Pandora. E ele ainda não se sente preparado para ser a causa de tantas desgraças alheias, bastando-lhe somente a sua condição. Ah! mas a curiosidade mata; se não mata, pelo menos ajuda a matar. Após horas de relutância contida, ali está diante da carta. Tesoura à mão abrindo o envelope e oferecendo chagas ao destino. Lê. Inexorável, distante, sem apelos emocionais, olhos grudados na folha de papel que se apresenta num tom saudoso, maternalmente escrita com mãos carinhosas e cheias de cuidados e desvelos. Os ares de confidência são exalados pelas palavras proferidas. Marcos sabe, no entanto, até onde tudo isso irá se mover. Não demora muito para a mãe tocar no assunto. Fala da pequena festa feita para o marido, os poucos parentes presentes, o filho de 10 anos feliz pelo aniversário do pai, porém todos esses motivos não foram suficientes para agradá-lo, que ficou ansioso grudado ao telefone todo o dia. E assim foi ficando tarde, os festejos encerraram-se, Mariano dormiu no sofá, ao lado do aparelho telefônico, sendo preciso o filho mais novo ir acordá-lo e chamá-lo para a cama. Ele acorda meio assustado olhando para o aparelho. Logo em seguida, franze a testa, pigarreia fundo e diz ao menino: “Vem cá, me dê um abraço. Acho que tenho somente um filho, e este está aqui, ao meu lado agora”. Marcos, ao terminar a leitura, sente o fôlego faltar-lhe. Recobra-se com um gole d’água. Olha para a escrivaninha repleta de trabalhos e provas de seus alunos a corrigir. Pega a carta da mãe, dobra-a e enfia-a no envelope para em seguida despejá-la em uma gaveta qualquer. Senta em sua cadeira confortável e recomeça o afazer diário de profissional respeitável que é.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>28. Pedro e Nava</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Jul 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 052]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center has-small-font-size"><em>*Gatilho: Esse texto possui conteúdo sensível para pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade e depressão.</em></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><strong>Nava</strong>. <em>[De um idioma pré-romano.]</em>
<em>Planície cercada de montanhas. </em>       
<em>Dicionário Aurélio</em></pre>



<p class="has-drop-cap">Aquele seria um dia qualquer, vendo canal de clipes a tarde inteira. Mas não. Combinara com um colega da sala de irem ao Centro de Estudos Murilo Mendes ver a “Exposição Pedro Nava”. Isso era tarefa escolar. Teria que ir, olhar, prestar atenção, tomar notas e escrever um poema sobre o que presenciou. A professora havia liberado alguns alunos do poema, porém teriam outros exercícios de apreensão, como, por exemplo, um conto ou um texto jornalístico.</p>



<p>Pedro não. Ele achava ter pendores literários. Estava convicto de que faria um belo poema. Era um rapaz diferente dos outros. Tinha sensibilidade, o que poderíamos chamar de apuro para a angústia. Só não sabia como lidar com isso. Nem ele, nem dos seus, nem dos que viessem a conhecê-lo.</p>



<p>E lá foi o Pedro em busca do Nava, um seu igual célebre. Percorreu ruas, circundou casas e deu de cara com o Monstro de Três Bocas, a antiga Rua Direita, atual Avenida Barão do Rio Branco. Se alguém olhasse de perto, se tivesse percepção, perspicácia suficiente para aumentar e distorcer um pouco a disciplina ocular de sempre enxergar da mesma maneira a vida, os outros e as coisas, veria Pedro sorrir, um gesto lacônico do músculo, suficiente para sabermos da sua felicidade em viver. E seu pai segredava-lhe ao ouvido: “Tu tens futuro, garoto”. E ele sorria.</p>



<p>Enfim, o CEMM. Logo à entrada, na fachada do patrimônio tombado, um retrato de Pedro, de Pedro Nava. Não posso dizer ao certo o que Pedro sentiu, talvez uma rajada forte de vento vindo de dentro do Centro. Fora o suficiente para arrepiar-lhe os pelos do corpo, para suspender-lhe as espinhas e tirar-lhe o músculo febril que o fazia sorrir.</p>



<p>O seu colega não viria, o celular o informara disso. Teria que entrar e ver a vida literária do seu conterrâneo sozinho. Ele e o passado presente nas salas do CEMM. As fotos da Rua Direita e do Parque Halfeld. Os originais dos textos de Nava, os rabiscos, as correções: trabalhos infindáveis para a crítica genética. A nevralgia das palavras, a sátira e o deboche nas teclas da máquina e no vegetal em branco e preto. A árvore no internato com seu pênis iniciatório. Tudo aquilo envolvia Pedro em um clima diverso do que estava acostumado. Chegou a ensaiar alguns versos ali mesmo: “Seu nome é Pedro/ Sobre essa pedra/ edificará o memorialismo/ Marca de nascença Nava”. Mas logo lhe vinham outras ideias que começaram a triturá-lo por dentro. Uma opressão vinda não sei de onde e saída não sei do quê. A cada ranger de tábuas nas salas, a cada lufada de ventos vinda de duas grandes portas abertas para o ar, Pedro se sentia um pouco Nava, na fazenda, com sua Avó a quebrar dentes de pretas, sentado recostado em sua baixa cadeira do fantasma. De onde vêm e para onde vão, há tantos pensamentos errantes, tantas quadras de vida a percorrer pelos quartos, tanta névoa, tanta tosse e pigarro na claridade escorregadia dos candeeiros, tantos males dos outros a se curar, tantos males a não se curar de si próprio. As cortinas translúcidas das portas perpassadas, a varanda de frente com o Monstro de Três Bocas, a respiração ofegante de Pedro. Tantas ideias, Pedro. Tantos pensamentos.</p>



<p>&#8211; Você está bem?</p>



<p>O guarda, funcionário público, guardando o nosso patrimônio, também zela pelos humanos. Pedro só conseguiu um gesto mínimo, um sim perplexo diante da vida feliz de outrora.</p>



<p>E prosseguiu. Entre ranger de tábuas e lufada de ventos. Entre ideias e pensamentos. Objetos pessoais. Máquina de escrever, sua terceira mão. Caixa de fósforos, coleção de Proust, termômetro e estetoscópio. O médico memorialista que se torna ali o memorialista médico. Pedro se sente marcando o sofá da sala com sua solidão, tendo somente os livros e os discos como companhia. A agonia da sua marca no sofá, a quietude efervescente da alma. Tudo a entranhar em seus poros e injetado em suas veias. Cadê o futuro promissor prometido pelo pai? Mais manuscritos, cartas: Drummond, Presidente da República, Margarida Salomão. Novamente carta, rascunho, rascunho, original. Tanto depuro em uma carta pra quê? Não qualquer carta, nem missiva normal. Pedro embaça um pouco as vistas, não acredita. Tenta ler o que se encontra claro e bem legível. Há uma carta de suicídio a sua frente. Ele a lê, a relê, a treslê. Ideias e pensamentos, tábuas e lufada de ventos. Tontura, a parede como sustentação. “Contratem mercenários se ninguém quiser carregar meu caixão.” As vistas escurecidas, há névoa nos olhos, há escadas, o ranger das tábuas. “Se eu não tiver amigos, contratem mercenários.” A calçada para Pedro, a Avenida, o Monstro gigante de Três Bocas se alimentando de ar carbônico. “Se eu não os tiver, contratem!” Anos depois, um bom tempo após a carta fatal, a morte. O tiro de misericórdia. “Contratem mercenários!” Pedro errava pelo caminho. A tarde agonizava manchando de sangue o horizonte, e a noite já vinha, fria, varrendo os restolhos dela.</p>



<p>Uma voz sussurrava ao seu ouvido: “Lembra que és pó e ao pó tu voltarás”. Essa frase lhe ficou ecoando, cada vez mais forte, mais profusa e viril. Seu pai, suas lembranças. Pó, o mesmo que tu pões pra fora da tua casa ao esfregares com asco a sola do teu sapato no tapete posto na entrada do teu lar. Aquele ao qual a faxineira espana para longe dos teus pertences. Pó, tu és pó. Matéria das mais desnecessárias. Somente um tiro, somente uma vontade e o poder de se ver pó. É claro que isso o incomodou. Ficou pensando em tantas poeiras de nossas vidas, as doenças surgindo de sua presença. A vinda de parasitas ao seu encontro, se alimentando do seu ser tão pó, tão só na presença do mundo, no fundo da terra o trabalho do tempo, o sorriso incrédulo estampado nos ossos, o decomposto.</p>



<p>Um serzinho em seu interior gritava: “Por que me trouxeste ao mundo, então? Já que sou pó, deixaste-me esquecido nos arquivos do além, nas fendas do teu escroto! Por que vieste me dizer isso, por que me cuspiste na cara a clareza da vida? Deixa a mim a escolha alienada da vida feliz, sorrisos e bem quereres. Por quê?” Pó. Aquele mesmo que cobre o último instante material, palpável, de tuas carnes. “Contrate-os!” Ideias, lufada de ventos de carros. O Monstro de Três Bocas ataca. Bate carro, bate Pedro, para o chão, sangue, muito sangue e pó.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:30% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p style="font-size:18px"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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		<title>27. Salmo 23:1-6</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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<p class="has-text-align-center has-small-font-size"><em>*Gatilho: Esse texto possui conteúdo sensível para pessoas que sofrem de transtornos de ansiedade e depressão.</em></p>



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<p class="has-drop-cap">“O SENHOR é o meu pastor, nada me faltará.” O pastor tava recitando o salmo; não me vinha mais nada na cabeça. Tomei uma decisão muito difícil de minha vida. Mas não posso me arrepender agora. Não posso. Não dava mais pra continuar assim, não dava. Sou preto, meus filho são preto, minha esposa é preta de cabelo pixaim, empregada doméstica em casa de grã-fino, sempre passando por vergonha atrás de vergonha por mixaria. Eu sou servente de pedreiro. Com essa pandemia ficamo sem eira nem beira, catando migalha de quem pudesse ajudar. O tal do auxílio emergencial do governo não vinha, sempre esbarrava em alguma falta de documento, algum problema de banco. Nós tamo passando fome. Vim na igreja pra ver se alimento a alma, mas foi aqui que tudo clareou. Assim que pisei no assoalho que ajudei a construir com essas minhas mão calejada, tive uma ideia. Eu sei. É muito difícil fazer isso. “Deitar-me faz em verdes pastos, guia-me mansamente a águas tranquilas.” Já não há mais tranquilidade neste país de merda. Não há. Pobre e preto aqui não tem vez. Eu sou vizinho daquele garoto, o que foi morto por policiais, o menino João Pedro, levou tiro nas costa. Eu vi aquele menino crescer, eu peguei ele no colo, meu Deus! Como pode? E ainda por cima temo esse vírus do mal que tá matando um monte de gente. E o presidente nem aí, fazendo pouco caso! Como pode? O dono do barraco vai pô nós pra fora. Tem dois mês que não pago o aluguel. Minha mulher está tão nervosa com os dois menino em casa. Eles não estuda, não podem estudá, porque nós não temo internet. Júlia, 10 ano, e João, 8, umas gracinha. Minhas vida. Meu tudo! Não posso deixar eles assim vivendo assim essa vida de merda. Pra quê? Pra sofrê? “Refrigera a minha alma; guia-me pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome.” Que justiça nós podemo tê? Me fala? A justiça dos homê são matar e morrer. É a ganância, o poder, a guerra, a luta. Essa sim é a justiça deles. Você prega o bem, você devota ao próximo, sela a paz interior, e o que recebe? Um tiro nas costa do governo, a sua carta de alforria. É isso que você recebe. “Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo; a Tua vara e o Teu cajado me consolam.” Só o Altíssimo pode tudo, e ele me perdoará, ele me entenderá. Estou fazendo isso por amor, o amor me move e me ilumina. Está tudo planejado, a minha cabeça está decidida, vou voltar pra casa, preparar um suco bem forte de limão com abacaxi que vou pendurar na conta do mercado do seu Alcides e encher o jarro de uma dose boa de estricnina; foi bom ter guardado aquilo naquela infestação danada que teve ano passado de ratos. “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos, unges a minha cabeça com óleo, o meu cálice transborda.” E todos vão beber, eu serei o último pra ter certeza do ato, pra nos livrar desse fardo que é nossa vida. Espero que Deus me perdoe. Eu sei que Ele não quis essa maldade toda no mundo, é o tal do livre arbítrio. Mas que dói, dói. De noite será a redenção. Por mim, por eles, ao Senhor. “Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do Senhor por longos dias.”</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/94898-darlan_png.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10407" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/luis_vivanco/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/75260-galerialuis1-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>26. Mal-Estar na Memória</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 Jun 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 048]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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<p class="has-drop-cap">Não sei como me convenci a escrever esse conto. Meus dedos me doem muito. A velhice já não me deixa mais em paz. A vantagem é que ainda não preciso de ninguém para trocar minhas fraldas geriátricas, não obstante ainda não as use. O Tempo me consome a cada segundo de meus minutos, não tenho punho nem para forçar o lápis contra o papel, muito menos para girá-lo dentro de um afiado apontador. Eu não gosto de computador. Essas tecnologias não me atraem. Além do mais, a única energia que se consome quando escrevo é a minha. Fico satisfeito com isso, e o meu bolso também. Eu não sou um velho sovina, apenas me previno para os tempos difíceis que a vida nos impõe. Tendo essa virtude, quem sabe consigam me comprar um caixão polpudo e bem resistente. Acaso me recrimine, é porque nunca sonhou sendo corroído pelos vermes que estão me esperando lá, sob a terra. Um caixão firme me manterá mais tempo carne e menos ossos, porque inevitavelmente passados alguns anos serei apenas uma ossada sorridente.</p>



<p>Falemos de coisas mais palatáveis, afinal de contas a Morte já se regozija muito com as nossas angústias diárias em torno Dela. Nunca fui muito academicista em minha vida, acho certas formalidades e algumas linguagens em torno da rigidez acadêmica um tanto quanto exageradas. Minha formação vem dos livros, e as minhas ideias também. Sempre que me surge algo original a ser dito, escrevo em um caderninho vermelho que tenho, chamo-o de “caderno de apontamentos para futuras manifestações artísticas”. À medida que vou lendo uma coisa aqui e outra ali, risco algumas de minhas ideias originais, pois percebo que ela não é tão original assim. Pois bem, há alguns anos estava em uma palestra na qual se discutia algumas questões em torno das teorias de Sigmund Freud. Modéstia à parte, já li bastante coisa dele. Veio-me à cabeça um fato interessante (e ao mesmo tempo estranho, ou <em>unheimlich</em>) que aconteceu em minha infância. O caso exige concentração e austeridade; me ausentarei de minhas incursões, pelo menos até o final desta história.</p>



<p>Cidade do interior. Domingo. Manhã clara e benfazeja (como diriam os poetas). Fui acordado por meu pai. Senti-me aliviado, estava tendo um pesadelo medonho. Lembro-me que suava muito.</p>



<p>&#8211; Acorde. &#8211; disse meu pai. &#8211; Te espero na cozinha.</p>



<p>Levantei-me, esfreguei os olhos com força para ver se desanuviava completamente aquelas impressões do pesadelo. Menino de 10 anos com vontade de dormir. Para meu pai, não existia isso. Somente o ar e a beleza da manhã que deviam ser aproveitados ao máximo. Fiz minha higiene e segui o cheiro do café. Meu pai estava circunspecto, não obstante sereno. Arrastava os chinelos, ainda com aquela preguiça me solapando. Meu pai, com uma xícara de café na mão, soprando o seu conteúdo, diz gravemente:</p>



<p>&#8211; Vá ao meu consultório. Pegue a máquina que está lá na estante.</p>



<p>&#8211; Pra quê? &#8211; disse eu.</p>



<p>&#8211; Apenas faça.</p>



<p>Fui até lá sonambulando e voltei com a máquina de escrever a me pesar. Já não arrastava mais os chinelos.</p>



<p>&#8211; Coloque-a aí em cima da mesa.</p>



<p>Obedeci.</p>



<p>&#8211; Agora pegue uma folha em branco e coloque na máquina.</p>



<p>&#8211; O que que foi, pai? Por que essa cara?</p>



<p>&#8211; Meu filho&#8230; venha, tome café. </p>



<p>Ele foi ao fogão, fritou um belo ovo para mim.</p>



<p>Gosto de ovos fritos com gemas duras. Tomei café e comi pão com ovo. Estava delicioso. Já podia segurar com firmeza os chinelos nos meus pés.</p>



<p>&#8211; Você está aprendendo a datilografar, não está?</p>



<p>&#8211; Tô&#8230;</p>



<p>&#8211; Isso é bom, meu filho, muito bom.</p>



<p>Ficamos calados bebendo café. Meu coração estava a mil. O relógio da sala pendulava com calma.</p>



<p>&#8211; Eu vou me matar.</p>



<p>Tic-tac, tic-tac&#8230;</p>



<p>&#8211; E preciso da sua ajuda. </p>



<p>Meus olhos tremeram. Só conseguia olhar para a máquina de escrever.</p>



<p>&#8211; Vou me jogar na frente do primeiro carro que encontrar na rua. Só restará um corpo caído no chão. Antes quero deixar uma carta datilografada por você e assinada por mim. Ande! Vá até lá e escreva. Vou cantar as pedras.  &#8211; disse num misto de ironia com sarcasmo. &#8211; Você não me ouviu?</p>



<p>Fui até a máquina, sentei-me à sua frente. Meus olhos já não tremiam.</p>



<p>&#8211; Escreve aí: “Eu, Lúcio Fernando Viera&#8230;” </p>



<p>À medida que ia escrevendo, perdia uma parte de meu pai. A cada letra, a cada palavra que surgia no papel branco, lá se ia braço, perna, orelha, olhos, tronco dele. Ele exauria pouco a pouco, assim como as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Assim que terminou de ditar, cobrou-me o papel e o assinou com sua caneta de ouro e suas inicias LFV.</p>



<p>Fomos à rua. Como já havia dito, cidade do interior, pouco movimento, principalmente aos domingos de manhã. Apenas o cantar dos galos e o sarará dos passarinhos. Alguns minutos já haviam se passado quando avistamos um carro vindo pela rua. Estava a quarenta por hora.</p>



<p>&#8211; Não, esse não, eu preciso de um caminhão. Se me jogar na frente desse, o máximo que me acontece é quebrar alguma parte do corpo. Darei mais trabalho do que se estivesse morto. Assim eu não quero.</p>



<p>Passamos por uma mercearia. Nela havia pão. Meu pai comprou alguns. Parleou bastante com o dono, parecia ser seu paciente. Acho que sofria de diabetes. Ao voltarmos, avistamos um caminhão seguindo pela rua. Tive ânsias de vômito. Ele parou uns cinco metros antes de passar por nós. Meu pai olhou para mim e deu o seu sorriso mais alvo. Ao chegarmos em casa, tomamos outro café, agora com pão fresco. Disse-me, limpando a boca suja de margarina:</p>



<p>&#8211; Quer saber de uma coisa? Rasgue aquela carta. Não quero mais morrer. Deixarei que o destino se incumba disso.</p>



<p>Corri à gaveta onde havia guardado o papel e o rasguei em pedacinhos. Não satisfeito, joguei os fragmentos na privada e dei descarga. </p>



<p>Olhei para o meu pai. Nunca o tinha visto tão bonito. Tive uma sensação estranha, parecia estar vendo um fantasma. Estava de preto, vestido de luto. Abracei-o forte, feliz e comovido. Sentia suas carnes e pressentia seus ossos. Mas para mim ele era um espectro.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/03666-darlan-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8077" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/p_arte__/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/06/569f5-tata1-2.png?w=950" alt="" class="wp-image-10137" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>25. O arrependimento, ainda que tardio</title>
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		<pubDate>Sun, 24 May 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 046]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[aplicativo]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
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<p class="has-drop-cap">Eu não acredito em aplicativos de namoro. Quer dizer, não acreditava. Até bem pouco tempo atrás, eu não acreditava. Mas aí veio essa pandemia, veio o distanciamento social, as pessoas com medo de saírem de casa; e assim, tive que me adaptar. Meu pai faleceu um mês após o aparecimento da COVID-19 no Brasil, vítima da doença. Eu não pude acreditar naquilo, não conseguia imaginar que uma pessoa como ele poderia vir a falecer dessa doença que imaginara que fosse uma pequena gripe. O nosso presidente da República havia dito que o novo coronavírus não era letal. Eu acreditei. Começo a duvidar que ele tenha condições de governar nosso país. Tantas mortes espalhadas pelo mundo, estados em condições de calamidade, o país mergulhado numa crise sanitária sem precedentes, e ele preocupado em armar a população, em se enfiar no meio do povo gerando aglomeração. Fui um entusiasta de sua candidatura, achava que ele poderia resolver. E agora me pego órfão de pai e de mãe, falecida há 5 anos, e flertando com uma garota de esquerda no Tinder. Não sei o que me levou a fazer isso. Acho que me comoveu profundamente o fato de a mensagem de apresentação dela no aplicativo ter uma frase da carta de suicídio de Flávio Migliaccio: “A humanidade não deu certo”.</p>



<p>Quando fiquei sabendo da morte de um ator de 85 anos, que comete suicídio com uma carta tão forte quanto a que foi publicada, tive uma sensação horrorosa. Os segundos se tornaram mais longos, sentia o sangue correr pelo meu coração, tentando entender como uma pessoa nesta idade pode vir a fazer isso. Será que estamos realmente deixando de ser sensíveis às causas humanas? Estava em meu apartamento de quarto e sala, sozinho como sempre, comendo uma sobremesa num pequeno pote de aço inox, deixando-o sobre a mesa da sala assim que soube da notícia. Estava atônito, e olhei para minha imagem refletida e invertida na lateral do pote. Era como eu me encontrava; estava sensível. Havia perdido meu pai há quase dois meses. Era muito triste tudo aquilo, muito triste. E a mensagem continuava: “Eu tive a impressão que foram 85 anos jogados fora num país como este. E com esse tipo de gente que acabei encontrando. Cuidem das crianças de hoje!”.</p>



<p>Estava tão carente, tão necessitado de um ombro amigo (e, quem sabe, algo mais) que não resisti e baixei o aplicativo no meu celular. E encontrei a Ana, cabelo de fogo, boca carnuda, olhar expressivo, vivo e ardente, como aquelas mulheres que não têm medo de ir à luta, que encaram a vida de peito aberto. Já conversamos bastante, trocamos fotos. Ela é muito inteligente, mas muito defensora das ideologias de esquerda. Detesta o presidente. Eu fico calado. Não quero promover a discórdia com ela. Estou curtindo ela. E, ao mesmo tempo, não estou muito mais à vontade defendendo as ideias do nosso presidente. Ana é escritora, defensora fervorosa da cultura nacional, da diversidade brasileira. Acho que estou gostando dela, pois me peguei apagando postagens antigas em defesa do nosso presidente. Acho que ele está merecendo também. E eu quero ser feliz. Hoje o medo de perdê-la é maior. Perder o que eu ainda nem tenho! Vejam só o quanto esta quarentena não está me fazendo bem. Enfim, prefiro uma Ana na mão do que dois presidentes voando.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/03666-darlan-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8077" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/inspireoutras/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/05/5d09e-camile-5.png?w=950" alt="" class="wp-image-9822" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>24. O Reverso do Vírus</title>
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		<pubDate>Sun, 10 May 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 044]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Rotina]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
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<p class="has-drop-cap">Leu outro dia em uma matéria num <em>site</em> desses que gargalhar produz mais rugas que chorar. Ficou pensando: mesmo feliz, você se ferra de qualquer jeito. A vida é isso. Um poço de contradições. Ela nos ensina que não podemos medí-la com régua e compasso. Não é uma ciência exata, não nos proporciona a sensação racional de quem tem o controle sobre si mesmo e sobre tudo que o cerca. E assim ele vem refletindo sobre si mesmo, como uma grande gargalhada rugosa na cara. Já estava há oito semanas isolado do mundo, ele e sua esposa, ouvindo os noticiários aterradores sobre a tal COVID-19, sem poder ver amigos, parentes, colegas de trabalho, em regime de <em>home office</em>, assim como sua mulher. Dessa forma, viviam um pelo outro, um para o outro, intercalados com seus pequenos afazeres diários e suas rotinas cotidianas: lavar vasilhas e roupas, arrumar a casa, fazer comida, beber, comer, trabalhar, estudar, ler e dormir. Comer aqui, na linguagem mais chula e usual, em seu amplo sentido. Se é que me entendem! Ao mesmo tempo em que dia a dia se entendiam mais e mais, o coitado do homem vivia um grande e complexo dilema: como sobreviver nessa distância social tendo uma amante? Pois é&#8230; o pobre rapaz possuía uma amante. E o pior de tudo, era que ele começava a se apaixonar por ela quando a quarentena foi implantada em sua cidade. Como ela era linda! Como era gostosa! Boa de cama! Um vulcão que eclodia em suas entranhas. E ele gostava disso, desse <em>frisson</em>, desse tumulto interior. Seus amigos, seus irmãos, seus pais, suas tias e seus tios eram encantados por sua esposa. Também linda! Também gostosa! Também boa de cama (se fosse, claro, estimulada a isso, uma vez que sua tradição religiosa a fez recatada o suficiente para achar um papai-mamãe o bastante para os prazeres carnais)! A quarentena então chegou e, com ela, o confinamento. E as mensagens de texto via redes sociais não pararam na primeira semana entre homem e amante. Ao mesmo tempo, ele e esposa interagiam, se conheciam, viviam realmente o dia a dia em sua mais intensa filigrana, com todas as nuances e detalhes que é viver consigo mesmo. Quase que um intensivo de si para si, só que na presença de outra pessoa. Casaram-se havia um pouco mais de um ano. E aquela era uma oportunidade única de se entrelaçarem de fato, sem perderem o foco um do outro e de si mesmos. Assim, ele começou a perceber os detalhes que a cobriam, no rosto que se iluminava num sorriso, em seus cabelos sedosos e cheirosos, em sua pele rija e macia, na sua inteligência genuína e ingênua, daquela de crianças-prodígio que não sabem o que fazem e transformam em espontaneidade a atmosfera que as envolve. E com a amante era o frenesi de um falo, a languidez de uma glande, os sensuais lábios que guardam o fruto proibido, sendo preenchido por tórridas conversas e trocas de imagens. Ah&#8230; que sensação agradável. Ter duas. As duas em uma, num consórcio perfeito com sua consciência. Mas as semanas se preencheram, os dias se tornavam noites e as noites viraram berços de Eros. E a esposa virou-se do avesso, se tornou arremedo de messalina, dançando nas regiões erógenas do cérebro do marido, trancafiando-o em suas tenras e grossas coxas de cor terracota. Dessa forma, a amante perdeu espaço em seus laços afetivos, porque foram todos preenchidos pela sua deusa de ébano, que era assim que ele a chamava depois da quinta semana reclusos em seus círculos viciosos de convivência. E, neste momento, neste exato momento em que pensa sobre rugas e risos, também pensa no vírus e, inadvertidamente, assim como gargalhar produz rugas (algo culturalmente negativo), a COVID-19 salvou seu casamento, num processo invertido que transforma algo ruim em um fato positivo. Pega seu celular, dispensa a amante e a bloqueia de todas as redes sociais que os ligam. Porque já não é mais necessária essa corrida em busca de mais, sua esposa já é tudo que ele precisa que seja. Levanta da cama, vai até a cozinha, de onde exala um cheiro delicioso de café, abraça a sua mulher com as mãos enfiadas em suas nádegas e lhe dá um beijo. E pensa: é ali que ele deve estar, senão para sempre, pelo menos enquanto durar a vida.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/03666-darlan-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8077" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/culafernandes/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/05/d9204-bale-6.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9529" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>23. Porta-Canetas</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/04/26/23-porta-canetas/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Apr 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 042]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=9026</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-small-font-size">*** <strong>Alerta de gatilho:</strong> o texto possui conteúdo sensível para portadores de transtornos de ansiedade e pânico.&nbsp;</p>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<p class="has-text-align-right"><em>Oh, meu Deus! Como é triste e difícil ter uma vida dupla. A vida que quero, direcionada para Vós, e outra vida que me obriga a aturar as ilusões efêmeras, passageiras, sem lógica deste mundo cruel que cada vez mais se distancia de Vós.</em></p>



<p class="has-drop-cap">O pão tinha acabado de sair da chapa, e o queijo derretido criava fios delicados a cada contato de sua boca com a comida. O café com leite soltava vapores numa xícara em cima da mesa. Ele olhou fixamente para mim e começou a esboçar um sorriso quando levava a xícara à boca. Não queríamos perder a consulta em Belo Horizonte. De madrugada, minha mãe ligara para mim. Ele estava tendo uma convulsão. Justo hoje, dia da viagem, dia da consulta em que ele iria entrar definitivamente na fila do transplante de fígado. Encefalopatia. A doença o tomava de assalto. Problemas com sódio. Restrição de água. Paracentese na região abdominal. A cada punção, retirava quatro, cinco litros. E agora essa, bem no meio do nada, em uma lanchonete na beira da estrada, ele começava a agonizar com outra maldita convulsão. A imagem congelada de um sorriso ainda se alojou em seu rosto por alguns instantes e foi se transformando em algo incompreensível. Minha mãe levantou-se, tombou a cabeça dele um pouco para o lado para evitar que mordesse a língua, eu o segurava para ele não cair da cadeira. Ficamos um tempo assim olhando um para o outro com uma cara de bandido descoberto. O que fazer? Só nos restava seguir em frente, colocá-lo no carro, nem que fosse arrastado.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Bom-dia, Meu amado Jesus, meu Salvador e meu Redentor. Estive pensando, meu Deus, como sou teimoso em não aceitar o que trouxestes para mim na minha nova vida que com muito amor me destes para eu ter um tempo de pensar e tentar me perdoar por todos os meus pecados que pratiquei contra Vós; e, para o meu sofrimento, continuo praticando. Perdoai-me, Jesus, pois, apesar de tudo que passei, ainda tive a ousadia de tentar voltar a fazer tudo de novo que tanto fizestes para eu começar uma nova vida cheia de amor, cheia de perdão.</em></p>



<p>Amanhã é Natal. Nos últimos meses, ele tem piorado muito. Perdera dez quilos desde o começo da doença. Os efeitos da cirrose estão ficando cada vez mais devastadores. É difícil vê-lo assim amarrado nesta cama de hospital com os braços e as pernas imobilizados. Às vezes, olha-nos com uma fisionomia débil, com as órbitas oculares quase saltando dos olhos. Tivemos que amarrá-lo. É triste ver o meu amado assim, mas estava muito agitado. Não teve jeito. A encefalopatia atacou ferozmente o seu organismo. Amanhã é Natal e estamos aqui neste hospital, aguardando uma melhora que não vem nunca, uma salvação que não chega. Está lá atrás na fila do transplante. Vê se pode. Estamos torcendo para o fígado ficar contaminado pelo câncer. Só assim ele vira prioridade na fila. Vê se pode.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Senhor, meu Jesus, ajudai-me a ser mais humilde e aceitar com amor tudo que reservastes para mim. Fazei-me encontrar o caminho que leva até Vós; tirai de mim esta depressão, pois a depressão só quem a tem são os que não acreditam no imenso amor que sempre tendes dado a todos nós.</em></p>



<p>Aquele era um momento de raro encontro. Aproveitara o horário de almoço do expediente para visitá-los. Meu irmão, que segurara uma barra levando-o tendo convulsões até Belo Horizonte, tinha mais disponibilidade, era autônomo. Após a refeição, ele me chamou até o escritório. Conversávamos sobre o último livro de Chico Buarque. Ele pegou um pequeno objeto sobre a escrivaninha e mo entregou. Era um porta-canetas. Enquanto falava, observava cada centímetro do meu rosto. Queria se agarrar de alguma forma à minha memória. Meu filho, isso é para você usar no seu trabalho. Lembre-se de mim sempre que olhar para esse porta-canetas. E deu um sorriso perspicaz, de quem entende um ato de amor e permanência. Olhei para o objeto. Havia um relógio incrustado em sua estrutura. Entre um número e outro, um coração piscava incessantemente adornado pelas palavras “I Love You”.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Perdoai-me, Jesus, por causar tanto sofrimento a Vós. E continuei causando pela minha vida desregrada e pecaminosa na minha juventude. Como fui tolo e insensato no não sentir o Vosso amor durante todo este tempo. Perdoai-me, Senhor, por todas as minhas faltas que Vos fizeram sofrer.</em></p>



<p>Precisava se divertir um pouco. Sair da rotina. Aproveitou que aquele era um dia de folga. Subiu até o Morro do Cristo. Lá de cima, avistou a cidade e os pequenos pontos que se mexiam. Vidas que se cruzavam. Vidas distantes como naquele momento, longe do seu alcance. Seus olhos marejaram. Dois meses com câncer e nada de transplante. A metástase à espreita.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Boa-tarde, meu Jesus. Agora são 14h30. Senhor, meu Jesus, meu Pai, meu Irmão, meu Deus, meu Salvador, meu Redentor! Parece que não sairei desta, mas não façais com que os meus e eu sofram muito.</em></p>



<p>O banho o revigorara. Já havia raspado todo o pêlo na região do tórax e da barriga preparando-se para a cirurgia. Estavam no oitavo andar do Hospital das Clínicas. Agora só restava esperar. Pai, você está tremendo. É, meu filho. Você ainda tem aquele porta-canetas?</p>



<p>Nesse mesmo instante, surgiu o enfermeiro para levá-lo embora. Ele se deitou na maca e foi empurrado para um grande corredor com uma porta corrediça nos fundos. O filho o acompanhou até onde pôde. Quando a porta se abriu para a passagem da maca, um forte halo luminoso penetrou surdamente nos olhos do garoto, cegando-o por alguns instantes. Tudo ficou claro.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/03666-darlan-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8077" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/vianablack/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/4f6f7-beto3-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9041" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>22. Querença</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Apr 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 040]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>*** <strong>Alerta de gatilho:</strong> o texto possui conteúdo sensível para portadores de transtornos de ansiedade e pânico.&nbsp;</p>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<p>&#8211; O que foi, mãe?</p>



<p>O garoto havia notado algo diferente no telefonema recebido por sua mãe, que, ao final da ligação, ficou lívida como as nuvens esparsas no horizonte daquele início de tarde.</p>



<p>Eles haviam saído para almoçar com uma amiga e seu filho, que regulava um pouco com a idade de seu filho único.</p>



<p>&#8211; É o seu pai. Parece que ele não responde às chamadas telefônicas e postou algo suspeito na rede social.</p>



<p>Muito curioso, o garoto, de apenas 9 anos, acabava sabendo de tudo que acontecia ao redor, não havia assunto em que ele não infiltrasse o seu ouvidinho atento.</p>



<p>&#8211; Marina, disse a amiga, o que querem fazer?</p>



<p>&#8211; Vamos até a casa dele.</p>



<p>E lá foram todos. O garoto apreensivo e a mãe nervosa. Marina havia se separado de Eduardo há dois meses e meio. Entre brigas, acusações e mágoas, ele se sentira completamente abandonado por ela, pois considerava o motivo – a gota d’água – irrelevante para uma definitiva separação. Durante esse período, ele, humildemente, tentara, em diversas ocasiões, a reconciliação. Nada havia conseguido a não ser longos discursos de Marina justificando sua decisão, que já estava tomada, segundo ela. Por isso as desconfianças em torno do pretenso “sumiço”.</p>



<p>Ao chegarem a casa, a mãe e a irmã de Eduardo já estavam à porta do Edifício. O garoto olhava tudo com desconfiança. Ele havia saído há pouco dali. O que poderia estar acontecendo? Entraram, subiram as escadas; Marina tentou abrir a porta da sala, sem sucesso. Começaram a gritar pelo rapaz e tocaram a campainha, inclusive o garoto, que, a todo momento, dizia:</p>



<p>&#8211; Pai, pai, abre a porta, pai!</p>



<p>Após um tempo, resolveram chamar a polícia, que demorou um bocado para acorrer aos familiares aflitos. Os vizinhos da frente já teciam opiniões sobre os fatos, disseram não ter ouvido nada estranho. A polícia estava indecisa no que fazer. Marina rogava por uma solução. Resolveram arrombar a porta que dava acesso à área externa. Enfim, após alguns minutos, um dos policiais conseguiu arrombar a porta. Pediu que todos ficassem onde estavam e, de arma em punho, entrou na casa e fez uma varredura completa, deixando somente a porta do quarto do casal fechada no momento. Todos já estavam de frente para ela, e o guarda, de olhos esbugalhados, abriu suavemente o obstáculo último, encontrando uma atmosfera com odor acre, Eduardo deitado na cama toda desalinhada.</p>



<p>Apenas o garoto, a amiga de Marina e seu filho ficaram do lado de fora da casa. O menino parecia encarar o vazio, esfregando os dedos das mãos nas palmas; ele queria entrar a todo custo, mas a amiga o segurava, abraçando-o num misto de força e carinho.</p>



<p>O policial sentiu a pulsação de Eduardo e percebeu, abrindo suas pálpebras, a pupila dilatada, diagnosticando intoxicação. A irmã de Eduardo, numa atitude intempestiva, após ler, no grande espelho do guarda-roupa feito exclusivamente para Marina, “Sem amor não há vida”, começou a sacudi-lo, chorando e dizendo “E nós, nós não te amamos, Eduardo?”, debruçando-se sobre ele. Marina não esboçava nenhuma atitude, estava em choque, como se estivesse vivendo em um mundo paralelo, um sonho ruim que, a qualquer momento, iria se dissipar. No entanto, nesse sonho, ela remoía a morte de Eduardo.</p>



<p>A unidade do Samu chegou e, antes de começarem os preparativos no intuito de levar o pretenso suicida, Marina vai até o filho e, contrariando a todos, chama-o para entrar na casa, mostrando a porta da sala obstruída por um sofá e uma cadeira, levando-o até o quarto onde se encontrava seu pai desacordado. O garoto olhava tudo numa desordem mental sem fim, remexendo os olhos de um lado para outro. Quando avistou o pai envolto naquele mar de gentes, parou extasiado. Era a primeira vez que lhe assoprava no ouvido a querença da Morte. Marina achega-se ao filho, dobra os joelhos em um movimento litúrgico e diz ao pé do ouvido do menino:</p>



<p>&#8211; Vai lá, dá um beijo no seu pai.</p>



<p>E ele foi, pé ante pé, como se enxergasse um defunto, dar um beijo em sua face descorada.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/03666-darlan-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8077" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/aleperga/?hl=pt-br"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fe819-ale-jedis.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8701" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em><em><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></em></em></p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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		<title>21. Nasce uma borboleta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 29 Mar 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 038]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Darlan Lula]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=8594</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><em>… o ar estava ainda mais claro e os sinos alegres tocaram novamente chamando os fiéis para o consolo da punição.</em><br>Clarice Lispector</p>



<p class="has-drop-cap">O sino da igreja tocava. O vento se encarregava de tocá-lo onde houvesse fiéis dispostos a expiarem diante do santo repique. Meu lar e minha família se encontram a duas quadras da igreja. Porém, o que mais me deixa absorto são os badalos do sino, pois esses me fazem lembrar de um episódio não muito distante no tempo. Quero me liberar dessa lembrança, por isso a conto aqui para quem se interessar.</p>



<p>Morava em cidade pequena, interior de Minas Gerais. Seu nome: Itacarambi. Nome trazido de nossos ancestrais. Cidade título, provinciana até que provem o contrário. “Pedra de Duas Faces”, montanha azul como é azul a cor do mar, infinito no horizonte e trazendo a paz de se sentar na calçada em frente a sua casa, recostar o seu corpo mole depois da labuta diária e se aprazer com as conversas do povo, gostosas como o café preto que nossas velhas faziam em tempos não muito remotos. Vivi a minha infância ali, entre a imaginação e a liberdade de voar nas asas de um papagaio de seda.</p>



<p>A história que vou contar não é a de um menino livre entre o verde dos quintais e a rua apinhada de moleques fazendo algazarra nem a de uma criança descobrindo pela primeira vez as drogas do amor e seus efeitos colaterais. Conto com um menino de 11 anos nascendo para a vida, descobrindo as feridas de ser adulto. Uma lagarta na condição de casulo, virando borboleta para voar contra o vento, contra o tempo, e tendo as cores do arrebol para preencherem o pôr do sol com sua poesia de morte. Uma criança que descobrirá a fatura a pagar diante da vida.</p>



<p>Os sinos pincelam o quarto com seus badalos. A criança dorme sonhando com seus cavalos de papel sendo montados por soldados de chumbo. O pai a arranca da fantasia e a engatilha na realidade.</p>



<p>&#8211; Acorde, meu filho. Vamos, acorde. Deixa de ser preguiçoso. Já são dez horas da manhã. Está ouvindo o barulho do sino? Sabe o que significa isso? Não? Ouça só.</p>



<p>Silêncio no quarto. Só se ouvem o ritmo estridente da passarada e os badalos do sino.</p>



<p>&#8211; Bléim…Bléim…Bléim…</p>



<p>&#8211; Ouça só… uma badalada atrás da outra entrecortadas por uma pausa. Ouça só. O Tempo está mantendo o curso normal das coisas. Os mais jovens ficam e os mais velhos se vão pela hora que se chega. Já ouvi esse sino várias vezes, nunca me acostumo com o seu barulho. Ele pode ser tocado em vários ritmos. Esse está anunciando a morte de uma senhora idosa. E nós vamos em seu velório. Não faça essa cara. Você não quer ser escritor? Pois bem. Está aí uma ótima oportunidade de você conhecer as coisas, tomar notas. Isso pode dar até um belo conto.</p>



<p>&#8211; Mas pai…</p>



<p>&#8211; Nada de “mas”. Você não quer acompanhar o seu velho pai? Nós vamos mais tarde, depois do almoço. Portanto, acorde.</p>



<p>Acordar. Essa era a sentença. Acordar para a vida, também para a morte. Morrer. Para uma criança, morre-se de rir, morre sem razão, morre de bala imaginária alojada nos chumbos dos soldados.</p>



<p>&#8211; Pai, o que é um velório?</p>



<p>&#8211; Você vai ver, meu filho. Logo você vai ver.</p>



<p>Almoço em família. A criança cuspindo dúvidas e mais dúvidas, ingerindo badalos, sacudida pela noção da realidade. A surpresa em vista do passeio fúnebre. A barriga em digestão e seus sucos em processo gradual de decomposição. A vida prossegue em seu curso. Assim como houve a digestão alimentícia, haverá a digestão de humanos, a cupidez dos vermes e sua fome pela barriga, por tudo que se come, o ventre de outrora virando carbono, esterco, esqueleto. A terra se mistura ao morto. O arroto anunciando a vida e seu processo gradual.</p>



<p>&#8211; Deixa de ser porco! a mãe resguarda o filho de seu pai cotidiano, deixando-o o herói de cada dia, de cada fantasia.</p>



<p>A criança sorri para o pai. É um sorriso amarelo. Amarelo como a manga em que se trepa no pé para ir buscá-la. As suas fibras grudadas nos dentes. O caroço entre as mãos, futura vida no palmo da terra, fincando raízes, crescendo e sendo produtor também do que não se come, do que se perde no pé e apodrece no solo úmido e sombroso. A vida prosseguindo.</p>



<p>&#8211; Vamos, já é hora.</p>



<p>A sentença paterna. A hora do desterro. O momento do enterro do que ainda vai quente. Como que saído da boca de uma criança como a manga que se tira do pé e perde o seu cordão umbilical. A mesma terra que afaga o gérmen também cobre a folha extinta, seca de vida, cheia de fibras crestadas pelo sol e quebradas facilmente ao toque sutil de um vento feliz de outubro.</p>



<p>O pai chega à casa da finada acompanhado pela criança. A casa está cheia de gente. A rua está formigando. Não há como entrar. A velha morta era muito querida. O garoto presente acompanha tudo.</p>



<p>&#8211; Está vendo, meu filho? Isso aqui é um ambiente e tanto para se produzir um conto. Repare nas pessoas, no burburinho, nos risos que se escondem, nas dores e agonias dos parentes, no consolo fiel e cristão dos amigos, nas sutilezas dos inimigos que trazem flores murchas e roubadas, nas velas que ameaçam se extinguir a cada minuto ao som sutil e pecaminoso do vento. Tudo isso dá um conto fabuloso.</p>



<p>Ele afagava a cabeça do menino com um medo receoso de sorrir. Dizia a ele que era bom se manter sério, circunspecto diante de tal situação. Dizia que velório era aquilo mesmo, um misto de agonia e prazer. Agonia pelos que vão e prazer por não ser você a ir desta vez. De repente um grito seco ecoa no ar, todos se voltam. A filha desesperada diante do caixão suspenso no ar, fechado em seu afazer mortuário. Os gritos cada vez mais fortes, o choro agonizante de uma perda incontornável. A filha gritando pela mãe, a mãe suspensa no ar, jogada na escuridão. E o povo esperando. A ladainha em marcha pelas tormentas da rua. Começava ali o funeral, o último instante célebre antes de padecer do esquecimento nas gavetas das lembranças e das fotos envelhecidas. O povo em marcha seguindo o curso da morte.</p>



<p>&#8211; Veja, meu filho. Anote tudo nessa sua cabecinha. Que conto fabuloso!</p>



<p>Nós caminhávamos lentamente, seguindo o ritmo da vida e seu processo gradual. Um senhor, amigo de meu pai, troca alguns dedos de prosa com ele. Eu, vendo tudo aquilo, me encarrego de anotar.</p>



<p>&#8211; Doutor, o senhor viu como o pessoal que carregou o caixão na porta da casa de Madalena parecia que não estava fazendo força nenhuma? E o senhor sabe que a mãe dela, antes de morrer, vinha engordando muito. Ela era muito gorda, doutor.</p>



<p>Então, como que é isso Rubão?</p>



<p>&#8211; Ah, doutor, diz-que quando uma pessoa morre, se ela for muito boa aqui na Terra, ajudar o próximo, ser fiel a Deus, essa pessoa morta irá pesar quase nada, mesmo se tiver sido gorda e pesada antes de morrer. Mas se não, se ela for má, se desprezar o carecer dos outros, aí, doutor, ela pesa que nem chumbo, não há quem possa levantar. Pelo que eu vi, a mãe de Madalena alcançou a graça da leveza. Ela está salva, doutor. O contrário eu vi há umas duas semanas atrás num enterro lá em Manga. Um senhor muito rico morreu por lá, dono de terra, de boi, tinha dinheiro a rodo. No entanto, pra colocar o danado do homem dentro do caixão precisou de mais de dez homens. E mesmo assim porque tombaram o caixão e fizeram o defunto rolar até chegar nele. E depois, foi um custo, doutor, imagina vinte homens pra carregar o caixão. Pois é. Foi isso que aconteceu. Esse homem devia ter sido é ruim, mas ruim mesmo, doutor. Imagina só. Vinte homens!</p>



<p>Meu pai olhava para mim e sorria como que dizendo: “Anote aí, vai, anote tudo”. Lentamente chegamos ao cemitério. Quatro homens tiraram o caixão do carro e o colocaram no chão. Não vi sequer uma gota de suor, uma contração dos músculos do braço, do pescoço ou de onde quer que seja, nem mesmo um resfolegar das alças que sustentam o caixão no ar. Assim, a velha merecia os badalos do sino da igreja. Dois coveiros estavam de pé com pás nas mãos. Havia uma cova funda, não tanto para cobrir as lamúrias e os gritos secos entrecortados de choro da filha da velha. Duas cordas grossas se dispunham em cima do buraco. Ao redor, o silêncio das gentes, o ranger mudo dos dentes da filha, os latidos dos cachorros da vizinhança, as velas suspensas na escuridão e o caixão flanando no ar. Logo após, a cova e seu preenchimento, as cordas em sintonia de lesmas descendo para o furor noturno dos vermes. A cal alimentando a ociosidade da morte, rabiscando o preto em branco para a inutilidade da plantação. O crepitar das pás em ação. O último grito badalado da filha da morta. O sino e seus badalos intermitentes ao longe. O consolo do pulso pulsando e seu processo gradual. A última pá de terra cobrindo o leito da vida banida. Uns nascem, outros vivem, todos morrem.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:35% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/03/03666-darlan-bio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8077" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p class="has-normal-font-size"><strong><strong>Darlan Lula </strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



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