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	<title>Arquivos Bárbara Pippa - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
	<lastBuildDate>Sun, 15 Nov 2020 21:22:00 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 8</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 071]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando percebi, já era final de ano.</p>



<p>Mal me recordava que éramos estudantes do terceiro ano do ensino médio e, dali em diante, seria o começo da vida na faculdade e o início de nossas vidas em outras esferas do mundo.</p>



<p>Muito aconteceu durante os meses que se seguiram e, sem acordar para a realidade que me cercava, não percebi que o fim de meu contato diário com Ana também estava próximo.</p>



<p></p>



<p>Após a noite em sua casa, ela ficou uma semana sem me dirigir a palavra. Para nada.</p>



<p>Se estávamos perto e no mesmo grupo de amigos, ela se desviava de minha presença e ficava na outra ponta. Se estávamos em classe, ela dormia a maior parte das aulas em que ficaríamos conversando geralmente e evitava sequer me olhar. Obviamente, as pessoas que conviviam diariamente conosco percebiam que havia algo errado, visto que vivíamos rindo e juntas e, de um instante ao outro, eu passava a ser ignorada.</p>



<p>Eu não sabia o que se passava em sua mente, mas, em mim, o que existia de sentimento ainda estava forte e necessitava ser dito, mesmo que fosse apenas para aliviar o peso de meu coração guardar a sete chaves esse segredo.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Sinceramente, não sei por que ela ficou desse jeito. Não sei o que fiz de errado.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Acho que você não fez nada errado, meu bem. A Ana que deve ter feito algo que ela não imaginava e agora tá confusa. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Mauricio tentava me acalmar.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Mas&#8230; ela nem me olha mais. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Eu estava desolada.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Olha, acho que você deveria conversar com ela. Sei que ela tá te ignorando, mas, sei lá, tenta pegar um momento em que ela esteja sozinha e fala tudo.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Tudo? Tipo tudo mesmo?</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;É! Fala o que você sente por ela, pergunta por que ela tá desse jeito. Pior do que tá, não fica; então, não custa tentar.</p>



<p>E eu tentei.</p>



<p>E ela me ignorou.</p>



<p>E eu tentei.</p>



<p>E ela me ignorou.</p>



<p>Toda vez que eu chegava perto, ela se afastava, como se eu estivesse com uma doença terrível e contagiosa.</p>



<p>Fiz a última tentativa um dia antes do último dia de aula.</p>



<p>Na hora do intervalo ela saiu para fumar e eu fui atrás, porque não poderia prolongar mais o sofrimento e necessitava acabar com o caos que estava rodeando nossa amizade.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Você vai me escutar. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu falava cansada enquanto subia o morro correndo atrás dela para alcançá-la.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu não tenho nada pra dizer. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela acendeu o beck e evitou me olhar nos olhos.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Mas eu sim. Então só me escuta.</p>



<p>Estávamos só nós duas, no alto daquele lugar e a cidade abaixo de nós.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu estou apaixonada por você.</p>



<p>Ela se limitou a me encarar, tragando e soltando a fumaça, muda.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;E desde que aconteceu aquilo na sua casa&#8230;. Eu&#8230;. Eu não sei o que pensar. Porque você me beija no banheiro e aí vai e tira minha roupa, aí agora finge que eu não existo.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Aquilo foi um erro. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Ela olhava para todos os lugares, menos para mim.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Não parecia um erro quando <em>você</em> foi até mim.</p>



<p>Ela respirou fundo, umedeceu o lábio com a língua e buscou as palavras.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu sabia que você tava gostando de mim. Por isso foi um erro a gente ter transado. Eu não devia ter permitido que acontecesse, mas, na hora, eu esqueci disso e pensei só em que eu queria saber como seria, porque tava curiosa em ter essa experiência também. Foi ótimo, não vou mentir e nem tem como, você sabe muito bem. Mas, eu não sinto o mesmo por você, Bianca. Nunca senti. A gente é amiga e só isso.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Então eu fui uma experiência? <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu falava o mais baixo possível.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;E eu não fui? <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela assentiu.</p>



<p>Eu sentia que as lágrimas viriam, mas torcia para que conseguisse segurar.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;A gente tem dezessete anos, Bi. A gente tem que curtir o mundo, aproveitar as oportunidades, os momentos. Fazer o que tem vontade. E deu vontade, eu quis. Eu também tenho minhas curiosidades. Mas foi só. Nada além de matar a vontade. Eu tô esse tempo todo te ignorando porque sei que é melhor pra você se afastar de mim do que ficar mais próxima. Ficar mais próxima de um sentimento que nunca vai ser reciproco só vai te causar dor, e como amiga eu não quero isso.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Infelizmente isso já aconteceu. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Enfim as lágrimas escorriam pelo rosto enquanto eu tentava não desabar.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Foi irresponsável da minha parte ter te tratado dessa forma, mas eu realmente achei que dava pra separar as coisas. Desculpa se te fiz sofrer, mas eu não imaginei que você sentisse tanto assim por mim.</p>



<p>Abaixei a cabeça e não conseguia mais falar, estava de coração partido.</p>



<p>E doía demais.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;As aulas acabam amanhã. Então o colégio tá no fim, e, isso quer dizer que, depois daqui, a gente não vai se ver mais. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Ela se aproximou e colocou uma mão em meu ombro. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;E vai ser melhor assim. Foi ótimo ter sua amizade, foi ótimo ter sido o seu primeiro beijo, foi ótimo o que a gente fez, mas eu não queria que as coisas tivessem sido desse jeito. Então, desculpa, mas a partir de agora, nossa amizade acaba aqui.</p>



<p>Ela tirou a mão de mim e começou a descer o morro.</p>



<p>Eu a observei partir, pensando o quanto ter escutado aquilo tudo era horrível e para ela não significava nada.</p>



<p>Eu sabia que a vida era feita de decepções e que sem elas nós não crescemos, mas, naquele instante, era o fim do mundo e sem perspectiva de renascimento.</p>



<p>Fiquei por lá, em pé, parada, olhando para o nada e pensando em mil coisas. Ah, se eu soubesse que não seria a primeira e nem a última vez que algo assim aconteceria&#8230;</p>



<p>Quando retornei para a classe, permaneci sentada ao seu lado.</p>



<p>Coloquei o fone de ouvido, e a primeira música que tocou falava sobre gostar de alguém que não sentia o mesmo, e o quanto essa pessoa desejava não ser amigo de quem o amava para que não se compadecesse daquela dor; e, eu me perguntava, se ela ao menos se sentia triste de verdade por ter me feito triste.</p>



<p>Mas, talvez, ela nem se importasse.</p>



<p></p>



<p>O último dia de aula era um alvoroço.</p>



<p>Todos queriam assinar as camisas de todos &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;que ficariam jogadas no armário como recordação de um colegial bom para alguns e péssimo para outros. Porém, Ana não foi.</p>



<p>Procurei-a por todos os cantos e não a encontrei.</p>



<p>Tive certeza de que fora para não cruzar comigo e evitar alguma confrontação;&nbsp;e eu só queria seu nome em minha camiseta para que <em>ela</em> não se esquecesse de mim.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela não vem, Bi. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Mauricio se aproximou e me ajudou a guardar as coisas para irmos embora. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Perguntei pras meninas e elas disseram que, parece, que a Ana viajou com os pais ou algo assim.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Tá tudo bem. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Forcei um sorriso, coloquei a mochila nas costas e o abracei pela cintura para sairmos dali.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Fico péssimo que você esteja assim.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Uma hora vai passar, você vai ver.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu sei Bi. Pensa que agora a gente começa outra fase das nossas vidas e tem um mundo lá fora esperando.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ainda bem, Mau, porque se não tivesse eu estaria perdida. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Rimos juntos e saímos.</p>



<p>Quando estávamos deixando para trás definitivamente o edifício que pertenceu a uma parte da nossa adolescência, e onde ficou meu beijo gravado entre o corredor frio e que se tornara quente naquela hora, olhamos mais uma vez para lá, nos despedindo de fato da escola.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Bi, olha! &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Mauricio apontou para o outro lado da rua.</p>



<p>Lá estava Ana, distante, parada e olhando para nós dois.</p>



<p>Ela forcou os lábios em um sorriso pesaroso e acenou com a cabeça.</p>



<p>Eu congelei e meu coração parecia fugir de meu peito, mas, entendi o que ela quis dizer apenas com aquilo.</p>



<p>“Está tudo bem? Desculpa pelas palavras rudes”.</p>



<p>Eu sorri, sinceramente, balancei a cabeça também em um aceno e levantei o braço, com um tchau estático.</p>



<p>“Sim, está tudo bem. Eu um dia irei compreender”.</p>



<p>Ela sorriu um sorriso tímido e foi embora de vez.</p>



<p>E eu entendi que tudo aquilo estava indo embora com ela &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;as memórias, os acontecimentos, as vontades (mesmo que estivessem guardados para sempre em mim) <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;porque realmente estava tudo bem e os meus dezessete anos também estavam partindo para uma nova vida começar.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 7</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Nov 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 070]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ela me chamou para dormir em sua casa. Eu aceitei.</p>



<p>Mas era porque um amigo próximo iria fornecer maconha e pizza, e ela achou que seria bom eu ter uma outra experiência, em um ambiente mais calmo do que a rua.</p>



<p>Foi extremamente divertido. Interagimos os três como se fossemos velhos amigos e passamos a noite conversando.</p>



<p>Eu pensava, durante a ocasião, que se meus pais pudessem me ver naquele instante, teriam se arrependido de me deixar sair de casa, pois estava fazendo algo que na cabeça deles era errado e na minha era a coisa mais certa do mundo.</p>



<p>Assistimos filme, comemos, rimos e eu fiquei um pouco mais íntima do ato de fumar. E achei aquele amigo interessante e atraente, o que guardei para mim e apenas revelei quando já estávamos na casa de Ana.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Aposto que ele também gostou de você. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela disse enquanto escovava os dentes, eu estava já deitada no colchão, pronta para dormir, relaxada.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Será?</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Claro! Por que ele não se interessaria por você? <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela adentrou o quarto, apagou a luz e fechou a porta. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Você é gata, gente boa e é minha amiga, o que dá o selo de qualidade.</p>



<p>Começou a trocar de roupa no escuro, colocando o pijama. Eu evitei olhar, fingindo prestar atenção à claridade que saía da cortina entreaberta.</p>



<p>Meu coração disparou quando eu a vi. Tentei me acalmar; tal como o segundo beijo, pensei ser impossível ter um terceiro momento de sorte.</p>



<p>Porém, mesmo tranquila, era impossível ficar totalmente inerte a sua presença &#8211; que se despedira com um sonoro “boa noite” e virou de costas para mim. Eu tentava desenhar seu contorno debaixo das cobertas com os olhos semicerrados, forçando para enxergar com tão pouca luz.</p>



<p>Queria sair de onde estava e ir até ela, fazê-la ouvir o que eu sentia, beijá-la. Me limitei a respirar fundo e tentar acalmar meu corpo que estava ansiando pelo dela.</p>



<p>Eu não conseguia dormir.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src=""></p>



<p>&#8211;&nbsp;Ei, tá acordada? <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela se virou novamente para mim.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Tô. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;observei-a escutar minha resposta e se levantar, vindo até o colchonete.</p>



<p>Ela se agachou, encarou profundamente meus olhos e tirou minha coberta.</p>



<p>Eu permanecia deitada imóvel.</p>



<p>A respiração acelerando.</p>



<p>Ela passou uma perna por meu corpo, sentando-se sobre mim, e desceu seu rosto até o meu, onde me deu um beijo com uma vontade arrebatadora.</p>



<p>Instantaneamente tirei sua blusa, e sem nada dizer, ela tirou a minha.</p>



<p>Me sentei com ela no meu colo, nossas mãos percorrendo ferozmente o corpo da outra <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;costas, nuca, seios.</p>



<p>Ela se afastou, tirou sua calça e a calcinha e fez o mesmo com as minhas.</p>



<p>Nos sentimos nuas.</p>



<p>Pele na pele.</p>



<p>Excitação, calor.</p>



<p>O contato de nossos corpos quentes e úmidos de desejo.</p>



<p>As mãos e dedos passeando por cada parte, por cada canto.</p>



<p>Nosso fôlego saindo pela boca aberta que compartilhava línguas e lábios e gemidos abafados de prazer.</p>



<p>Nossas unhas arranhando a carne que se arrepiava.</p>



<p>Nossos olhos se observando no crepúsculo do quarto.</p>



<p>Nossos olhos de desejo.</p>



<p>Eu estava tendo a primeira vez que almejara.</p>



<p>“Nunca diga nunca” foi o que Mauricio dissera.</p>



<p>Nós tínhamos química, luxúria, gozo.</p>



<p>As quatro paredes do quarto testemunhando nossos dedos entrelaçados fortemente quando do êxtase.</p>



<p></p>



<p>Ela se levantou, vestiu as roupas jogadas, retornou para sua cama.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Isso fica entre a gente. &#8211; Ela fitava o teto. Eu, a ela.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ok. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Foi o que me limitei a responder, ainda impressionada com o que se passara.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 6</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 069]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Os dias passavam devagar. Geralmente, os dias passam devagar quando há ansiedade dentro de mim. Especialmente quando ela diz respeito a coisas que não posso dizer ou fazer. E isso se acumula de uma maneira em que começa a corroer meu ser.</p>



<p>Fico nervosa quando não há a possibilidade de eu descobrir que caminho seguir, ou quando não tenho a menor ideia do que vai acontecer em seguida.</p>



<p>E, nesse universo adolescente, existia a oportunidade de descobertas que podem auxiliar ou não essa ansiedade. Foi quando tive meu primeiro contato com a maconha.</p>



<p>Ana fumava esporadicamente e, em um dia, perguntou se eu queria experimentar.</p>



<p>Nunca fui influenciável, nem nunca fiz nada que não tivesse vontade <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;até os dias atuais permaneço assim. Porém, sempre tinha tido a curiosidade de saber como funcionava essa droga <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;apesar de, também, não considerar como uma verdadeira droga, por ser algo natural e não tão sinteticamente modificado.</p>



<p>Fiz minhas pesquisas nos computadores pagos da Lan House e, com plena certeza de que estava decidida sobre o que gostaria de fazer: aceitei. Aceitei por mim e para mim. E Ana me mostrou o caminho da melhor forma.</p>



<p>Saímos para o intervalo <img decoding="async" width="16" height="23" src="">(novamente ele)<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e nos escondemos em uma rua vazia que ficava no alto de um morro, ao lado do colégio; só a vista da cidade sob nossos pés e nós duas. Lá, ela me apresentou a essa outra parte da vida que estava começando no meu mundo.</p>



<p>Não tenho intenção de ser moralista ou apoiadora, mas tendo em vista que eu havia pesquisado não existir mortes decorrentes de seu fumo, eu usei com a consciência tranquila.</p>



<p>Foi engraçado; afinal, nunca tinha fumado por detestar o cheiro de cigarro. Então me faltava capacidade de saber como conduzir a fumaça e todo o processo. Ana teve paciência: ria de mim e comigo, sem cobranças, apenas deixando a situação acontecer.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Espera. Acho que você não vai conseguir saber direito como funciona sem fumar direito. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela pegou o <em>beck</em> da minha mão após várias tentativas falhas de tragar.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Então vai ser impossível, porque não vou fumar. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu estava me sentindo confortável com ela ali.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Não vai e nem eu, porque não gosto de cigarro, você sabe que eu não fumo. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela inspirou e me encarou por alguns segundos. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Deixa eu tentar algo.</p>



<p>Ela fumou, segurou a fumaça dentro da boca, se aproximou de mim e vagarosamente encostou seus lábios nos meus, entreabertos. E eu, tomada por um reflexo, a segui. A fumaça passou dela para mim enquanto sua mão segurava meu rosto delicadamente.</p>



<p>A minha vontade era de beijá-la, mas não o fiz.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Segura e engole. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela se afastou um pouco e ordenou com a voz baixa e me olhando nos olhos.</p>



<p>Eu comecei a tossir. Ela começou a rir.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Pronto, deu por hoje. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela apagou o beck e fez com que levantássemos para retornar. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Dizem que quando há tosse, há eficácia.</p>



<p>E de fato houve. Um pouco.</p>



<p>Voltamos para o colégio munidas de biscoitos e, discretamente, devoramos os pacotes no fundo da sala para matar a fome originada da brincadeira.</p>



<p>Foi algo que me acalmou e me trouxe um momento de tranquilidade, que há muito eu não sentia. Se fazia necessário em mim.</p>



<p>Ficamos sentadas, lado a lado, nas carteiras colegiais, cada uma apreciando seu instante, sem falar nada ou fazer nada.</p>



<p>Antigamente, existiam aparelhos de músicas externos aos celulares, que comportavam algumas canções e eram pequenos, tendo como levá-los para todos os lugares. Coloquei meu fone de ouvido, fingindo prestar atenção ao professor; liguei o reprodutor no modo aleatório e deixei a <em>playlist</em> tocar.</p>



<p>Ana se levantou para ir ao banheiro  <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; não precisávamos pedir permissão &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e eu acompanhei com os olhos, gravando seu movimento gracioso ao contornar as fileiras de gente fazendo ou fingindo fazer anotações em seus cadernos, sem percebê-la passar.</p>



<p></p>



<p>“Vem cá”.</p>



<p>Após alguns poucos minutos, ela me encaminhou uma mensagem de texto. Ainda fora de sala, eu achei que poderia ter acontecido algum mal-estar, com o qual ela precisasse de ajuda.</p>



<p>Despretensiosamente, me dirigi ao sanitário, bati na porta <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;era um banheiro único, separado entre meninos e meninas &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e ela abriu, rindo da minha cara confusa.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Aconteceu alguma coisa?</p>



<p>Eu entrei, ainda sem entender o que estava acontecendo. Ela fechou a porta. </p>



<p>Ela me colocou contra a parede.</p>



<p>Ela me beijou.</p>



<p>Foi totalmente inesperado.</p>



<p>Mas, dessa vez, eu não estava tão assustada quanto da primeira. Retribui da minha melhor forma.</p>



<p>Foi “o” beijo.</p>



<p>Enquanto nossas bocas conversavam, nossos corpos se abraçavam e se apertavam, se aproximando ao máximo dentro daquele banheiro.</p>



<p>Ela me pressionava contra a parede, eu a trazia ainda mais para mim.</p>



<p>Com uma mão percorrendo meu pescoço, ela seguiu até meu cabelo e o puxou, fazendo com que eu elevasse um pouquinho o rosto, e deu uma leve mordida em meu lábio inferior.</p>



<p>Pegou o outro fone que estava pendurado sob meu ombro <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;sem cessar o beijo &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e o colocou em seu ouvido, escutando simultaneamente a mesma música que eu. <img decoding="async" width="16" height="23" src=""> <em>Adele</em> cantava, numa trilha sonora inesquecível, fazendo o beijo perdurar por longos minutos.</p>



<p>Ela passou sua mão por dentro de minha blusa, vagarosamente arranhando minhas costas. Eu arrepiei inteira.</p>



<p>Até se afastar, sorrir um sorriso maldoso, morder de leve seu próprio lábio inferior e balançar a cabeça acenando para sairmos dali, em silêncio.</p>



<p>Ela fez minha calmaria voltar a ser tempestade. E eu precisava realmente deixar a tempestade acontecer.</p>



<p>E precisava deixar a tempestade acontecer com nós duas na chuva para se molhar.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 5</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 068]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>&#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Nos encontramos, andamos até achar alguma rua sem saída e sem movimento, conversamos e achei ela bem legal. Aí, por fim, nos beijamos.</p>



<p>Foi o que contei a Ana no dia seguinte.</p>



<p>E era o que tinha acontecido.</p>



<p>Mais ou menos.</p>



<p>A menina do terceiro encontro era mais experiente do que eu, e mais desinibida.</p>



<p>Conversamos bem pouco, ficamos bem mais.</p>



<p>Conseguimos encontrar uma rua sem movimento algum, sem nada que desse vista para nós e, por lá, passamos as horas que se referiam ao horário de aula <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; após isso, era ir para casa como se estivéssemos na escola <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; nos agarrando.</p>



<p>Ela era mais intensa, fisicamente falando. Repleta de mãos que sabiam onde queriam ir e onde percorrer e, eu, apenas uma cópia de movimentos. Mas foi nessa situação que parei para analisar a vontade sexual de estar com uma mulher que também, como tudo em mim, se fez urgente.</p>



<p>As “cócegas” de vontade que surgiram a partir desse contato me instigaram a levar adiante outro encontro com ela, marcado para o outro dia, para, enfim, ter a minha primeira vez (ou seria segunda?).</p>



<p>Tudo na vida é necessário experimentar para descobrir se você vai gostar ou não. Eu gostara dos beijos; faltava, então, o sexo. Porque minha conclusão definitiva de que eu realmente gostava de homens foi a partir do meu contato tal com um. E, por que não descobrir também da mesma forma com uma garota?</p>



<p>Não falei sobre esses detalhes que havia pensado com Ana. Parecia ousado demais.</p>



<p>E eu já tinha em mim a sensação de que estava deixando às claras os meus sentimentos através de gestos bobos e simples que, talvez, ela estivesse percebendo &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> mesmo sendo apenas medo irracional.</p>



<p>Então, se falasse sobre, ela poderia entender que também gostaria de que essa primeira vez fosse novamente com ela &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> o que eu não descartaria como plausível.</p>



<p>Quando, no dia do segundo encontro, saí para encontrar aquela garota, eu estava completamente ansiosa, nervosa e com um misto de sensações.</p>



<p>O que aconteceria? Como aconteceria?</p>



<p>Ela me levou para a casa de um amigo, que havia cedido simpaticamente sua residência enquanto ele estaria fora.</p>



<p>Era real e ia acontecer.</p>



<p>Na minha primeira vez com um rapaz, eu estava apreensiva e sem saber o que fazer. Entender a anatomia humana através de livros e filmes se tornava diferente na prática. Eu era inexperiente, e deixei claro para ele, que soube me conduzir a tornar nosso momento agradável.</p>



<p>Eu estava, obviamente apreensiva com a garota também; mas, por dentro, havia uma consciência de saber que o mesmo corpo nu que eu tinha seria o mesmo corpo nu que ela tinha.</p>



<p>Ela sabia que seria a minha primeira vez. Sabia que eu não teria ideia do que fazer &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> apesar de que havia essa estranha lógica me conduzindo a tomar frente perante as circunstâncias e não ser totalmente leiga perante a masturbação. Mas, ainda assim, não fiquei totalmente confortável.</p>



<p>Claro, foi uma ocasião única e nova, inesquecível; contudo, não tinha gostado o tanto que achei que gostaria.<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Não do sexo &#8211; porque eu tive certeza de que, realmente, eu desejava garotas <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">-, mas de estar com essa menina. Algo nela e na ocasião fez com que fosse impossível eu me transportar totalmente para o nosso momento.</p>



<p>Foi bom, mas não foi.</p>



<p>Foi gostoso, mas não foi.</p>



<p>Foi repleto de mãos e dedos e línguas e gozo.</p>



<p>Mas não tínhamos química.</p>



<p>Ficou no ar a sensação de que eu provavelmente tinha desejado demais e esperado o que não deveria esperar.</p>



<p>Mas foi a primeira vez, primeira experiência.</p>



<p>E eu queria mais.</p>



<p>Mas, em primeiro lugar, eu queria a Ana.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> </p>



<p>&#8211; Você já aprendeu, logo de cara, que a vida não é como a gente espera. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Passei a ir para o colégio com Mauricio também, assim tínhamos mais tempo para conversar. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> E nem sempre vai ser do jeito que a gente quer que seja.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Pois é, mas eu acho que talvez eu tenha idealizado demais. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; eu tinha acabado de contar para ele todo o ocorrido.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Acho que você disse o certo. A gente idealiza demais, e quando acontece totalmente fora daquilo que pensou, a gente não gosta.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Mas eu gostei, só esperava&#8230;</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Mais? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Riu. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Você esperava bem mais por causa dessa idealização. E te digo: você idealizou essa primeira vez com a Ana, por isso ficou decepcionada.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Você acha? &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Eu tinha certeza.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Claro! Você beijou a Ana, se apaixonou por ela, e queria que ela também fosse o primeiro sexo. Não aconteceu desse jeito, a expectativa já era.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Verdade. Mas acho que nunca vai ser do jeito que eu idealizei.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Nunca diga nunca. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Ele concluiu. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tudo pode acontecer nessa vida louca.</p>



<p>Mauricio tinha me aconselhado a contar para Ana, sem o detalhe de que eu não tinha cumprido com a expectativa do meu sonho. Assim, narrando os fatos sem muitos detalhes, eu poderia ver como ela reagiria e se, nessas expressões que talvez fossem feitas por ela, teria como saber se haveria algum lampejo de possibilidade de a gente acontecer &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> ideias adolescentes.</p>



<p></p>



<p>Se existia, ela não deixou transparecer. Tratou tudo como sempre, na maior naturalidade e sem exibir algo que fizesse eu ter motivos de julgar alguma probabilidade futura.</p>



<p>Ela ficou feliz por eu ter dividido com ela toda a história e, após eu me ouvir falando em voz alta, resolvi dar um tempo. Achava melhor voltar a deixar a vida trazer as coisas para os momentos propícios do que forçá-las a acontecer. Resolvi assimilar tudo o que estava acontecendo <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> a descoberta sexual com um homem, o desejo do mesmo sexo, o primeiro beijo, a descoberta sexual com uma mulher e a paixão por Ana.</p>



<p>Era muita coisa acontecendo dentro de mim e eu ainda não sabia digerir &#8211; e ainda insistia em ter tudo ao mesmo tempo sem pausa para respirar. A única certeza que tinha era que, se alguém perguntasse, com todas as letras eu diria que não era mais cem por cento hétero &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> e ainda bem.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 4</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:21:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Eu beijei outra menina.</p>



<p>Falei assim, do nada e como quem não queria nada, fingindo ser um assunto qualquer e ter trazido à tona apenas para passar o tempo da aula que estávamos sem paciência para assistir.</p>



<p>Ana olhou para trás, sem virar muito o pescoço, mas pude perceber um pouco de surpresa no seu rosto.</p>



<p>Me aproximei mais, ficando praticamente debruçada em seu ombro, ainda assentada na mesa detrás.</p>



<p>Ficávamos no fundo da sala <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;turma do fundão <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;mas prestávamos atenção quando era do agrado e evitávamos as matérias que realmente não nos pertenciam.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; É? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Ela deu um meio sorriso, que arrisco dizer ter sido irônico. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Foi mais rápido do que você imaginou então. E como foi?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Foi bom. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Não tinha sido como foi com ela. Mas realmente foi bom. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Foi interessante.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Então você agora tá realmente confirmada, legal. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Não era uma pergunta.</p>



<p>&#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Acho que sim. &#8211; Abaixei ainda mais a voz, para que ninguém escutasse. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Mas devo isso a você.</p>



<p>Ela riu, discretamente e se encerrou o assunto.</p>



<p>Percebi que aquela mulher que trouxera ao ar minha sexualidade havia sido apenas um ponto, como se realmente eu estivesse presa em correntes e necessitasse que alguém aparecesse com a chave para me libertar.</p>



<p>Ela me libertou, e eu consegui correr para o mundo que me esperava.</p>



<p>E passei a admirar o que antes eu não percebia nas pessoas, nas mulheres e, especialmente, na própria Ana. Cada detalhe que antes era apenas comum, se tornou novidade e magnífico.</p>



<p>Aconteceu o que acontece com grande parte das pessoas que eu conheço quando dá o primeiro beijo em uma pessoa do mesmo sexo: eu me apaixonei.</p>



<p>Eu estava encantada e absolutamente apaixonada por Ana.</p>



<p>Todas as mulheres que fizeram parte da minha vida posteriormente e com as quais eu conversei sobre esse assunto, concordavam e também diziam ter sentido a mesma coisa em seu primeiro contato assim.</p>



<p>Parece que havia uma generalização em relação ao primeiro beijo desse aspecto. Além de ser especial <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;por ser o primeiro de fato a abrir portas ao mundo o qual pertencemos <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;era como se ele transformasse aquela pessoa que foi beijada em um ser totalmente único e diferente, incapaz de se parecer com os demais.</p>



<p>Hoje, analisando, eu continuo tendo certeza do que senti. Eu estava realmente apaixonada por Ana. Nós combinávamos em vários aspectos e nosso beijo foi a junção que faltava.</p>



<p></p>



<p>Na vida já me apaixonei diversas vezes, de várias maneiras e cada paixão se tornou exclusiva a seu modo.</p>



<p>Algumas paixões são menores, menos intensas e acabam com a mesma rapidez que iniciaram. Algumas são fortes e duradouras, e se fazem lembrar pelo resto da vida, mesmo após o fim. Algumas são correspondidas, outras não.</p>



<p>Minha primeira grande paixão foi por um rapaz que nem sequer me desejava. E para ele, eu era capaz de <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> estupidamente  dar o mundo. Ele me tinha como amiga, mas eu queria mais. E nunca tive mais. Até hoje me recordo de tudo o que senti naquele período e, não me arrependo de nada.</p>



<p>Prefiro me arrepender de ter feito e vivenciado, de ter ido atrás mesmo que não tenha dado certo e quebrar a cara por isso, do que passar uma eternidade imaginando o que poderia ter acontecido se eu tivesse feito algo.</p>



<p>Quando me declarei para ele, foi sutil sua forma de negar que era recíproco e a vida seguiu.</p>



<p>Mas, a Ana, eu não poderia falar o que sentia. Era um medo que tinha em mim maior do que o próprio sentimento e do que a vontade de dizer.</p>



<p>Era tudo confuso ainda, eu era incapaz de ter certezas sobre a vida e, como dizer para uma amiga que se gosta dela? (Ainda desconheço esse jeito).</p>



<p>Cada dia era uma luta para evitar olhá-la com uma cara de boba apaixonada, para evitar rir demais de alguma piada que ela contasse, para evitar me aproximar demais fisicamente.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Acho que você precisa seguir em frente na descoberta, e aí vai acabar esquecendo a Ana. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Mauricio era a única pessoa que sabia.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Será?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tenho certeza. É porque foi seu primeiro beijo com uma menina, eu também me apaixonei pelo meu primeiro cara. Comum.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Então é o melhor a fazer. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Apesar de não ter certeza sobre.</p>



<p>Geralmente, eu deixava a vida me levar e não buscava pessoas para ter encontros no meio do caminho. Foi a partir desse momento que iniciei uma nova perspectiva em começar a procurar contatos para ter tais momentos.</p>



<p>Era complicado, sem a internet, sem aplicativos de relacionamento. Tinha que ser no “<em>boca a boca”;</em> tinha que ser explanando para outras pessoas o que eu estava a procura.</p>



<p>Evitava falar disso com Ana, tentando levar normalmente nossa amizade e ignorando toda e qualquer motivação de gritar meu desejo.</p>



<p>Mas, éramos amigas e amigas conversam sobre tudo, então, acabávamos chegando a esse ponto, do qual ficava inevitável fugir.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; E aí, você vai levar o encontro adiante? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Ela falava tudo e sobre tudo com a maior naturalidade, me fazia sentir confortável em poder dividir meus pensamentos.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Vou. Amanhã vamos nos encontrar.</p>



<p>Eu havia sido apresentada via mensagem de texto para uma amiga de um amigo de um amigo.</p>



<p>Éramos adolescentes, e a única possibilidade de encontros reais eram durante o horário de aula. Cabulávamos aula sim, para poder dar beijo na boca. Eu não era a única, e tinha apenas começado a fazer isso tardiamente, quase próximo dos últimos anos do colégio <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e aquele era o meu último.</p>



<p>Era errado, claro, faltar aula. Mas era em função de poder viver.</p>



<p>Era em função de poder ter experiências e momentos que jamais teríamos a oportunidade em outra ocasião. Éramos jovens e queríamos tudo para aquela hora <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e ainda, dependendo do que for, quero para ontem.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Vou sair durante o intervalo. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> A diretoria se limitava a fingir que não via e não entrava em contato com os pais, o que ajudava ainda mais nosso golpe de sorte. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Aí amanhã de manhã te conto como foi.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Beleza. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Ana não demonstrava ciúmes ou chateação, e isso causava em mim uma necessidade de que ela sentisse essas coisas. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tô curiosa pro seu terceiro beijo.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Eu também. Tô me sentindo meio promíscua. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; E ri.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Porque tá ficando com as pessoas? Pára! Você tem o direito de ficar com quem quiser, com quantas pessoas quiser, como quiser e sem ser chamada de nada por isso! Somos livres, meu bem.</p>



<p>E de fato, somos. Somos livres para ficarmos com quem quisermos, como quisermos e quando quisermos, ninguém tendo nada a ver com isso.</p>



<p>As pessoas têm o costume de cuidar da vida alheia e da frequência das relações que elas têm, se preocupando demais com quantos homens/mulheres uma mulher se encontrou em determinado mês; quantas bocas beijou numa balada <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;é o machismo incorporado no dia a dia, limitando a possibilidade de sexo casual apenas para os machos.</p>



<p>Mulheres tem desejos, necessidades, prazer. Mulheres querem fazer o que querem fazer, e não é um homem que vai dizer o que ela deve ou não. Hoje temos mais consciência disso, apesar de ainda existir e ser extremamente forte essa forma de machismo, e temos de ir contra cada vez mais para que seja entendido a liberdade feminina como uma obrigação perante a sociedade.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 3</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 066]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[LGBT]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Apesar da confusão que me acompanhava todos os dias e por todas as horas, o mundo tinha adquirido outra tonalidade. Os sentidos ficaram aguçados; as músicas eram mais bonitas; as cores, mais perceptíveis; as texturas, mais tocantes.</p>



<p>Eu estava mais sensível a tudo ao meu redor.</p>



<p>Eu estava observando um mundo que nunca antes fora admirado de dentro daquela caixa fechada que eu vivia. Agora, estava de fora, em outra perspectiva, enxergando tudo aquilo que aparecia a minha visão.</p>



<p></p>



<p>Ana e eu não tocamos mais no assunto, e as meninas que agrupavam conosco não perceberam nada de diferente.</p>



<p>Os dias passavam, mas eu ainda queria gritar aos ventos todos aqueles sentimentos dentro de mim &#8211; principalmente os que haviam surgido em relação a ela.</p>



<p>Quanto à minha primeira vez sexualmente falando, eu estava esperando por ela; então, essa novidade não foi algo que movimentou minhas estruturas de uma forma anormal. Claro, fortaleceu minha nova forma de me entender perante uma sociedade sexual e perante meu próprio corpo descobridor dos prazeres carnais; mas, era algo &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;na falta de termo melhor <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;rotineiro.</p>



<p>O que me confundia era ter esses desejos por homens <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;na vontade, sim, de descobrir outros corpos masculinos para além daquele primeiro e de entender todo o funcionamento da vida entre quatro paredes &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e, simultaneamente, a lembrança do beijo, frenética como as batidas de meu coração, tocando as memórias em ritmo carnavalesco e sem ser chamada para vir à tona.</p>



<p>Eu tinha escutado por aí que, às vezes, isso era apenas uma &#8220;fase&#8221;.</p>



<p>Quem nunca ouviu isso? &#8220;Uma fase&#8221;.</p>



<p>“Ah, é apenas uma fase, você vai ver, logo passa”.</p>



<p>A lua tem fases. Jogos de videogame têm fases. Programas televisivos tem fases. Bandas tem fases. Diretores de filmes tem fases.</p>



<p>As pessoas também têm fases, pois, eu mesma já fui tantas pessoas dentro de um só corpo que se dividiram em anos, tempos que melhor lhe aprouveram até chegar a ser a atual eu.</p>



<p>Mas, ouvir dizer que sexualidade tem fase é algo que nunca entrou por meus ouvidos de bom grado.</p>



<p>Entendo que existem pessoas que sim, têm atrações e vontades, das quais querem vivenciar as situações e se perceber perante as mesmas, e, quando concluem, enxergam que não era de fato o que lhes preenchia.</p>



<p>Têm pessoas que guardam para si como o segredo mais secreto e jamais experienciam as coisas por algum medo e, essa tentativa de sair da zona de conforto se estagna.</p>



<p>E existem pessoas que se jogam <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;como se pulassem de uma ponte para fazer aquele esporte radical <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;para abraçar tudo o que lhes é ofertado, descobrem o que tem afinco e o que não lhes cabe, até se entenderem como um todo.</p>



<p>Mas, usar a palavra “fase” desmerece toda e qualquer situação nesse aspecto.</p>



<p>Pode ser passageiro, mas é para ser vivido. Pode não ser eterno, mas é para ser experimentado.</p>



<p>Eu não sabia o que era para ser, só sabia que queria algo maior do que eu mesma e necessitava fazê-lo caber dentro do meu peito que explodia de vontades de narrar ao mundo o que jorrava na fonte de minhas experiências.</p>



<p>E, para compreender da melhor forma possível, eu precisava viver.</p>



<p></p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Oi, Mauricio, posso ir contigo? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Perguntei a o rapaz alto e forte que fazia o mesmo percurso para casa após o colégio, e que coincidia de ser o meu, quando já havia me despedido de Ana em seu ponto de ônibus.</p>



<p>Timidamente eu iniciei a conversa com ele, que era gay assumido, e a única possibilidade que apareceu na minha cabeça de ter alguma experiência verbal com alguém que fosse do “meio”.</p>



<p>Nós nos conhecíamos de vista, da escola. Nos cumprimentávamos e trocávamos algumas palavras, mas nunca fomos apresentados ou próximos. Na ingênua mente que eu tinha, por ele ser gay, achava que, tecnicamente ele teria amigos gays e poderia me levar para um outro mundo, diferente do que eu estava acostumada.</p>



<p>Mas éramos todos adolescentes sem empregos, com pouco dinheiro no bolso e nenhum ambiente que nos abraçasse para que pudéssemos libertar nossas feras. Somente anos mais tarde, já resolvida comigo, encontrei a possibilidade de frequentar tais locais.</p>



<p>Com a frequência de ter a companhia de Maurício, ficamos verdadeiramente amigos. E sendo a amizade uma troca <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;de confidências e de confiança <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;contei a ele tudo o que tinha acontecido.</p>



<p>O desejo repentino por aquela mulher que me despertou, o beijo com Ana, a confusão da minha mente em estar também desejando homens após ter tido meu primeiro contato sexual.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Olha, repentino não foi. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Íamos a pé, sem pressa de chegar, só nós dois, e ele sempre muito atento e atencioso a tudo o que eu dizia. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Minha irmã é lésbica, sabe? E ela é mais velha também, então tem mais experiência que a gente. Ela diz que a gente já nasce com isso, mas cada um tem um tempo diferente pra descobrir.</p>



<p>Então eu havia nascido com aquele lado que gostava também de mulheres, e ele resolvera aparecer por ali?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Aí tem gente que gosta, tem gente que não gosta, tem gente que gosta e finge que não&#8230; <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ele continuou. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Eu acho que, assim, você não tem que escolher se você gosta de homem ou gosta de mulher. Não tem que escolher e ficar só com um. Acho que tá tudo bem você gostar dos dois.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Mas não é estranho? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;A sigla, naquela época, era GLS (Gays, Lésbicas e Simpatizantes), então, compreender a ambiguidade dos meus sentimentos sem o amparo da bissexualidade era realmente muito complicado e fazia eu parecer uma extraterrestre.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;E o que na vida não é estranho? Eu sou estranho porque sou gay. E aí?</p>



<p>Maurício foi uma das primeiras pessoas que conheci que se sentiam confortáveis para falar abertamente sem receios do que as pessoas pensariam.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Então eu também sou estranha.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8212;&nbsp;Somos estranhos! Bate aqui! <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ele abriu a mão para que eu batesse na dele com a minha. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;E a Ana, não falou mais nada mesmo?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Não, é como se nada tivesse acontecido entre a gente. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Eu estava passando pela ausência de ser percebida por ela enquanto pessoa que tinha sido beijada por ela.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Deixa estar. Pra ela é algo mais normal. Mesmo que ela não fique com meninas, ela entende com mais facilidade do que você. Mas, eu tenho algo pra te falar: tem uma conhecida minha que se interessou por você, e queria te conhecer.</p>



<p>A internet era devagar, os computadores com aquelas telas grandes e longas e manter as redes sociais atualizadas <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;as poucas que existiam <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;era tarefa para quem possuía ambas as tecnologias em casa.</p>



<p>Com a descoberta da menina, entendi como a oportunidade essencial para levar adiante a minha nova jornada, e, tirar a prova de se, de fato, eu gostava mesmo de beijar garotas.</p>



<p>Celulares mandavam apenas mensagens de texto e somente se houvesse crédito para tal; então, com a ida até uma <em>Lan House</em> (que era um luxo para poucas horas de utilização ao mês, afinal, pagar para se divertir fora de casa assim não saia barato) conversei com a dita e combinamos de nos encontrar um dia.</p>



<p>Eu sempre fui impaciente então, tudo o que exigia encontros era com a maior rapidez possível, pois, esperar, nunca foi qualidade minha.</p>



<p></p>



<p>Era um dia chuvoso, frio e bem acinzentado.</p>



<p>Quando ela vinha se aproximando, lá de longe, percebi que não era tão semelhante às fotos que havia disponibilizado &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;o que costuma ser comum, principalmente hoje em dia, na era do universo virtual e possibilidades de edições digitais que alteram totalmente a realidade.</p>



<p>Claramente por uma mistura de medo da situação <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;por estar receosa de ter marcado um encontro com uma pessoa desconhecida e assim, “testar” minhas confirmações <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e pela diferença que havia me incomodado, eu não senti interesse imediato por ela.</p>



<p>Eu esperava que, quando acontecesse, seria algo que novamente despertasse borboletas no estômago e demonstrasse que sim, eu realmente gostava de meninas, mas, diante de tudo, nada aconteceu.</p>



<p>Adentramos o jardim de um prédio <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;grades eram coisas raras naquela época, principalmente em bairros apenas residenciais como o que selecionamos para o momento &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e ficamos por lá, nos escondendo da tempestade e das pessoas, debaixo da minha sombrinha.</p>



<p>Muito de mim também tinha receio de ser vista na companhia de outra menina e de compreenderem o que estávamos fazendo. Era uma vergonha ter esse tipo de pensamento, mas era inevitável para quem eu era.</p>



<p>E era tudo novo.</p>



<p>A pessoa que sou hoje, assumida e sem preocupações com o que os outros vão achar a meu respeito, lamenta ter quisto se esconder para se sentir menos vulnerável mediante julgamentos.</p>



<p>A pessoa que sou hoje, que se atrai por pessoas independente de gênero, lamenta ter sido preconceituosa e escolhido um canto do jardim afastado, porque a menina era diferente de mim &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;usava roupas masculinas e tinha um jeito mais masculino <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">-,&nbsp;por vergonha; por achar erroneamente que mulher precisava ser feminina e se vestir como mulher.</p>



<p>Mas, o que é ser e se vestir como mulher? O que é ser mulher?</p>



<p>Ser mulher não é usar roupas floridas, salto ou vestido. Ser mulher é algo que se torna, em caráter &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;assim como ser homem -,<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e roupas, genitais, cabelos, voz, jeitos e trejeitos não limitam a nada: vestimentas não possuem gênero. Ser mulher é muito mais do que eu imaginava que era e realmente, se torna mulher, não se nasce como uma.</p>



<p></p>



<p>Ela era educada, tinha um bom papo e ficamos conversando por um bom período de tempo até o beijo acontecer.</p>



<p>Ela não sabia que seria apenas meu segundo beijo com uma menina; ela não sabia que eu estava com curiosidade em saber se eu de fato gostaria. Ela não sabia que eu estava apreensiva em fugir de estereótipos que a sociedade tinha colocado na minha cabeça dos quais eu deveria me encaixar. Ela não sabia que eu a tinha colocado em um estereótipo errado e errôneo e só anos depois corrigiria essa postura.</p>



<p>E ela também não sabia que foi realmente a confirmação de que eu precisava, porém, eu queria mais, ter mais certeza ainda sobre meu caminho: eu queria transar com uma menina.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 2</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 065]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Seria apenas um beijo, nada demais.</p>



<p>Tal como Ana já havia deixado claro: beijar era igual para todas as situações.</p>



<p>Mas, dentro de mim, a novidade que se aproximava causou insônia e ansiedade, trazendo receio de fazer alguma coisa errada, como se eu nunca tivesse beijado antes.</p>



<p>O primeiro beijo da minha vida acontecera de forma despretensiosa, durante uma brincadeira e, quando dei por mim, estava lá, com a língua do rapaz dentro da minha boca, e me perguntando como ninguém achava aquele momento nojento e repleto de bactérias.</p>



<p>Obviamente, quando entendi o que eu tinha de fazer e como de fato funcionava o beijo, foi uma descoberta agradável e que deu vontade de sair distribuindo ósculos.</p>



<p>Não fiquei nervosa além do considerado normal; não perdi noites de sono por isso. Foi um acontecimento que agregou espaço na vida e se fez rotineiro, no sentido de não ter nenhum “porém” acerca.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Então, na hora do intervalo, me espera. Vamo resolver aquele negócio. &#8211; <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Ela virou para trás, pois estava sentada na mesa da frente, falando como se estivéssemos combinando de ir comprar um biscoito na lojinha.</p>



<p>Eu imaginava que demoraria até esse dia chegar e não que uns dias após ao conversado seria o fatídico;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> achava até que ela tinha esquecido.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tá. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> Sorri um sorriso nervoso, tentando não demonstrar.</p>



<p>Se ela fazia parecer tão normal, eu também tinha de fingir ser tão normal.</p>



<p>Nos desvencilhamos das meninas com as quais passávamos o recreio <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; comendo sentadas nas escadas, conversando sobre o mundo nos quinze minutos de intervalo que nos era disponibilizado entre as aulas &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> e fomos.</p>



<p>O colégio se situava na área central da cidade e pertencia a um edifício comercial. Os primeiros andares correspondiam às salas de aula, e os outros eram instituições privadas,<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src=""> consultórios e afins.</p>



<p>Naquela época, as câmeras de segurança não eram tão frequentes como hoje em dia; a verificação constante como em um reality show era rara e apenas existia nas áreas comuns, como portas de elevadores e partes de áreas proibidas ao público.</p>



<p>Eu tremia.</p>



<p>Eu estava sem jeito.</p>



<p>Ela explicou para as colegas que iríamos em algum local aleatório fazer algo mais aleatório ainda, do qual não houve questionamento nem interesse em ir juntas.</p>



<p>Ela pegou meu braço, subimos as escadas.</p>



<p>Chegamos ao oitavo andar, onde todas as portas de clínicas se encontravam fechadas e com horários de abertura para além daquele.</p>



<p>Eu não sabia o que fazer.</p>



<p>Ela me conduziu até o final do corredor, distante da escada e do elevador, encostou na parede, e sorriu um sorriso de quem estava se divertindo com a situação.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Vem cá.</p>



<p>Ela me puxou para si e o beijo aconteceu.</p>



<p>Nossas bocas se encaixaram perfeitamente em um beijo suave, mas intenso. Devagar, mas com vontade.</p>



<p>Uma mão dela percorreu minha nuca e afagou meus cabelos e a outra foi para minhas costas, me fazendo aproximar ainda mais.</p>



<p>Eu sentia minhas pernas bambas e tinha a sensação de que, se ela me soltasse, eu cairia.</p>



<p>Reproduzi seus gestos, porque estava nervosa demais para raciocinar e fazer o que quer que fosse que eu fizesse normalmente ao beijar alguém.</p>



<p>Nós tínhamos praticamente a mesma altura, então não havia necessidade de ficar na ponta do pé, levantar ou abaixar a cabeça &#8211; e era muito mais confortável assim.</p>



<p>Percebi o seu perfume, que antes nunca tinha notado, e que adentrou pelo meu olfato como uma sinfonia tocada por uma orquestra maravilhosa.</p>



<p>Seus lábios eram macios assim como sua pele <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; que percebi também quando nossos rostos se roçaram.</p>



<p>O beijo não deve ter durado muitos minutos; afinal, tínhamos que retornar. Mas para mim, pareceu a eternidade mais feliz que eu tinha vivenciado em muito tempo.</p>



<p>Voltamos como se nada tivesse acontecido. Em mim, a voz interior de aclamação aquele momento era música.</p>



<p>Eu não conseguia prestar atenção na aula; não conseguia sequer pensar em mais nada. Na mente, apenas as imagens que se repetiam do que eu tinha passado há pouco, trazendo a sensação de êxtase e até uma pitada de delírio, quase incredulidade, de que tinha realmente acontecido.</p>



<p>“E aí? Vc tá bem? ” &#8211; Ela me passou um bilhete em um pedaço de papel amassado.</p>



<p>Eu estava ótima, e, se havia um paraíso, eu tinha estado por lá.</p>



<p>“Sim, tudo bem”. &#8211; respondi. Ela retornou o bilhete: “Vc matou a curiosidade? ”.</p>



<p>Não só tinha matado a curiosidade, mas gostado de tal forma que era impossível explicar. &#8211; “Sim, matei. Eu gostei bastante”, devolvi</p>



<p>Havia um receio em colocar adjetivos demais e fazê-la perceber que o <em>bastante</em> era bem mais do que se dizia. O papel volta para mim: “Então, pra confirmar se vc gosta de menina mesmo, tem que bjar outras meninas agora.”</p>



<p>E voltou o pesadelo da dúvida que corroía meu ser: eu continuava gostando de meninos; como poderia ser lésbica se existia esse detalhe? Como eu poderia gostar de ambos ao mesmo tempo? De volta para ela: “Acho que vai ser difícil beijar outras meninas, mas é verdade”.</p>



<p>O que eu queria era beijá-la novamente.</p>



<p>Como era terrível ter que passar por tanta dor de descobrir o caminho da atração sem ter embasamento que ajudasse no meio de amenizar minhas dúvidas!</p>



<p>Se eu tivesse alguém para explicar, ou se houvessem meios que explicassem que meus desejos não precisavam ser limitados a um gênero apenas, tudo seria tão mais simples!</p>



<p>Se, naquela época, se falasse mais sobre sexualidade, e as pessoas também entendessem que existiam realmente pessoas que gostam dos outros sem se ater a gênero, meu sofrimento teria sido bem menor <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; não somente o meu, mas de todos aqueles que foram invisibilizados na sua sexualidade (e ainda são, devido a estrutura de muitos não acreditar na forma mais ampla de interesses amorosos).</p>



<p>Eu estava tentando me encaixar em um rótulo que não me pertencia, porque era extremamente limitante ter uma definição, principalmente naquele instante de descoberta.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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<hr class="wp-block-separator" />



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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 1</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 064]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
		<category><![CDATA[Bissexual]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Vou começar pela metade da história.</p>



<p>Não vai ser pelo início&nbsp;&#8220;eu nasci e cresci&#8221;&#8230; <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;porque anterior aos dezessete anos, considero que, praticamente, eu apenas respirava e deixava as funções vitais de meu corpo se realizarem, incluindo o que fosse de exercício do pensar, sem tomar frente a nada.</p>



<p>Realmente, eu não tinha opinião <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;ou, se ela existia, era irrelevante.</p>



<p>Eu não tinha estilo próprio;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;era uma cópia das coisas que via na televisão, mas de forma bem fajuta.</p>



<p>Eu não tinha nada além de pensamentos que me foram colocados através da família e da sociedade em que eu habitava: então, resumia-me a nada fora do comum (o que fosse considerado comum para aqueles meios) e nada de extraordinário.</p>



<p>Então, como naqueles filmes juvenis em que no décimo terceiro aniversário a criança descobre ter poderes mágicos que mudarão sua vida &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;se você não assistiu desses, saiba que era bem comum ter mães sereias ou ser filha de bruxas nessas obras -,<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;no meu décimo sétimo aniversário, finalmente, acordei para o que se chamava vida.</p>



<p>Creio que grande parte da mudança se deu em função da mudança de colégio.</p>



<p>Antes, eu estudava num lugar em que se dividia entre meninos e meninas que eram consideradas populares; os casais mais famosos, dos quais todos queriam ficar próximos no recreio e ter amizade, para poder beijar garotos do mesmo meio e ir para um bairro que, naquela época, era o point &#8211; onde ficávamos sentados, fazendo nada, e fingindo estar fazendo nada quando estávamos tentando chamar a atenção de algum rapaz mais velho que nos ignorava (o que era errado e só hoje percebo o quanto).</p>



<p>Depois, fui para uma escola onde todas as pessoas eram diferentes e também semelhantes, mas existia uma singularidade de gestos e jeitos que transformou aquele ambiente em uma porta para outra percepção de mundo.</p>



<p>Lá, iniciei uma visão política sobre o que era ser mulher e o como deveria lutar para ser respeitada, ter direito de fala e não ficar na sombra de um menino que se achasse superior (ainda que o feminismo não fosse pauta e nem tão comentado ou expressivo); entendi que as pessoas se dividiam sim em grupos com os quais se identificavam mais, por músicas ou pelo cigarro que se fumava; e que a vida, infelizmente, seria dessa forma, na qual eu me sentiria inclusa e não inclusa em diversas situações.</p>



<p>Descobri amizades que se importavam com a conexão além do físico, e que era mais importante rir junto do que ser aparentemente agradável para algum rapaz. E, principalmente, descobri que a sexualidade não se limitava a <em>heteronormativa</em> (palavra que nunca imaginaria existir naquele tempo) e haviam casais de meninas e de meninos que caminhavam livremente, de mãos dadas e de cabeça erguida.</p>



<p>Foi aí que entendi que todo aquele antigo e arcaico e estúpido modo de se falar que sempre foi adotado perto de mim para se referir a sexualidade de outra pessoa era errado. Porque nunca fomos religiosos em minha casa, e eu somente ouvia que Deus criou o homem e a mulher para viverem juntos e mais balelas do tipo &#8211; quando, na verdade, se existia um Deus, ele criou as pessoas para se amarem e viverem em harmonia, se respeitando, tal como me foi ilustrado na nova escola.</p>



<p>Conheci o respeito as pessoas que eram diferentes de mim.</p>



<p>E com esse respeito, conheci o mundo.</p>



<p>E começa aí a minha parte da história.</p>



<p>Eu tinha dezessete e uma grande vontade de desbravar esse mundo que me fora apresentado. Eu tinha dezessete e já tinha beijado na boca algumas vezes. Eu tinha dezessete e uma sopa de hormônios gritando dentro de mim. Eu tinha dezessete e queria fazer o que eu achava (erroneamente) que toda menina daquela idade tinha que fazer naquela idade.</p>



<p>Nesse ponto, eu comecei a entender o desejo. A atração.</p>



<p>Eu não namorava, não tinha nenhum envolvimento fixo; e tinha pressa. Mas, também, não queria nada que fosse contra tudo o que eu imaginava <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;e nem sei se o que eu imaginava era algo bom ou não.</p>



<p>Eu não conhecia o amor como conheço hoje (e ainda duvido se o conheço totalmente). Então, tudo o que já havia sentido era intitulado por paixão. E apenas tinha me apaixonado uma vez, não sendo correspondida.</p>



<p>Todas minhas amigas tinham idealizações de príncipes encantados que surgiriam, cairiam de amores por elas, se tornariam os primeiros homens nas suas vidas e sabe lá o que aconteceria.</p>



<p>Eu só queria alguém que me respeitasse, que fosse legal comigo e que não quisesse nada sério, porque estava definitivamente sem intenções de namorar naquele momento. Porém, estava disposta a esperar esse cara legal aparecer e me receber.</p>



<p>Eu tinha urgência.</p>



<p>Apesar das vontades crescentes, eu acreditava que tudo surgiria no momento certo &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;como ainda creio.</p>



<p>Só que esse momento certo apareceu com outro momento que não era o que eu imaginava que aconteceria &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;mas que era para ser também o momento certo de aparecer.</p>



<p>Todos com quem eu conversava namoravam ou se relacionavam de alguma forma com pessoas do sexo oposto. Tudo o que eu conhecia de desejo, em mim, sempre fora manifestado em relação a pessoas do sexo oposto. Todas as bocas que eu beijei foram de rapazes.</p>



<p>Até ela aparecer.</p>



<p>Não foi paixão e tampouco foi amor. Não foi algo que seja possível transcrever em palavras. Mas foi algo.</p>



<p>No instante em que eu a vi, foi como se meu corpo congelasse por alguns instantes e voltasse a funcionar movido por uma descarga elétrica de neurônios antes nunca aparentes.</p>



<p>Ela era linda.</p>



<p>Sempre fui de admirar as pessoas pelos seus traços e contornos, mas era diferente dessa vez.</p>



<p>Ao passar por ela, uma única vez na vida, cruzando o corredor do colégio a caminho da sala de aula, ela sorriu um sorriso de educação e de modo formal que desmontou todas as minhas estruturas.</p>



<p>Eu não tinha apenas a achado bonita, eu a <em>queria</em>.</p>



<p>Eu estava a <em>desejando</em>.</p>



<p>A imagem de seu sorriso se fez forte com seus lábios marcados pelo batom e que fizeram os meus se umedecerem como se dissessem para os dela “me beijem”.</p>



<p>Eu queria beijar aquela mulher nunca antes vista.</p>



<p>Tudo o que aconteceu a seguir em mim foi uma manifestação de medo, excitação, e de pensamentos falando que eu estava louca.</p>



<p>Louca por desejar uma mulher.</p>



<p>A assimilação da sexualidade era fácil e simples de compreender <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">quando se tratava de pessoas alheias e não de mim mesma.</p>



<p>Pensei ser um delírio ocasionado por qualquer motivo tolo; contudo, eu queria gritar aquela sensação de estar com algo agarrado na garganta que deveria ser gritado para mim mesma.</p>



<p>Como eu poderia ter me atraído tão de imediato por uma mulher se nunca passou pela minha cabeça a possibilidade? Como eu poderia ter me atraído por uma mulher sendo que eu estava ansiosa para perder a virgindade com algum rapaz que fosse decente? (Deixando claro que este termo se faz horrível pois perdemos a chave de casa, a carteira, a hora&#8230; a virgindade não é algo que se perde ou se encontra para tal frase).</p>



<p>Com quem eu poderia falar a respeito sendo que todas as amigas que tinha nunca mencionaram nada próximo dessa situação para que eu pudesse me sentir menos desconfortável?</p>



<p>Fui consumida por silêncios sufocantes; pensamentos que me matavam; por náuseas de segredos. Era como se estivesse pensando em algo errado e, se eu externalizasse, poderia ser presa por tal ato.</p>



<p>Meu reflexo no espelho jogava de volta a mentira que crescia em tentar esconder que eu não estava bem. Eu fingia ainda mais que estava tudo normal.</p>



<p>Os dias continuavam, a loucura aumentava e, simultaneamente, eu conheci um garoto. O que me deixou mais confusa, ainda mais sem ter com quem conversar.</p>



<p>Ele era primo de um amigo e, em um episódio corriqueiro de colégio, nos encontramos para buscar seu auxílio em um trabalho.</p>



<p>Educado, simpático, atencioso. Nos encontramos uma vez, e mais uma e mais uma.</p>



<p>Até que, de modo extremamente fluido e sem nada que fugisse da minha vontade, foi com ele que a porta para a vida sexual se abriu. Por alguns instantes, eu esqueci de tudo o que tinha acontecido e absorvi a novidade, contando às amigas, dividindo as experiências e me sentindo feliz por ter acontecido da forma que eu imaginava que fosse.</p>



<p>Mas todas as noites, antes de dormir, vinha na memória aquele segredo escondido bem no fundo de mim, para se manifestar e informar que ainda estava vivo, independente de eu ter concretizado o que eu julgava ser minha maior expectativa &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;esse algo não dito insistia em se equivaler em intensidade.</p>



<p>Bissexualidade era uma palavra bem longe de ser conhecida por mim e, menos ainda mencionada pelos meios de informação. A internet não era como hoje, as redes sociais eram bem limitadas, e assuntos desse cunho eram coisas para tratar com psicólogos.</p>



<p>Naqueles momentos, eu só conseguia entender que havia algo errado em estar desejando uma mulher que eu só vira uma vez e ainda ter gostado de estar sexualmente com um homem. Tudo atiçava meus passos para o caminho do precipício de não saber o que acontecia internamente.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;&#8211; Eu tô te achando meio pra baixo esses dias, tá tudo bem? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;&#8211; Ela.</p>



<p>Ana.</p>



<p>De todas as amizades, Ana se fez a mais próxima. Tínhamos gostos musicais parecidos, falávamos o mesmo tipo de bobagem, riamos das piadas uma da outra quando as demais não achavam graça.</p>



<p>Eu a acompanhava quase diariamente até um ponto onde ela ficava à espera de seu ônibus, e que era caminho para eu seguir a pé para casa após as aulas.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;&#8211; Tá sim, tudo bem.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;&#8211; Tem certeza, Bi? &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Ela era uma das poucas que me chamava por um apelido carinhoso, em vez do nome Bianca. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;É alguma coisa sobre aquele cara lá?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Não, não! Imagina, com ele tá tudo bem. Ele foi embora né? Não lembro se comentei com você. Uns dois dias depois que a gente ficou. Mas não é nada com ele, não.</p>



<p>Foi como se o sujeito tivesse caído do céu para satisfazer meu sonho e, em seguida, partido para outro destino, possibilitando tudo ter acontecido da forma que eu almejava.</p>



<p>&#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Então o que tá pegando? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela falava de um jeito mais largado, palavras soltas, voz forte, firme.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Não sei se você vai achar estranho&#8230;. Não sei se eu posso falar. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Afinal, não saberia dizer se minhas amigas estariam dispostas a entender.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Tenta. Meu ônibus ainda demora.</p>



<p>Eu busquei as palavras certas, abaixei o tom da fala, como se fosse algo vergonhoso o que diria.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Você já se interessou por alguma menina?</p>



<p>Ela gargalhou.</p>



<p>Deu uma risada que era apenas isso, uma risada. Não parecia nada além de ter achado graça do meu comentário e tornou tudo o que eu achava ser coisa de outro mundo, deste.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;É isso? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Ela ainda ria e falava em tom normal, sem se preocupar com as pessoas ao redor. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Tava achando que é algo grave, sei lá. Mas poxa, supernormal. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Pausa para recuperar o fôlego após rir de mim. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Eu já fiquei com uma menina uma vez.</p>



<p>Meu mundo caiu.</p>



<p>Após tanto tempo remoendo tudo e tanto como se fosse de fato pecaminoso, Ana transformara todas as sensações em leveza e em um estado de normalidade que até me assustou.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;É&#8230; &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Eu estava tímida, apesar de mais segura em saber que podia falar com ela. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Eu não sabia com quem conversar e nem se alguém entenderia. Mas isso tá acabando comigo.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Cara é normal, relaxa. Quem é a menina?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Aquela moça que foi no colégio há duas semanas, lembra? <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Após isso, nunca mais a vi. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Nunca senti isso antes, foi como se ela tivesse ligado alguma coisa dentro de mim.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Sei! Sei sim! Ela era bem bonita mesmo. Mas cara, relaxa. Não é o fim do mundo.</p>



<p>Não era mais o fim do mundo igual já tinha sido.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Fico mais calma agora sabendo. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Até consegui sorrir aliviada. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;E&#8230; Você gostou de ter beijado?</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;É um beijo. Normal como todos os outros. A diferença é que é uma mulher, só isso. De olho fechado ninguém percebe nada. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ela se aproximou, em tom de deboche, mas com respeito. &#8211;<img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;Agora você tem que beijar pra descobrir se vai gostar ou não e matar essa curiosidade.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu não tenho como beijar uma menina. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Eu falava aos sussurros. <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Não vou perguntar pra alguma estranha e nem tenho menina pra perguntar. Vou ficar sem graça de fazer isso.</p>



<p>De fato, somente descobrimos as coisas que gostamos e não gostamos ao experimentar.</p>



<p><img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211;&nbsp;Ah, eu posso te beijar então.</p>



<p>Ela disse e eu fiquei sem reação.</p>



<p>Seu ônibus chegou, ela se despediu e eu fiquei parada <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;muda <img loading="lazy" decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e sem saber sair do lugar.</p>



<p>E se eu gostasse de beijar uma menina, o que significaria? Porque tinha algo bem certo dentro de mim dizendo que eu ia gostar.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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<hr class="wp-block-separator" />



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