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	<title>Arquivos Luan Pedretti - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>ESTÁ TUDO BEM?</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/05/23/esta-tudo-bem/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 May 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 092]]></category>
		<category><![CDATA[história da vida privada]]></category>
		<category><![CDATA[história do cotidiano]]></category>
		<category><![CDATA[importar-se com o outro]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[Saúde psicológica da população]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Este texto, em grande parte, é um desabafo, após diversas tentativas de escrever algo interessante e perceber que o bloqueio mental que está comigo há semanas me impediu de avançar em qualquer coisa que minha cabeça considerasse algo minimamente bom ou aceitável.</p>



<p>Pensando sobre a minha trajetória no curso de História, à medida em que tive contato com o fazer do campo científico, pude perceber como a História é uma construção dos homens e do tempo em que estes homens se encontram com relação aos acontecimentos passados, entrando em acordo com diversos outros historiadores que vieram antes de mim. Este entendimento não me foi possibilitado na Educação Básica, onde outras formas de abordar o conteúdo da disciplina de História me foram apresentadas: aqueles que suscitavam o debate e a problematização, não permitindo que fosse uma mera transmissão de conhecimento acumulado; e tive experiências com professores que apenas transmitiam os acontecimentos passados, como se este passado fosse algo finalizado e cristalizado em si. De acordo com os tempos verbais da língua portuguesa, aquilo que chamamos de pretérito perfeito: aconteceu e terminou. Ainda se amparando na perspectiva que a História é uma construção das pessoas diretamente influenciadas pelo tempo em que estão realizando suas pesquisas e escrevendo, me predisponho a observar o tempo em que eu estou inserido.</p>



<p>O Brasil e o mundo vêm passando por diversos acontecimentos, nos últimos anos, que têm marcado suas épocas e que provavelmente serão analisados no futuro enquanto acontecimentos históricos, geralmente correlacionando com temas de sociedade, cultura, economia, política, entre outros. O mais recente destes acontecimentos é a pandemia da COVID-19, como todos ou a grande maioria das pessoas tem conhecimento, desde março de 2020. Mas, para além de relações políticas, análises econômicas, estruturais, relações internacionais; como a população tem se sentido neste tempo? Como estão vivendo as pessoas que foram diretamente afetadas pela pandemia, perdendo pessoas queridas, vendo o descontrole que a situações no Brasil está tomando?</p>



<p>De acordo com reportagem da CNN<a href="#_ftn1">[1]</a> publicada em 23 de fevereiro de 2021, o consumo de antidepressivos durante a pandemia aumentou 17% no Brasil. Quando se entra em contato com alguém por meio virtual, ou até mesmo presencial para aquelas pessoas que não puderam fazer o isolamento, perguntamos “está tudo bem?”. Eu não sei vocês, mas eu tenho o costume de responder involuntariamente “Está tudo bem!”. Imediatamente, um questionamento aparece em minha mente: “Está tudo bem?”.</p>



<p>Dentro de um mar de tragédias, a que mais recebe atenção das mídias nos últimos tempos foi a perda do ator Paulo Gustavo. Ele, que era extremamente jovem e sem comorbidades (asma no nível que o ator tinha não é considerada comorbidade), e (no mesmo dia) mais de duas mil pessoas perderam suas vidas. Chegamos ao número de quatro mil pessoas mortas em um único dia. E sempre é importante reforçar que, para além dos números, são vidas; famílias, filhos, netos, amores, pais e mães, que se vão por uma doença para a qual existe um protocolo de prevenção (que poderia ter sido praticado pelos gestores) e, principalmente, por uma doença para a qual já existe uma vacina desenvolvida. Infelizmente, esta vacinação anda a passos de tartaruga após as ONZE recusas do presidente junto com seus ministros da saúde pela oferta de vacina do laboratório da Pfizer. Estamos vivenciando um desmonte das universidades federais, os principais produtores da ciência brasileira &#8211; que teriam capacidade de desenvolver e produzir sua vacina, se não estivessem sobrevivendo a um estrangulamento de verbas. O auxílio emergencial com o valor cada vez menor, e a fome assolando novamente a população brasileira depois de décadas de luta contra este inimigo.</p>



<p>Temos a possibilidade de olhar as estruturas (como a economia reagiu à pandemia, quantitativos numéricos de vítimas e infectados, queda do PIB), que são temas importantes para algumas parcelas. Mas também é preciso que olhemos para outros aspectos da pandemia: como está a população? Como está sobrevivendo quem perdeu um ente muito querido? Como vai ser o sentimento quando sairmos dessa situação? Está tudo bem? Como a população está sobrevivendo? Acredito que refletir sobre estes questionamentos apresentados e muitos outros que não estão neste texto também seja pensar sobre aspectos culturais e políticos da vivencia dos brasileiros durante a pandemia.</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> <a href="https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/02/23/venda-de-antidepressivos-cresce-17-durante-pandemia-no-brasil">https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2021/02/23/venda-de-antidepressivos-cresce-17-durante-pandemia-no-brasil</a> Acesso em 20/04/2021</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/581c8-luan-pedretti.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13805 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
</div></div>



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		<title>RESPEITEM MEUS CABELOS, BRANCOS</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2021/04/25/respeitem-meus-cabelos-brancos/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Apr 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 088]]></category>
		<category><![CDATA[cabelos crespos e racismo]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[racismo em rede nacional]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>“Chegou a hora de falar</em><br><em>Vamos ser francos</em><br><em>Pois quando um preto fala</em><br><em>O branco cala ou deixa a sala</em><br><em>Com veludo nos tamancos</em><br><em>Cabelo veio da África</em><br><em>Junto com meus santos</em><br><em>Benguelas, zulus, gêges</em><br><em>Rebolos, bundos, bantos</em><br><em>Batuques, toques, mandingas</em><br><em>Danças, tranças, cantos</em><br><em>Respeitem meus cabelos, brancos” </em><br><em>(Chico César)</em></p>



<p>Mais uma vez, o cabelo crespo entrou em pauta na sociedade brasileira, estrutural e historicamente racista; desta vez, para se debater se a violência que atinge pessoas negras que utilizam o seu cabelo natural é ou não é racismo. Mais uma vez, pessoas que não têm cabelo crespo ou qualquer outro traço fenotípico de pessoas negras achando que sua opinião tem o poder de validar ou não a violência racista apontada por uma pessoa negra.</p>



<p>Para contextualização daqueles e daquelas que não estão por dentro dos recente ocorridos, um participante do Big Brother Brasil, João Luiz, apontou que a comparação feita pelo participante Rodolffo, da peruca de um homem das cavernas com o um <em>black power</em>, seria inapropriada, racista, violenta. Comentários racistas com relação ao cabelo e a outros fenótipos de pessoas negras são recorrentes no programa exibido pela Rede Globo de televisão, que atualmente atinge audiência de aproximadamente 60 milhões de pessoas. Por exemplo, os comentários com relação ao tipo de pente utilizado pelo participante Babu Santana na edição de 20 do programa; ou a reação do participante Ronan com relação à uma esponja de lavar louça que era no formato de um cabelo <em>black power</em> na edição 16 do programa.</p>



<p>E seu livro “Memórias da plantação” (2019), a psicóioga Grada Kiloma escreve que <em>“[&#8230;] quando o sujeito negro denuncia o racismo, o sujeito branco, como uma criança, regride a um comportamento imaturo, tornando-se novamente a personagem central que precisa de atenção, enquanto o sujeito negro é colocado como secundário. A dinâmica entre ambos é virada de cabeça pra baixo. Na psicanálise clássica isso é chamado de regressão</em>” (KILOMBA, 2019, p. 123). Ou seja, ainda que seja apontado a atitude racista, o sujeito branco, por incapacidade ou por mau-caratismo, não consegue minimamente pedir desculpas e incorporar aquele acontecido enquanto um aprendizado. Ele precisa se desculpar e justificar. Exatamente como vimos acontecer no programa da Rede Globo.</p>



<p>Mas nós realmente vamos falar de BBB? Qual a relevância do programa?</p>



<p>Além de entrar absolutamente todos os dias nos assuntos mais comentados do <em>Twitter</em> apontando que grande parcela dos internautas ainda assistem e comentam sobre o programa nas redes sociais, estes acontecimentos refletem a sociedade brasileira: racista, elitista e branca.</p>



<p>Recentemente, a cantora Ludmilla perdeu uma ação movida na justiça contra a socialite Val Machiori; o motivo da ação foi um comentário da branca sobre o desfile do carnaval do ano de 2016, onde Ludmilla desfilou para uma das agremiações do Rio de Janeiro, e Val disse que o cabelo da cantora “parecia bombril”. A peruca utilizada por Ludmilla se aproximava da textura de um cabelo crespo 4C. A justificativa era que a socialite tinha o direito à liberdade de expressão. E a imagem de mais de 50% da população sendo ridicularizada em transmissão nacional, isso não deve ser levado em conta?</p>



<p>Na semana que escrevo este relato, uma menina chamada Nicole Cristina, que é karateca e compartilha sua rotina na rede social <em>Tik Tok</em>, publicou um vídeo com toda sua inocência respondendo a comentários sobre seu cabelo. Crespo com textura 4C. A menina compartilha sua rotina de esporte e cotidiana e, ainda assim, o cabelo foi incômodo para as pessoas que assistiam a seus vídeos.</p>



<p>Por que a branquitude acha que o cabelo crespo é algo diferente das outras texturas? Por que a branquitude acha que o cabelo crespo é algo público, que pode receber comentários, toques e opiniões? Quem deu a vocês este direito de tornar a nossa imagem e subjetividade um elemento de opinião pública?</p>



<p>Retornando a Grada Kilomba: ao relatar a entrevista com uma de suas sujeitas de pesquisas, ela aponta que, na relação com o cabelo, <em>“a diferença é usada como marca para a invasão [&#8230;] Apesar dos comentários ambíguos – que parecem positivos – a relação de poder entre aquelas/es que a tocam e Alicia, que está sendo tocada, ainda assim permanece, bem como o papel depreciativo de tornar-se um objeto público”</em> (p. 121-122). Nossos corpos não são objetos públicos. Nós não pedimos comentários ou opiniões de vocês. Nós não devemos explicar a importância do cabelo crespo natural, ou a relação com nossa ancestralidade, com nossa auto-estima, porque este é uma temática que diz respeito estritamente a nós. Estudar é um dever de vocês. Que pesquisem. Google existe pra isso. Mas vocês têm que respeitar a nossa escolha de utilizar o nosso cabelo natural, assim como vocês utilizam o de vocês. E quando alguém fizer um apontamento que o seu comentário foi racista, cabe a você interiorizar, aprender e não repetir com outras pessoas. Vocês têm que sair da posição de infantilidade e mau-caratismo.</p>



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<p>REFERÊNCIAS</p>



<p>KILOMBA, Grada. <strong>Memórias da plantação: </strong>episódios de racismo cotidiano. Tradução: Jess Oliveira. 1. Ed. Rio de Janeiro: Cobogó, 2019.</p>



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<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
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		<title>SOBRE OS TRAUMAS DO BRASIL</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Mar 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 084]]></category>
		<category><![CDATA[COVID-19]]></category>
		<category><![CDATA[Ditadura Militar]]></category>
		<category><![CDATA[Esquecimento histórico]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[Período Escravocrata]]></category>
		<category><![CDATA[Traumas do Brasil]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Como ficará a memória dos mortos pela COVID-19 no Brasil, futuramente? Como serão lembradas, as vítimas do vírus? Como será lembrado, o comportamento dos governantes?</p>



<p>Acredito que estas questões, apesar de já sermos capazes de especular respostas, só poderão ser respondidas no futuro. Porém, é possível que olhemos para o passado e reflitamos sobre o nosso presente. Existem, na história do Brasil, momentos que deixaram traumas para a sociedade: acontecimentos que atingiram a grupos ou à população como um todo e que não receberam políticas de memória, com o objetivo de evitar a reflexão histórica sobre o acontecimento em si e sobre os resquícios que ele poderia deixar para as futuras gerações.</p>



<p>Um exemplo destas feridas sociais é o sistema de escravidão, que vigorou por quase 400 anos da história de um país que tem pouco mais de 500 anos de existência. Mais de 2/3 dessa existência do Brasil foi sob um regime que explorava, subjugava e desumanizava índios, negros e os descendentes dessas populações. A nível global, no século XIX, houveram diversas teorias e produções científicas, realizadas sobretudo no continente europeu, que tentavam comprovar a inferioridade daqueles sujeitos a partir de suas características físicas e culturais. O que não foi comprovado.</p>



<p>No Brasil, esse complexo sistema de escravidão (que era a base da sociedade) foi abolido com pouco mais de dois parágrafos de uma lei e sem nenhuma política de inserção daqueles explorados na nova sociedade trabalhista &#8211; muito menos indenização pelos anos de exploração. A atitude do ministro Rui Barbosa em queimar os documentos que comprovavam a existência de um sistema de escravidão demonstra como o Brasil daquela época não queria lembrar do seu passado.</p>



<p>Durante todo o século XX, a teoria eugenista de branqueamento da população brasileira através da miscigenação foi amplamente incentivada pelo Estado Brasileiro, fomentando a imigração de pessoas do continente europeu. A criação da ideia de uma dita democracia racial, onde todas as raças conviveriam harmoniosamente, sem conflitos, foi vendida para o resto do mundo, exportando a ideia de um “paraíso das raças”. Tudo isso para mascarar a existência de traumas deixados pelo sistema de colonização e escravização, presentes até os dias de hoje em todas as sociedades atlânticas que foram palco para a presença da instituição escravista. <strong>A escravidão deixa traumas até os dias de hoje</strong>. Exemplo desses resquícios pode ser o caso dos três meninos negros, Lucas Matheus, Alexandre da Silva e Fernando Henrique, que estão desaparecidos desde o natal de 2020 e não há nenhuma comoção ou mobilização nacional para descobrir o paradeiro dessas crianças<a href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a>. Ou o caso do menino João Pedro, que foi assassinado dentro de casa<a href="#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>. Ou, também, o caso das duas meninas negras, Emily Victória e Rebeca Beatriz, que foram assassinadas na porta de suas casas<a href="#_ftn3"><sup>[3]</sup></a>. Todos esses casos aconteceram durante a pandemia da Covid-19 no Brasil.</p>



<p>Na segunda metade do século XX, com o &#8220;perigo comunista&#8221; rondando o globo, uma série de golpes &#8211; uns militares, outros civis-militares &#8211; foram sendo realizados por toda a América Latina. Os militares tomavam o poder por diversos motivos, mas a justificativa principal era a de afastar o perigo comunista do país, muitos influenciados por um imperialismo norte-americano capitalista. Dentro deste regime, os impedimentos de direitos políticos dos cidadãos, bem como a perseguição e o assassinato de todos aqueles que eram considerados subversivos, opositores ao regime, comunistas. No Brasil e em diversos países vizinhos foi assim.</p>



<p>A Ditadura militar brasileira caiu em 1985, mas a presença do autoritarismo é marcada até os dias de hoje na política e na vida social. O presidente está lutando pelo direito de comemorar o dia 31 de março, data que é marcada pelo início desse período que manchou a história do país de sangue<a href="#_ftn4"><sup>[4]</sup></a>. E aqueles que foram mortos pelo regime? Qual tipo de justiça receberam por seus assassinatos? Somente no ano de 2011, foi instituída uma Comissão Nacional da Verdade, a fim de elucidar os fatos ocorridos naquele período. Apesar de já existir diversas pesquisas acadêmicas questionando e reconstruindo o período, foi necessário uma pessoa que foi perseguida, presa e torturada durante o regime, chegasse à cadeira da presidência para minimamente iniciar um movimento por parte do Estado de reconhecer e reparar os danos causados por ele mesmo.</p>



<p>A Escravidão e a Ditadura Militar talvez sejam os dois maiores exemplos destas feridas sociais que atingem a um grupo ou ao país como um todo, e que não é devidamente pensado nas consequências que deixaram para aqueles que foram diretamente atingidos pelas ações do Estado. Encaminhando para as considerações finais, algumas questões me vêm após esta breve reflexão. Entendo que o vírus SARs-COV2 é um fator biológico, diferentemente da Escravidão e da Ditadura Militar que foram ações humanas; mas também entendo que o Estado tinha poder para evitar que chegássemos a 300 mil mortos. Como será a reparação para aquelas famílias que foram destruídas pela pandemia da COVID-19? Como essas pessoas serão lembradas futuramente? O Brasil vai forçar o esquecimento como sempre faz?</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> G1 &#8211; 27/02/2021 &#8211; Desaparecimento de meninos de Belford Roxo completa 2 meses sem pistas sobre paradeiro &lt;<a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/02/27/desaparecimento-de-meninos-em-belford-roxo-completa-2-meses-sem-pistas-sobre-paradeiro.ghtml">https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/02/27/desaparecimento-de-meninos-em-belford-roxo-completa-2-meses-sem-pistas-sobre-paradeiro.ghtml</a>&gt; Acesso em 24 de março de 2021</p>



<p><a href="#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> G1 &#8211; 23/06/2020 &#8211; No dia em que João Pedro completaria 15 anos, mãe do menino faz desabafo: &#8216;dor só aumenta&#8217; &lt;<a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/23/no-dia-em-que-joao-pedro-completaria-15-anos-mae-do-menino-faz-desabafo-dor-so-aumenta.ghtml">https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/23/no-dia-em-que-joao-pedro-completaria-15-anos-mae-do-menino-faz-desabafo-dor-so-aumenta.ghtml</a>&gt; Acesso em 25 de março de 2021</p>



<p><a href="#_ftnref3"><sup>[3]</sup></a> G1 &#8211; 05/12/2020 &#8211; Meninas de 4 e 7 anos são mortas em tiroteio em Duque de Caxias &lt;<a href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/12/05/criancas-morrem-em-tiroteio-em-duque-de-caxias.ghtml">https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/12/05/criancas-morrem-em-tiroteio-em-duque-de-caxias.ghtml</a>&gt; Acesso em 25/de março de 2021</p>



<p><a href="#_ftnref4"><sup>[4]</sup></a> O Globo &#8211; 17/03/2021 &#8211; Justiça acolhe recurso do governo federal por direito de comemorar o gilpe militar de 1964 &#8211; &lt;<a href="https://oglobo.globo.com/brasil/justica-acolhe-recurso-do-governo-federal-por-direito-de-comemorar-golpe-militar-de-1964-24929633">https://oglobo.globo.com/brasil/justica-acolhe-recurso-do-governo-federal-por-direito-de-comemorar-golpe-militar-de-1964-24929633</a>&gt; Acesso em 24 de março de 2021</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/581c8-luan-pedretti.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13805 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
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		<title>NÃO TEVE CARNAVAL! MAS O QUE É (OU O QUE PODE SER) O CARNAVAL?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 Feb 2021 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 080]]></category>
		<category><![CDATA[carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[resistência negra]]></category>
		<category><![CDATA[vivências negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em tempos normais, passado o Réveillon, já começaríamos ver a divulgação da programação dos blocos e de festas pré-carnaval. Todo ano surge o discurso de que “o ano só começa depois do carnaval” &#8211; mesmo que algumas atividades sejam retomadas dias ou até um mês antes da festa, como as aulas, por exemplo.</p>



<p>Não é novidade a pandemia da COVID-19, que, no momento de escrita desse texto, já tirou a vida de 230 mil brasileiros, e vem trazendo tragédia para diversos países do mundo. A principal recomendação para evitar a contaminação, como tem sido repetido desde março do ano passado, é o distanciamento físico. Levando em consideração o momento, é preciso que percebamos que não é momento de festejar, ou aglomerar. É preciso que tenhamos ações diferentes daquela cenas que vimos nas praias na virada de ano.</p>



<p>Mas para além da festa, o que é o carnaval? o que o carnaval representa?</p>



<p>Desde pequeno, crescendo entre evangélicos e católicos &#8211; ou seja cristãos &#8211; ouvi todos os tipos de referências ao carnaval. A festa da carne, a festa pagã, festa em que os demônios andam soltos. É preciso levar em consideração essa ideia cristã, daqueles que julgam e taxam o carnaval a partir de suas religiões. É preciso considerar também aqueles que simplesmente não gostam do carnaval. Mas é preciso entender que o carnaval é muito mais do que festa.</p>



<p>O sociólogo Clóvis Moura, em seu livro <em>A Sociologia do Negro Brasileir</em>o, dedica algumas páginas pra pensar o carnaval. Após debater sobre a ideia de <em>grupos específicos </em>e de <em>grupos diferenciados, </em>o autor aponta no carnaval &#8211; ou melhor, nas escolas de samba &#8211; um exemplo negativo de grupo diferenciado. No entendimento de Moura, os negros que se concentravam nas comunidades, percebiam nas escolas de samba uma forma de lazer e resistência, quando:</p>



<p class="has-text-align-right">“<em>os figurantes das diversas escolas, durante o carnaval, ao desfilarem,</em> <em>realizavam catarticamente o seu desejo de participação social,</em> <em>de integrar-se e dominar a cidade branca. [&#8230;]</em><br><em>era a dominação da cidade pelos habitantes do morro, através da sua organização e da sua contracultura.”</em><br>(MOURA, 2019. p. 180-181)</p>



<p>A partir da citação acima, podemos fazer algumas afirmações. A primeira delas é o carnaval, especialmente o surgimento das escolas de samba em torno de comunidades negras. E também um momento de contracultura, onde aqueles marginalizados tomavam o protagonismo da festa.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>“O carnaval era, assim, sociologicamente, uma festa de integração, mas, especialmente, de um ponto de vista mais analítico, um ato de autoafirmação negra. [..] O negro, dessa maneira, não via o carnaval como uma simpels festa da mesma forma que o branco vê. Era, de certo modo, o momento mais importante da sua vida, do ponto de vista de autoafirmação social, cultural e étnica”</em><br>(MOURA, 2019. p. 181-182)</p>



<p><strong>Carnaval é resistência e autoafirmação negra!</strong></p>



<p>De acordo com Moura, as escolas de samba ganharam destaque depois da sociedade branca perceber o caráter organizacional delas. Se apropriaram, embranqueceram socialmente e ideologicamente a festa &#8211; principalmente depois do interesse de grandes empresas e grupos em cima da divulgação que a festa propõe. Por isso, Clóvis Moura apresenta as escolas de samba como “um exemplo de degradação” da cultura dos negros, quando este elemento deixa de ser resistência e expressão de um grupo e passa a atender, principalmente, a interesses privados.</p>



<p>Com relação aos apontamentos de Clóvis Moura, lembramos também escritos de Luiz Antônio Simas, onde no livro <em>O corpo encantado das Ruas </em>este discorre que:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>O carnaval é perigoso. O controle dos corpos sempre foi parte do projeto de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtoras de cultura. Este projeto de desqualificação da cultura é base da repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres, dos descendentes dos escravizados e de todos que resistem ao confinamento dos corpos e criam potência de vida</em><br>(SIMAS, 2019, p. 110)</p>



<p>A desqualificação do carnaval parte do controle dos corpos pretos. Da desqualificação da cultura preta.</p>



<p><em>***</em></p>



<p>Encaminhando para as conclusões, além dos entendimentos que foram expostos acima, devemos pensar no carnaval como um momento de movimentação da economia para cidades turísticas. Vivemos em uma sociedade de capitalismo dependente, como entende Clóvis Moura. Com isso, até que este sistema caia, a população precisa sobreviver. O Carnaval como forma de trabalho também é elemento a se considerar, seja nos barracões de escolas de samba, seja nos dias de folia os diversos vendedores ambulantes, funcionários de transportes públicos, entre outros.</p>



<p>Outro ponto que podemos pensar do carnaval é a perspectiva política. Apesar dos apontamentos feitos por Clóvis Moura, algumas escolas de samba ainda trazem temas políticos para seus enredos, que muitas vezes são próximos da realidade de suas comunidades, por exemplo o desfile da Paraíso do Tuiuti de 2018 questionando a narrativa sobre a escravidão no Brasil, o desfile da Mangueira de 2019 questionando a História oficial do país, ou desfile da Mangueira de 2020 questionando a imagem do Jesus eurocêntrico.</p>



<p>O desfile das escolas de samba já nos mostrou diversas oportunidades de politização de temas e transformação destes em arte para se apresentar na avenida durante cerca de 60 minutos. Com um enredo, alegorias, fantasias, bateria e um samba enredo que dá o tom do discurso. Não são todas as escolas nem em todos os anos politizam seus debates, isso é algo que devemos considerar.</p>



<p>***</p>



<p>Mesmo levando em consideração tudo o que foi exposto acima, a certeza que já tínhamos é que, em 2021, não haveria carnaval; e não houve. Foi preciso que não houvesse carnaval em 2021. É preciso que a gente se solidarize com as famílias que perderam parentes durante esta pandemia. E é preciso que sejamos conscientes com relação à circulação do vírus.</p>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p>REFERÊNCIAS:</p>



<p>MOURA, Clóvis. <strong>Sociologia do negro brasileiro. </strong>2. ed. São Paulo: Perspectiva, 2019.</p>



<p>SIMAS, Luiz Antonio. <strong>O corpo encantado das ruas. </strong>1. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2019.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/581c8-luan-pedretti.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13805 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
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		<title>Reconhecer Brasis é para Ontem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 31 Jan 2021 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 076]]></category>
		<category><![CDATA[AmarElo]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[resistência negra]]></category>
		<category><![CDATA[vivências negras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>É tudo pra ontem</em>. Esta ideia se refere a parte do título do documentário lançado por Emicida no final do ano de 2020. Este trecho, sem nenhuma outra associação, se mantém aberto sobre o que tem necessidade de receber a nossa atenção “pra ontem”, ou seja, o mais rápido possível. Ao contextualizá-lo com a narrativa do documentário, entendemos o que a pessoa que escolheu o nome do documentário, junto com roteirista e equipe de produção, entende que precisa receber a nossa atenção “para ontem” ao discutir e refletir o Brasil.</p>



<p>É um documentário longo, denso, que traz para a sua construção diversos pontos que carecem de atenção individualmente. O filme se desenrola em cerca de 1 hora e 30 minutos e traz em sua narrativa, antes de tudo,  a trajetória de construção do álbum AmarElo (2019): apresentação das inspirações que foram imprescindíveis para a construção do álbum, bem como do cantor enquanto sujeito e das subjetividades que o atravessam. Quanto a outros elementos presentes no documentário, pode-se destacar discussões políticas, sociais e culturais que se aproximam do debate sobre a população negra do Brasil. O documentário se apresenta como uma outra perspectiva de Brasil, a qual não tem presença nos espaços oficiais quando se reflete algum aspecto do país em que vivemos, sejam eles sociais e/ou educacionais. Dessa forma, esta produção se une a outros dispositivos &#8211; que aqui entendemos como dispositivos de educação não formal -, como por exemplo, o desfile da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira quando no seu enredo para o ano de 2019, se propõe a questionar <em>A história que a história não conta<a href="#_ftn1"><sup><strong><sup>[1]</sup></strong></sup></a></em>, disputando no espaço público a ideia de outros Brasis.</p>



<p>Após mais de um mês de lançamento, é possível nos depararmos com algumas discussões, críticas, análises e <em>threads </em>rondando os temas que são apresentados no documentário. A intenção aqui não é promover uma resenha crítica ou resumo do documentário, entendendo que este movimento já foi feito anteriormente, por diversas pessoas, sejam negras ou não, elogiando ou apontando pontos que são críticos e carecem de atenção. Acredito que este espaço se apresenta, antes de tudo, como oportunidade de manter este instrumento no debate público, circulando, promovendo uma das funções ao qual entendo para o qual ele foi criado: apresentar outros Brasis. Portanto, tenho por intenção incentivar que vocês a partir de agora observem as minúcias daquela longa produção fílmica.</p>



<p>Ano de 1978, em meio a uma ditadura militar que perseguia e reprimia aqueles que consideravam adversários políticos e ideológicos do regime, algumas pessoas dissidentes da ideia de “democracia racial” &#8211; que era, até então, a interpretação oficial difundida sobre as relações sociais e culturais brasileiras no que tange às diversas raças, sociologicamente interpretadas, que constroem esta nação. Um grupo de pessoas se dirige à praça da Sé, em São Paulo, a fim de ler publicamente um manifesto. Como consequência dessas ações, formou-se o MNU (Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial).</p>



<p>Este não foi o primeiro movimento social, político, religioso ou cultural a ser formado principalmente por pessoas pretas. Na verdade, pode-se elencar a existência destes desde o período da colonização. Podemos interpretar estes sujeitos enquanto atuantes na sociedade em que estavam inseridos, por mais que submetidos a um sistema de violência e apagamento de suas subjetividades.</p>



<p>Este movimento social, formado em 1978 e relembrado pelo documentário, se constituiu como um dos principais motores para reivindicação do reconhecimento público da participação de pessoas negras na construção do Brasil enquanto nação. Na constituinte entre 1986 e 1988, havia reivindicações de pessoas ligadas ao MNU para a inclusão de demandas deste recorte populacional na carta, como por exemplo Abdias do Nascimento. Após a redemocratização, diversas pessoas públicas estiveram defendendo leis e projetos que apresentem outras perspectivas sobre pretos e pardos.</p>



<p>A proposta de revisão da História e da Cultura brasileira é uma das principais pautas de movimentos sociais. Reivindicações que chegaram a se transformar em leis. Como por exemplo a 10.639/03, que define a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura africana e afro-brasileira nos diversos níveis educacionais. Wanderson Flor do Nascimento, pesquisador de Filosofia Africana e professor da UnB, ressalta que a importância desta lei “<em>abriu espaço legal para que essas outras vozes pudessem ser trazidas de modo respeitoso, cuidadoso, para o espaço escolar, para além dos estereótipos racistas que circundam as pessoas negras</em>.” (NASCIMENTO, 2020, p. 39)</p>



<p>Este debate já existe dentro do espaço da academia há tempos. Novamente citando o desfile da Mangueira de 2019, o carnavalesco, ao ser questionado sobre a o embasamento para a construção do enredo, afirma que procurou por teses e dissertações<a href="#_ftn2"><sup>[2]</sup></a>.&nbsp; Há uma barreira que impede com que os resultados destas pesquisas cheguem à população em geral.</p>



<p>Dessa forma, é importante perceber a narrativa oficial sobre a história do Brasil e como ela não representa a população em geral. Perceber que, com o passar dos tempos, elementos que questionam as narrativas oficiais sobre a história do Brasil têm, cada vez mais, saído dos muros da academia e atingido espaços culturais de divulgação de informação em massa. Perceber que os Brasis estão produzindo por si suas próprias perspectivas do processo histórico e, assim, promovendo tensionamentos contra a imposição que há décadas tem sido feita. <strong>Perceber que a nossa experiência não se resume à experiência eurocêntrica é para ontem.</strong></p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> Trecho do samba enredo da escola.</p>



<p><a href="#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> Como foi citado pela apresentadora Fátima Bernardes, durante a transmissão do desfile na TV Globo.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/581c8-luan-pedretti.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-13805 size-full" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva.</p>
</div></div>



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		<title>Eleições 2020 e as Candidaturas Negras</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 071]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[Memória Social]]></category>
		<category><![CDATA[Negritude]]></category>
		<category><![CDATA[Religiões Afro-Brasileiras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Muito provavelmente, na hora que esta breve reflexão se publicizar, as votações para prefeitos e vereadores no Brasil já estarão encerradas, ou estarão perto disso. Ainda assim, acredito que ela necessita ser feita, para que fiquemos atentos em pleitos futuros.</p>



<p>Meu ponto de partida será observar a Câmara de Juiz de Fora. Quantos candidatos negros estão eleitos naquela casa? Quantas mulheres? Quantos negros que defendem a histórica luta antirracista? Quantas mulheres defendem a luta feminista? Quantos LGBTQIA+? Na eleição de 2016, dentre 19 vereadores eleitos, houveram apenas duas mulheres e um homem negro. De acordo com o IBGE de 2010, cerca de 45% da população se autodeclara negra (preta/parda) na localidade. A câmara municipal de Juiz de Fora não reflete a população da cidade.</p>



<p>Em 2020, houve a implantação de cota racial para as candidaturas à vereança no Brasil. A medida, que inicialmente foi pensada para ser aplicada a partir do próximo pleito (ou seja, 2022), foi acelerada pelo TSE, já vigorando nas eleições de 2020, após questionamento da candidata à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro Benedita da Silva (PT). Em resumo, esta define que a porcentagem de verba recebida pelo partido seja parelho à porcentagem de candidatos autodeclarados negros &#8211; sistema semelhante à determinação de divisão de verba para candidaturas femininas. Exemplificando: dos 100% de verba recebida pelo partido, inicialmente divide-se entre homens e mulheres; após a divisão de gênero, se de todos os homens candidatos, 40% se autodeclaram negros, esta deve ser a porcentagem de verba destinada a estas candidaturas. O mesmo segue para a porcentagem feminina de candidaturas. Esta medida se deu devido ao baixo índice de candidatos destes grupos sociais a alcançarem a cadeira na casa legislativa, geralmente devido às limitações da campanha política, diretamente ligada a dificuldades orçamentárias.</p>



<p>Após esta determinação, alguns problemas na autodeclaração foram expostos à sociedade. O caso mais recente foi o do candidato a vereador João Paulo Demasi (PSOL), esposo de Bela Gil e genro de Gilberto Gil, o qual se autodeclarou negro para concorrer à vereança na cidade de São Paulo. No entanto, o mesmo não possui nenhum fenótipo &#8211; característica física &#8211; que possa ser associado à uma pessoa negra.</p>



<p>Este problema relacionado às autodeclarações não é recente, e já vem sendo enfrentado pelas universidades federais desde a implantação das cotas raciais para ingresso nos cursos superiores. Em reação, estas instituições públicas vêm implantando comissões de heteroidentificação, para deferir ou indeferir a autodeclaração. Os candidatos que são considerados fraudadores geralmente se utilizam do argumento da miscigenação e ancestralidade.</p>



<p>Alguns movimentos sociais vêm reivindicando o fenótipo como único critério para deferimento de sujeitos negros à ocupar estas vagas, a fim de limitar as possibilidades de fraude e garantir as vagas para aqueles que são expostos cotidianamente à violências, seja física ou verbal, com o objetivo de atingir a sua subjetividade. Deve-se levar em consideração que o racismo no Brasil ocorre devido aos fenótipos, e não à ancestralidade consanguínea &#8211; <em>One Drop Rule</em> &#8211; tal como no EUA, por exemplo.</p>



<p>Em agosto, um movimento social da cidade de Juiz de Fora fez estes questionamentos de forma pública à UFJF. Reuniu cerca de 1100 assinaturas e 10 personalidades públicas, que enviaram questionamentos à universidade apontando as fragilidades do sistema de cotas que a mesma adota. Estas diversas pessoas ainda não receberam resposta. As publicações com os questionamentos estão publicados nas redes sociais da <a href="https://www.instagram.com/frentepreta/">Frente Preta</a>.</p>



<p>Dessa forma, podemos associar um fio condutor a estas duas situações. Existe a política pública de ação afirmativa, mas ela não define explicitamente a forma que deve ser aplicada &#8211; abrindo, portanto, brechas para que fraudadores impeçam que o objetivo geral seja atingido: o aumento no número de negros tanto nas universidades quanto nas câmaras legislativas do país.</p>



<p>Escrevo este texto a partir da cidade de Juiz de Fora; portanto, os exemplos aqui utilizados tratam especificamente desta cidade. Não obstante, o modelo desta reflexão é possível de ser aplicado em qualquer outra localidade do Brasil. Assim, espero que, a partir de agora, você questione, da sua localidade: quantos vereadores negros existem na sua câmara municipal? Quantas vereadoras existem na sua câmara municipal? Quantos vereadores negros defendem a luta antirracista na sua cidade? Quantas vereadoras defendem as pautas feministas na sua cidade? Quantos LGBTQIA+ são eleitos/as na sua cidade? A composição desta casa legislativa reflete a população da sua cidade?</p>



<p>Como apontamento final, acredito que seja importante considerar também que a representatividade, por si só, não vale de nada. Se este sujeito não estiver atuando para movimentar as estruturas desiguais da sociedade, ele não está contribuindo para o fim da opressão e das desigualdades, mas servindo de suporte para elas. De que serve uma figura pública negra que exalta Princesa Isabel e não reconhece a importância de personalidades como Marina Silva, Elza Soares, Martinho da Vila, Gilberto Gil ou Zezé Mota na luta antirracista e em diversas outras lutas especificas na sociedade brasileira?</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva e pela Frente Preta da UFJF.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Editorial &#8211; Memória Social e Religiões Afro-Brasileiras</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/11/editorial-memoria-social-e-religioes-afro-brasileiras/</link>
					<comments>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/11/editorial-memoria-social-e-religioes-afro-brasileiras/#respond</comments>
		
		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 066]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[Memória Social]]></category>
		<category><![CDATA[Negritude]]></category>
		<category><![CDATA[Religiões Afro-Brasileiras]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando falamos em memória, pensamos diretamente naquela relação que temos com as atividades cerebrais que nos fazem adquirir, armazenar e trabalhar com informações. Existe até uma doença que atinge as atividades cerebrais e como consequência, a pessoa que é acometida pela perda de memória. Na era da tecnologia, a utilização deste termo também ganhou outra conotação. Quando se vai comprar um celular, computador, ou qualquer outro dispositivo tecnológico, pergunta-se à pessoa que está encarregada de vender o produto, qual o tamanho da memória daquele dispositivo. Um <em>terabyte </em>de memória para armazenamento ou 4 <em>gigabytes </em>de memória RAM serão suficientes para que eu fique com esse dispositivo por quantidade X de tempo?</p>



<p>O que quero dizer é que, temos um senso comum sobre o termo memória e que por vezes não paramos para refletir no significado do termo, ou em outras possibilidades pelas quais ele pode ser atribuído. Existem algumas outras dimensões que se debruça a refletir sobre a memória nos diversos aspectos. Seja na relação com a Psicologia ou na História, debater memória pode dizer da sociedade em que estamos inseridos.</p>



<p>Alguns autores vêm discutindo sobre esse campo de pesquisa nas suas mais diversas abordagens. Seja Ecléa Bosi (1989), Pierre Nora (1993), Michel Pollak (1989, 1992), Amadou Hampâté Bâ (2003), em seus contextos específicos contribuem com reflexões acerca da memória.</p>



<p>Surgiu, no final do século XX inclusive, a reflexão sobre a emergência da memória, no sentido de recorrente e expressiva busca e uso desse mecanismo, a fim de evocar os acontecimentos passados e as incursões desse no presente (Huyssen, 2000). A construção de memoriais, museus, estátuas, datas comemorativas, reconhecimento de patrimônios culturais  teve seu <em>boom </em>na sociedade ocidental, sobretudo<em>,</em> no pós-Segunda Guerra Mundial. Recordar, celebrar ou politizar o passado tem feito cada vez mais parte do corpo social.</p>



<p>E nem sempre essa discussão se apresenta de forma pacífica ou consensual. Essa memória ao chegar no campo da sociedade, sofre disputa através das interpretações e apropriações pelos diversos sujeitos. A exemplo da memória da data de 31 de março de 1964. Para quem não se recorda, marca o início da comitiva militar que saiu da cidade de Juiz de Fora, em direção ao Rio de Janeiro, para a instauração do Golpe Civil-Militar que resultou em 21 anos de Ditadura Militar no Brasil. O atual presidente e diversos de seus seguidores insistem em celebrar a data de 31 de março como o dia da, de acordo com o posicionamento deles, “revolução”, dia da “liberdade”<a href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a>.</p>



<p>Sobre este tema, acredito que existem investigações que definem alguns apontamentos importantes. Houve rompimento da ordem democrática que até o momento era estabelecida, houve cerceamento das liberdades políticas dos cidadãos, houve censura, houve perseguição política, houve assassinato de opositores políticos. No dia 31 de março de 1964 aconteceu um golpe e a Ditadura foi uma ditadura. Mas isso não impede que na sociedade haja narrativas opostas, muito pautadas pela opinião, ignorando pesquisas acadêmicas, diversas teses e dissertações. Ainda que existam Comissões da Verdade, instauradas tardiamente, mas que de alguma forma ajudaram a elucidar sobre o período.</p>



<p>Portanto, geralmente as memórias públicas são perseguidas pela dialética daquilo que deve ser lembrado e daquilo que deve ser esquecido, de acordo com os interesses políticos detentores de poder. Também está submetida à disputas dos diversos sujeitos que compõem a sociedade.</p>



<p>É possível dizer que a memória, geralmente quando coletiva, contribui para a construção de identidades.&nbsp; O antropólogo Kabengele Munanga (2000) se propõe a refletir sobre a construção da identidade negra no contexto de globalização. Aponta que a identidade pode ser fonte de sentidos e experiência, podendo identificar socialmente aqueles que se reconhecem no âmbito cultural.</p>



<p>O autor indica que do ponto de vista da antropologia, todas as identidades são construídas, então há a necessidade de entender por quais mecanismos estas identidades são construídas, sendo este o verdadeiro problema. A elaboração de uma identidade recebe fontes da história, da geografia, da biologia, da memória coletiva, e dos fantasmas pessoais, dos aparelhos de poder, das revelações religiosas e das categorias culturais, sendo um fenômeno estritamente particular. Sendo, portanto desenvolvida uma identidade para cada sujeito, haverá a pluralidade de identidades quando vários sujeitos constroem identidades semelhantes, constituindo então memórias e identidades coletivas, ou quando um único sujeito possui múltiplas identificações, definindo as memórias e identidades individuais. (FERREIRA, 2018)</p>



<p>***</p>



<p>Fiz essa brevíssima contextualização e exemplificação para finalmente conseguir chegar ao fato que me motivou a escrever esse texto. Em 22 de setembro de 2020, houve a entrega ao Museu da República do Rio de Janeiro de cerca de 500 instrumentos utilizados pelas religiões de matriz africana que estavam apreendidos no antigo prédio do DOPS, onde hoje funciona a sede da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Esses instrumentos estavam apreendidos há mais de 100 anos e eram tombados pelo Iphan como acervo sob o nome “Magia negra”. Foram tiradas de terreiros de Umbanda e Candomblé entre 1889 e 1945. A campanha “Liberte Nosso Sagrado”<a href="#_ftn2"><sup>[2]</sup></a> acontecia desde 2017, sob a liderança da iyalorixá Mãe Meninazinha de Oxum, e no ano de 2019 recebeu reportagem para o site da BBC Brasil publicizando sua reivindicação.</p>



<p>Observando o fato acima, já nos é possível levantar alguns questionamentos, como: definindo a constituição de 1891 a laicidade do Estado, porque havia apreensão de instrumentos utilizados em ritos de Umbanda e Candomblé? A mando de quem? Praticado por quem? Qual a importância dessa devolução para as populações de terreiro? E para a população africana diaspórica do Brasil?</p>



<p>Ou seja, além das praticas sociais de discriminação e perseguição às religiosidades de terreiro, esse fato nos leva a pensar que existiu uma perseguição institucional à tais praticas religiosas. As forças policiais, perseguiam as casas, prendiam praticantes e apreendiam os instrumentos utilizados nas tradições de Orixás. Como reivindicar igualdade social se o Estado é/foi motor na&nbsp; prática dessa desigualdade?</p>



<p>Agora, qual a importância desse fato para a dimensão da memória dos povos de terreiro e do povo preto? Qual a potencialidade desses instrumentos em sair de um espaço de privação, de detenção, de cerceamento, que representa um dos períodos mais tristes da história política e social do Brasil, e ir para um espaço museológico, que geralmente tem por premissa a preservação de memória?</p>



<p>A partir de então, após a catalogação e organização do acervo, será um importante elemento para se contar a história do racismo religioso e das arbitrariedades praticadas pelo Estado Brasileiro, para além das perseguições sociais que ocorriam contra essas práticas religiosas em diversos momentos de sua história. Esse acervo se juntará ao Cais do Valongo, ao Cemitério dos Pretos Novos e a diversos outros locais públicos que demarcam a passagem da população negra perseguida ao longo da história do Brasil, seja na condição de escravizado, seja na condição de livre.</p>



<p>Também é importante fazer alguns apontamentos sobre a patrimonialização de elementos que evoquem a presença dessa população negra no território do Brasil. O órgão governamental nacional responsável pelos Patrimônios materiais foi criado em 1937, o Sphan, que posteriormente se transformou no Iphan. O primeiro monumento tombado no Brasil que evocava essa presença negra, foi o Ilê Axé Nassô Oká, também conhecido como Terreiro da Casa Branca do Engenho Velho, em 1984. Quase 50 anos depois da criação do órgão, sob muita resistência, que houve o reconhecimento de um patrimônio que falasse da história da população negra no Brasil.</p>



<p>É importante contextualizar a realidade das religiões de matriz africana e de seus praticantes no Brasil. Em 2018 no estado de São Paulo, segundo o site G1, as denúncias de intolerância religiosa contra as afro brasileiras aumentaram 5,5% enquanto a das outras religiosidades caíram 9,9%<a href="#_ftn3"><sup>[3]</sup></a>. Não faz muito tempo que vimos no noticiário casos de intolerância contra praticantes de tais religiões. Trago dois exemplos: o primeiro é de uma criança de 11 anos foi atingida por uma pedrada por portar adereços do Candomblé<a href="#_ftn4"><sup>[4]</sup></a>. O segundo é de pais e mães de santo expulsos de suas casas e barracões no Rio de Janeiro por traficantes evangélicos. Expulsavam os filhos, pais e mães de santo sob ameaças de violência e armamento pesado<a href="#_ftn5"><sup>[5]</sup></a>.</p>



<p><strong>Não é possível falar de cristofobia no Brasil quando a religião Cristã é a que define a ação das instituições</strong>. Não é possível falar em Cristofobia no Brasil, quando nos deparamos com os dados e casos acima citados. Não é possível falar em cristofobia no  Brasil quando a administração executiva do país se denomina como “terrivelmente cristã”.</p>



<p>Logo, a presença desses elementos em um espaço museal confronta o discurso social de demonização de tais práticas religiosas. A cada dia se faz mais necessário que o refrão da GRES Grande Rio para o carnaval de&nbsp; 2020 seja exaltado. “Eu respeito o seu amém e você respeita o meu axé.”</p>



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<p><a href="#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> <a href="https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/bolsonaro-se-refere-a-aniversario-do-golpe-de-64-como-dia-da-liberdade.shtml">https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/03/bolsonaro-se-refere-a-aniversario-do-golpe-de-64-como-dia-da-liberdade.shtml</a></p>



<p><a href="#_ftnref2"><sup>[2]</sup></a> <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49377670">https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49377670</a></p>



<p><a href="#_ftnref3"><sup>[3]</sup></a> <a href="https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/11/20/denuncias-de-discriminacao-religiosa-contra-adeptos-de-religioes-de-matriz-africana-aumentam-55percent-em-2018.ghtml">https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2019/11/20/denuncias-de-discriminacao-religiosa-contra-adeptos-de-religioes-de-matriz-africana-aumentam-55percent-em-2018.ghtml</a></p>



<p><a href="#_ftnref4"><sup>[4]</sup></a> <a href="http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/06/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa-diz-que-vai-ser-dificil-esquecer-pedrada.html">http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/06/menina-vitima-de-intolerancia-religiosa-diz-que-vai-ser-dificil-esquecer-pedrada.html</a></p>



<p><a href="#_ftnref5"><sup>[5]</sup></a> <a href="https://extra.globo.com/casos-de-policia/crime-preconceito-maes-filhos-de-santo-sao-expulsos-de-favelas-por-traficantes-evangelicos-9868829.html">https://extra.globo.com/casos-de-policia/crime-preconceito-maes-filhos-de-santo-sao-expulsos-de-favelas-por-traficantes-evangelicos-9868829.html</a></p>



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<p>REFERÊNCIAS:</p>



<p>*BÂ, Amadou Hampâté. Amkoullel, o menino fula. Tradução: Xina Smith de Vasconcelos. São Paulo: Palas Athena: Casa das Áfricas, 2003.</p>



<p>*BOSI, Ecléa. <strong>Memória &amp; sociedade: lembrança de velhos. </strong>São Paulo, SP. T.A. Editor, 1979.</p>



<p>*FERREIRA, Luan P. C.. <strong>Memória da escravidão em Juiz de Fora: </strong>sociabilidades, políticas de rememoração, apagamentos e silenciamentos. Trabalho de Conclusão de Curso. Juiz de Fora. 2018. &lt;<a href="https://www.ufjf.br/historia/files/2020/04/Luan-Pedretti-de-Castro-Ferreira-Mem%c3%b3rias-da-escravid%c3%a3o-em-Juiz-de-Fora.pdf">https://www.ufjf.br/historia/files/2020/04/Luan-Pedretti-de-Castro-Ferreira-Mem%c3%b3rias-da-escravid%c3%a3o-em-Juiz-de-Fora.pdf</a>&gt;</p>



<p>*HYUSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória: arquitetura, monumentos, mídia. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2000.</p>



<p>*MURANGA, Kabengele. A construção da identidade negra no contexto da globalização. P. 19-41 In: DELGADO, Ignácio (coord.); ALBERGARIA Enilce, RIBEIRO, Gilvan,BRUNO, Renato (orgs.) Vozes(além) da África. Editora UFJF, Juiz de Fora, 2000.</p>



<p>*NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Prof. História, São Paulo. 1993</p>



<p>*POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.2, 1989, p. 3-15</p>



<p>*POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v. 5, n10, 1992, p. 200-212</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva e pela Frente Preta da UFJF.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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		<title>Branquitude em seu pacto</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Sep 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 063]]></category>
		<category><![CDATA[Branquitude]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luan Pedretti</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Não é segredo pra ninguém as desigualdades que atravessam o Brasil nos tempos atuais. Estas, que são históricas e paulatinamente construídas em favor das elites econômicas e políticas, faz questão de imputar a diversos sujeitos o lugar da subalternidade social.</p>



<p>Essas desigualdades têm um marcador de raça, gênero e classe bem delimitados, definindo, de acordo com a noção de necropolítica do filósofo camaronês Achile Mbembe (2016), quem pode viver e quem deve morrer no exercício do poder, sobretudo Estatal/Institucional<a href="#_ftn1"><sup>[1]</sup></a>.</p>



<p>Existem algumas situações que ilustram as afirmações feitas acima. A primeira vítima fatal da pandemia da COVID-19 no estado do Rio de Janeiro ter sido uma empregada doméstica mulher negra, que foi infectada pela doença por seus patrões, brancos e ricos, que tinham chegado de viagem internacional. O menino João Pedro, de 14 anos, assassinado dentro se casa com um tiro disparado da arma de um policial em meio a uma operação policial na comunidade do Salgueiro, RJ. O menino Miguel, que caiu do prédio em Recife, devido a negligência de Sari Corte Real em observar o menino, enquanto sua mãe, empregada doméstica, passeava com o cachorro. Mas essa morte física do corpo não é a única forma de expressão dessa violência.</p>



<p>Pois bem. Há algumas semanas, estamos acompanhando no debate público o caso de Ângelo Assumpção &#8211; ginasta medalhista de ouro do Brasil na Copa do Mundo de Ginástica Artística, grande promessa para a futura geração de ginastas. Ângelo, ao denunciar que sofria racismo dentro do Clube Pinheiros, ao qual prestava serviços, foi demitido com algumas justificativas no mínimo curiosas. A primeira foi de não haver provas da consumação de tais práticas racistas dentro do clube praticada pelos atletas e equipe técnica, ainda que esteja circulando na internet um vídeo desde 2015, publicado em uma rede social,&nbsp; onde os ginastas Arthur Nory, Felipe Arawaka e Henrique Flores, direcionam à Assumpção palavras explicitamente racistas. A outra justificativa apresentada pelo clube para a demissão do ginasta, seria por ele não ter respeitado a hierarquia do clube, ainda que estivesse denunciando uma violência que atingia diretamente a sua subjetividade.</p>



<p>Racismo no esporte não é novidade, haja vista as vivências do goleiro Aranha, e mais recentemente do jogador Neymar &#8211; que finalmente conseguiu se localizar racialmente em uma sociedade que te faz acreditar que ascendendo economicamente, você perde a sua identidade racial. Bobagem. Ainda que rico, Neymar continua sendo um homem preto circulando por espaços racistas, seja na Europa ou no Brasil. Mas o caso específico do ginasta Angelo Assumpção nos permite refletir sobre alguns aspectos da sociedade brasileira em particular.</p>



<p>Em determinado momento histórico, onde se debatiam como construir a identidade cultural do Brasil enquanto nação, os intelectuais acharam que seria positivo apostar em uma ideia de uma democracia racial, de miscigenação entre as raças como algo natural. Ideia essa que já foi refutada academicamente, ressaltando a impossibilidade de uma harmonia entre os grupos que constroem o Brasil. Esse pais foi fundado na violência contra povos indígenas, contra africanos traficados e contra negros nascidos por aqui. Essa harmonia só existe na mente do branco! E é tão perceptível que essa harmonia só existe na mente do branco, que percebemos o presidente da república indo pra televisão, no discurso do dia 7 de setembro, reforçar algo que não existe na vivência dos diversos sujeitos.</p>



<p>Outro ponto interessante de se analisar neste caso, é como a branquitude consegue ignorar as provas concretas para proteger os indivíduos que fazem parte de seu grupo racial. O vídeo com as violências proferidas à Angelo circulam desde 2015. Alguns ginastas envolvidos no caso, chegaram a publicar um pedido de desculpas, reconhecendo suas atitudes racistas contra o atleta. Mas mesmo assim, o Clube Pinheiros insiste em afirmar que não há práticas racistas dentro de suas instalações. A branquitude se protege em todas as possibilidades. E por mais que, alguns sujeitos reconheçam sua experiência enquanto ser branco no Brasil, e tentem praticar um antirracismo no seu cotidiano, eles ainda continuam fazendo parte dessa branquitude que goza cotidianamente de diversas vantagens sociais. É o pacto narcisístico da branquitude.</p>



<p>O final que eles querem, nós já sabemos. Neymar foi expulso do jogo. Ângelo Assumpção está sem contrato, sobrevivendo através de uma <a href="https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajuda-ao-ginasta-angelo-assumpcao">vakinha virtual</a>. Aranha perdeu espaço na mídia. Cleonice Gonçalves passou ao orum, para agora conviver com os ancestrais.</p>



<p>O final que eles querem, mas não vai ser o final oficial.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1"><sup>[1]</sup></a> É a soberania de decidir quem deve viver e quem deve morrer através do exercício de poder, sobretudo Estatal/institucional. Ver mais em: MBEMBE, Achile. <strong>Necropolítica: </strong>biopoder, soberania, estado de exceção, política de morte. Arte &amp; Ensaios. Revista do PPGAV/EBA/UFRJ. N. 32. 2016</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Luan Pedretti </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é mestrando em Educação pelo PPGE/UFJF, professor de História, integrante do Movimento Negro em Juiz de Fora pelo Coletivo Negro Resistência Viva e pela Frente Preta da UFJF.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-4 wp-block-columns-is-layout-flex">
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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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		<title>d&#8217;A Juventude Transviada</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Dec 2019 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 025]]></category>
		<category><![CDATA[consciência negra]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[negro no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo Estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Lua Xavier</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Pela madrugada os sons da cidade são bem peculiares, tal como uma gaita familiar vinda da natureza e mais uma vez; Helena, agora livre e diante de seu grande paradoxo travestido de guerra anti áries, escuta calmamente cada pio do gogó das aves. Ela sabe, bem lá no fundo de seus olhos da alma, que algo pode estar por vir&#8230; Teme e treme; afinal, o temor e o tremor são reações naturais de um corpo em contato com seu próprio interior: está, finalmente, exercendo seu legítimo cuidado &#8211; ainda que em meio a tropeços. Ao mesmo tempo que o bem-te-vi anuncia a vinda do Sol-escorpião, casada com a aparição avassaladora d&#8217;A estrela escondida pela melancolia, sua amiga Lua se deita no mar daqueles que deram o grito surdo dos miseráveis, e a legião estrangeira de estrelas azuis e pedrinhos nus nunca dorme. Helena escuta alguns pequenos decibéis da vida humana: eis o ponto de partida do mundo visível ao olho anti-nu; mas Helena foi condenada a ir fundo. Ela sente em seus poros a chama nêga costante e calma sob a chuva rala disfarçada de orvalho &#8211; ou até mesmo sereno. Escuta&#8230; Não mais &#8211; só mente &#8211; as vozes de galinhas e ovos macabéticos, mas as vibrações das ondas de um mundo moinho, onde uma semente plantada por um eterno gatilho sem disparar brota pela concepção a cada instante &#8211; e nela. A bala perdida em formato de soneto no mês de agosto insiste em fazer constante a presença da possibilidade de essência perante a existência. Sabe-se lá a diferença entre os olhos que enxergam e os que não querem enxergar&#8230; Ora, tanto faz&#8230; Se o que não foi, não é: e todos comem seu pão nosso de cada dia em formato de bolo enrolado, cantado aos quatro cantos seu despertar &#8211; disfarçados. Essa tal de Juventude Transviada, já cantada há tantos anos, está abrindo seus armários de pandora e enfrentando as tentações dionisíacas e imagéticas de todos os dias &#8211; em meio a fuga da semiótica vista como cruel, mas da vida: temem e tremem; emocionam; fraquejam e fortalezam; caem n&#8217;As tentações: são vivos: das pedras à carne, das folhas aos frutos, da seiva à flor &#8211; e disso, os floristas sabem. Nessa madrugada Helena não sentiu medo. Não há mais bueiro que lhe conforte de prisões, não há mais poço que lhe jure o infinito, não há mais palavra que lhe informe certezas: esta é a liberdade &#8211; o preço mais caro a se pagar. Tão livre que tem fé cega até no paradoxo íntimo feito entre quatro paredes. Diante dos grandes olhos, está a Juventude Transviada, num jogo semanal entre X e Cruz: Opostos que tentam confundir? Mas esta tal&#8230; Essa tal, que lava roupa todo dia &#8211; cheia de agonia &#8211; essa&#8230; Imprime seus sonhos na história, seja púrpura ou galega, prateada ou dourada, repleta de esquadros de balbúrdia arquitetada e algumas mumunhas de um passado de nostalgias e saudades que acabam por fazer do tal do amor, a revolução. E tudo isso fica no Mar, e também fica em minas.&nbsp;<br>E Helena? Helena permanece aqui na terra, vagando mundos &#8211; e sempre espera &#8211; enquanto enfrenta minotauros, faunos, esfinges imaginárias dentro dum elevador &#8211; que, como todo elevador se preze &#8211; vem munido do entra e sai de corpos e reflexos em seu espelho. E, ainda assim, de dentro de tal meio de transporte mais seguro e abafado do mundo, a sentença de Helena grita: o cheiro do vento invade seus cárceres nada privados e lhe sussurra&#8230;: &nbsp;&#8220;fé&#8221;.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Lua Xavier: </strong>vivo num clipe sem nexo, um Pierrot- retrocesso, meia bossa nova e rock&#8217;n&#8217;roll</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg7_-1-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4982" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>A Loucura Resistirá</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Dec 2019 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 001, N 025]]></category>
		<category><![CDATA[consciência negra]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Luan Pedretti]]></category>
		<category><![CDATA[negro no Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Racismo Estrutural]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Hélio Rocha</p>
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<p class="has-drop-cap">A arte, bem como quaisquer formas de engenhosidade, incomoda aos que vivem de explorar o mediano dos seres humanos, visto que instiga e busca fazer com que encontrem a verdade por detrás dos muitos véus e máscaras que constituem a nossa sociedade.&nbsp;</p>



<p>Esta é a suma da obra “Memorial do Convento”, que lançou o escritor português José Saramago. A obra conta a história de Blimunda, uma mulher simples, dona de casa, órfã de pai desconhecido e mãe proscrita para Angola pelo Tribunal do Santo Ofício da Inquisição; Baltazar, soldado português aleijado em combate contra a Espanha; e Bartolomeu, padre que tem o sonho de criar uma máquina capaz de voar. No início do século XVIII, no reinado de Dom João V e sob os olhares vigilantes da Igreja, ambos acompanham a construção de um convento dedicado ao nascimento do varão da Casa de Bragança, erguido sob mão de obra quase servil, com ouro explorado do Brasil por negros escravizados.&nbsp;</p>



<p>Blimunda tem o incrível dom de, sempre que em jejum, ver o que há por trás de corpos e mentes das pessoas, herdando a sobrenaturalidade da mãe, que ouvia vozes. Ela ajuda Bartolomeu a criar sua máquina voadora por meio do conhecimento do éter, substância obtida do melhor dos sentimentos humanos, os quais ela é capaz de enxergar e dar-lhes consistência por meio de pedras, amuletos, todo o tipo de superstições que deem demonstração do desejo e da vontade humana, sobretudo aquelas que encontram-se próximas à morte e anseiam pela vida. O éter assim obtido, segundo os planos do padre, vai erguer sua invenção aos céus. Baltazar, homem simples e raso, porém dedicado ao próximo, é o sustento dos dois. Entretanto, ambos despertam a fúria dos poderosos da sociedade portuguesa por se atreverem a enfrentar as leis de Deus e ousarem voar, atraindo olhares da Inquisição.</p>



<p>A obra de Saramago é uma crítica a uma sociedade que, não muito distante daquela em que vivemos, persegue e condena aqueles que ousam dissuadir da ordem vigente, não apenas por questionamentos morais e comportamentais, mas igualmente pela arte e pela inventividade. O que o autor aponta como a não aceitação social do conhecimento, da criatividade e da inventividade, foi objeto de questionamentos desde o nascimento da modernidade, quando o filósofo germânico Erasmo de Roterdã fez o seu Elogio da Loucura, afirmando que da não racionalidade pode nascer a imoralidade e a ameaça à ordem social, de um lado, mas pode igualmente emanar a crítica para o melhor conhecimento da sociedade, ao se poder enxergar o ser verdadeiro por trás das máscaras, tal como Blimunda.&nbsp;</p>



<p>“Suponhamos o caso de que alguém quisesse arrancar as máscaras dos atores que desempenham o seu papel num palco, revelando aos espectadores as suas verdadeiras e reais faces. Não estará essa pessoa estragando toda a ficção cênica, merecendo ser preso como louco furioso e expulso do teatro a pedradas? [..] quem era rei, torna-se de repente canalha; quem era deus, na mesma hora revela-se homúnculo. Cortar a ilusão significa mandar pelos ares todo o drama, pois precisamente o engano da ficção cênica é que encanta os olhos do espectador. [&#8230;] Assim, no palco, tudo é postiço, mas a comédia da vida não se desenvolve de outro modo”, argumentava Erasmo.&nbsp;</p>



<p>Derrubando máscaras sociais, sejam elas ontológicas, isto é, da relação do ser humano com o mundo e os outros seres, o que inclui a moral e o comportamento, ou cosmológicas, isto é, a concepção (neste caso, atravessada pela moral) que as pessoas têm das estruturas físicas e as leis que as regem, a vanguarda sempre incomoda. Ao mesmo tempo, no entanto, é necessária, e entre idas e vindas consegue se impor entre fluxos de avanços e refluxos de retrocessos sociais.</p>



<p>Hoje, a sociedade ergue-se contra a arte e a ciência tal como no romance de Saramago. Mas, como revela a crítica de Erasmo, elas subjazem a todas as ameaças, visto serem necessárias para questionar a organização social e, desta forma, fazê-la reexistir. No contexto da virada da Idade Média para a Renascença, Erasmo aponta que nos estertores da loucura pode estar o ódio e a soberba, mas também podem estar a fé e o amor. Isto é, do ser que foge ao mediano e atinge os mais sublimes degraus da loucura, nasce o que homens e mulheres medievais consideravam o pilar da humanidade.</p>



<p>E não estaria correto? Isto posto, e com a devido olhar que revisita um texto medieval, percebe-se o quão necessários são aqueles que manifestam sua subjetividade em amor à humanidade, não importa em que tempo e sob que juízos. Exaltados como Saramago ou no anonimato de Blimunda, Baltazar e Bartolomeu, eles resistirão.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong> é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4473c-fotos-carol-copy-1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4977" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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