Notícia de Jornal

“Que Deus perdoe esse homens maus 

Que regaram esse solo com o meu chorar” 

(Coruja Bc1 – O piano) 

Lucas abriu os olhos. Parecia ter dormido um sono profundo, daqueles que os membros esquecem que são ativos. Ao fazer menção em levantar, caiu deitado de novo. “Talvez tenha levantado rápido demais”, pensou. Escorou o cotovelo e foi levantando, aos poucos. Olhou ao redor e se viu em um ambiente claro, muito claro. Não demorou muito para o cérebro traduzir a imagem do espaço em várias perguntas: “Que lugar é esse? Onde estou? Como vim parar aqui?”. Dessa vez, o corpo terminou de se por de pé, em sobressalto. 

Antes que pudesse articular uma palavra, escutou uma voz que dizia: “Olá, Lucas!”. A voz pertencia a um homem negro, alto, com os cabelos ‘black power’. Suas vestes eram de um branco misturado com roxo e ele parecia muito calmo. Lucas reparou isso, em poucos segundos, e respondeu assustado: 

– Olá! Tudo bem? Perdão, como é mesmo o seu nome? Pode me dizer onde estamos? 

– Bem… de onde você veio, eu tenho vários nomes, representações e desenhos.  

Alguns,  acho levemente pitorescos. Mas eu gosto de um que vi em uma revista em quadrinhos do Maurício de Souza. Tirando a parte da foice, por que não usamos isso aqui? Nesse lugar em que você está, é um plano de transição. Algo nessa linha. 

– Desculpa! Eu não entendi muito bem. Pode me explicar? 

– Ahhhhh! Perdão! – disse o homem – acabei sendo técnico demais. De onde você veio, me chamam de Morte. Aqui, é uma sala de espera, e você morreu, Lucas. 

– Co-como é? Eu morri? Ma-mas eu estava vivo até agora… 

– Geralmente, quem morre esteve vivo momentos antes… 

– ‘Pera’…isso deve ser alguma brincadeira ou sonho… ou melhor, pesadelo, né? 

– Não, é real. Você morreu. 

– Mas…como assim? Como eu morri? Isso não faz sentido… 

– Tente lembrar os últimos momentos do seu dia. 

Lucas deu alguns passos para trás e começou a pensar. 

Lembrou que tinha acordado mais cedo para ajudar a mãe. Depois, levou o irmão mais novo para a escola e foi direto para o estágio, no cartório do centro. 

Mais tarde, teve aula na universidade. Saiu para tomar uma com os amigos e, na volta para casa, foi parado em um enquadro… “Aí o policial pediu para esvaziar os bolsos, eu fui tirar meu celular e…” 

– Gente! Eu fui tirar o celular e o policial tirou a arma. Depois, eu não me lembro de muita coisa. Eu tirei o celular e ele tirou a arma. Será que ele atirou em mim? 

– Sim. – respondeu o homem com pesar na voz. 

– Cara, mas por que ele fez isso? Eu só tinha um celular no bolso e ele me matou. Eu morri. Eu não queria morrer. Minha mãe vai ficar brava comigo porque eu morri e ela tinha me pedido para… ‘pera’, se eu morri… e a minha mãe? Alguém precisa explicar para ela. Não foi culpa minha. Tem como avisar ela? 

– Não é bem assim que funciona. 

– Como não? Em todos esses filmes a gente avisa a pessoa. Eu tô com um pouco de calor. Um pouco tonto também. Tá quente para você também? 

– Tente-se acalmar um pouco, Lucas! 

– Cara, eu morri…que loucura. Eu preciso avisar a minha mãe. Eu não estou respirando muito bem…será que é por causa da morte? Ainda tá quente por aqui? A minha mãe… 

– Você está passando por uma crise de ansiedade, Lucas, tente se acalmar. – Disse o homem tentando amparar Lucas. 

– Caramba… ansiedade até depois da morte. Isso não é legal. Tá quente aqui… eu não tô bem… eu tenho que falar com a minha mãe. – Lucas começou a cambalear em direção ao chão. Dessa vez, o homem foi mais firme e disse: 

– Você precisa se acalmar! Quero que segure a minha mão e pense em um lugar que te traz paz. 

– Mas eu.. 

– AGORA, LUCAS! Segure a minha mão e pense! 1,2,3… 

************************************************************************************************ 

Lucas abriu os olhos novamente. Dessa vez, estava sentado, um pouco mais calmo e sem estranhar a paisagem. Afinal, aquele lugar lhe era familiar. Estava dentro da biblioteca da faculdade. 

– Curioso! – disse o homem de branco e roxo – geralmente, as pessoas pensam em vários outros lugares. Biblioteca é algo novo até para mim. 

– Eu gosto daqui. – disse Lucas – É o lugar onde eu não me sentia um estranho. Os livros, além de falar conosco, trazem uma espécie de acolhimento nesse espaço. Além de, aqui, ser bem mais fresco. 

– Está se sentindo melhor? 

– Um pouco. Embora ainda ache estranho morrer. 

– Vai por mim, todos acham! – disse o homem, abrindo um sorriso. 

– Então você é a Morte? Você veio me buscar ou algo assim? 

– Na verdade, você já está aqui. Meu papel é te conduzir. 

– Então tem essa coisa de céu, inferno, purgatório? 

– É um pouco mais complexo que isso. Mas, sim, existem outras caminhos por aqui. 

– Então eu morri mesmo, né? Que loucura! Sabia que eu tenho só 20 anos? 

– Sim! Sabia e sinto muito. 

– Não imaginava que a morte fosse um homem negro. Que estranho! 

– Na verdade, eu sou uma representação do seu subconsciente que te traz conforto. Uma projeção que te traz alguma calma. 

– Bem… ainda bem que é um homem negro. Imagina se fosse, sei lá…um policial. – disse Lucas, rindo…- por falar nisso, não vai acontecer nada com o cara que me matou, né? 

– Não é bem assim… Ele também morreu. 

– O QUÊ? Quer dizer que ele tá aqui, também? 

– Não. Ele ainda permanece de onde você veio, mas morto. O que considero pior ainda: estar morto, porém vivo. 

– Filosófico demais para mim. 

– “Mas eis a hora de partir: eu, para morte; vós, para a vida. Quem de nós segue o melhor rumo? Ninguém o sabe, exceto os deuses”. 

– Sócrates? 

– Sim, seu filósofo favorito, né? – disse o homem entregando um livro com a capa de couro para Lucas. 

– Sim! Mas reconheço que gosto mais de poesia. A filosofia parece distante demais. A poesia é uma filosofia mais próxima dos pobres. 

– “Mundo mundo vasto mundo, mais vasto é meu coração..” 

– Drummond de Andrade. Poema de Sete Faces. Como sabe que eu gosto desse poema? 

– Está no livro que te entreguei. É o livro da sua vida. 

Lucas olhou para o livro, intrigado. Abriu e viu que as páginas estavam em branco. 

– Não tem nada escrito aqui. – reclamou 

– Olhe novamente! – disse o homem. 

Lucas abaixou a cabeça e, ao olhar, para as páginas, viu que as letras começaram a aparecer em cada um daqueles espaços. Lucas folheou o livro, com rapidez, e viu que as páginas finais ainda estavam em branco. 

– Por que essas páginas estão em branco? 

– Elas correspondem ao momento em que a sua vida foi interrompida. 

– Me ferrei até nisso. Me lembrei de um notícia de jornal que falava que nós, homens negros,  somos os que mais morrem em ações policiais. Agora, eu faço parte dessa estatística, também. Eu não queria morrer agora…tinha tantos sonhos. E tem a minha mãe… 

– Entendo. Mas um número não é capaz de gostar de poesia ou filosofia. Uma estatística não se preocupa com um familiar, mesmo na hora da morte. Um algoritmo não sente paz, ansiedade, medo, tranquilidade ou afeto. Uma pessoa sim… 

– Mas como sentir isso se eles nos matam todos os dias? Por que eles não param de nos matar? – disse Lucas, entre lágrimas. 

– Eu queria ter a resposta para isso. Por isso te disse que o conceito de céu e inferno era tão complexo. Ao meu ver, o que vocês definem como inferno é algo ruim. Mas, quando alguém persegue e mata outro alguém sem motivos,me parece também uma amostra grátis de algo ruim. Talvez, seja o que vocês chamam de inferno. Mas, se há algo que sei sobre certos povos, é que, independentemente do resultado, eles seguem lutando por um futuro melhor (ou menos “infernal”). Enfim, acho que tem alguém que pode te responder melhor essas questões. 

– Quem? 

O homem levantou, esticou a mão e disse: 

– Vou pedir para você segurar a minha mão de novo. Dessa vez, eu vou te levar em um lugar que me traz paz. 

Lucas enxugou as lágrimas que persistiam em rolar do rosto. Olhou para o homem, ainda um pouco resiliente. Mesmo assim, segurou as mãos dele. 

Lucas abriu os olhos. Olhou para frente e viu o mar. Uma brisa leve tocou seu rosto, como se fosse um afago. Tudo parecia calmo. Olhou para o horizonte e viu que alguém se aproximava em sua direção. À medida que a silhueta tomava forma, ficou perceptível que era uma mulher negra, vestindo uma roupa branca com detalhes em roxo. Seu caminhar era leve, porém ágil. O cabelo também chamava atenção: era cacheado e brincava com o vento. 

– Você deve ser o Lucas, né? Tudo bem? 

– Sou sim! A senhora quem é? 

– Bem…de onde você veio, eu tenho vários nomes, representações e desenhos. Alguns eu acho levemente pitorescos. Mas você deve me conhecer como Deus. 

– Pera… Deus é uma mulher preta? 

– Legal, né? Eu amo a cara que fazem quando descobrem isso. Mas eu te conto mais sobre isso no caminho. Vamos andar um pouquinho? Creio que você deve ter algumas perguntas… 

Fim 


Will Marinho é comunicólogo com experiências híbridas que vão desde as redações jornalísticas de veículos como CNN Brasil, Jovem Pan e Casa Vogue, até projetos em empresas como Movidaria Aprendizagem Corporativa, o banco digital will Bank e a agência de earned media SOKO. Um eterno apaixonado por criatividade e pela beleza que as palavras podem criar. 


Clique na imagem para mais informações.

Beto Martins | Café Libertas | Atena Bookstore

Clique na imagem e acesse nossa loja virtual.


Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!

Agora você pode divulgar seus produtos, marca e eventos na Trama em todas as publicações!

No plano de parceira Tramando, você escolhe entre 01 e 04 edições para ficar em destaque na nossa plataforma, ou seja, todas as publicações das edições publicadas vão trazer a sua marca em destaque nesse espaço aqui, logo após cada texto e exposição . Os valores variam de R$25,00 a R$80,00.

Para comprar o seu espaço aqui na Trama é só entrar em contato através do whatsapp: (32) 98452-9330, ou via direct na nossa página do Instagram.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *