A máquina

Posso dizer que antes da Máquina as coisas não andavam muito bem. Promessas enfáticas na TV de minuto em minuto nos traziam esperança. Qualquer cidadão de bem da Vila livre só pensava nisso, sonhávamos com o momento da chegada da Máquina. Era fácil crer que tudo iria melhorar.  

Infelizmente não falo por todos os moradores, sempre tem os baderneiros, são do contra e acham que tudo que é novo vem para o mal. Não nego que houve felicidade geral quando eles foram colocados nos eixos dias antes da Máquina chegar. Eram expostos no jornal da Vila, presos e até apanhavam na praça. Todos deviam concordar, quem está contra a ordem está contra o crescimento e o futuro. Deus estava de olho em tudo, certamente iriam ao inferno. 

        No dia da chegada da Máquina todos os cidadãos de bem da Vila livre estavam na praça principal, exceto as mulheres, essas não contavam, não é que atrapalhassem, mas também não ajudavam por não entenderem muito de assunto algum. Aqui no vilarejo elas se resumiam a trabalhos domésticos, a maior ascensão que poderiam ter era cuidar da casa dos grandes chefes ou olhar seus filhos, que com a benção divina seriam os futuros chefes da próxima geração.  

Foram estourados foguetes. Houve passos coreografados por alguns grupos mais empenhados, foi um dia lindo. O céu estava bem azul e o clima estava agradável. Contagem regressiva, risos largos, olhos brilhantes. 

E lá estava, a Máquina. 

            Chegando lentamente. 

Um barulho estrondoso, quase como um avião nos céus.  

A máquina era certamente coisa de Deus. Também vinha dos céus. 

Fiquei anestesiado com aquela imensidão. Sempre ouvi falar de coisas maravilhosas do mundo, mas nunca havia saído de Vila livre, a burocracia sempre era grande e poucos conseguiam sair, só os grandes chefes tinham passagem aberta. Concordo, eles mereciam pelo total empenho que demonstravam na organização da nossa Vila. 

Todos com as cabeças voltadas para o alto e aquela máquina imensa sobrevoando em chegada, cobrindo o azul, sua sombra escureceu um pouco o grande vilarejo. Parou no ar, alta, fixa e imponente como uma nave mãe. Ali se estabeleceria pelos dias seguintes. Talvez por toda vida. 

Seis da manhã a máquina alarmava. Todos de Vila livre acordavam e começavam a sua contribuição para o bem comum. Não era só nosso “ganha pão”, cada um fazia o que lhe era designado com fervor, porque só assim a Vila livre iria crescer. Só parávamos às dez da noite, depois casa e cama. Uma vez no mês era permitido até nos divertirmos, não que passar o dia empenhado no trabalho regido pela Máquina não fosse empolgante, era sim. Acredito que todos do vilarejo também concordavam. Mas digo, uma diversão regada a álcool, jogos de TV e até mulheres. Não as mulheres de casa, mas as selecionadas pelos grandes chefes. Só essas tinham direito de sair à rua à noite e beber com homens sem serem expostas no jornal da vila no dia seguinte. 

Nem sei como posso descrever o que mudou com a máquina. É algo como uma sensação que vem de dentro e nos move, nos engrandece e toma conta de tudo, ela está ali tão distante, entretanto a enxergo como uma representante de mim mesmo e de toda a minha vida. Devemos graças aos nossos grandes chefes que conseguiram com tamanha inteligência nos fazer servir a Máquina. Que bom que eles recebem tudo do melhor, tem acesso a coisas que nem imaginamos, eles merecem tudo o que nosso trabalho lhes possa proporcionar. 

Com o passar dos anos vimos que não somente nós precisávamos da Máquina, ela também precisava de cada um de nós. Nosso trabalho árduo e incansável a fez crescer de tal modo que já cobria toda a Vila Livre. Cada vez se exigia mais dos moradores e tínhamos força e vontade para isso.  

Em um dos poucos dias no ano em que passeava no parque de crianças da vila com o meu garoto, o vi parado admirando a imensidão da Máquina. Minha felicidade em sentir a continuação de um grande projeto naqueles pequenos olhos era inexorável. Esbocei um riso orgulhoso e então ele se voltou para mim com uma fala: 

– Papai, sinto saudades de quando podíamos ver o céu de verdade. 

Que ironia, crianças são assim, inesperadas e tolas. Nunca entenderiam que o céu de verdade ofusca a nossa visão. Quando garoto, eu já quis tocar o céu. 


Fernanda Paz é natural de Teresina, Piauí. Escritora, Artista Visual e Professora Especialista em Educação Infantil; Atuou em curtas-metragens e montagens teatrais; Produtora na empresa FragmentadoLab. Publicações: O Buraco e Outras Histórias (Editora Multifoco),  Antologia Transcultural de Poesia Feminina (Org. Marleide Lins), Blasfêmeas: Elas Entre Poemas e Prosas (Org. Francisco Carlos Pontes), Olhos de vidro (Editora Quimera), Bloco de notas (Editora Área de Criação).

Um comentário

  1. Fernanda trás ideias de uma estradas tantas vezes percorridas , nos leva paisagens dentro das máquinas sociais que me levam a essa criança que quis tocar o céu.

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