Folia Revolucionária

o segundo da  série de três textos sobre parte do movimento da cultura popular até a relação da produção vernacular brasileira.

A resistência é o gingado dos foliões do Brasil.

O nordeste ensina a resistência ao Brasil, a ginga desse povo brasileiro que escapa até hoje das ondas de controle malignos das massas. Vide os números da última eleição, em que Bolsonaro perde no nordeste com 30% dos votos, igualmente em Pernambuco, o Leão do Norte, um povo com valorosa coragem e rica cultura.

A cultura popular brasileira, por diversas  vezes, se inclinou a “driblar” ordens, leis para sobreviver. Sempre à margem do cerco do poder, movimentos como a capoeira respiravam em outras manifestações populares, como as marchas em Pernambuco que, mais tarde, graças a essa mistura, se tornou o Frevo. Houve, por exemplo, antes do carnaval que conhecemos atualmente, outras manifestações populares que precisam ser “reeducadas” para atender ao formato da desejada sociedade padrão.

Frevo é como o “xeque” em que o rei escapa, mas que ali segue o povo ciente que seus movimentos ameaçam reis, imperadores e presidentes.

Antes de ficar famoso, o frevo se manifestava como um momento de extrema preocupação dos militares aquartelados. Liderando os blocos das marchas, os capoeiras dançavam com suas navalhas nos calcanhares próximos aos batalhões, atordoando e muitas vezes ferindo os militares:

“tudo no frevo nasceu assim, de segundas intenções, de necessidade de burlar a vigilância policial, e dar expansão a sentimentos nacionalistas exacerbados, em fase explosiva, numa época onde tudo era, por igual, de lutas as mais cruentas, de batalhas as mais dramáticas, de resistência as mais heróicas, contra o jugo português”.
– DUARTE, Ruy (1968)

Jean-Baptiste Debret, 1826

O nome Frevo apareceu pela primeira vez no jornal em 1905, made in Brazil do jeito que tinha que ser: misturado, fervoroso e agitado. Esse fenômeno sinaliza que, para qualquer lugar do nordeste que olharmos, encontraremos uma escola de resistência exclusiva de um povo que deu trabalho para as forças de gentrificação e higienização cultural do país. Uma liberdade que era aparentemente programada e, na prática, controlada, pois houve sempre a mão invisível controlando o país seja pelo imperador importado ou pelas famílias herdeiras do país. Percebemos os vetores de opressão à cultura popular na proibição do samba, capoeira, ou na censura de desfiles, Uma questão importante se origina desse fato:

Percebemos os vetores de opressão à cultura popular na proibição do samba, capoeira, ou na censura de desfiles, mas sabemos ver hoje o tratamento que as comunidades que guardam sua cultura como referência recebem no cotidiano atual?

Pierre Verger, 1947.

O brasileiro encontrou na folia um jeito de mostrar o volume de sua voz, a unidade de sua massa. No Brasil, antes do Carnaval ser comemorado como é hoje, era uma festa que correspondia o Entrudo. Em meados do século XIX, o governo proibiu a brincadeira que servia de base para o Entrudo, as Limas de Cheiro, um costume português trazido para o Brasil.  Consistia em jogar ovos feitos de cera com água de cheiro nas pessoas. Com o tempo, as águas de cheiro foram substituídas por ácido nítrico dissolvido em água, implantando-se assim o caos e a necessidade do governo controlar tal costume. O governo marginalizou a festa, criou leis e penalidades e assim foi substituído o jeito de fazer a folia pelo princípio que é o carnaval que vemos hoje. Mas o que se ouve é que Pernambuco não se moldou ao jeito de fazer Carnaval que o imperador desejava.

‘Entrudo – Rua do Ouvidor’ – Angelo Agostini, 1884

A cultura popular acompanha uma linha marginal de valiosas qualidades, guarda consigo  diversos gestos de imaturidade comportamental. Isso é exemplificado pelas violentas brigas e graves danos causados pelas pseudo guerrilhas que marcaram os Entrudos, em seguida o Frevo pelo Carnaval e até brigas de torcidas. Movimentos de agitadores que se perdem na causa e efeito de sua violência, não se sabe se luta para resistir ou resiste por lutar, presente em uma sociedade, carregada de motivos coletivos ou individuais para sua revolta.

‘Frevo’ – Cândido Portinari, 1958

O pernambucano, novamente, tem uma história de revoltas e resistência que absurdamente é disfarçada pelas grades curriculares obrigatórias que são formuladas pelo Brasil. Não se fala dessa coragem, desse espírito de revolução que o pernambucano precisou ter em sua história. Talvez lamentemos no futuro não aprender e ser honesto com a história que se conta nas escolas. Revolução Praieira (1848) tempo depois da Confederação do Equador (1823), um desdobramento da Revolução Pernambucana (1817).

‘Execução de Frei Caneca’ (detalhe) – Murillo de La Greca, 1924

As intercessões entre a cultura popular e a realidade social geram momentos na sociedade que a arte pode apontar o dinamismo do grupo em questão. Por exemplo: são tantos os gestos opressivos do estado brasileiro ao longo da história que os movimentos culturais populares cresceram à margem da cultura dominante.

“paz, calma, divertimento, é a sugestão da Escola de Samba;
luta, guerra, briga é a sugestão do frevo…
…E tudo está certo:  o samba foi feito para divertir e o frevo para ferir.”
DUARTE, Ruy (1968)

A capoeira, o samba, o funk, o pixo, os terreiros, resistem em suas áreas pelas beiradas, driblando, fugazes resistindo ao gosto da família de bem.

Augustus Earle

O Brasil, de tanto ter que fazer do seu jeito, tem resistência e autonomia marcados na identidade de sua cultura popular. A construção de uma história em que o povo é o protagonista das mais eufóricas alegorias da liberdade: o momento da folia do carnavalesco, a fé no terreiro que resiste aos ataques desde sempre, ao olhar da família que junto desenha, cria e reforma sua morada sem conhecer engenheiro ou lição de cálculo. O brasileiro que comunicou a economia, a poesia e a transformação por meio de suas letras deixou a marca do brasileiro, um país vernacular.

Aprender com o vernacular, pra mim, tem sido aprender sobre o frevo de Capiba, Nelson Ferreira e Ruy Duarte, sem deixar de buscar na arquitetura das palafitas, ou no artesanato do couro pelas lentes de Thomaz Farkas, as qualidades da inteligência de projeto e produção de um meio singular de sobrevivência. Os letristas que durante décadas preservam uma cultura de comunicação, sinalização e por que não de marketing dos comércios urbanos; mostram a forma que o brasileiro encontrou de construir seu caminho com seu próprio saber.

Bibliografia de apoio

Duarte, Ruy (1968). História Social do Frevo. Rio de Janeiro: Leitura

http://atarde.uol.com.br/cinema/noticias/1893252-em-nome-da-america-traz-reflexao-geopolitica-para-cachoeira

https://www.unicamp.br/unicamp/ju/artigos/reginaldo-correa-de-moraes/um-livro-um-filme-um-mundo-em-comum


Iury Borel é mineiro com formação acadêmica que coexistiu o erudito e marginal, formou-se ativista gráfico pela Universidade Federal do Espírito Santo. Propulsor e criador de ideias como CinePixo, Oficinas de Tobograffiti e Artefatos da Arte de Rua, que propõem uma visão empírica para mostrar as entrelinhas da arte urbana. Descriminalize a arte.


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