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	<title>Arquivos Ano 002, N 031 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>O Oscar e seu tempo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Feb 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Democracia em vertigem]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A premiação do Oscar em 2019 foi repleta de filmes de conteúdo, grosso modo, antissistêmicos, desde o popular Coringa até o azarão Parasitas, passando pelos documentários American Story, o vencedor da categoria, e Democracia em Vertigem, representante brasileiro na edição. Interessante notar o quanto o famoso evento norte-americano, que muitas vezes prima pelo alinhamento ideológico do momento nos Estados Unidos e tem lá seus pules de dez (os sempre franco favoritos filmes de holocausto, monarquia inglesa, cinebiografias de personalidade, dentre outros), dessa vez embrenhou-se na crítica à sociedade capitalista, em suas mais diversas variações.</p>



<p>Ocorre que o campo das artes, ainda que os mais conservadores segmentos voltados simplesmente ao entretenimento do público, oscila em seu humor conforme o tempo, em decorrência de reações e interações que denotam um dado “espírito do tempo”. Hoje, diante de um capitalismo claudicante que produz, em suas bases majoritária, mais exploradas e menos esclarecidas, excrecências políticas como Donald Trump e Jair Bolsonaro, não há caminho no meio artístico que não conduza a uma crítica às aberrações que o capitalismo produziu para sobreviver.</p>



<p>Vale lembrar que dois fatos históricos, um distante, relativamente a outro mais recente, retratam o quando o atual momento político internacional é desdobramento de uma crise no capital. Nos anos 1930, tempos de depressão econômica tanto nos Estados Unidos do pós-crise de 1929 quanto na Europa do pós-guerra de 1914-1918, a ascensão de regimes autoritários na Europa (ainda, à época, o centro do capitalismo neocolonial nascido no século XIX), mais notadamente na Alemanha e na Itália.&nbsp;</p>



<p>Por sua vez, antes justamente dessa nova ascensão acrítica ultraconservadora que ameaça o mundo social e ambientalmente, o capitalismo vinha de uma crise bancária e imobiliária que levou Estados europeus à bancarrota, um banco norte-americano à falência e o Governo norte-americano a um novo vexame como o da derrota no Vietnã, nos anos 1970, desta vez deixando a contragosto a chamada Guerra ao Terror (em outras palavras, ocupações coloniais no Iraque e o Afeganistão visando ao controle do petróleo no Oriente Médio). Em suma, nova derrota. Poucos anos depois, o monumento anticapitalista Ocupe Wall Street assombrou o grande capital.</p>



<p>Por isso, a solução novamente encontrada pela burguesia foi o ataque ideológico simplificador, com apelo à ordem e identificação de um inimigo em comum, tal qual ocorrera 70 anos antes na Europa. Estados Unidos, a principal potência mundial, e Brasil, o mais frágil dos emergentes em termos de poderio militar e segurança informacional, foram os alvos encontrados. Um, necessário, os Estados Unidos. Outro, de ocasião, o Brasil e sua classe média ressentida com a ascensão social dos mais pobres e os avanços identitários em benefícios das minorias.</p>



<p>Tendo isso em vista, há de se lembrar do pensamento do filósofo Martin Heidegger (ironicamente, adepto do nazismo, o que nunca penetrou sua produção intelectual) sobre Ser e Tempo, nome de sua obra magna. Nesta, Heidegger defende que o ente só existe quanto ser. Trocando em miúdos, nós só existimos na medida em que nos sentimos presentes, em parte por meio do logos exaltado por Descartes, em parte via experiência ante os fenômenos. Ou seja, o que há é o “ser no mundo”, aquele que ocupa e “é” na medida de sua experiência e referência no espaço, interagindo com outros entes que também “são”; e “ser no tempo”, na medida em que este “ser” identifica-se junto (em conformidade ou contra, não importa) ao espírito do tempo, ou “zeitgeist”, termo original do alemão (o conjunto coletivo de pensamentos e paradigmas hegemônicos numa sociedade, num dado tempo), em que “é”.</p>



<p>Esse processo, de construção da identidade por meio do sentido produzido pela angústia humana em um dado espaço e tempo, Heidegger nomeia “ser-aí”, ou “dasein”. Em sendo assim, é natural que o “ser aí” das artes e de seus trabalhadores num tempo de negação à subjetividade e reflexão, seja defensivo, convergindo todos os artistas para um “dasein” que manifeste a contestação a este “zeitgeist”.&nbsp;</p>



<p>Todos os caminhos conduzem a Roma, no campo da intelectualidade e das artes, numa queda-de-braço hoje desigual nos campos político e simbólico.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong></strong></strong></strong> </strong></strong></strong>é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



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<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg20-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6951" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Convenção das Mimizentas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[corpo]]></category>
		<category><![CDATA[menina]]></category>
		<category><![CDATA[mimimi]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
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		<category><![CDATA[rosa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Alícia Vito</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Quando saí da maternidade, fui enrolada em uma mantinha felpuda rosa. Era confortável mas ninguém me disse que a partir daquele momento aquela deveria ser minha cor favorita, porque remete à delicadeza e é como preciso ser, afinal de contas, sou menina.</p>



<p>Como toda criança, parte bem importante do meu desenvolvimento era brincar. E como eu tinha energia para gastar e curiosidade para explorar o mundo! Mas meus brinquedos eram quase sempre panelinhas, bonecas e mamadeiras e me diziam que essa era a forma apropriada de me divertir, pois sou menina.</p>



<p>Minha percepção sobre minha própria sexualidade não veio como um incentivo a vivê-la em plenitude e sim como algo que eu deveria reprimir e me preocupar porque isso certamente define meu valor como pessoa/mulher.</p>



<p>Toda a minha parte emocional foi altamente estimulada, o que foi imprescindível para que eu aprendendesse a sintetizar meus próprios sentimentos, mas ninguém me disse que eu seria julgada por expressá-los e explicitamente desautorizada a tomar decisões técnicas e racionais, porque todos sabem, sou louca, sou mulher.</p>



<p>Meu corpo sofreu diversas alterações ao longo da vida, muitas das quais refletindo o meu próprio estado interior. Lidei com desequilíbrios hormonais, perdi e ganhei peso, ganhei marcas e cicatrizes e por vários momentos o único cuidado ao qual me reservei foi existir. Mas ninguém aprovou e me aceitou por isso, porque eu tinha padrões impostos pela mídia de uma perfeição neurótica a qual deveria perseguir, afinal, sou mulher.</p>



<p>Estudei, me capacitei, venci desafios acadêmicos e aguentei pressões para ascender social e profissionalmente na vida, para me garantir a pequena satisfação dos bens materiais. E administro com responsabilidade e maestria minha vida financeira, garantindo assim meu sustento e independência. Porém sou tida como um fracasso, uma vez que não constituí uma família e nem tenho um homem ao meu lado, porque isso é que se espera de uma mulher.</p>



<p>Sou cobrada injustamente pelo dever de exercer a maternidade, pelos meus relacionamentos, pelo meu comportamento, pela minha liberdade, pela minha voz ecoando firme no ambiente, pela minha segurança. E quase sempre preciso reinvindicar o meu direito ser humana. Mas não pensem que vou ser vítima e me calar, afinal sou mulher, mas não sou frágil e nem a única.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong>Alícia Vito </strong></strong></strong>Capricorniana, meio adulta e preocupada com as causas sociais. Ama os animais, a escrita e cheirinho de incenso. Seu principal passatempo é fazer os amigos rirem e descobrir novos becos na cidade.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Máscara</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[máscara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabriel Garcia</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<pre class="wp-block-verse">Adereço de carnaval
Vivência social
Dependência mortal
&nbsp;
Variedade na cor
Esconde a dor
Insinua o terror
&nbsp;
Aparência é tudo
Jamais desnudo
&nbsp;
Ator na encenação
Ninja em missão
Mulher no salão
&nbsp;
Palhaço pinta o rosto
Homem sobe de posto
Cínico sorri com gosto
&nbsp;
Jamais desnudo
Aparência é tudo
</pre>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong> <strong>Gabriel Lopes Garcia</strong></strong> </strong></strong></strong>é poeta. Atua como professor de Física nas horas vagas.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg24-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6954" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>16. Siga o raciocínio</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[Em Tempos de Estricnina]]></category>
		<category><![CDATA[filho]]></category>
		<category><![CDATA[pai]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Darlan Lula</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Quando já havia imobilizado o gatuno, pegou a faca de açougue número 15, amolada há algumas horas, cabo branco, e foi penetrando levemente no corpo do rapaz, já ensanguentado pelas porradas que levou. Aquela perfurante lâmina começou a penetrar levemente na carne do infeliz, e ia diminuindo e cortando parte do esterno do garoto! Ele agonizava e começava a cuspir sangue em golfadas.</p>



<p>Virou-se para o filho e disse: “Está vendo, filho, como resolvemos as coisas por aqui? Está vendo? Aprenda!!! Porque a vida é assim, não perdoa. E você tem que ser maior que ela. Assuma o cabo”. Deu a faca com o cabo branco, já vermelho do sangue do rapaz, e continuou sua explanação: “Vê esse cabo branco? Tornou-se vermelho na medida em que esse filho da puta quis entrar no nosso quintal e roubar as nossas coisas!!!!! É assim a vida! Eu construí esse muro alto aqui neste bairro justamente porque eu não quero nenhum enxerido pulando a porra do meu muro!!!!!”</p>



<p>E o pai falava isso pro seu filho em tom baixo, voz cadenciada, como um pai ensina ao filho a oração do dia a dia. Falava baixo porque principalmente detestava fazer barulhos que incomodavam o vizinho. Por isso era limpo, preciso, cirúrgico.</p>



<p>O filho olhava para o pai extasiado e estático, como se recebesse os ensinamentos de um colega de escola. Ele gostava daquilo tudo. Até porque cresceu com o temperamento paterno. E criar aquele momento com o pai foi a melhor conquista dele desde criança. Agora, com 13 anos, podia perceber que não se muda a vida. Você a muda. Como quando ele faz com que aquele rapaz pule o muro, feito uma isca, só para ver o seu pai em ação, como um bicho solto na savana, sol a pino, cruzando todos os caminhos que te levam ao precipício. Mas qual? O das nossas próprias almas interiores.</p>



<p>E a vida se forja em pai&#8230; filho&#8230; e espírito santo!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong>Darlan Lula</strong> </strong></strong></strong>é doutor em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense. Escritor, autor de cinco livros, entre prosa e poesia.&nbsp;<a href="http://www.darlanlula.com.br/">www.darlanlula.com.br</a></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/908fe-fotos-carol.jpg21.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6961" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/02/09/siga-o-raciocinio/">16. Siga o raciocínio</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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		<title>O Ataque à Cultura segue a passos largos</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
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		<category><![CDATA[arte contemporânea]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Frederico Lopes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Frederico Lopes</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/02/09/o-ataque-a-cultura-segue-a-passos-largos/">O Ataque à Cultura segue a passos largos</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Essa semana tivemos a notícia de que o Secretário de Educação de Rondônia fez um pedido oficial para as escolas da rede pública recolherem livros que constavam em uma misteriosa lista. Naturalmente, entre eles estavam obras &#8220;perigosas para crianças e adolescentes&#8221;, de autores como Caio Fernando Abreu, Machado de Assis, Ferreira Gullar,  Rubem Fonseca, entre vários outros. <strong>Isso só me faz pensar que o ataque </strong>à<strong> cultura segue a passos largos. E não podemos ficar calados.</strong></p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Talvez essa seja a parte da história do Brasil onde o alcance dos ideias democráticos estejam sendo mais tencionados do que nunca. Na realidade, precisamos lembrar que a ruptura com a democracia é uma velha conhecida dos brasileiros.</p>



<p>Sabemos que esses acontecimentos são patrocinados por uma vasta rede de intolerância e opressão que tem, neste específico fato, um forte viés religioso, na realidade, <strong>a maioria dos atos contra a cultura e sua diversidade ultimamente partem de ideologias radicalizadas de cunho religioso.</strong></p>



<h3 class="wp-block-heading">Não é um caso isolado!</h3>



<p>Como já citei em um texto aqui nessa mesma revista, existe uma necessidade de invisibilizar as heranças culturais de interlocutores que não compartilham da mesma crença religiosa dos que ocupam o poder neste momento no Brasil. </p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Nesse sentido, podemos perceber que isso acontece porque a cultura e as tradições culturais fazem parte do repertório que constitui nossas noções de identidade. Logo, ataques que seguem exterminando a diversidade cultural, ficam mais intensos, permitindo a imposição dos costumes de determinada tradição religiosa para as grandes massas.</p>



<p>Esse tipo de acontecimento só corrobora com a afirmação de que nós, trabalhadores da cultura, estamos sob ataque. Somos o alvo de um projeto de extermínio cultural qualificado, <strong>padronização de modos de pensar e sucateamento da sensibilidade e do senso crítico.</strong></p>



<p>Por outro lado, pelo menos agora temos nosso próprio <strong><em>Index Librorum Prohibitorum</em> </strong>tupiniquim, ou seja, estamos armados, prontos para acessar a Estante Virtual e esgotar os estoques subversivos das pequenas livrarias e sebos do Brasil. Inclusive, segue a lista com os livros e a ordem expedida.</p>



<div class="wp-block-file"><a href="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f71de-5e3dae4d8d3d7.pdf"><strong>Lista de livros + Memorando-circular Secretaria de Educação do Estado de Rondônia.</strong></a><a href="https://tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/f71de-5e3dae4d8d3d7.pdf" class="wp-block-file__button" download>Baixar</a></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong>Frederico Lopes</strong> </strong></strong></strong>é Artista, educador, encadernador e escritor. Trabalha no Memorial da República Presidente Itamar Franco e é fundador da Bodoque Artes e ofícios.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1addf-fotos-carol.jpg26.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6963" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie manifestações artísticas de rua. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Por que voltamos a ser afetados?</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[China]]></category>
		<category><![CDATA[Coronavírus]]></category>
		<category><![CDATA[doença]]></category>
		<category><![CDATA[economia mundial]]></category>
		<category><![CDATA[vírus]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Hélio Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">Aqueles um pouco mais velhos, recém passados dos trinta ou com um pouco mais, hão de lembrar de quando o Brasil quebrou duas vezes, nos anos 1990, primeiro em consequência da crise nos países emergentes asiáticos, como Coréia do Sul e nas áreas chinesas de economia capitalista, Taiwan, Macau e Hong Kong, e uma segunda quando a Argentina veio à sua pior bancarrota após a dolarização da economia. Na ocasião, por duas vezes o país teve que recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e multiplicou sua já alta dívida externa, que só veio a ser paga em 2006 pelo ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT, 2003-2010).</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pois agora, depois de anos superando com suavidade as crises econômicas decorrentes de problemas nos países desenvolvidos ou vizinhos, o Brasil volta a sofrer com a conjuntura internacional, dessa vez com o coronavírus que já adoeceu mais de 30 mil pessoas e vitimou fatalmente quase 800. Não tanto pelas vidas perdidas, que não importam muito no capitalismo, mas mais pelo temor pela desaceleração da economia chinesa devido aos esforços estatais e privados pela contenção da disseminação do vírus, os mercados vêm abaixo há três semanas e inevitavelmente vão afetar a expectativa de crescimento do Brasil, que já estava relativamente baixa, em 2,5%.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vale lembrar que esses 2,5% previstos por Governo e analistas, geralmente, não passam de iscas do mercado para o consumidor e os investidores mais modestos, ao lançarem um número mais alto que, ao longo do ano, vai se deteriorando com as intempéries da economia. Tudo afeta a economia, desde o prefeito eleito de uma grande cidade (e suas expectativas de privatização, por exemplo, que atraem mercados privados sedentos de novos negócios), até uma doença que se espalha num dos países dos quais o Brasil é maior exportador e importador. </p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Para onde vão a soja e os minérios brasileiros se os chineses estiverem investindo em pesquisa e remédios? Eis aí a questão, que é acompanhada de outras como de onde o Brasil vai tirar os seus microchips para montagem de peças e assessórios de informática.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acontece que, se há muitos anos não vivíamos tão fortemente o impacto da economia internacional, por que estamos passando por isso agora? A resposta está na desindustrialização e no resfriamento do mercado interno, graças a incontáveis medidas adotadas desde o Governo Michel Temer (MDB, 2016-2018) que reatrelaram o Brasil de forma pouquíssimo soberana ao mercado internacional (privatizações, fragilização das leis do trabalho, etc). Sem produção e consumo internos, o país perde a sua principal âncora econômica, que o ajudou a passar por uma turbulência mais grave, por exemplo, em 2008.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;A própria China está enfrentando a doença com canalização de esforços estatais e de sua indústria privada interna para construção de estruturas públicas (um hospital foi erguido em questão de dias) e recrutamento de profissionais e insumos de saúde com suporte do dinheiro do Estado. Ou seja, a segunda economia mundial só vai sobreviver graças à sua produção e mercado internos, e ainda pode salvar a economia dos países do terceiro mundo que lhe são dependentes, caso passe por esse problema rapidamente.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não restam dúvidas de que, caso ocorresse no Brasil a epidemia do coronavirus, em tempos inclusive de esvaziamento do Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil ficaria de pires na mão à mercê de ajudas internacionais. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) provavelmente soltaria sua pirotecnia a respeito de uma ajuda qualquer de Israel, mas na verdade sofreríamos porque estaríamos privados da ajuda de Cuba.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Hélio de Mendonça Rocha</strong></strong></strong></strong> </strong></strong></strong>é jornalista. Atua como repórter de meio ambiente e direitos sociais para a revista Plurale e como analista político para os jornais Brasil 247 e El Siglo de Chile. Foi correspondente internacional na China em 2019.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg20-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6951" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Tudo soft, tudo sofre</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[conforto]]></category>
		<category><![CDATA[espaço]]></category>
		<category><![CDATA[otimização]]></category>
		<category><![CDATA[sofre]]></category>
		<category><![CDATA[soft]]></category>
		<category><![CDATA[tecnologia]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Kariston França</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Bang! Um belo tiro no pé, isso é o que fazemos ao nos rendermos a sofisticação do nosso espaço seguro.</p>



<p>&nbsp;&nbsp; A vida sofisticada não é vida, é artificial, é uma&nbsp; &#8220;inteligência artificial&#8221;.</p>



<p>Na sede pelo conforto e pela otimização do tempo, aceitamos nos entulhar de &#8220;enlatados&#8221; como diria Renato Russo; somos engolidos pela necessidade de se ter um &#8220;canivete suíço&#8221; pra cada cômodo da casa.</p>



<p>Otimizar o tempo e o espaço em nossa rotina é um atestado de que nossa capacidade criativa e contemplativa se limita ao que nos é empurrado pelos olhos abaixo.</p>



<p>Um exemplo:</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8211; No shopping da sua cidade, quando ele foi inaugurado (se vc era vivo e se lembra dessa época) os espaços de convivência eram maiores. Você podia andar pelas &#8220;passarelas&#8221; olhar as vitrines e não tropeçar em ilhas de consumo.</p>



<p>Sua alimentação se resumia a praça que aglomerava todos os serviços de fast food possíveis, as mesas e cadeiras eram móveis proporcionando que os relacionamentos se desenvolvem mais e mais.</p>



<p>Hoje é diferente, sentam duas a quatro pessoas nas mesas e os hiatos já se formam, rompendo a ligação do indivíduo. Vc não precisa mais comer na praça porque o espaço de passagem também foi vendido pra alguma lanchonete ou um café que compraram o direito de usar a passarela das cadeiras que ligavam as vitrines da esquerda com as vitrines da direita. &#8211;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Somos então como o rebanho indo ao abatedouro.</p>



<p>Vamos cegos e contentes pois estamos indo em grupos grandes que cabem em nossos bolsos.</p>



<p>O modelo como a cidade se desenvolve é o mesmo do shopping, eles nos engolem, nos comprimem até que sigamos para o abate sem a consciência de que estamos indo para a morte certa.</p>



<p>Anestesiados com o grupo de amigos na &#8220;tela preta&#8221; e no entanto frustrados porque no mundo colorido e conectado, os únicos cheiros que nos permeiam, são os de perfumes, roupas e fastfood a ser consumindo, sozinhos em uma cadeira com espaço para mais três.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos tornamos a geração dos &#8220;lobos solitários&#8221;.</p>



<p>Caminhamos em direção ao desconhecido (?), Seguros em nossos gadjets, nossa própria força e segurança, e fazemos questão de mostrar isso nas telas e nas vitrines. Mas no fundo, não temos vontades, desejos, sonhos, apenas seguimos o caminho até nosso abatedouro diário onde perdemos o resto de humanide que ainda resiste em algum canto de nossa mente e coração.</p>



<p><strong>Kariston França<strong><strong> </strong></strong></strong>é apaixonado por pizza, e nas horas vagas atua como entusiasta da teologia pública.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg12-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6947" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Minas é terra amolecida sobre o leito do planeta</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[alma]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
		<category><![CDATA[lama]]></category>
		<category><![CDATA[Minas]]></category>
		<category><![CDATA[planeta]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Pedro Carcereri</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Já foi de ferro. O subsolo, o interior das pessoas, a alma dos incautos. Mas foi&nbsp; tomado, subtraído pela fleumática obsessão do homem sem futuro, sem alma, sem brilho nos olhos.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">[o capitalismo estagnou nossa capacidade de enxergar além da superfície.]</p>



<p>Enfadados na lama, nós mineiros enterramos de vez nossa convicção de que o estado exploratório pode trazer algum benefício social. Em séculos de trabalho forçado, por vezes disfarçado em benefícios imediatos, isso nunca aconteceu &#8211; <em>e nunca foi realmente prometido</em>. Não que tenha sido diferente em outros pontos do Brasil, da América Latina ou das nações da periferia do capitalismo. Mas aqui as coisas estão <em>desmoronando</em>.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">As montanhas foram embora e voltaram como televisores e computadores e passamos a ver nosso presente em versões quadradas e encenadas de nós mesmos. As falsas montanhas que foram colocadas no lugar desmoronam em lama tóxica que mata gente, mata bicho, mata rio, mata futuro. As tempestades amenizadas em eufêmicos termos científicos escondem brutais ciclones que vão fazer parte da rotina nos próximos anos. Não há mais avisos, apenas consequências.</p>



<p>Nossa alma, que é bruta, de ferro, de minério, de poder, ulula sábias canções dos antepassados para confortar nosso presente que precede um futuro difícil, catastrófico. Manter a sanidade em um ambiente que amolece sob nossos pés e cai sobre as cabeças parece não fazer diferença na sanha dos dias que correm vorazes engolindo toda a humanidade que nos restou. [a máquina não pode parar.]</p>



<p>E o homem padecerá. Em um arrebatamento ambiental que não se assemelha ao bíblico por ser desigual. Quando o tempo ficar escuro se saberá que a alma de ferro se reconstrói, mas o chão abaixo de nós continuará amolecendo. É preciso pensar outros futuros, sem os eufemismos fantasiosos, os falsos messias e o fascismo disfarçado de novo estágio político. [e como esses <em>desgraçados </em>enganam os ignorantes e dão voz aos canalhas.]</p>



<p>[gosto de imaginar um futuro onde a terra se abre e traga tudo que a destrói. nossos corpos decompostos expõe nosso interior de ferro e como um adubo mineral reconstrói todo o subsolo de nossas montanhas. sem o ser humano, só restaria o território firme que um dia já habitou por aqui.]</p>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<p> <strong><strong>Pedro Carcereri</strong></strong> é escritor, diretor, produtor e curador. Bacharel em Artes e Design e mestre em Artes, Cultura e Linguagens pela UFJF. Autor dos curtas “Modorra”, “Maria Cachoeira” e do romance “Sob o Trópico de Capricórnio”. Curador e crítico de arte, desenvolve exposições e pesquisas em diversas interfaces da arte contemporânea. Faz parte da seleção do Sesc Confluências – MG e é conselheiro de cultura de Juiz de Fora.</p>



<p></p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/a89c8-publi-bodoque2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-4736" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg23-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6953" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>DJONGA, CORRA: UMA BREVE E MUSICAL ANÁLISE HISTÓRICA DA ESCRAVIDÃO NO BRASIL.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:21:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[djonga]]></category>
		<category><![CDATA[escravidão]]></category>
		<category><![CDATA[negros]]></category>
		<category><![CDATA[Rap]]></category>
		<category><![CDATA[renegados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Diogo Tomaz</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;Prof. Me. Diogo Tomaz</em></p>



<p><strong>SÓ PRA COMEÇAR &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;</strong></p>



<p class="has-text-align-right"><em>Pra eles nota seis é muito</em><em><br>Pra nóis nota dez ainda é pouco<br>Pros meus qualquer grana é o mundo<br>Pros deles qualquer grana é troco </em><strong><em></em></strong></p>



<p class="has-drop-cap">Tentar estabelecer artistas ou musicas como definidoras de uma época é sempre algo arriscado. Mas, cedendo a essa pretensão, podemos afirmar que hoje no Brasil o Rap é o gênero mais relevante e crítico &#8211; uma prateleira que foi ocupada durante muito tempo pelo Rock, que tem se mostrado cada vez mais comercial e conservador em suas letras e atitudes (claro, existem alguns sopros de esperança que são exceções) -. Por ser professor, convivo diariamente com alunos e alunas entre 12 e 18 anos e, algo que me chamou a atenção nesse convívio, foi descobrir alguns nomes que até então para mim eram meros desconhecidos musicais. BK, Baco Exu do Blues, Rincon Sapiência, Flora Matos, Drik Barbosa, Djonga&#8230; seus nomes e letras circulavam pelas minhas aulas e redes sociais. Mas eu não tinha ideia de quem eram.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aos poucos o interesse e a curiosidade por aquele som foi surgindo. Comecei pelos clássicos que já conhecia: Rael, Emicida, Criolo, Racionais&#8230; Gostei! As rimas, a batida, as críticas ao racismo, à pobreza, às injustiças e a todo autoritarismo existente me atraiu. Fazia jus ao significada da palavra <em>rap</em>, que nada mais é do que uma sigla para <em>rhythm and poetry – </em>ritmo e poesia. Uma palavra que remonta ao século XIV, referindo-se a algo como “bater” ou “criticar” e que se popularizou entre os negros de algumas cidades dos Estados Unidos.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como todo bom historiador e amante de música, passei a ouvir aqueles novos artistas – pelo menos para mim eram – de forma crítica e atenta. Todos muito bons, mas, o que mais me chamou atenção foi o Djonga. Por isso, tive a ideia de escrever esse texto sobre a excelente música <em>Corra </em>analisando-a de forma histórica.</p>



<p><strong>MAS QUEM É DJONGA?</strong></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se você não conhece e nem ouviu o Djonga, fica a dica: Vai no Youtube! &#8211; ou continua lendo esse texto -. Gustavo Pereira Marques, um mineiro de Belo Horizonte que trancou a faculdade de História da Universidade Federal de Ouro Preto para seguir com o Rap, recebeu esse apelido de um amigo, que fazia trocadilhos com as palavras “djonga” e “bironga”. Na véspera do lançamento do primeiro single, Gustavo ainda não tinha um nome artístico e foi justamente o “djonga de bironga” que lhe veio à cabeça.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Suas músicas são estimulantes, agressivas e conscientizadoras das dificuldades de uma grande parte da sociedade brasileira que foi abandonada pelo poder público. Seus trabalhos colocam o dedo – ou dedos – na(s) ferida(s) que a maioria dos artistas brasileiros preferem fingir que não veem. Seu álbum “Heresia” de 2017 foi considerado um dos melhores do ano pela revista Rolling Stone. “O Menino Que Queria ser Deus” de 2018 foi muito bem recebido pela crítica, e é nesse álbum que se encontra a música central desse texto.</p>



<p><strong>CORRA!</strong></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fazendo referência ao filme de terror “Corra” de 2017, dirigido por Jordan Peele, a sétima música do álbum fala sobre racismo estrutural desde a colonização do Brasil pelos portugueses até os dias atuais. A música possui um pouco mais de quatro minutos e parece ser um diálogo entre um casal negro sobre o racismo e escravidão.</p>



<p><em>“Amor, olha o que fizeram com nosso povo. Amor, esse é o sangue da nossa gente. Amor, olha a revolta do nosso povo. Eu vou, juro que hoje eu vou ser diferente”.</em><em></em></p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A escravidão foi uma prática tão antiga quanto cruel e aplicada de formas diferentes entre os povos que a adotaram. Os árabes adquiriam africanos para negociá-los no Mediterrâneo muito antes dos europeus. “Estima-se que entre 650 e 1600, os árabes escravizaram 4.820.000 escravos” <a href="#_ftn1">[1]</a>. Na Europa, os portugueses foram pioneiros no comércio de escravos africanos através do Oceano Atlântico, brevemente seguido por holandeses, franceses e ingleses. O tráfico negreiro realizado pelos europeus a partir do século XVI uniu interesses de grupos escravistas em três continentes: África, Europa e América. Formava-se assim, um comércio triangular, os navios europeus levavam produtos das colônias e da metrópole para a costa africana, que eram trocados por escravos. Em seguida, esses escravos eram vendidos para os colonos americanos, que os utilizavam em suas lavouras, minas ou outras atividades.</p>



<p>“Éramos milhões, até que vieram vilões / O ataque nosso não bastou / Fui de bastão, eles tinham a pólvora / Vi meu povo se apavorar / E às vezes eu sinto que nada que eu tente fazer vai mudar”.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">            Com o tráfico, milhões de africanos eram arrancados a força de sua terra e transformados em escravos. As estimativas sobre o total de escravos trazidos para o Brasil variam muito, pesquisadores dizem algo por volta de 3 e 5 milhões entre os séculos XVI e XIX, nenhum outro lugar no mundo recebeu tantos escravos quanto o Brasil. </p>



<p>Ao longo de mais de três séculos, navios portugueses ou brasileiros embarcaram escravos em quase 90 portos africanos, fazendo mais de 11,4 mil viagens negreiras. Dessas, 9,2 mil tiveram como destino o Brasil. Para toda a América estima-se entre 10 a 20 milhões de escravos entre os séculos XVI e XIX. Os dados são da <a href="http://www.slavevoyages.org/"><em>The Trans-Atlantic Slave Trade Database</em></a>, um esforço internacional de catalogação de dados sobre o tráfico de escravos &#8211; que inclui, entre outros, a Universidade de Harvard <a href="#_ftn2">[2]</a>.</p>



<p><em>Aquela noite eu te ensinei coisas sobre o amor / Durante o dia eu só tinha vivido o ódio</em><em></em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As viagens que traziam os africanos escravizados ao Brasil eram longas e exaustivas: “do continente africano até a Bahia levavam cerca de 40 dias no mar; até o Rio de Janeiro, cerca de dois meses” <a href="#_ftn3">[3]</a>. Devido às péssimas condições do transporte e os maus-tratos, calcula-se que entre 5 e 25% dos escravizados morriam durante a viagem. Por isso, os navios foram apelidados de tumbeiros, uma referência a tumba ou túmulos.</p>



<p><em>Querem que eu me contente com nada</em><em> / Sem meu povo tudo não existiria / Eu disse: Óh como cê chega na minha terra / Ele responde: Quem disse que a terra é sua?</em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aos que sobreviviam, mais uma difícil jornada, reconstruir suas vidas em um novo continente. Muito entravam em uma profunda depressão associada à violência da escravidão e à saudade de sua terra natal. Esse estado psicológico ficou conhecido como <em>banzo</em> e provocava apatia, inanição e a morte. Costumavam ser diferenciados pelos colonos de acordo com o trabalho que desempenhavam: eram classificados como escravos de ganho, do eito ou domésticos. Os de ganho eram aqueles que viviam nas cidades e realizavam trabalhos temporários em troca de um pagamento, que normalmente era revertido para o seu dono. Os escravos do eito trabalhavam nas lavouras ou minas. Pelo excesso de trabalho e pelos castigos, faleciam depois de cinco a dez anos de trabalho forçado. Os escravos domésticos eram escolhidos pelos senhores para trabalharem em suas casas como jardineiros, babás, cozinheiras, etc.</p>



<p><strong>SÓ PRA FECHAR</strong></p>



<p>Após essa breve análise de pontos específicos da letra, percebemos que quando “pensamos historicamente”, notamos que a realidade social é construída pelos seres humanos. Não é por um acaso do destino, mas sim uma construção cultural dinâmica, mutável e aberta a novas possibilidades. </p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Diante disso, ESTUDEM HISTÓRIA. Ao fazer isso, podemos despertar a consciência em cada um de nós para construir uma sociedade mais justa, com menos desigualdades entre as pessoas, independentemente da idade, gênero, origem, cor e religião.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para finalizarmos nosso assunto, gostaria de apresentar alguns dados estarrecedores, extraídos do site da Revista Carta Capital <a href="#_ftn4">[4]</a>, que mostram o abismo racial no Brasil. “Segundo dados do IBGE, mais da metade da população brasileira (54%) é de pretos ou pardos, sendo que a cada dez pessoas, três são mulheres negras. Só em 2089, ou seja, daqui a 69 anos, brancos e negros terão uma renda equivalente no Brasil. A projeção é da pesquisa <em>“A distância que nos une – Um retrato das Desigualdades Brasileiras</em>” da ONG britânica Oxfam, dedicada a combater a pobreza e promover a justiça social. Segundo a pesquisa, em média, os brasileiros brancos ganhavam, em 2015, o dobro do que os negros: R$1589, ante R$898 mensais. Os cálculos foram feitos com base dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), considerando rendimentos como salários, benefícios sociais, aposentadoria, aluguel de imóveis e aplicações financeiras, entre outros.</p>



<p>Homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as principais vítimas de&nbsp;<a href="https://www.cartacapital.com.br/sociedade/seis-estatisticas-que-mostram-o-abismo-racial-no-brasil/resolveuid/9ffa1a28e83f4afd89e16391b81b7df2" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mortes violentas</a>&nbsp;no País. A população negra corresponde a maioria (78,9%) dos 10% dos indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídios, de acordo com informações do Atlas da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Atualmente, de cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras.&nbsp;Brasil abriga a quarta maior&nbsp;<a href="https://www.cartacapital.com.br/sociedade/seis-estatisticas-que-mostram-o-abismo-racial-no-brasil/resolveuid/b7c1b80b1a9e453d840d46fe85cc488a" target="_blank" rel="noreferrer noopener">população prisional&nbsp;</a>do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, da China e da Rússia. Tratam-se de 622 mil brasileiros privados de liberdade, mais de 300 presos para cada 100 mil habitantes. Mais da metade (61,6%) são pretos e pardos, revela o Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen).</p>



<p>Na contramão dos demais países, porém, a taxa de aprisionamento no Brasil não está diminuindo. Entre 2004 e 2014, o índice cresceu 67%. A taxa de superlotação por aqui também é maior: 147% no Brasil, ante 102% nos Estados Unidos e 82% na Rússia”.</p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enfim, quando vemos um acréscimo nos debates nacionais e internacionais de combate ao racismo, evidenciamos também uma crescente opressão e violência por fatores étnicos. É necessário conhecer as formas de estruturação do racismo, só assim poderemos pensar em maneiras eficientes de combatê-lo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> SILVA, Alberto da Costa e. <em>A enxada e a lança</em>: a África antes dos portugueses. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, p.671.</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Disponível em: <a href="https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45092235">https://www.bbc.com/portuguese/brasil-45092235</a></p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> BOXER, Charles R. Salvador de Sá e a luta pelo Brasil e Angola (1602 – 1686). São Paulo: Nacional, 1973, p.244.</p>



<p><a href="#_ftnref4">[4]</a> Disponível em: <a href="https://www.cartacapital.com.br/sociedade/seis-estatisticas-que-mostram-o-abismo-racial-no-brasil/">https://www.cartacapital.com.br/sociedade/seis-estatisticas-que-mostram-o-abismo-racial-no-brasil/</a></p>



<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<p><strong>Diogo Tomaz </strong> é professor e mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora, ilustrador quanto tem tempo e headbanger a todo momento.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg7_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6944" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Bacurau e o(s) Nordeste(s) que querem se ver (Parte 2)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 09 Feb 2020 21:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 031]]></category>
		<category><![CDATA[Bacurau]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cinema]]></category>
		<category><![CDATA[Nordeste]]></category>
		<category><![CDATA[seca]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Oliveira Rocha</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>O maior fenômeno do cinema nacional do último traz para a tela a subversão, descolonização e pluralidade que tanto faltam ao se falar da região</em></p>



<p><em>Vinícius Oliveira Rocha</em></p>



<div class="wp-block-image"><figure class="aligncenter size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/dabbc-image1.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7341" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>Domingas (Sônia Braga) e Michael (Udo Kier)</em></figcaption></figure></div>



<p class="has-text-align-center"><strong>Bacurau e o(s) Nordeste(s): uma construção histórica, política e sociocultural</strong></p>



<p>Vamos deixar as coisas bem claras aqui: não existe o Nordeste.</p>



<p class="has-drop-cap">Pelo menos não o Nordeste como essa entidade homogênea, de um único povo, um único sotaque, uma única cultura, uma única vegetação. Nordeste que foi “azeitado” e construído por cerca de um século e meio. Mesmo enquanto região geográfica institucionalmente estabelecida, o Nordeste é mais recente do que se pressupõe: a sua atual configuração em nove estados data de 1969. Historicamente, há uma determinada flexibilidade na presença de estados como Bahia, Piauí e Maranhão dentre os que constituem a região, sendo ou não considerados estados nordestinos.</p>



<p>Até a I Guerra, não se via o Brasil como uma nação, predominando até então uma visão regionalista que buscava no meio, na natureza e na raça as respostas para as diferenças entre o Norte (que se estendia da Amazônia até Sergipe) e o Sul (que ia da Bahia até o Rio Grande do Sul). Prevalecia um abismo comunicacional e interativo entre as duas regiões, abismo esse transposto apenas ocasionalmente por figuras políticas, intelectuais e jornalistas.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Em 1877, uma devastadora seca atingiu o Norte, e a partir daí o elemento “seca” passa a ser indissociável da região. Os políticos nortistas passam a clamar a atenção do governo para os problemas das suas províncias/estados, ancorando-se justamente no discurso da seca e de que como o Norte era negligenciado pelo poder político baseado no Sul.</p>



<p>A forma como esse discurso vai sendo reforçado, definindo quais estados eram atingidos pela seca e quais não eram, é o que gradativamente vai estabelecendo a separação entre o Nordeste e o que futuramente virá a ser conhecido como o Norte. O primeiro uso da palavra “Nordeste” se dá em 1919, pela Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS). Trata-se de um discurso institucional que destaca essa área do restante do Norte do país por ser mais sujeita às estiagens e que, portanto, deveria receber especial atenção do governo federal.</p>



<p><em>(Embora, como vários amigos e conhecidos meus nordestinos já relataram, ainda há quem ache que Norte e Nordeste são tudo a mesma coisa.)</em></p>



<p>A imprensa tem um papel importantíssimo na configuração dos discursos e símbolos que permeiam o Nordeste. Jornalistas enviados ao longínquo Norte escrevem textos que ilustram seus estranhamentos e impressões, portando-se como enviados a áreas e povos exóticos. São esses estranhamentos e exotismos que vão ajudando a moldar a identidade “paulista” e “nordestina” – carregadas de contrapontos. Percebam, entretanto, como a identidade paulista é restrita a seu estado e nunca diz respeito à região da qual faz parte; enquanto isso, a identidade nordestina/nortista é genérica, homogênea, metonímica – traduz um todo em apenas uma parte.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">As diferenças entre essas identidades estão ancoradas num discurso majoritariamente eugenista. Para quem não sabe, eugenia é um termo criado pelo antropólogo inglês Francis Galton que significava “bem-nascido”. Nas palavras de Galton, a eugenia seria &#8220;o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente&#8221;. Se você não acha a existência desse conceito minimamente controversa, basta dizer que ele foi parte fundamental da ideologia de supremacia e pureza racial dos nazistas que culminou no Holocausto.</p>



<p>Aqui no Brasil, a eugenia se fez presente no tratamento diferenciado e superior conferido aos imigrantes europeus, os quais se estabeleceram em sua maioria no Sul na iminência do contexto pós-abolição. A presença deles em São Paulo e nos demais estados reforçava a pureza da raça branca que se havia estabelecido na região, livre da miscigenação entre negros, índios e brancos que havia “contaminado” as populações nortistas. Te lembra alguma coisa?</p>



<p>Pois é, nossos personagens sudestinos em Bacurau repetem o que jornais já diziam há no mínimo um século. Cerca de 100 anos atrás, <em>O Estado de São Paulo </em>enviou Paulo Moraes de Barros à Juazeiro do Norte, no Ceará, para escrever uma série de artigos conhecida como “Impressões do Nordeste”. Segundo Barros, era a inferioridade racial dos nordestinos que justificava a violência e o fanatismo religioso que abundava por essas terras – e tanto uma quanto o outro serão parte fundamental do imaginário que até hoje é composto sobre o Nordeste.</p>



<p>Em seguida, o jornal publicou outra série de artigos, intitulada “Impressões de São Paulo”, onde buscava “evidenciar” a superioridade de São Paulo e de sua população, cujos traços europeus se sobressaíam no lugar da herança negra em decorrência da escravidão e tampouco indígena ou mestiça. Essa ascendência europeia e branca era digna de orgulho e supervalorização, sendo a base do progresso e do desenvolvimento paulista em detrimento das demais regiões.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/de62e-image2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7342" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>Daisy (Ingrid Trigueiro) e Damiano (Carlos Francisco)</em></figcaption></figure>



<p>E o que dizer do famoso Euclides da Cunha? Que ao escrever <em>Os Sertões </em>(sobre a guerra de Canudos, na Bahia) cunhou a famosa frase “o sertanejo é, antes de tudo, um forte&#8230;”, mas em sequência escreveu outra frase que é pouco conhecida: “&#8230; não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastêmicos do litoral”. Para o jornalista e escritor paulista, o sertão era um espaço onde a nacionalidade se mantinha intacta, livre das influências da civilização litorânea. Seria onde se mantinham escondidas as verdadeiras raízes brasileiras.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Assim, o Sul vai constituindo sua própria visão, pautada no exotismo e na superioridade racial, sobre o Norte/Nordeste. Isso, obviamente, gera reações dos nortistas e nordestinas, mas ainda é uma reação orientada a partir das elites intelectuais, econômicas e políticas.</p>



<p> O grande centro de produção dos discursos regionalistas pró-Nordeste é Recife, à época já uma das principais e mais populosas cidades do país. Para lá eram enviados os filhos dos líderes dos grupos político-econômicos dos estados vizinhos, com a Faculdade de Direito de Recife e o Seminário de Olinda servindo de locais de encontro dessas figuras intelectuais e de fomento de ideias.</p>



<p>É também em Recife que está sediada uma imprensa que possibilita a divulgação destas expressões regionalistas, visto que um jornal como o <em>Diário de Pernambuco </em>tinha uma área de cobertura que se estendia de Sergipe até Maranhão – e tal área de influência (que configurava até onde podia se veicular esses discursos) também é fator determinante do que se entenderá por Nordeste.</p>



<p>Autores como Gilberto Freyre se tornam referenciais importantes para a instituição de um discurso combativo ao que se dizia nos jornais sulistas: através de livros, artigos publicados em jornais e congressos regionais, ele e seus companheiros incitam a formação de uma região nordestina unificada contra os interesses e opiniões preconceituosas do Sul, nem que isso significasse eliminar os particularismos de cada estado nordestino para fortalecer a “comunhão regional”. Portanto, o discurso homogeneizado ainda presente no Nordeste até hoje também é fruto de estratégias de defesa e não apenas de uma visão xenófoba.</p>



<p>Mas Freyre e seus associados não deixam de ser filhos da aristocracia decadente da cana-de-açúcar, e eles cometem dois erros a meu ver absurdos: o primeiro de falarem de uma suposta “democracia racial”, como se as relações entre brancos, negros e índios no Nordeste e no país sempre tivessem sido pacíficas e cordiais (uma ideia tão mentirosa quanto a de que a miscigenação causava a inferioridade racial dos nordestinos); e o segundo de vincularem o Nordeste como um entorno da Zona da Mata, da “civilização do açúcar” cujo centro era Recife. Nos seus escritos, os sertões ganhavam pouco ou nenhum espaço.</p>



<p>Mas no fim das contas, foram os sertões que prevaleceram como a imagem definitiva do Nordeste. Porém, como eu disse, não foram apenas os sulistas e sudestinos que construíram esta visão; os intelectuais da nossa própria região tiveram grande contribuição. Seja na literatura (José Américo de Almeida, Raquel de Queiroz), na música (Luiz Gonaga), no cinema (Lima Barreto, Nelson Pereira dos Santos, Glauber Rocha), no teatro (Ariano Suassuna, Augusto Boal) ou na política. É o sertão arcaico, retrógrado, tradicionalista; dos fanáticos religiosos, dos cangaceiros, pistoleiros, da miséria, da ignorância, da caatinga, da terra seca, da falta d’água constante, dentre outros referenciais e símbolos.</p>



<p>São esses símbolos que Bacurau des(cons)trói no decorrer das suas pouco mais de 2h de duração. O filme nem precisaria incluir as tramas dos estadunidenses que já seria um estudo fascinante por si só na forma como mostra um sertão totalmente por fora das suas estereotipadas representações.</p>



<p class="has-text-color has-background has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Embora não seja um filme que se preste a ser um estudo de personagens (e onde alguns viram nisso uma falha, eu não vi, por entender que a proposta da obra seja justamente de trabalhar a coletividade), ele oferece o suficiente dos membros dessa comunidade para entendermos como eles quebram a noção de um sertão retrógrado e potencialmente preconceituoso. As questões de gênero e sexualidade são abraçadas de tal forma que é como se nem fosse mais necessário discuti-las: da personagem travesti Darlene que permanece de vigia na entrada da comunidade alertando a todos sobre quem está chegando (e parece viver uma relação poligâmica pacífica com outros dois homens), passando pela doutora Domingas (Sonia Braga) que vive num relacionamento aberto com outra mulher, e culminando em Lunga, ora referido como homem, ora como mulher, trajando vestimentas que fluem entre os dois gêneros e nem por isso ser menos viril, violento(a).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/7353e-image3.jpeg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-7343" data-recalc-dims="1" /><figcaption><em>Lunga (Silvero Pereira)</em></figcaption></figure>



<p>Além disso, as lideranças da comunidade se dividem entre um pistoleiro (Pacote/Acácio) e um professor (Plínio). Este professor, assim como outros personagens, se vale livremente da tecnologia no seu dia-a-dia, mostrando como Bacurau como uma comunidade tecnológica e progressista, cuja vivência de resistência é o que lhe permite saber quando forças ocultas tentam invisibilizá-los para destruí-los. Afinal de contas, quem se importa com um povo que é massacrado todos os dias se sequer ouvimos falar dele?</p>



<p> Chega a ser curioso como num longa que retrata uma realidade local (para o mundo inteiro ver), Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles se apropriem de linguagens e técnicas cinematográficas de alguns diretores estrangeiros. Talvez o principal homenageado seja John Carpenter, que não apenas é referenciado através da forma como a história ilustra o medo do desconhecido (como em <em>O Enigma do Outro Mundo)</em>, mas na trilha sonora – que conta com uma música autoral de Carpenter, intitulada “Night” – ou até na escola da comunidade chamada&#8230; “João Carpinteiro”. Há também um quê de Brian DePalma (no plano em que Darlene avisa da chegada dos motoqueiros em Bacurau), e a violência, no silencioso clímax da obra, é mais Sam Peckinpah do que Quentin Tarantino.</p>



<p> Porém, os diretores nunca traem a proposta do filme ao se tornarem meros imitadores e plagiadores. Eles fazem algo que a cultura brasileira sempre soube fazer bem: ressignificam, “antropofagizam” o exterior numa apropriação inteligente que conversa com a nossa realidade. Essa antropofagia de influências externas estava na Semana Moderna de 1922 e na Tropicália sessentista. É utilizada, inclusive, para valorizar a ancestralidade, tema que percorre o filme desde o funeral de Dona Carmelita até seu clímax, quando vemos, num belo <em>foreshadowing </em>do destino dos inimigos da comunidade<em>, </em>as cabeças decapitadas nas fotos do Museu de Bacurau, bem como os cangaceiros que fazem parte dessa ancestralidade.</p>



<p>Pois aqui, os cangaceiros, outrora ícones do atraso e da violência selvagem destes sertões sem lei, são motivo de orgulho e inspiração para o que se deve fazer aos que perturbam a existência dessa coletividade. “Bacurau” não nos dá respostas definitivas ao seu final. Outros estrangeiros poderão vir, outros estadunidenses “comuns” e obcecados pela sua cultura de armas e violência (a um nível até mesmo erótico) como os que servem de antagonistas ao longa. Não há respostas sobre se algum dia o Nordeste estará finalmente livre do estigma do sertão, da seca, da miséria, do cangaço, do atraso e da inferioridade.</p>



<p>Se existe alguma resposta, alguma mensagem, essa está nas palavras de Geraldo Vandré, músico baiano cuja música “Requiém para Matraga” dá o tom do final do filme e a palavra final:</p>



<p class="has-text-align-center"><em>Vim aqui só pra dizer<br>Ninguém há de me calar<br>Se alguém tem que morrer<br>Que seja pra melhorar</em></p>



<p class="has-text-align-center"><em>Tanta vida pra viver<br>Tanta vida a se acabar<br>Com tanto pra se fazer<br>Com tanto pra se salvar<br>Você que não me entendeu<br>Não perde por esperar</em></p>



<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Afinal de contas, somos gente e merecemos sermos tratados como tal.</p>



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<p><strong><strong><strong>Vinícius Oliveira Rocha</strong></strong> </strong> é um paulista de nascimento e baiano de coração que atualmente reside em Aracaju-SE, onde faz graduação em Jornalismo. É aficionado por cinema, música, literatura, TV, cultura pop e mobilidade urbana, e autor do livro de fantasia infanto-juvenil “O Destruidor de Mundos”.</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>



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<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-large-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color">Galeria</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b537e-fotos-carol-copy.jpg11-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6946" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-color has-background has-text-align-center has-medium-font-size has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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