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	<title>Arquivos Sérgio Augusto Vicente - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Vida de Cão</title>
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		<pubDate>Sun, 04 Aug 2024 12:36:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 200]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2024/08/04/vida-de-cao/">Vida de Cão</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Que os cachorros são os melhores amigos do ser humano não é novidade. Não é de hoje que essa afirmação é feita. Hoje, pela manhã, pensei sobre isso enquanto tomava café na padaria, antes de ir para o trabalho. Na esquina da Avenida Rio Branco com a Itamar Franco, um cidadão de rua dormia envolto em panos sujos, tendo ao seu lado um lindo caramelo, que parecia dormir o sono dos justos, alheio aos passos apertados dos transeuntes na calçada. O carinho e a afinidade que uniam aquele cão ao seu companheiro me trouxeram à mente a beleza do amor e da cumplicidade sem julgamento, em uma sociedade tão repleta de individualismos, vaidades e preconceitos.&nbsp;</p>



<p>Não é por acaso que, na tradição clássica, o cachorro já figurava como símbolo da fidelidade; que grandes pensadores, como Erasmo de Rotterdam, no século XVI, já tenham exaltado essa fidelidade; que o grande humorista e boêmio, Emílio de Menezes, tenha feito questão de dizer que preferia a amizade dos cães à dos homens; e que o poeta juizforano, Belmiro Braga,&nbsp; tenha dedicado ao seu fiel escudeiro os seguintes versos:&nbsp;</p>



<p>&#8220;Pela estrada da vida subi morros,&nbsp;</p>



<p>Desci ladeiras e, afinal, te digo:&nbsp;</p>



<p>Se entre amigos encontrei cachorros,&nbsp;</p>



<p>Entre os cachorros encontrei-te, amigo!&nbsp;</p>



<p>Para insultar alguém hoje recorro&nbsp;</p>



<p>A novos nomes feios, porque vi&nbsp;</p>



<p>Que elogio a quem chame de cachorro,&nbsp;</p>



<p>Depois que este cachorro conheci.&#8221;&nbsp;</p>



<p>Dito isso, há quem possa indagar que, na sociedade contemporânea, as pessoas estão tratando melhor os cachorros do que os homens. É certo que existem exageros, luxos e ostentações no &#8220;mundo pet&#8221;, como aulas caríssimas de natação para cachorros, roupas, etc. Ao meu ver, além de ser um desrespeito às peculiaridades da vida animal, esse tipo de prática nada mais é do que o reflexo da desigualdade humana na vida dos animais domesticados. Para uns, tudo; para muitos, pouco ou quase nada.&nbsp;</p>



<p>O fato é que seres humanos e cachorros merecem ser tratados com dignidade. &#8220;Levar uma vida de cão&#8221; deveria ter um significado positivo na boca de ricos e pobres. Mas não é isso que acontece.&nbsp;</p>



<p>É curioso que, no início do século XX, no contexto da Belle Époque, no Brasil, os cachorros de raça se tornaram acessórios de moda. Apropriando-se dos hábitos cosmopolitas e elegantes europeus, madames brasileiras desfilavam com seus &#8220;pets&#8221; pelas ruas do Centro do Rio de Janeiro como bolsas de grife. Concursos de raças caninas eram organizados. Em uma das revistas ilustradas da época, encontra-se até mesmo a notícia de uma rica senhora que destinou, em seu testamento, uma parte de sua herança aos cães. Hábitos que, é claro, dividiam opiniões: havia os escandalizados com a predileção de algumas pessoas pelos cães, em detrimento da caridade humana. Esse tipo de crítica chegava até mesmo a ser traduzido para a linguagem humorística das charges. Numa delas, é possível observar vários cachorros reunidos em volta da mesa, num jantar beneficente, no qual as sobras da comida (os ossos) eram destinadas às crianças desvalidas. Havia, ainda, os que criticavam a desigualdade entre os cães de luxo e os famosos &#8220;vira-latas&#8221;, bem como os que destacavam a necessidade de políticas urbanas de combate à proliferação desordenada de cães pelas ruas. Uma preocupação muito típica dos defensores das medidas sanitárias fortemente implementadas na época.&nbsp;</p>



<p>Independente de qualquer opinião acerca da relação entre ser humano e cachorro, o fato é que, nas décadas iniciais do século XX, parece ter aumentado o interesse pelos cachorros e o apego a eles no cenário urbano. A traumática experiência da Primeira Guerra Mundial, que estremeceu os pilares da razão iluminista, pondo por terra a crença na evolução inexorável da civilização ocidental, parece-nos ter sido a grande explicação para o fenômeno. Como não nos lembrarmos da emblemática imagem de Chaplin com seu cão fiel, no cartaz do célebre filme &#8220;Vida de Cachorro&#8221;? Ademais, cães farejadores eram enaltecidos nas reportagens da guerra como &#8220;heróis salvadores&#8221; de vítimas massacradas pelos destroços do conflito.&nbsp;</p>



<p>Antes mesmo da guerra, o poeta juizforano Belmiro Braga, em 1910, projetava-se nacionalmente numa foto-postal ao lado de um cão da raça &#8220;terra nova&#8221;, ao qual chamou de &#8220;Príncipe&#8221;, que ganhara de presente de um empresário de Caxambu. A foto, longe de ser inocente, foi uma perspicaz estratégia de construção de sua persona literária. Não por acaso, enviou-a a muitas das personalidades da época, como o próprio amigo e escritor Lima Barreto. Além de lhe acentuar as características de poeta &#8220;singelo&#8221;, de &#8220;alma simples&#8221; e &#8220;pura&#8221;, a imagem ao lado do cachorro se perenizou. Mais eficaz ainda foi a combinação dessa imagem com a famosa quadrinha de sua autoria, acima citada, e recitada, inclusive, pelo jornalista Chico Pinheiro, num dos jornais da Globo, em 2022.&nbsp;</p>



<p>A fiel amizade entre cão e ser humano é, realmente, inspiradora e atemporal, porque ela talvez expresse o que, no fundo, todos nós desejamos: o sentir-se amado pelo outro de maneira desinteressada, independente dos bens materiais, da condição social, etc. E, por fim, o fato de essa relação nos reconectar com o que há de mais genuíno em cada um de nós. O genuíno e o singelo encantam.&nbsp;</p>



<p>Mas, assim como os seres humanos, precisamos aprender a amar os cães. Por que não adotar um cãozinho abandonado, ao invés de comprar um apenas para satisfazer a sua vaidade? Por que não destinar uma parte de seus recursos a outros animais necessitados, ao invés de gastar com apetrechos supérfluos para o seu &#8220;pet&#8221;? Não confundir amor pelo seu &#8220;pet&#8221; com desrespeito à sua condição de animal dotado de outras especificidades também pode ser um bom começo. Afinal, querer que o fiel amigo se vista e se comporte como você é uma agressão, e não um carinho. Deixe-os andar como vieram ao mundo. Poupe-os desse mal-estar da civilização, do qual muitos de nós, humanos, gostaríamos de nos libertarmos. Ou será que, num mundo em que sutiãs já foram queimados, ainda há espaço para &#8220;lingeries&#8221; caninas?&nbsp;</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade. Dedica-se a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG). Possui experiência em pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural em museus &#8211; como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos e oficinas. Entre os anos 2022 e 2023, integrou a equipe curatorial de três grandes exposições que reabriram o Museu Mariano Procópio integralmente aos públicos, com novas abordagens historiográficas e narrativas expográficas. São elas: 1. <em>Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação</em>; 2. <em>Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio</em>; 3. <em>Villa Ferreira Lage (ambientação da residência de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX).</em> Desde 2020, atua como escritor da revista <em>Trama Bodoque: arte, cultura e criatividade </em>(ISSN 2764-0639) e, a partir de 2022, também passou a atuar como membro do conselho editorial do referido periódico semanal.&nbsp;</p>
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		<title>[ENTREVISTA] Lília Schwarcz eleita Imortal -real e simbólica- pela ABL</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Apr 2024 18:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 006, N 192]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2024/04/07/entrevista-lilia-schwarcz-eleita-imortal-real-e-simbolica-pela-abl/">[ENTREVISTA] Lília Schwarcz eleita Imortal -real e simbólica- pela ABL</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A nossa entrevistada nessa primeira edição de 2024 da revista &#8220;Trama&#8221; é a historiadora e antropóloga Lília Moritz Schwarcz. A convidada, obviamente, dispensaria apresentações, considerando a vasta divulgação e alcance de sua produção intelectual para além do âmbito acadêmico, além, é claro, de sua ativa e aguerrida participação nas mídias, a frente de importantes debates sobre o nosso tempo.</p>



<p>Vale lembrar que essa não é a primeira vez em que a ilustre convidada colabora com a nossa mais longeva revista de arte e cultura de Juiz de Fora. Em setembro de 2022, ela nos brindou com um texto que nos fez refletir sobre os desafios das &#8220;comemorações&#8221; dos duzentos anos de independência do Brasil em um contexto marcado por eleições presidenciais demasiadamente polarizadas e repletas de ameaças ao Estado democrático de direito.</p>



<p>A escritora também flertou com a nossa Juiz de Fora por ocasião da pesquisa e escrita de seu livro &#8220;As Barbas do Imperador&#8221;, no qual explorou com afinco diversos objetos referentes a D. Pedro II no Museu Mariano Procópio. Nesse momento, encantou-se com a enorme potencialidade do acervo dessa instituição para pesquisas de relevância nacional e internacional.</p>



<p>Com formação em História e Antropologia, Lilia é livre docente e professora sênior do Departamento em Antropologia Social da Universidade de São Paulo. Desde 2011, também é professora visitante em Princeton, nos Estados Unidos.</p>



<p>Acumulando em seu currículo diversos prêmios e títulos nacionais e internacionais, Lilia é pesquisadora Sênior do CNPq, com muitos livros publicados, a saber: &#8220;Retrato em branco e negro&#8221;; &#8220;O espetáculo das raças&#8221;; &#8220;As barbas do Imperador&#8221;; &#8220;A longa viagem da biblioteca dos reis&#8221;; &#8220;O sol do Brasil&#8221;; &#8220;Brasil: uma biografia&#8221; (com Heloisa Starling); &#8220;Lima Barreto: triste visionário&#8221;; &#8220;O autoritarismo brasileiro&#8221;; &#8220;A bailarina da morte&#8221; (com Heloisa Starling); &#8220;Enciclopédia Negra&#8221;; &#8220;Biografias afro-brasileiras&#8221; (com Flavio Gomes e Jaime Lauriano); &#8220;Os óculos de cor&#8221;; &#8220;A batalha do Avaí&#8221; (com Lucia Stumpf e Carlos Lima); &#8220;Pérola imperfeita&#8221;<br>(com Adriana Varejão); &#8220;Histórias Mestiças&#8221; (com Adriano Pedrosa); &#8220;Dicionário da escravidão e da Liberdade&#8221; (com Flávio Gomes); &#8220;Um enigma chamado Brasil&#8221; (com André Botelho); dentre outros. Também coordenou a coleção &#8220;Perfis Brasileiros&#8221;; o volume 4 da &#8220;História da Vida Privada no Brasil&#8221; e os volumes do &#8220;História do Brasil Nação&#8221;.</p>



<p>Além de sócia do IHGB e atual membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República, foi eleita, recentemente, para a cadeira n. 9 da Academia Brasileira de Letras, onde tomará posse como uma das poucas mulheres a ocupar esse espaço tão simbólico e relevante nas letras nacionais. É sobre esse assunto em específico que vamos falar nessa entrevista.</p>



<p>Lilia, antes de mais nada, muito obrigado por aceitar nosso convite! Seja muito bem-vinda!</p>



<p><strong>Sérgio Vicente </strong>: <strong><em>Como você avalia o seu processo de inserção na Academia Brasileira de Letras? Quais foram os maiores desafios nessa empreitada? E o que mais teria contribuído para essa conquista?</em></strong>&nbsp;</p>



<p><strong>Lília Schwarcz</strong>: Eu fui muito motivada &#8211; não sei se “motivada” é o melhor termo -, mas foi movida pela emoção que me candidatei a essa vaga na ABL, vaga essa ocupada pelo acadêmico Alberto da Costa e Silva, que era para mim &#8211; não há nenhum segredo nisso &#8211; um pai afetivo e um pai intelectual também. Alberto já sempre me falava de entrar na Academia, e eu nunca achei que era o caso, por não ter tanto tempo para me dedicar e por não achar que eu era a pessoa certa e tudo mais&#8230; Quando ele faleceu, resolvi, de alguma maneira, fazer o meu processo de despedida com o Alberto, que me faz tanta falta, entrando nesse ritual da ABL, da candidatura.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Penso que, em primeiro lugar, os membros da ABL consideraram que eu, de alguma maneira, faço parte desse legado do Alberto da Costa e Silva no que se refere à história. É claro que não sou poeta, cronista, diplomata como Alberto, tampouco tenho essa formação em África que ele teve&#8230;, mas herdei &#8211; com muitas aspas &#8211; de Alberto essa paixão pela questão da equidade racial e social no Brasil. Acho que esse é o primeiro motivo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O segundo motivo há de ser pelo fato de eu ser uma historiadora. Além de Alberto, faleceu o José Murilo de Carvalho, outro historiador que era um mestre para mim. E penso que eles estavam refletindo na vaga de um historiador.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Também acredito que deve ter tomado força essa ideia de eu ser uma mulher. A Academia, como você sabe, só aceitou mulheres a partir de 1976. Antes, o termo “escritores” era tomado apenas no masculino, e somente em 1977 é que a primeira mulher, Raquel de Queiroz, foi eleita. Assim que eu entrar &#8211; eu não fui empossada ainda &#8211; serei a quinta mulher dessa gestão, e, no total, foram 11 mulheres. É muito maior o número de membros masculinos. Essa é uma instituição tradicionalmente masculina, tradição essa pensada na lógica do livro de Eric Hobsbawm, que mostra como as tradições são todas inventadas. E, depois, eu quero crer que acúmulo um currículo que vai ao encontro do que se espera (imagino eu, né, Sérgio!) de uma acadêmica. Tenho vários livros publicados e uma atuação pública que pode ajudar a engrossar forças na Academia.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong><em>SV: Na sua opinião, que impactos a sua nova condição de integrante da ABL trará sobre a sua produção intelectual? Por quê?</em></strong>&nbsp;</p>



<p><strong> Lília S: </strong>É muito difícil prever o que acontecerá daqui pra frente&#8230; Eu acho que terá um impacto. O presidente da Academia, o Merval, já destacou que ele quer que eu dê continuidade a um trabalho que José Murilo [de Carvalho] organizava, e não teve tempo de terminar por conta do falecimento, que era uma iconografia de Machado de Assis. Então, acho que essa já é uma primeira tarefa. Imagino que vou poder me embrenhar muito mais nos arquivos da ABL e tomar parte nessas atividades culturais que a ABL realiza, tanto na área cultural &#8211; de uma forma mais ampla &#8211; como nas áreas de história e literatura também. É difícil dizer o que virá por aí&#8230; Mas tomarei conhecimento maior desse cotidiano, verei como posso me inserir nele e, dessa maneira, também, ter novas ideias para novas obras, livros, títulos, seminários e exposições.&nbsp;</p>



<p><strong>SV: </strong><strong><em>Qual seria o papel social de uma imortal da ABL na sociedade contemporânea?</em></strong>&nbsp;</p>



<p><strong>LS: </strong>Eu sei que essa questão da imortalidade está no logo da ABL e no cargo, que é vitalício, mas eu acho que, em tempos contemporâneos, imortal é apenas a nossa luta por justiça e equidade. Ninguém é imortal no seu destino, como nós sabemos. Como diz o antropólogo Marshall Sahlins, de que eu gosto muito, antropólogo norte-americano, “existem duas verdades na vida acadêmica: a primeira é que morreremos, a segunda é que estaremos errados e erradas”. Então, eu aqui continuo com a minha humildade. A humildade dos teimosos que insistem acreditando que a ideia de imortalidade é muito mais simbólica do que de fato real. Nesse sentido, é muito impressionante, mesmo nesse mundo contemporâneo, a carga simbólica que a Academia carrega. Eu poucas vezes recebi tantas mensagens emocionadas e generosas, que falam muito desse local social que a ABL tem. Por outro lado, nessa sociedade contemporânea, a ABL precisa também se modernizar, não é? Eu estudei muito Lima Barreto, um escritor negro da Primeira República, que foi três vezes vetado pela Academia, sendo que, na terceira, desistiu. Então, evocando o nome dele, eu chamo atenção para o que falta na Academia.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ailton Krenak foi eleito recentemente, vai tomar posse no começo de abril, mas é a primeira pessoa indígena na ABL. Sabemos como são poucas as pessoas negras, como são poucas as mulheres. Eu sou a quinta mulher nessa gestão&#8230; Então, se eu puder lutar por uma ABL mais plural, mais pública, mais democrática, nesse sentido, é o que farei. Acho que, quando eu fui eleita &#8211; tem uma coisa que os membros não podem reclamar -, todos conheciam as minhas ideias, que estão expressas em livros, palestras e também no meu ativismo. Eu tenho um pouco essa proposta de vida. Imagino que fui eleita por conta disso ou sabendo-se disso. É o que eu quero tentar imprimir na minha passagem pela ABL.&nbsp;</p>



<p><strong>SV: </strong><strong><em>Que mudanças você destacaria no perfil da ABL entre a inserção de Rachel de Queiroz, a primeira mulher a se tornar imortal, e o seu ingresso, em 2024? O que ainda precisaria ser mudado?</em></strong>&nbsp;</p>



<p><strong>LS: </strong>Acho que eu já respondi a essa pergunta, mas vou refraseá-la. A questão feminina, o lugar da mulher e os feminismos no plural &#8211; porque são feminismos mesmo, muito diversos &#8211; têm ganhado mais cena, mais importância, mais protagonismo na agenda brasileira. Mesmo assim, nós sabemos que essas são também &#8211; eu me refiro às mulheres &#8211; maiorias minorizadas na representação, porque as mulheres são uma maioria na população brasileira, e mesmo assim, não têm uma representação, um protagonismo de fato em relação à presença, à formação e à intelectualidade. Isso vem mudando: as mulheres estão conquistando – conquistando, porque ninguém ganha &#8211; mais lugares em posições de protagonismo em instituições públicas e privadas. Mas, mesmo assim, nós sabemos que não a contento, não de uma maneira equilibrada ainda. Eu acho que a luta continua; o Brasil é ainda um país campeão em feminicídio. Quando eu falo em feminicídio, eu me refiro a crimes contra o corpo da mulher, propositadamente contra o corpo feminino. E também campeão em transfeminicídio. Esse cenário mudou muito desde que Rachel de Queiroz foi eleita. Eu acho que esse ativismo feminista ganhou uma escala e uma proporção muito grande. Acho, inclusive, que a minha eleição é também fruto dessa pressão pela entrada de mais mulheres na Academia.&nbsp;&nbsp;</p>



<p><strong>SV: </strong><strong><em>Como você avalia o atual cenário de atuação das mulheres nas produções intelectual, artístico-literária e científica no Brasil?</em></strong>&nbsp;</p>



<p><strong>LS:</strong> Penso que as mulheres estão ganhando uma cena, um momento muito grande nas produções intelectual, artística, literária e científica. O reconhecimento ainda está aquém, mas o crescimento é visível. Eu participo de um grupo de mulheres na ciência, e é impressionante. Eu vou acompanhando a produção das mulheres e vejo como essa produção está escalonando. Mas, para que isso aconteça de verdade em todas as áreas, nós precisamos também de programas sociais que deem conta dessa jornada dupla, tripla, das mulheres, que ajudem as mulheres brasileiras a estarem com seus filhos e tudo mais, mas terem a assistência dos maridos, da família, do Estado, para que essa participação seja ainda mais plena.&nbsp;</p>



<p>Eu sempre brinco que sou pessimista no varejo e otimista no atacado&#8230; Então eu acho que vamos conquistando a cada dia novos lugares e ampliando essa nossa agenda de direitos. Em uma democracia é assim mesmo: os direitos são sempre incompletos. Cabe a nós ampliá-los e fazermos com que caminhemos para frente, e não no “passo do caranguejo”, um pra frente, dois pra trás&#8230;&nbsp;</p>



<p>Muito obrigada!&nbsp;</p>



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<p><strong>Lilia Moritz Schwarcz</strong>&nbsp;é professora titular no Departamento de Antropologia da USP. É autora, entre outros, de ‘Retrato em branco e negro’ (1987), ‘O espetáculo das raças’ (1993), ‘Racismo no Brasil’ (‘2001), ‘As barbas do Imperador’ (1998, Prêmio Jabuti/ Livro do Ano), ‘A longa viagem da biblioteca dos reis’ (2002), ‘O sol do Brasil’ (2008, Prêmio Jabuti / biografia 2009), ‘Brasil: uma biografia’ (com Heloisa Murgel Starling; 2015) e ‘Lima Barreto triste visionário’ (2017). Coordenou, entre outros, o volume 4 da ‘História da Vida Privada’ no Brasil (1998, Prêmio Jabuti / Ciências Humanas 1999) e a ‘História do Brasil Nação Mapfre/ Objetiva’ em 6 volumes (Prêmio APCA, 2011). Foi curadora de uma série de exposições: ‘A longa viagem da biblioteca dos reis’ (Biblioteca Nacional, 2002), ‘Nicolas-Antoine Taunay e seus trópicos tristes’ (Museu de Belas Artes Rio de Janeiro, Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2008), ‘Histórias mestiças’ (2015), ‘Traições: Nelson Leirner leitor de si e leitor dos outros’ (Galeria Vermelho, São Paulo, 2015), ‘Histórias da infância’ (MASP, 2016), ‘Histórias da sexualidade’ (MASP, 2017). Desde 2015, atua como curadora adjunta para histórias e narrativas no MASP e é colunista do jornal Nexo.</p>
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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Entrevista por: Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade. Dedica-se a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG). Possui experiência em pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural em museus &#8211; como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos e oficinas. Entre os anos 2022 e 2023, integrou a equipe curatorial de três grandes exposições que reabriram o Museu Mariano Procópio integralmente aos públicos, com novas abordagens historiográficas e narrativas expográficas. São elas: 1. <em>Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação</em>; 2. <em>Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio</em>; 3. <em>Villa Ferreira Lage (ambientação da residência de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX).</em> Desde 2020, atua como escritor da revista <em>Trama Bodoque: arte, cultura e criatividade </em>(ISSN 2764-0639) e, a partir de 2022, também passou a atuar como membro do conselho editorial do referido periódico semanal.&nbsp;</p>
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		<title>Joaquina e o  “Holocausto brasileiro” &#8211; porque a vida é um “trem de doido”&#8230; </title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/10/08/joaquina-e-o-holocausto-brasileiro-porque-a-vida-e-um-trem-de-doido/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Oct 2023 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 184]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Era noite. Na sala de estar, familiares e conhecidos velavam o corpo de Patrocínia. Na sala ao lado, uma mulher, insone e recolhida, passava a noite sentada no chão, sobre o assoalho de madeira daquela casa. Ali permaneceu muitas horas completamente reclusa, inconsolável e transtornada. Joaquina era o seu nome, a neta da falecida, com seus trinta anos de idade. Abalada emocionalmente pela morte da avó, seu distúrbio psiquiátrico teria se agravado profundamente a partir daquele dia, tornando-a cada vez mais dependente de cuidados familiares.&nbsp;</p>



<p>Logo após a missa de sétimo dia de Patrocínia, Joaquina foi conduzida ao tratamento em uma clínica em Matias Barbosa (MG). Pela primeira vez, ela era internada em uma clínica psiquiátrica. A instituição era particular. O tempo foi passando e, com ele, os parcos recursos de uma família pobre. Maria, mãe de Joaquina, despendeu todas as economias na expectativa de que a filha recobrasse o mínimo de consciência necessária a uma vida autônoma. Mas a cura não vinha, e o dinheiro acabava.&nbsp;</p>



<p>Joaquina deixa a clínica e retorna ao convívio familiar. Dessa vez, no entanto, a casa do irmão, Sebastião, no Morro Alto, era o seu destino. A mãe também fizera daquela nova casa seu abrigo, após o marido, conhecido como Caboclo, com sua vida errante e quixotesca, abandoná-la. A adaptação a um ambiente doméstico repleto de crianças seria o grande problema. Eram oito os filhos do irmão, seus sobrinhos, que a tinham como criança. Com eles Joaquina se irritava e travava guerras de nervos diárias. Diante de seu comportamento sobressaltado e atormentado, as brigas e agressões às crianças se tornariam cada vez mais corriqueiras, o que também impacientou o irmão. Tudo isso o teria motivado a tomar uma drástica decisão: interná-la em um hospital psiquiátrico público. O Colônia, de Barbacena, teria sido o primeiro a lhe passar pela cabeça. E assim foi decidido. A mãe, Maria, embora apreensiva com o destino da filha, talvez não fizesse objeção à decisão do filho naquele momento.&nbsp;</p>



<p>Já tradicionalmente conhecida como a capital brasileira da loucura, Barbacena, desde o início do século XX, já abrigava o maior manicômio do Brasil. A escolha da cidade para sediar a instituição teria sido um “presente de grego”, um prêmio de consolação recebido após o município perder para Belo Horizonte a disputa ao posto de capital de Minas. Para lá eram enviados milhares de pacientes de diversas regiões do país.&nbsp;</p>



<p>Sebastião acordou cedo para embarcar com a irmã na estação ferroviária mais próxima, em Matias Barbosa. Comprou um pacote de biscoito para distraí-la enquanto o trem cortava o mar de morros das Minas Gerais. Sem se dar conta do que lhe ocorria, Joaquina seguia uma viagem tranquila ao lado do irmão.&nbsp;</p>



<p>A última parada foi na estação Bias Fortes. A essa altura, o trem, já bastante cheio, preparava-se para chegar ao destino final. De repente, a locomotiva desacelerou. Acabava de passar pelos fundos do Hospital Colônia. Muitos, como era o caso de Joaquina, talvez nem soubessem o porquê do desembarque naquele local. Outros tinham plena consciência da situação que enfrentavam. E sofriam a revolta de serem despachados, à força, em um local obscuro.&nbsp;</p>



<p>A recorrente cena da chegada do trem apinhado de “pacientes” acabou se eternizando nas memórias literárias de Guimarães Rosa. Ao observá-la algumas vezes, o escritor deu origem à expressão “trem de doido”, incorporada definitivamente ao vocabulário do mineiro. Foi no “trem de doido” que Joaquina chegou ao local onde viveria as mais terríveis condições de abandono e maus tratos. Na época, os tratamentos psiquiátricos ainda passavam longe do processo de humanização. Os procedimentos se resumiam à camisa de força, às agressivas injeções de “entorta” e aos choques elétricos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>No interior do manicômio, pacientes nus, sujos, com fome, expostos à pneumonia e à tuberculose, urinavam e defecavam no chão. Suas camas eram os montes de capim espalhados pelos pátios. A superlotação, os banhos coletivos, a promiscuidade, a água suja de fezes, o convívio com os ratos, o mau cheiro, o frio, o calor, a sede e a fome eram a realidade que Joaquina teria que enfrentar a partir daquele dia.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Desassistidos pelo poder público e desprovidos de acompanhamento e visita dos familiares, muitos indivíduos que passavam por aquela experiência não conseguiam sobreviver para contar sua história. Afinal, pelas condições a que eram submetidos, o quadro de saúde daquelas pessoas só piorava, levando-as a um caminho sem volta, marcado pela exclusão e perda das referências sociais, afetivas, etc. Tinham suas roupas arrancadas, suas personalidades desfiguradas. Muitos perdiam até o próprio nome, sendo rebatizadas lá dentro.&nbsp;</p>



<p>Sebastião acabara de entregar a irmã nas mãos dos funcionários da instituição. Em instantes, Joaquina foi encaminhada para o local onde teve a sua roupa substituída pelo famoso “azulão”, o uniforme azul, de brim, que disponibilizavam aos “pacientes”. Dali em diante, esta seria sua única peça. Com suas histórias de vida simplesmente ignoradas, os “pacientes” eram vistos como massa amorfa, um amontoado de loucos. A exemplo do que acontecia com muitos outros internos, Joaquina desaprenderia a assinar o próprio nome. A digital passaria a identificá-la nos documentos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Enquanto virava as costas para a porta por onde Joaquina entrava, Sebastião ouvia seus berros ecoando por entre os corredores dos pavilhões. Entrava no trem, mas os gritos não cessavam. A locomotiva ia contornando os fundos do Colônia, e a voz de desespero da irmã continuava martelando sua cabeça. Até que o silêncio veio abafado, o grito de desespero foi sufocado pela distância. E Sebastião seguiu a viagem de volta para Matias Barbosa sem declinar de sua intenção: prender a irmã entre as paredes cinzas daquele manicômio. É provável que, nesse momento, início da década de 1950, ele e os demais familiares ainda não tivessem a completa dimensão dos riscos que Joaquina corria. Mas os burburinhos circulavam. As estórias em “cousas miúdas” eram contadas. Com imprecisão e com ares de fabulação, mas eram contadas. O local, visivelmente triste e cinzento, apesar de não explicitar as atrocidades cometidas em seu interior, não possuía paredes completamente impermeáveis.&nbsp;</p>



<p>Mariana e Palmira, as tias de Joaquina – herdeiras da casa onde a mãe, Patrocínia, falecera – deram conta da internação da sobrinha meses depois, após Sebastião lhes fazer uma visita. Reagindo com perplexidade e preocupação, logo condenaram a atitude do sobrinho, que confessava não ter suportado as constantes brigas da irmã com suas crianças dentro de casa. Logo Mariana respondeu: “Se tivesse me avisado que faria isso, te autorizava a trazer ela pra cá, pra ficar junto comigo.”&nbsp;</p>



<p>Mesmo prometendo manter as tias atualizadas sobre a situação da irmã no manicômio, Sebastião não as tranquilizou. Em nenhum dia sequer, Mariana deixava de pensar no tratamento dispensado à sobrinha entre as quatro paredes daquele lugar obscuro. Quanto mais o tempo se passava, mais Mariana e Palmira se angustiavam. Comentários negativos e alarmistas sobre o manicômio chegavam pouco a pouco aos seus ouvidos. Vendedoras ambulantes de queijos e doces na região de Simão Pereira, as duas irmãs, entre uma conversa e outra com amigos e conhecidos da região, ouviam comentários assustadores sobre as condições inóspitas e desumanas que os “pacientes” enfrentavam lá dentro. Algumas pessoas se queixavam de que, após mandarem seus parentes para o Colônia, nunca mais tiveram notícias deles. Muitas dessas pessoas eram pobres e negras e habitavam os quilombos da região. Outras, recusando as explorações dos fazendeiros, eram tachadas de “malandras” e “vagabundas”. O envio ao Colônia era uma forma deliberada de repressão ou, quem sabe, de disciplinarização dos indivíduos considerados “desviantes” dos padrões sociais considerados “normais”. Tudo isso refletia, entre outras coisas, a realidade de segregação racial do Brasil no pós-abolição, que adotava a “limpeza social” como “solução” para os problemas do país.&nbsp;</p>



<p>Cansadas de se corroerem em preocupações, Mariana e Palmira ordenaram que Sebastião a retirasse do manicômio imediatamente. Estavam decididas a cuidar de Joaquina pelo resto de suas vidas, no sítio que a mãe lhes deixou de herança.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>***&nbsp;</p>



<p>O ano era 1954. Joaquina “apiava” do trem em Matias Barbosa junto com o irmão, onde se encontraram com a mãe e “tia Quininha”. De lá marcharam alguns quilômetros a pé até o sítio da família. Livre, porém atormentada, Joaquina fez o percurso totalmente inquieta. As mãos, completamente vazias e despojadas de bens materiais, só se ocupavam com as pedras que encontrava pelo caminho. Não podia vê-las no chão que logo as atirava pelos ares.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Era pouco mais de meio-dia quando as três chegaram ao destino final. Nair tomava conta das parreiras de uva no quintal, quando ouviu o latido dos cachorros no terreiro. Caminhando em direção à casa, assustou-se com o vulto azul de uma mulher suja e descabelada que corria em direção à cozinha e logo se sentava, encolhida, ao lado da mesa. O vulto era o de Joaquina trajando o famoso “azulão”. Sujo, ensebado e malcheiroso, o pano se arrastava até seus pés caraquentos, envolvendo um corpo castigado pelas marcas do abandono e dos maus tratos.&nbsp; O mau cheiro, a pele encardida e o cabelo grande e grosso de sujeira evidenciavam o longo período em que ficara sem banho. Além disso, Joaquina ainda sofria com as sequelas de uma tuberculose que contraíra durante a internação.&nbsp;</p>



<p>Após um longo banho de bacia, as tias a vestiram com uma peça de roupa devidamente limpa e passada. Há tempos não sabia o que era isso. Havia desaprendido as mais simples e elementares noções de higiene pessoal. Entretanto, outro banho seria necessário para que sua pele perdesse o encardido e voltasse ao tom original. Mas aquele era o primeiro passo para recobrar a sua dignidade. Mariana lhe penteou o cabelo, prendendo-o com grampos. Esforço em vão. Estes logo foram violentamente arrancados e atirados ao chão. Aquela batalha não seria fácil.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A convivência com o comportamento arredio, atormentado e agressivo de Joaquina nesse período de adaptação trazia grandes dificuldades e desafios à rotina no sítio. A hora do banho era uma das mais difíceis. Àquela época, não havia banheiro dentro de casa. Os banhos aconteciam dentro do quarto, com baldes e bacias, objetos que Joaquina nem podia ver à sua frente – talvez por conta de algum trauma adquirido dentro do manicômio. Como um animal raivoso, mordia em quem estivesse ao seu lado. Certo dia, enquanto se banhava, saiu correndo de casa, nua, rumo ao pasto. Desconhecendo a direção que seguia, chegou à casa de sua outra tia, Aurora, que morava numa casa localizada na porção do sítio herdada da mãe, Patrocínia. Terna como o nome, Aurora abraçou-a, enrolou-a em um lençol e a levou para a casa que lhe serviria de morada, aos cuidados de Mariana e Palmira.&nbsp;</p>



<p>Respectivamente viúva e solteira, Mariana e Palmira se dedicavam bravamente à labuta diária na roça. Desde o falecimento de Patrocínia, a matriarca da casa, ambas imputaram à sua prima, Nair, com seus oito anos de idade, a responsabilidade pelos afazeres domésticos. Por ocasião do retorno de Joaquina à propriedade da família, Nair já tinha 11 anos de idade. A partir de então, abraçaria outra missão: conviver e cuidar diariamente com os gritos, xingamentos e agressões que Joaquina aprendera entre as paredes do Colônia.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Sem força física para conter a falta de limites da prima e se proteger contra as agressões físicas, a menina Nair precisava se trancar dentro da cozinha para conseguir preparar o almoço. Sem poder contar com auxílio médico e remédios controlados, Joaquina ainda permaneceria indomável por longos anos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Mariana, porém, tinha a fé como recurso. Herdando da mãe portuguesa a devoção a Santo Antônio, buscava inúmeras vezes a tradicional água milagrosa do santo, na fonte situada ao lado da antiga Igreja de Santo Antônio, em Simão Pereira. Diariamente, aspergia um pouco do líquido sobre a cabeça da sobrinha, na esperança de que um milagre se concretizasse e a paz ali fizesse morada.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Como nada nesse mundo é imutável, com Joaquina não foi diferente. A passos muito lentos, Joaquina foi incorporando a rotina da casa e participando das atividades diárias. Os cuidados familiares a levaram a viver no seu tempo e no seu ritmo, tendo as suas especificidades respeitadas e sua dignidade restabelecida. Vez ou outra, ajudava em alguma atividade manual da casa, apesar de jamais ter voltado a assinar o próprio nome e a se comunicar fluentemente. O pouco que conseguia verbalizar eram os xingamentos aprendidos na experiência manicomial.&nbsp;</p>



<p>Antes de crescer, casar e se tornar mãe, Nair desenvolveu seu instinto maternal nos cuidados diários aplicados à prima e às tias. Quando estas faleceram, deixaram-lhe o sítio e Joaquina como herança e missão. Os filhos cresceriam ao lado de sua prima como uma criança idosa, de hábitos excêntricos. Não raramente, Joaquina era enredada pelas brincadeiras infantis, sendo-lhe atribuídos vários personagens. Um deles era o de aluna, que pegava a caneta para rabiscar em espiral ou em caóticas linhas o papel em branco posto à sua frente. Quando se irritava, desferia varadas na molecada, como se trocasse o papel de aluna pelo o de professora à moda antiga. Ou, quem sabe, lhe viessem à mente os fragmentos de memória dos tempos de outrora?&nbsp;</p>



<p>Em 1998, Joaquina encerrou sua missão no plano terreno. Seu pulmão, sequelado pela pneumonia contraída no Colônia, não resistiu a uma forte gripe. Lembro-me perfeitamente não apenas desse momento de sua partida, mas da minha infância ao seu lado, ensaiando o ofício de um “professor D. Quixote” e observando seu corpo sentado na extremidade do banco de madeira posicionado ao lado do fogão à lenha, enquanto comia, em seu prato esmaltado, apoiado sobre o colo, a refeição preparada por minha mãe. Lembro-me de seu cabelo liso, penteado inúmeras vezes com o pente que escondia em baixo do colchão, dos papéis de bala que colocava no chão como se estivesse a guardá-los com todo esmero e cuidado.&nbsp;</p>



<p>Nair é a minha mãe, a mulher que dela cuidou até os últimos dias de sua vida. Através dela, pude narrar essa história e incorporá-la ao livro que estou escrevendo sobre o sítio que, há 113 anos, vem servindo de cenário para as inúmeras histórias de uma família de origem camponesa.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A ideia de registrar essa narrativa me ocorreu a partir do primeiro contato com o livro <em>Holocausto Brasileiro</em>, de autoria de Daniela Arbex, por meio do qual pude cruzar as memórias evocadas por minha mãe com uma pesquisa documental. Durante a leitura do livro, pude estabelecer muitas correlações entre a trajetória de Joaquina e as outras histórias de vida narradas pela autora. Essa minha experiência é reveladora da importância da relação entre memória e história e da forma como a pesquisa redimensiona a nossa relação com o passado, lançando luz sobre acontecimentos e experiências por muito tempo silenciados. Não tenho dúvidas de que o livro de Arbex vem encorajando o descortinar de muitas histórias de vida, como a de Joaquina, ameaçadas de um sepultamento definitivo.&nbsp;</p>



<p>O primeiro passo para trazer à tona esse capítulo da nossa história foi dado pelo fotógrafo Luiz Alfredo e o repórter José Franco, quando, em 1961, publicaram emblemática matéria na revista <em>O Cruzeiro, </em>intitulada “Sucursal do inferno”, na qual publicizaram as mazelas do manicômio e a violação dos direitos humanos entre as suas paredes cinzentas. Metaforicamente, o Colônia pode ser considerado um “campo de concentração travestido de hospital”, como bem definiu Arbex. Naqueles pavilhões, segundo a autora, 60 mil “pacientes” perderam suas vidas, sendo que mais de 1800 cadáveres foram vendidos para faculdades de medicina do país, entre 1969 e 1980. Por muito pouco, Joaquina poderia ter se tornado um deles.&nbsp;</p>



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<figure class="wp-block-image size-full is-style-rounded"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="835" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/Foto_Sergio-3.jpg?resize=950%2C835&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31617" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/Foto_Sergio-3.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/Foto_Sergio-3.jpg?resize=300%2C264&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/Foto_Sergio-3.jpg?resize=768%2C675&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/Foto_Sergio-3.jpg?resize=600%2C528&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>
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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade. Dedica-se a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG). Possui experiência em pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural em museus &#8211; como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos e oficinas. Entre os anos 2022 e 2023, integrou a equipe curatorial de três grandes exposições que reabriram o Museu Mariano Procópio integralmente aos públicos, com novas abordagens historiográficas e narrativas expográficas. São elas: 1. <em>Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação</em>; 2. <em>Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio</em>; 3. <em>Villa Ferreira Lage (ambientação da residência de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX).</em> Desde 2020, atua como escritor da revista <em>Trama Bodoque: arte, cultura e criatividade </em>(ISSN 2764-0639) e, a partir de 2022, também passou a atuar como membro do conselho editorial do referido periódico semanal.&nbsp;</p>
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<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



<p>Agora você pode divulgar seus<strong> produtos, marca e eventos</strong> na Trama em todas as publicações! </p>



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<figure class="aligncenter size-large"><a href="https://www.youtube.com/c/BodoqueTV/featured"><img loading="lazy" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=576%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-26890" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=576%2C1024&amp;ssl=1 576w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=768%2C1365&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=864%2C1536&amp;ssl=1 864w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure></div></div>
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		<title>Adélia</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/07/02/adelia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 02 Jul 2023 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 170]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[mulheres fortes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2023/07/02/adelia/">Adélia</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Adélia é o seu nome. Minha tia paterna. Não é fácil dimensionar a força que essa mulher guerreira e batalhadora exerceu e exerce sobre a minha vida e a de toda minha família. Enfermeira, foi a primeira de uma família camponesa e pobre a conquistar um diploma de curso superior, no início dos anos 1980. Saiu da roça para servir aos patrões fazendeiros em Ipanema, no Rio de Janeiro, em plenos anos 1960. Teve a coragem e a dignidade de romper relações com a &#8220;sinhá&#8221; que a humilhou para buscar, sem rumo, outro emprego que pudesse mantê-la na desigual &#8220;Cidade Maravilhosa&#8221;. Continuou trabalhando como doméstica, durante anos, em outra &#8220;casa de família&#8221;, para depois garantir o sustento como camareira num hotel internacional. Tudo isso sem largar o objetivo de estudar. Terminou o antigo ginásio, fez exame admissional para o 2o. Grau e conseguiu bolsa para cursar enfermagem numa faculdade particular. Formada, prestou concurso público federal, sendo logo convocada para assumir o cargo no Hospital da Lagoa e no HCE. Naquela época, o mais difícil era concluir uma faculdade.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&nbsp;<br>Tão logo alcançando a sua estabilidade financeira, tornou-se &#8220;muro de arrimo&#8221; de toda família. O salário que recebia poderia lhe garantir uma vida com muito mais conforto do que tinha, mas a sua generosidade transbordante sempre fez com que uma boa fatia de seus rendimentos fosse gasta com a família. Solteira, dedicou-se aos sobrinhos, à irmã (Irene), que lutou com sérios e dispendiosos tratamentos cardíacos, e aos filhos de uma amiga que morava com ela em Botafogo, e que foram acolhidos como os filhos que a vida lhe deu. Mãe de todas e todos, viveu e vive a vida para cuidar do outro no sentido mais fraterno que essa palavra pode ter: foi babá, doméstica, camareira e enfermeira, profissões que exigem o dom do amor e da dedicação constante ao outro. &nbsp;<br>&nbsp;<br>Minhas memórias de Natal na roça não existem sem ela. Em dezembro, chegava de malas prontas, repleta de presentes, brinquedos, balas, biscoitos de muitas variedades e enfeites de Natal. Fartura pouca, bobagem! Meu 4o. bimestre na escola já insinuava sua presença. Já podia sentir a boa ansiedade me invadir nos últimos meses do ano. Por volta da segunda semana de dezembro, eu e meus irmãos subíamos no alto do morro e aguardávamos o ônibus <em>Belvedere</em> dobrar a curva da estrada, na expectativa de vê-lo parar na encruzilhada logo em frente. A certeza da parada nunca tínhamos, já que não podíamos contar com a informação instantânea que a tecnologia hoje nos traz. No início dos anos 1990, a comunicação na roça era precaríssima: não tínhamos telefone fixo, não tínhamos energia elétrica, muito menos sonhávamos com um &#8220;trem&#8221; esquisito e alienígena chamado celular. Coração saindo pela boca, sentíamos pelo ronco do motor do ônibus que ele, infelizmente, não ia parar. Decepção arrebatadora. Fazer o quê?! Mas a espera continuava&#8230; Até que, na semana seguinte, o &#8220;busão&#8221; finalmente parava&#8230; À parada do motor respondíamos com a descida disparada pelo morro, rumo ao seu encontro. Abraços, beijos, malas e sacolas se misturavam. Cheirinho de tia Adélia no ar, estávamos certos de que o clima natalino havia começado.&nbsp;</p>



<p>Tia Adélia passava Natal e Ano Novo lá no sítio. Sua presença significava mudança de rotina: trabalhava ao ritmo das músicas de seu ídolo, o rei Roberto Carlos, introduziu o hábito de montarmos árvore de Natal com galho de goiabeira, limpava e enfeitava com flores a nossa capelinha de Nossa Senhora Aparecida, e realizava as famosas caminhadas matinais pelas estradas de terra esburacadas. Depois dos quarenta, tornou-se amante da atividade física: aprendeu a nadar, nadou na Argentina, começou a correr, etc. Também gostava de visitar os amigos da redondeza. Era uma forma de manter vivo o passado e relembrar as origens mineiras, que nunca se perderam em meio às “carioquices”. Do bom e velho costume mineiro, manteve o herdado de seu avô: rezar o terço. Nas noites de Natal e Ano Novo, sempre fez questão de rezá-lo conosco, com a família reunida na sala. E ainda mantemos essa tradição viva, mesmo nas ocasiões em que não podemos contar com a sua presença.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;<br>Por mais de três décadas, morou numa casa localizada na Vila Santa Clara, na rua São Clemente, em Botafogo (RJ). Há poucos metros da Casa de Rui Barbosa e repleto de casarões antigos, o endereço me fascinava pela inigualável combinação do antigo com o moderno. Como não me lembrar das férias escolares no janeiro carioca? Da minha primeira ida a uma praia, na Praia Vermelha, do bondinho, do pão-de-açúcar, daquele exuberante céu azul, que se confunde com a cor de seus olhos?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>&nbsp;<br>Sempre entusiasta dos meus estudos, guardo carinhosamente as fotos que tirou das minhas formaturas (desde o ensino fundamental). Fotos estas acompanhadas das carinhosas e elogiosas dedicatórias de incentivo, escritas com aquela letra linda e estilosa, que inspirou minha irmã e, depois, a mim. Por ela e por todas as mulheres guerreiras da minha família, eu insisto, persisto e resisto nessa prazerosa e árdua caminhada. Com ela, aprendi que os estudos nos emancipam e nos dão um pouco de dignidade nesse país dominado por uma &#8220;elite do atraso&#8221;, que, diuturnamente, impõe barreiras infinitas para que o pobre não tenha voz e vez. Continuo pobre, mas orgulhoso de minhas origens e das grandiosas pequenas coisas que conquistei com meus estudos. Com ela também aprendi a respeitar, valorizar e exercer com responsabilidade a missão de um funcionário público. Aposentada na compulsória (ou &#8220;expulsória&#8221;, como ela ironicamente diz), dedicou-se com louvor, afinco e amor a essa missão.&nbsp;</p>



<p>A vida lhe foi subtraindo amizades antigas. A aposentadoria lhe tirou a rotina do trabalho diário, que exerceu durante anos e anos, restando-lhe os cuidados com o lar. Lar, novo lar. Não mais em Botafogo, mas na Taquara, onde comprou seu primeiro imóvel. Um apartamento onde vive a sétima década de sua vida, repleta de novos desafios, dilemas e incertezas. Fase de ressignificações, redimensionamentos, nostalgias e mergulhos profundos em um passado remoto, cada vez mais presente em sua mente. Passado vivido e revivido em suas imaginações e reimaginações. Memórias fugidias, passarão, mas vivenciadas com sede de liberdade, passarinhos. Voos livres, mas de rumos incertos, como a vida é. Reflexão que ela soube tão bem expressar numa simples tampa de caixa de remédio – talvez acessando recônditos lugares de sua consciência/inconsciência: “Pássaros lindos, para onde vão?”</p>



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<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center">Envie sua proposta para nossas chamadas para publicação e para exposições!</h3>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31756" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo-1024x258.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31754" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade. Dedica-se a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG). Possui experiência em pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural em museus &#8211; como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos e oficinas. Entre os anos 2022 e 2023, integrou a equipe curatorial de três grandes exposições que reabriram o Museu Mariano Procópio integralmente aos públicos, com novas abordagens historiográficas e narrativas expográficas. São elas: 1. <em>Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação</em>; 2. <em>Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio</em>; 3. <em>Villa Ferreira Lage (ambientação da residência de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX).</em> Desde 2020, atua como escritor da revista <em>Trama Bodoque: arte, cultura e criatividade </em>(ISSN 2764-0639) e, a partir de 2022, também passou a atuar como membro do conselho editorial do referido periódico semanal.&nbsp;</p>
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		<title>Museu Mariano Procópio completa 102 anos integralmente reaberto aos públicos  </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Jun 2023 19:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 169]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Globo News]]></category>
		<category><![CDATA[historia]]></category>
		<category><![CDATA[Jornal Nacional]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Museu Mariano Procópio]]></category>
		<category><![CDATA[Vila Ferreira Lage]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com a inauguração da Villa Ferreira Lage em 31 de maio de 2023, o Museu Mariano Procópio concluiu a terceira e última etapa de sua plena reabertura às cidadãs e cidadãos de Juiz de Fora, de Minas Gerais e de todo o Brasil. Amplamente repercutida nas mídias, a notícia ultrapassou os limites do regional, reverberando no <em>Jornal Nacional</em> e na <em>Globo News</em>. O sucesso de público, que reflete uma demanda reprimida há tempos, foi estrondoso nesse mês de junho: cerca de 2000 pessoas no primeiro final de semana, 1400 no feriado de Santo Antônio e a manutenção dessa média aos finais de semana.&nbsp;</p>



<p>Com uma média dessa de público espontâneo no mês de junho, o Museu Mariano Procópio não poderia ter recebido melhor homenagem pelos seus 102 anos de inauguração oficial pelo fundador Alfredo Ferreira Lage (1865-1944). Em 23 de junho de 2021, quando o equipamento cultural completava seu centenário, suas portas se encontravam fechadas desde março de 2020, por conta da pandemia de Covid-19. Diante dessa circunstância, que inviabilizou a utilização da Galeria Maria Amália e de suas salas contíguas no primeiro andar do prédio anexo – que eram os únicos espaços físicos então disponíveis à visitação pública desde agosto de 2016 –, não houve alternativa, a não ser organizar uma programação virtual, através da realização de lives, vídeos e postagens no canal da instituição no You Tube e nas redes sociais.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Vale destacar que a restauração da Villa, iniciada em 2009, teve cerca de 70% de seus trabalhos finalizados no final do ano 2019, permitindo que, em janeiro do ano subsequente, os técnicos da instituição realizassem diversas visitas mediadas de grupos agendados e espontâneos a todos os cômodos da edificação. O objetivo era refletir sobre os usos sociais do espaço no século XIX e nas décadas que se sucederam, demonstrando a dinamicidade e a mutabilidade do espaço, os bastidores do processo de restauração e as camadas do tempo descortinadas pelos restauradores. Juntamente com as visitas mediadas, os servidores também prepararam, na Galeria Maria Amália, a mostra <em>“Retalhos do Passado: histórias (des)encobertas pelo restauro da Villa”</em>, por meio da qual os visitantes tiveram oportunidade de visualizar registros fotográficos e fragmentos arqueológicos encontrados durante esse meticuloso processo de restauração.&nbsp;</p>



<p>Com o advento da pandemia do coronavírus, em março de 2020, as visitas mediadas ao espaço tiveram que ser interrompidas abruptamente. Passado esse interregno de dois anos, a nova gestão municipal sinalizou, em junho de 2022, para um processo de gradual reabertura de toda a edificação histórica. A partir de então, começaram os preparativos para o início da primeira etapa do processo, que envolveu a reabertura do primeiro pavimento do prédio anexo, com uma exposição alusiva aos duzentos anos da Independência do Brasil. A referida exposição, inaugurada em 7 de setembro de 2022 e intitulada <em>“Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação”</em>, foi montada entre os meses de julho e agosto do mesmo ano, tão logo a equipe foi informada de que o Museu Mariano Procópio figuraria na lista de aparelhos de cultura do município que participariam das comemorações do bicentenário.&nbsp;</p>



<p>A segunda exposição, intitulada<em> “Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio”</em>, foi montada em fevereiro de 2023 e inaugurada em 3 de março do mesmo ano. O percurso narrativo, constituído de dez salas no total, narra a história e os diferentes aspectos do colecionismo de Alfredo Ferreira Lage e do Museu Mariano Procópio, explorando as seguintes temáticas: as diferentes facetas da trajetória de Alfredo Ferreira Lage; a concepção de “gabinete de curiosidades” que norteava a formação intelectual de caráter enciclopédico de suas coleções; a influência feminina no perfil colecionista do fundador; o projeto de perpetuação das memórias do Império Brasileiro; as mudanças e permanências no perfil colecionista da instituição após a morte de Alfredo e a posse de sua sucessora, a diretora Geralda Armond, que geriu o museu por 36 anos (1944-1980); e, por fim, diversas reflexões sobre o papel do museu na contemporaneidade, como a incorporação de memórias, narrativas e identidades plurais sobre os povos originários de origens indígena e africana e a abordagem dos afrodescendentes como personagens históricos e atores sociais ativos na construção da história do Brasil. Nesse sentido, também se sinalizou para a importância de o museu ser visto como espaço não-formal de educação e produtor de conhecimentos multidisciplinares – inclusive, no campo da conscientização ambiental.&nbsp;</p>



<p>Enquanto isso, a montagem da Villa Ferreira Lage foi realizada entre os meses de abril e maio, com o objetivo de criar a ambientação de uma casa de veraneio de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX. Composta de dois pavimentos com 14 cômodos e um porão semi-enterrado, a composição do circuito expositivo foi realizada em tempo recorde, logo após a Prefeitura Municipal de Juiz de Fora finalizar os detalhes que faltavam na pintura das paredes de alguns cômodos.&nbsp;</p>



<p>A equipe curatorial responsável pela concepção expográfica e montagem do circuito expositivo dessa edificação oitocentista, bem como das outras duas exposições, é formada por três historiadores (Sérgio Augusto Vicente, Rosane Carmanini Ferraz, Priscila da Costa Pinheiro), duas museólogas (Alice Colucci e Vera Vargas), um conservador-restaurador (Aloysio Gerheim) e um supervisor de Museologia (Eduardo de Paula Machado). Em menos de um ano, a referida equipe – que contou com o apoio operacional dos servidores de outros departamentos da instituição – conseguiu conceber intelectualmente e montar três grandes e novas exposições, atendendo à demanda de reabertura integral do museu aos públicos. É importante destacar que não se trata apenas de uma mera “remontagem” do circuito expositivo, mas da construção de novas estruturas narrativas pautadas em renovações historiográficas e museológicas desenvolvidas nas últimas décadas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Uma das várias novidades trazidas pelas narrativas das exposições é a transformação do porão em espaço expositivo aberto à visitação pública. E não apenas isso: vale destacar a importância de sua ressignificação como espaço dedicado às artes e à reflexão sobre os “mundos do trabalho”. No bojo desse movimento, o objetivo central consistiu em lançar luz sobre as vozes silenciadas da história, cujas memórias sofreram processos de apagamento e silenciamento pelos discursos hegemônicos da classe senhorial e da sociedade patriarcal.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não há provas empíricas ou evidências históricas para afirmar, veementemente, que o porão cumpria a função de senzala. No entanto, sabe-se que a escravidão, fazendo-se presente na sociedade brasileira do século XIX, sobretudo entre as famílias da elite aristocrática, também se fez presente naquele espaço de trabalho, desde os mais elementares cuidados com a casa e o armazenamento de mantimentos, até a preparação das refeições posteriormente servidas na luxuosa mesa da sala de jantar.&nbsp;</p>



<p>Esteve longe de ser fortuita, nesse sentido, a escolha do poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, de autoria de Bertolt Brecht, para figurar na entrada do porão. O poema participa da exposição no momento em que o público se sente impactado pelo contraste entre o mundo da riqueza, do status e da sofisticação visualizado nos dois pavimentos superiores, com a rusticidade, a segmentação e o isolamento propiciados por aquele espaço.&nbsp;</p>



<p>Nesse sentido, <em>“Quem construiu Tebas?” </em>– questionamento presente no poema de Brecht – equivaleria à pergunta “Quem construiu a Villa, carregou seus tijolos, suas pedras e dela cuidou para que esse patrimônio subsistisse às intempéries da história?”. Tais questionamentos não servem apenas para refletirmos criticamente sobre o passado, mas, sobretudo, para pensarmos no tempo presente, quando nos perguntamos sobre quem restaurou as paredes daquela edificação e sobre quem trabalhou arduamente para que aquele espaço fosse reaberto à população. Por isso, além da ficha técnica ter sido exposta no porão, as paredes de diversos cômodos serviram de suporte para registros fotográficos dos trabalhos dos restauradores.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O porão se transformou, ainda, em espaço para expor os registros fotográficos de participantes de um concurso de fotografia amadora recentemente promovido pela instituição, intitulado “Olhares sobre o Museu Mariano Procópio”, no qual se podem apreciar, por exemplo, as miradas poéticas dos Srs. Itauan Alves dos Santos e Renato Silva, dois trabalhadores atuantes na segurança e manutenção do parque que circunda aquela edificação. Tudo isso contribui sobremaneira para fortalecer o sentimento de pertencimento de funcionários e representantes das comunidades ao espaço visitado.&nbsp;</p>



<p>Por fim, o porão oferece aos públicos uma sala audiovisual, convidativa a um breve repouso, após longa jornada de visitação por dezenas de salas. Nesse espaço, atualmente se pode assistir a um filme com diversas imagens digitalizadas de uma película produzida no Museu Mariano Procópio nos anos 1930/1940, pelas mãos e olhares do cinegrafista amador Arthur Tavares Machado. Além de assistirem aos personagens históricos em movimento – como Alfredo Ferreira Lage, Geralda Armond e vários outros –, os visitantes podem observar detalhes de objetos exibidos no circuito expositivo daquela época, muitos dos quais figurando nas exposições atualmente em cartaz na instituição, possibilitando estabelecer comparações entre presente e passado quanto à forma de expor esses objetos.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Apesar dos inúmeros desafios enfrentados na montagem das exposições, devido à necessidade de utilização criativa dos recursos de que se dispunha na instituição, a equipe curatorial conseguiu entregar três exposições cujas narrativas e conteúdos estão em consonância com as demandas da chamada museologia social, que se pauta na busca de reflexões críticas sobre os objetos, os processos históricos, suas ambiguidades, contradições e conflitos. Além disso, foi possível&nbsp; escapar, em diversos sentidos, de narrativas canônicas, que se dedicavam ao culto personalista aos chamados “grandes vultos” da história oficial brasileira, à linearidade de uma narrativa tripartite da história do Brasil, que “congelava” a trajetória dos povos originários e afrodescendentes em determinado período e recorte temático da história – como o período colonial e a escravidão, por exemplo.&nbsp;</p>



<p>A reabertura integral do museu aos públicos é, sem dúvida, um momento histórico; não isento, é claro, de grandes desafios enfrentados e que ainda estão por vir. Montar três grandes exposições em menos de um ano apenas foi possível graças a todo o trabalho prévio relacionado à pesquisa, ao estudo, à conservação e à comunicação do acervo por parte da diminuta equipe que compõe o Departamento de Acervo Técnico. Produção de instrumentos de pesquisa (como levantamentos, inventários e catálogos), conservação preventiva, produção de artigos para revistas acadêmicas e de divulgação científica, organização e processamento técnico do acervo, bem como o auto-investimento dos servidores em capacitação (cursos de curta e média duração, pós-graduação lato senso, mestrado e doutorado) e várias outras atividades realizadas ao longo dos últimos anos, são trabalhos “silenciosos”, feitos nos bastidores, de forma gradual, mas que se mostraram imprescindíveis à construção e maturação de conhecimentos e saberes necessários à tecitura de novas narrativas e interpretações dos objetos no espaço museal. Um espaço vivo, mutável, que nunca pode se conformar com os papéis de “cofre” e “templo”, mas crescer cada vez mais como “museu-fórum”, de debates democráticos e de construção coletiva de novos e múltiplos conhecimentos.&nbsp;</p>



<p>Para<em> “Rememorar o Brasil”</em> através do Museu Mariano Procópio, é preciso cuidar, zelar e estimular a formação de uma enorme e infinita trama de “Fios de Memórias”, da qual fazemos parte como cidadãos e cidadãs antenados em pensar projetos de sociedade que articulam presente, passado e futuro como uma grande “tenda” em que entrem todos – rememorando aqui o poema <em>“Tecendo a manhã”</em>, de João Cabral de Melo Neto, plotado numa das paredes da instituição. No entanto, nada disso faz sentido se a luta presente e futura não tiver como objetivo construir condições para que a instituição se mantenha de portas abertas e com a potência e a robustez necessárias para continuar cumprindo seu papel social.&nbsp;&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">chaves&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">trancadas&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">portas&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">abertas&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">memórias&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right">encadeadas&nbsp;</p>



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<figure class="wp-block-image alignwide size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="713" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?resize=950%2C713&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31584" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?resize=600%2C450&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?resize=1200%2C900&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/6-1.png?w=1344&amp;ssl=1 1344w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



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<p><strong>S</strong>érgio Augusto Vicente</p>



<p>Doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade. Dedica-se a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG). Possui experiência em pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural em museus &#8211; como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos e oficinas. Entre os anos 2022 e 2023, integrou a equipe curatorial de três grandes exposições que reabriram o Museu Mariano Procópio integralmente aos públicos, com novas abordagens historiográficas e narrativas expográficas. São elas: 1. <em>Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação</em>; 2. <em>Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio</em>; 3. <em>Villa Ferreira Lage (ambientação da residência de uma família da elite senhorial brasileira do século XIX).</em> Desde 2020, atua como escritor da revista <em>Trama Bodoque: arte, cultura e criatividade </em>(ISSN 2764-0639) e, a partir de 2022, também passou a atuar como membro do conselho editorial do referido periódico semanal.&nbsp;</p>
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		<title>Festa na Floresta</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/05/21/festa-na-floresta/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 21 May 2023 18:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 164]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto e Vinícius Ribeiro</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Era dia de Natal. Os animais da floresta estavam tristes. Eram tempos difíceis: sem presentes e sem almoço, não viam meios de comemorar aquela data tão especial! </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="780" height="824" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/1-1.jpg?resize=780%2C824&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30715" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/1-1.jpg?w=780&amp;ssl=1 780w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/1-1.jpg?resize=284%2C300&amp;ssl=1 284w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/1-1.jpg?resize=768%2C811&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/1-1.jpg?resize=600%2C634&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 780px) 100vw, 780px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Porém, por volta das dez horas da manhã, algo muito curioso aconteceu por ali. A Senhora Girafa avistou um cintilante raio de luz caindo na direção da gruta que ficava há alguns metros dali.  </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="776" height="828" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/2.jpg?resize=776%2C828&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30716" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/2.jpg?w=776&amp;ssl=1 776w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/2.jpg?resize=281%2C300&amp;ssl=1 281w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/2.jpg?resize=768%2C819&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/2.jpg?resize=600%2C640&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 776px) 100vw, 776px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Com seu pescoço comprido, a Senhora Girafa gritou o Sr. Leão, o rei da floresta, que imediatamente ouviu o eco de sua voz por entre as copas das árvores e correu ao encontro de sua amiga. Os dois decidiram chamar os animais da floresta para um passeio até a gruta.  </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="864" height="744" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/3.jpg?resize=864%2C744&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30717" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/3.jpg?w=864&amp;ssl=1 864w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/3.jpg?resize=300%2C258&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/3.jpg?resize=768%2C661&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/3.jpg?resize=600%2C517&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 864px) 100vw, 864px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="904" height="712" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/5.jpg?resize=904%2C712&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30720" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/5.jpg?w=904&amp;ssl=1 904w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/5.jpg?resize=300%2C236&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/5.jpg?resize=768%2C605&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/5.jpg?resize=600%2C473&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 904px) 100vw, 904px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>E assim aconteceu: de repente, a égua, o veado, a galinha, o coelho, o elefante, a cigarra, a preguiça, o besouro, o macaco, a galinha, o cachorro, a borboleta, a vaca e até o rato atenderam à ordem da dona Girafa e do Sr. Leão.  </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="912" height="704" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg?resize=912%2C704&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30719" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg?w=912&amp;ssl=1 912w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg?resize=300%2C232&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg?resize=768%2C593&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/6.jpg?resize=600%2C463&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 912px) 100vw, 912px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Em pouco tempo, todos compareceram à famosa gruta. Lá chegando, avistaram uma linda fada, acompanhada de um grande cesto de bambu cheio de coisas misteriosas. O pano que o cobria os impedia de ver o que havia ali dentro, aguçando ainda mais suas curiosidades. </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="800" height="800" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/7.jpg?resize=800%2C800&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30721" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/7.jpg?w=800&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/7.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/7.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/7.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/7.jpg?resize=600%2C600&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 800px) 100vw, 800px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>“Vim aqui presenteá-los, meus queridos!”&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A alegria foi geral. Dona cigarra não parava de cantarolar, a galinha cacarejava sem parar, o macaco dava saltos de alegria e a preguiça corria para lá e para cá (imaginem só a Dona Preguiça correndo!).&nbsp;</p>



<p>“Vou começar a distribuir os presentes!”&nbsp;</p>



<p> A fada, de olhos fechados, enfia a mão dentro da cesta e pega o primeiro presente. </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="668" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/4-1.jpg?resize=950%2C668&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30722" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/4-1.jpg?w=956&amp;ssl=1 956w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/4-1.jpg?resize=300%2C211&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/4-1.jpg?resize=768%2C540&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/4-1.jpg?resize=600%2C422&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>“Eis que essa régua eu dou pra Dona Égua”.&nbsp;</p>



<p>Logo em seguida, veio o outro presente: “Para o Sr. Coelho, dou este espelho.”&nbsp;</p>



<p>“Este cadeado eu dou para o… Adivinhem!”&nbsp;</p>



<p>&nbsp;“Acertou quem disse veado!”&nbsp;</p>



<p>“Já este pão eu dou para o…”&nbsp;</p>



<p>“Acertou quem disse Sr. Leão!”&nbsp;</p>



<p>“Eis que agora peguei uma jarra, que darei para…”&nbsp;</p>



<p>“Está de parabéns quem disse que é para a Dona Cigarra!”&nbsp;</p>



<p>“E esta garrafa? Darei para quem?”&nbsp;</p>



<p>“Toma que é sua, Dona Girafa!”&nbsp;</p>



<p>“Agora, tenho nas mãos uma caneta, que vai para…”&nbsp;</p>



<p>“&#8230; para a Senhorita Borboleta, é lógico!”&nbsp;</p>



<p>“E esta linguiça? Dou para quem?”&nbsp;</p>



<p>“Ahhh! Certamente, é para a Dona Preguiça!”&nbsp;</p>



<p>“E este lindo gorro?”&nbsp;</p>



<p>“Segure aí, Sr. Cachorro!”  </p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="808" height="792" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/8.jpg?resize=808%2C792&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30723" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/8.jpg?w=808&amp;ssl=1 808w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/8.jpg?resize=300%2C294&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/8.jpg?resize=768%2C753&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/8.jpg?resize=600%2C588&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 808px) 100vw, 808px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>“Presentearei o próximo sortudo com este lindo e precioso tesouro, que vai para…”&nbsp;</p>



<p>“É claro! O Sr. Besouro!”&nbsp;</p>



<p>“E, agora, tenho nas mãos este lindo prato, que darei para…”&nbsp;</p>



<p>“Não poderia ser outro: o Sr. Rato!”&nbsp;</p>



<p>“Eis que ainda tenho este barbante&#8230; Pra quem o darei?”&nbsp;</p>



<p>“É pra você, Sr. Elefante!”&nbsp;</p>



<p>“Já esta linha darei para&#8230;”&nbsp;</p>



<p>“Dona Galinha!”&nbsp;</p>



<p>“E, por último, tenho ainda este caco, que vai para o…”&nbsp;</p>



<p>“Para o saltitante Macaco!”&nbsp;</p>



<p>Além de ser o último a receber o presente, o Macaco não conseguia disfarçar seu olhar desapontado diante do que acabara de ganhar… “Um caco! Logo um caco! Por que um caco? O que farei com um caco?” Perguntava indignado e inconformado.&nbsp;</p>



<p>O Sr. Leão, sabendo do descontentamento do amigo Macaco e de outros companheiros com os estranhos e esquisitos presentes que ganharam, teve uma ideia, que logo comunicou aos amigos:&nbsp;</p>



<p>“Que tal realizarmos uma confraternização natalina na floresta?”&nbsp;</p>



<p>“Mas como, Sr. Leão, se não temos onde cair mortos?”&nbsp;</p>



<p>“Pois eu me disponho a repartir o meu pão.”&nbsp;</p>



<p>“Mas isso não dá nem pra tapar o buraco do dente, Sr. Leão!” Gritaram todos.&nbsp;</p>



<p>“Não seja por isso! Reparto a minha linguiça!” Disse a Sra…&nbsp;</p>



<p>“Agradecido, Dona Preguiça! Mas, ainda assim, é muito pouco&#8230;”&nbsp;</p>



<p>“Então eu ofereço parte do meu tesouro pra comprarmos mais alimentos!” Disse o…&nbsp;</p>



<p>“Já podemos fazer a lista de compra?!” Apressou-se a decidida e organizada Dona Vaca.&nbsp;</p>



<p>“Mas cadê a caneta?!” Perguntou a Galinha.&nbsp;</p>



<p>“Ora! Pegue a minha emprestada!” Disse a…”&nbsp;</p>



<p>“E com que cortaremos a linguiça e o pão?” Perguntaram a Preguiça e o Leão.&nbsp;</p>



<p>“Mas esse não é um problema! Empresto a minha faca”. Disse a…&nbsp;</p>



<p>“Tudo bem! Mas e o prato?” Questionaram todos.&nbsp;</p>



<p>“Não seja por isso! Empresto o meu.” Disse o Sr…&nbsp;</p>



<p>E a água fresca da bica, onde colocaremos?” Perguntou a Dona Égua.&nbsp;</p>



<p>“Empresto a minha garrafa!” Disse a…&nbsp;</p>



<p>“E o suco? Onde colocaremos?” Perguntou a Preguiça.”&nbsp;</p>



<p>“Empresto a minha jarra e pronto!” Disse a…&nbsp;</p>



<p>“Alguém tem uma toalha para cobrir a mesa?” Perguntou dona Cigarra.&nbsp;</p>



<p>“Eu tenho, mas está rasgada!” Disse a dona Vaca.&nbsp;</p>



<p>“É só costurar! Empresto-lhe a minha linha&#8221;. Disse a…&nbsp;</p>



<p>“Ah! Mas pra festa ter graça, precisamos enfeitar a mesa e a gruta e pendurar alguns ramalhetes de flores.” Sugeriu a vaidosa Dona Galinha.&nbsp;</p>



<p>“Pois empresto-lhes o meu barbante para amarrá-los!” Disse o…&nbsp;</p>



<p>&#8220;Mas eu só quero ver se aquela mesa caberá neste cantinho da gruta!&#8221; Exclamou o Sr. Rato.&nbsp;</p>



<p>&#8220;Ora pois! Pra que serve a minha régua?!&#8221; Respondeu a&#8230;&nbsp;</p>



<p>Com a mesa toda arrumada, faltava pouco para o início do lanche.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Agora, vamos nos arrumar, bicharada!” Disse o Sr. Leão, ajeitando a sua linda juba.&nbsp;</p>



<p>“Mas como vou me embelezar, se eu não posso me ver?” Resmungou a Dona Borboleta.&nbsp;</p>



<p>“Pode deixar que eu lhe empresto o meu espelho!” Disse o…&nbsp;</p>



<p>“E eu, que não sei o que fazer com esse vento nojento que zumbe no meu ouvido?! Isso não está bom!”&nbsp; Reclamou a preguiçosa Dona Preguiça, com voz de enguiço.&nbsp;</p>



<p>“Tome aqui o meu gorro!” Mostrou-se solícito o…&nbsp;</p>



<p>Dona Vaca, enjoada como só ela, dava os toques finais na arrumação da mesa. Um problema ainda a incomodava: a mesa, toda cambeta, balançava-se inteirinha, ameaçando derramar o suco sobre a toalha.&nbsp;</p>



<p>“Um dos pés precisa de um pequeno apoio pra tudo ficar perfeito.”&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Não seja por isso! Quebrarei o galho! Empresto-lhe o meu caco!” Disse o…&nbsp;</p>



<p>Dona Vaca logo enfiou o caco embaixo do pé da mesa e tudo ficou resolvido. Finalmente, puderam dar início aos comes e bebes. E, com a contribuição de todos, o Natal pôde ser comemorado com muita fartura e alegria.&nbsp;</p>



<p>“Mas pera aí!” Alguma coisa preocupava o Sr. Besouro: “Como vamos guardar a outra parte de nosso tesouro para organizarmos as próximas confraternizações?!”&nbsp;&nbsp;</p>



<p>“Não seja por isso! Empresto-lhe o meu cadeado!” Disse o…&nbsp;</p>



<p>E, assim, todos terminavam aquele dia satisfeitos, pensando na organização do próximo festejo.&nbsp;</p>



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<figure class="wp-block-image size-full is-style-rounded"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="835" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/Foto_Sergio-autor-2.jpg?resize=950%2C835&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30610" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/Foto_Sergio-autor-2.jpg?w=960&amp;ssl=1 960w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/Foto_Sergio-autor-2.jpg?resize=300%2C264&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/Foto_Sergio-autor-2.jpg?resize=768%2C675&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/Foto_Sergio-autor-2.jpg?resize=600%2C528&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>VINÍCIUS RIBEIRO (ilustrador)</strong>&nbsp;</p>



<p>Jornalista mineiro. 36 anos. Atuou como como assessor de comunicação na Fundação Museu Mariano Procópio. Atualmente, trabalha como diretor de comunicação da Prefeitura Municipal de Matias Barbosa (MG). Além da sua carreira no jornalismo, com a produção de textos, foto, vídeo, entrevistas e conteúdo para rádio, já ilustrou diferentes materiais para campanhas na área de saúde, entre outras iniciativas. Aprendeu a desenhar ainda pequeno com o seu pai, e desenvolveu o gosto pela arte por meio de sua madrinha, a professora de Artes e artista plástica matiense, Arlete Gernevan.&nbsp;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><strong>SÉRGIO AUGUSTO VICENTE (autor da estória)</strong>&nbsp;</p>



<p>Sou doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade, com habilitação em Patrimônio Histórico. Dedico-me a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Atualmente, escrevo sobre a trajetória biográfico-literária do escritor mineiro Belmiro Braga (1872-1937). Sou professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG) e, atualmente, atuo na Fundação Museu Mariano Procópio desenvolvendo pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural – como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos, oficinas e produção audiovisual. As exposições “Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação” e “Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio” são meus dois últimos trabalhos curatoriais concluídos, em parceria com outros profissionais das áreas de História e Museologia. Sou colaborador da revista “Trama” desde 2020, na qual publico ensaios, textos históricos, crônicas, contos e poemas.&nbsp;</p>
</div>
</div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/7EC7yPVRK5Zra9LrSTb1wL?si=qoJJIBynQ_2pOfYDqgBZrQ"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-29026" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background wp-block-heading">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Peça à Dilma, vagabundo!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 May 2023 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 163]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[brasilidade]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>15 de outubro de 2015. O calor carioca começa cedo. Logo às sete da manhã, coloquei-me de pé.&nbsp; Havia combinado de curtir a praia com minha tia naquele domingo. Atravessamos a São Clemente, em direção à Casa de Rui Barbosa. Embarcamos no primeiro ônibus para Ipanema. Tomamos um regenerante banho de mar. Uma hora e meia de sol foi mais do que suficiente para enrubescer nossas peles. O dermatologista proibira-lhe sol. O astro-rei já lhe castigara mais do que devia. As numerosas sardas denunciavam os longos anos de exposição solar. Arrumamos tudo e tomamos o caminho de volta para casa.&nbsp;</p>



<p>Caminhamos até o calçadão, sacudimos a areia dos pés e nos vestimos. Atravessamos a Avenida Vieira Souto, a Rua Prudente de Morais e, por último, a Visconde de Pirajá, com destino à Barão da Torre. Linda rua, largos passeios, longos trechos arborizados. Enquanto conversávamos, minha tia apontava o indicador para o majestoso prédio de seus ex-patrões, relembrando os tempos em que trabalhava numa de suas fazendas, no interior de Minas, quando foi chamada – ainda novinha &#8211; para morar com eles, num quartinho de empregada da zona sul, na década de 1960. Minha tia sempre faz questão de evocar essa experiência. Mas narra com caneta de ponta grossa e camada espessa de tinta a parte da história da qual mais se orgulha: quando tomou a intrépida decisão de se desvincular dos laços senhoriais e procurar, aleatoriamente, um novo emprego na metrópole. A patroa, após uma rápida saída do apartamento, sem avisar, deixando o filho dormindo no quarto, ao retornar, depara-se com ele “vomitado” na sala: “Como você não viu?! Te coloco para fora daqui, hein!”&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Dito e feito: “Se é assim, já saio de uma vez!” Arrumou as trouxas e partiu, sem rumo: voltar para Minas, para a casa em que os pais moravam e trabalhavam, na fazenda dos patrões? Ou arriscar outro emprego naquela grande cidade? A segunda opção lhe parecia a mais provável, embora não soubesse exatamente por onde começar&#8230; O fato é que ela se instalou em casa de outros patrões, trabalhou em um hotel internacional, dividiu apartamento com amigos em Ipanema, concluiu os antigos ginásio e científico e conseguiu, a trancos e barrancos, formar-se enfermeira no início dos anos 1980, quando foi aprovada em concurso e nomeada em dois cargos federais em sua área profissional. Funcionária pública, estável e com um salário muito melhor, continuou fazendo aquilo de que sempre gostou: cuidar das pessoas. Foi mais ou menos nessa época que se mudou com uma amiga e um amigo para a Villa Santa Clara, em Botafogo, onde morou até pouco tempo depois de fazermos esse passeio em Ipanema.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Pois bem! Voltemos ao fatídico 15 de outubro de 2015. Tudo parecia muito harmônico e bucólico. O céu azul convidava à contemplação da natureza. A Cidade Maravilhosa, com sua inesgotável exuberância, jamais deixa de encantar os olhos dos transeuntes. Algumas senhoras caminhavam sob as sombras das árvores, moças passeavam com seus cachorros. Uma “ilha de silêncio” numa urbe frenética. Lá no alto do morro, a comunidade de Cantagalo marcava sua presença, contrastando as paredes desnudas de suas casas com as imponentes fachadas dos prédios de Ipanema.&nbsp;</p>



<p>Caminhamos mais um pouco e chegamos à estação General Osório. Decidimos retornar de metrô para Botafogo. Descemos a escada e seguimos na esteira rolante até o guichê. Um garoto negro, de mais ou menos dez anos de idade, pedia esmola: “Uma moedinha, por favor”. Uma senhorinha, que seguia com as mãos repletas de sacola de supermercado, esforçava-se para tirar do bolso o último trocado da feira de domingo e colocar em prática sua caridade diária. Enquanto isso, um senhor ao lado, de camisa polo, com a revista <em>Veja </em>na mão, não hesitava em destilar seu mau-humor: “Vai pedir à Dilma, vagabundo!” Como se não bastasse, ainda recriminava e intimidava os que doavam. Eu e minha tia, estarrecidos, titubeamos: “Damos a esmola ou não damos?” A multidão atrás impacientava-se. Não houve tempo para sequer procurar alguma moeda na bolsa, no bolso ou na carteira. Fomos literalmente arrastados para frente, sem ao menos conseguirmos mirar os olhos perdidos daquele garoto. Parti com aquela voz estúpida e violenta ecoando em minha cabeça. Não tinha a dimensão do quanto aquele eco cresceria, cresceria, cresceria&#8230; e se transformaria em estrondosas explosões&#8230;&nbsp;</p>



<p></p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Sou doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade, com habilitação em Patrimônio Histórico. Dedico-me a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Atualmente, escrevo sobre a trajetória biográfico-literária do escritor mineiro Belmiro Braga (1872-1937). Sou professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG) e, atualmente, atuo na Fundação Museu Mariano Procópio desenvolvendo pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural – como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos, oficinas e produção audiovisual. As exposições “Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação” e “Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio” são meus dois últimos trabalhos curatoriais concluídos, em parceria com outros profissionais das áreas de História e Museologia. Sou colaborador da revista “Trama” desde 2020, na qual publico ensaios, textos históricos, crônicas, contos e poemas.&nbsp;</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background wp-block-heading">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Aldravias: Experimentações(III) </title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/05/07/aldravias-experimentacoesiii/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 07 May 2023 18:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 162]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Aldravia]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">ponte&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">futuro&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">pinguela&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">passado&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">buraco&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">presente&nbsp;</p>



<p>Você sabe o que é <strong>Aldravia</strong>? Em linhas gerais, é um gênero poético minimalista composto de apenas seis versos univocabulares. O vocábulo “aldravia” é uma junção das palavras aldrava (objeto utilizado para bater em portas) + via (que sugere a ideia de movimento). Atualmente, esse gênero literário está prestes a ser reconhecimento oficialmente como patrimônio cultural imaterial do Estado de Minas Gerais. Para saber mais sobre o assunto, leia o artigo que <strong>Andreia Donadon</strong>, uma das fundadoras desse movimento, escreveu para a revista “Trama” em 2021:  &nbsp;</p>



<p><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/03/28/movimento-de-arte-aldravista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">MOVIMENTO DE ARTE ALDRAVISTA &#8211; Revista Trama (artebodoque.com)</a>&nbsp;</p>



<p></p>



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</div>



<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Sou doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade, com habilitação em Patrimônio Histórico. Dedico-me a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Atualmente, escrevo sobre a trajetória biográfico-literária do escritor mineiro Belmiro Braga (1872-1937). Sou professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG) e, atualmente, atuo na Fundação Museu Mariano Procópio desenvolvendo pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural – como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos, oficinas e produção audiovisual. As exposições “Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação” e “Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio” são meus dois últimos trabalhos curatoriais concluídos, em parceria com outros profissionais das áreas de História e Museologia. Sou colaborador da revista “Trama” desde 2020, na qual publico ensaios, textos históricos, crônicas, contos e poemas.&nbsp;</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background wp-block-heading">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



<p>Agora você pode divulgar seus<strong> produtos, marca e eventos</strong> na Trama em todas as publicações! </p>



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		<title>Aldravias: experimentações (II)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Apr 2023 18:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 161]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Aldravia]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[poesia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center">terra&nbsp;<br>plana&nbsp;<br>mentes &nbsp;<br>quadradas&nbsp;<br>redondos &nbsp;<br>enganos&nbsp;</p>



<p>Você sabe o que é <strong>Aldravia</strong>? Em linhas gerais, é um gênero poético minimalista composto de apenas seis versos univocabulares. Para saber mais, leia o artigo que <strong><em>Andreia Donadon</em></strong>, uma das fundadoras desse movimento, escreveu para a revista “Trama” em 2021:&nbsp;&nbsp;&nbsp;</p>



<p><a href="https://revistatrama.artebodoque.com/2021/03/28/movimento-de-arte-aldravista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">MOVIMENTO DE ARTE ALDRAVISTA &#8211; Revista Trama (artebodoque.com)</a>&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Sou doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade, com habilitação em Patrimônio Histórico. Dedico-me a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Atualmente, escrevo sobre a trajetória biográfico-literária do escritor mineiro Belmiro Braga (1872-1937). Sou professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG) e, atualmente, atuo na Fundação Museu Mariano Procópio desenvolvendo pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural – como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos, oficinas e produção audiovisual. As exposições “Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação” e “Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio” são meus dois últimos trabalhos curatoriais concluídos, em parceria com outros profissionais das áreas de História e Museologia. Sou colaborador da revista “Trama” desde 2020, na qual publico ensaios, textos históricos, crônicas, contos e poemas.&nbsp;</p>
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		<title>Aldravias: experimentações</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 23 Apr 2023 18:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 160]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Sérgio Augusto Vicente</p>
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<p class="has-text-align-center">luto&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">substantivo&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">militar&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">adjetivo&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">brazil&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-center">oprimido&nbsp;</p>



<p></p>



<p>&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></p>



<p>Sou doutorando e mestre em História, Cultura e Poder pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bacharel e licenciado em História pela mesma universidade, com habilitação em Patrimônio Histórico. Dedico-me a estudos na área de história social da cultura no período correspondente à segunda metade do século XIX e às décadas iniciais do século XX, com ênfase nos seguintes temas: associativismo, sociabilidades, trajetórias, história intelectual, história social da literatura, memória, arquivos e coleções bibliográficas e documentais. Atualmente, escrevo sobre a trajetória biográfico-literária do escritor mineiro Belmiro Braga (1872-1937). Sou professor efetivo de História da Prefeitura Municipal de Juiz de Fora (MG) e, atualmente, atuo na Fundação Museu Mariano Procópio desenvolvendo pesquisa histórica, processamento técnico de acervo e difusão cultural – como curadorias de exposições e mostras, palestras, minicursos, oficinas e produção audiovisual. As exposições “Rememorar o Brasil: a Independência e a construção do Estado-Nação” e “Fios de Memória: a formação das coleções do Museu Mariano Procópio” são meus dois últimos trabalhos curatoriais concluídos, em parceria com outros profissionais das áreas de História e Museologia. Sou colaborador da revista “Trama” desde 2020, na qual publico ensaios, textos históricos, crônicas, contos e poemas.&nbsp;</p>
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