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	<title>Arquivos Memória - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Fotografia, Memória e Ficção &#8211; Um Triângulo Amoroso</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Oct 2023 18:53:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 183]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: André Dias Vieira </p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2023/10/01/fotografia-memoria-e-ficcao-um-triangulo-amoroso/">Fotografia, Memória e Ficção – Um Triângulo Amoroso</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A exposição <em>“Fotografia, Memória e Ficção &#8211; Um Triângulo Amoroso”</em>, abrange o conjunto de obras que compõe a minha pesquisa de Mestrado em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2020-2023). Trata-se da produção de uma série de trabalhos associativos que, independentemente dos procedimentos empregados (apropriação, fotografia, vídeo, objeto, livro de artista), dialogam com as relações estabelecidas entre os conceitos de fotografia, memória e ficção, metaforizando essas possíveis relações tal qual um triângulo amoroso. As obras produzidas derivam de estudos que articulam reflexões e tensionam o modo de pensar, o tempo e o espaço na arte contemporânea, discorrendo sobre questões de registro, afeto e invenção, não apenas como uma forma de refúgio ou escape da realidade, mas como uma afinação do olhar para a vida enquanto potência poética.</p>



<p> Durante a minha pesquisa de mestrado, busquei relacionar os conceitos de fotografia, memória e ficção partindo de trabalhos artísticos que envolvem desde séries fotográficas a filmes de curta-metragem, produzidos por mim a partir da reconstrução de narrativas visuais feitas por outras pessoas em outros tempos. Procurei utilizar a natureza inventiva e imprecisa da memória e da ficção, para entrecruzar as estruturas que ambas possuem em comum, como, por exemplo, o ato de contar histórias e de produzir imagens mentais a partir de fotografias. Neste sentido, ao desenvolver a produção artística destes trabalhos, enquanto elementos de pesquisa, tive como objetivo analisar e investigar as possíveis diferenças e proximidades que podem ser estabelecidas entre a memória e a ficção, entre aquilo que vemos e aquilo que acreditamos ver em uma fotografia. Afinal, que movimentos poéticos seriam possíveis de operar em uma produção artística, para relacionar os conceitos de fotografia, memória e ficção? Memória e ficção são conceitos que podem ser tensionados por limites que os fazem recorrer aos mesmos elementos, sejam eles de caráter inventivo ou de algum fato. Uma memória quase sempre é a reelaboração de um pensamento, uma produção de algo que se ajusta ao fato ocorrido conforme a capacidade de compreensão atual do sujeito, enquanto a ficção pode ser vista como algo criado a partir da reelaboração de pensamentos feita pela memória. Ambas não podem ser consideradas iguais, mas podemos dizer de certa forma, cultivadas em um mesmo terreno composto de tempo e espaço. A criação de histórias geradas a partir de fragmentos de memórias, de narrativas visuais feitas por outras pessoas por fotografias do passado, parte de uma estratégia de garimpo utilizada por mim para a documentação de trabalho. A arqueologia realizada em primeira instância, remete ao modo de observação do trabalho e dos possíveis caminhos que ele pode seguir, a contar daquele momento. Tudo o que determinada fotografia pode despertar na memória de quem a observa e que vem acompanhada das referências pessoais deste observador, é levado em consideração para o desenvolvimento de uma posterior produção plástica ou escrita. A percepção relacionada às estruturas de pensamento organizadas pelas pessoas que relatam os “fatos”, desprendidos de suas memórias aos observar tais fotografias, levam-me a conduzir o trabalho por um caminho de dúvidas e experimentações, tanto práticas quanto teóricas. Utilizo isso que poderia parecer uma instabilidade, como um vaivém que derruba as paredes que tentam ocultar o que existe por trás de cada fotografia. Nas fotografias existe muito mais do que uma imagem e, geralmente, existem significações que nascem décadas após a produção das mesmas. Há tempos que me encanta a prática de colecionar fotografias antigas que por algum motivo me atraem, seja pela data de registro, cores, composição imagética, dados históricos, ou pelas informações contidas em anotações feitas nestas fotografias. Não me interessam os arquivos digitais disponíveis em bancos de imagens na internet. Prefiro as imagens físicas, as fotografias reveladas, que por um determinado tempo serviram para os seus donos como uma espécie de memorial, como um desejo de congelar o tempo e carregá-lo consigo para o futuro, tentando guardar as lembranças dos momentos vividos na época em que aquele registro foi feito. Interessa-me também, na minha pesquisa, esse tipo de obscuridade dada a determinadas imagens que, guardadas, perdem-se na memória de quem as possui. Assim, a exposição que recebe o mesmo título da dissertação, apresenta esses trabalhos que serviram como elementos de pesquisa, como obras de arte que pretendem dialogar com o olhar subjetivo do espectador, tentando colocar em evidência questões de registro, afeto e invenção e que, talvez, possam servir como disparadores, como um meio de reflexão poética da própria vida.</p>



<p>&nbsp;</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="950" height="583" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=950%2C583&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-33929" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=1024%2C628&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=300%2C184&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=768%2C471&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=1536%2C941&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=2048%2C1255&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=205%2C126&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=480%2C294&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=2000%2C1226&amp;ssl=1 2000w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=600%2C368&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?resize=1200%2C735&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/04.png?w=1900&amp;ssl=1 1900w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /><figcaption class="wp-element-caption"><strong><em>Fronteira da paz,</em></strong> 2021. Livro.</figcaption></figure>
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<figure class="wp-block-image size-large is-style-rounded"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=950%2C950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-33873" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=1536%2C1536&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=2048%2C2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=40%2C40&amp;ssl=1 40w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=275%2C275&amp;ssl=1 275w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=205%2C205&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=480%2C480&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=2000%2C2000&amp;ssl=1 2000w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=600%2C600&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=1200%2C1200&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?resize=800%2C800&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/10/Andre-Dias-Vieira-Andre-Dias-Vieira.jpg?w=1900&amp;ssl=1 1900w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>
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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>André Dias Vieira</strong> é artista visual e pesquisador, Mestre em Poéticas Visuais no Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formado com Láurea Acadêmica no Curso de Graduação em Artes Visuais: Licenciatura pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. Sua linha de pesquisa investiga os desdobramentos da imagem, com ênfase nos temas de fotografia, memória, narrativas visuais, ficção e literatura. </p>



<p><a href="https://www.instagram.com/andredvieira/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">andredvieira&nbsp;</a></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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<figure class="aligncenter size-large"><a href="https://www.youtube.com/c/BodoqueTV/featured"><img loading="lazy" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=576%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-26890" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=576%2C1024&amp;ssl=1 576w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=768%2C1365&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=864%2C1536&amp;ssl=1 864w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure></div></div>
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		<title>Instantes Guardados</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Dec 2022 18:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 004, N 152]]></category>
		<category><![CDATA[Artes Visuais]]></category>
		<category><![CDATA[cultura arte]]></category>
		<category><![CDATA[fotografia]]></category>
		<category><![CDATA[Instante]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Bruno Perela</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nas entrelinhas das ruas, há de se encontrar poesia. Não estou falando de pequenas estrofes gravadas em muros cinzas, falo de instantes: a matéria prima da poesia. Diante a uma sociedade com olhos anestesiados, deixamos de notar o mundo que nos envolve e desenvolve, por outro lado, a fotografia me permitiu colecionar instantes, me permitiu ver o mesmo rio, mais de uma vez. Na rua, mora um pouco de mim, um click e pronto, a eternidade foi posta diante de nós.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="713" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=950%2C713&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-28495" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=1024%2C768&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=300%2C225&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=768%2C576&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=1536%2C1152&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=2000%2C1500&amp;ssl=1 2000w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?resize=600%2C450&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?w=2048&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/1BB89F84-F241-40D4-8F50-E2AAFE7B29DB-Bruno-Perella.jpeg?w=1900&amp;ssl=1 1900w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="634" data-id="28498" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella.jpeg?resize=950%2C634&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-28498" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=1536%2C1024&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=2048%2C1365&amp;ssl=1 2048w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=2000%2C1333&amp;ssl=1 2000w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?resize=600%2C400&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/12/054E8EF5-911C-4B20-94C9-F90C6DCA2CA2-Bruno-Perella-scaled.jpeg?w=1900&amp;ssl=1 1900w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



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<p><strong>Bruno Perella</strong> é ator, fotógrafo, poeta. Artista independente, natural de Guarulhos/SP. Formado pela Teatro Escola Macunaíma, pôde realizar quatro espetáculos. Começa a fotografar em 2017, como uma extensão de sua arte, que ja transbordava pra além dos palcos. Criou o perfil no Instagram @bruno.logia, voltado para postagem das fotografias autorias e por consequência, a sua comercialização.  <a href="https://www.instagram.com/bruno.logia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@bruno.logia </a></p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/Journal"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/11/BLACK-NOVEMBER.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-27776" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/11/BLACK-NOVEMBER.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/11/BLACK-NOVEMBER.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/11/BLACK-NOVEMBER.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/11/BLACK-NOVEMBER.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/11/BLACK-NOVEMBER.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Tem promoção na nossa loja virtual!</em><br><em><strong>Clique na imagem para conferir!</strong></em></figcaption></figure>


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		<title>MUSEUS, MEMÓRIAS E POESIA: A ARTE DA ESCUTA E DO “ESTRANHAMENTO”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 17 Jan 2021 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 003, N 074]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[museu]]></category>
		<category><![CDATA[Museu Mariano Procópio]]></category>
		<category><![CDATA[poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">A “poética dá novas existências aos objetos, abrindo outras percepções”. Com essa frase, Francisco Régis Ramos define a importância do olhar poético para a reconfiguração de sentidos dos objetos no contexto museológico. Sabemos que não há exposição “inocente” ou “imparcial”. Como afirma Ulpiano Meneses, “o museu não reproduz a vida, ele é parte da vida, atendendo às nossas necessidades de representação.” Acontece, porém, que discursos e narrativas podem se tornar perenes e cristalizados, tendo o poder de naturalizar, enquadrar e engessar olhares, transformando a mensagem em “verdade absoluta e imutável”.</p>



<p>Aqueles acostumados a frequentar museus sabem que não é raro observar objetos que permanecem, durante gerações, ocupando o mesmo lugar dentro de um circuito expositivo. Os espaços convencionalmente chamados de “museus históricos” (há muito, marcados por sacralizações de objetos e personagens “célebres” através de narrativas canônicas e laudatórias) são ainda – com exceções, é claro – os mais refratários às mudanças.</p>



<p>Ramos defende que a arte de provocar “estranhamentos” é um dos pré-requisitos fundamentais para que os objetos despertem novas reflexões e conhecimentos no público, mostrando-se um caminho bastante fértil e potente para retirar o interlocutor do lugar de passividade que muitas vezes lhe é reservado. Há de convir, entretanto, que não é tarefa fácil desarraigar um objeto icônico de seu lugar consagrado, do “enquadramento de memória” que lhe foi designado, para submetê-lo a um processo de ressignificação. Esse esforço, além de implicar questionamentos de “verdades estabelecidas” (tão caras às estruturas de poder consolidadas), quase sempre retira o público de sua “zona de conforto”, despertando reações pouco ou nada generosas.</p>



<p>No entanto, por mais canônica que seja a narrativa envolta em um determinado objeto, a recepção da mensagem não compreende um processo mecânico ou unívoco. Apesar da existência de um núcleo narrativo duro e coletivamente compartilhado, aparentemente imutável, que perpassa as percepções de cada indivíduo acerca de determinado objeto exposto, é quase sempre possível entrever valiosas variações nesse processo comunicativo. Afinal de contas, como nos lembra Chartier, nenhum autor é absolutamente eficaz em “ditar&nbsp; tiranicamente o significado” de sua mensagem ao interlocutor, pois cada um se apropria de algo a partir de seu próprio repertório cultural, de suas experiências de vida, valores, etc. Assim, é preciso que os profissionais de museus fiquem atentos às variadas recepções e apropriações de seus públicos.</p>



<p>É mais do que sabido que, para captar as variadas nuances subjetivas do público, os profissionais de museus precisam lançar mão de estratégias de apreensão desses significados. Não há como dispensar, portanto, a capacidade de escutar e observar tudo meticulosamente. Promover ações capazes de estimular a evocação de memórias afetivas do público pode ser um caminho interessante. O concurso de poesia que o Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG) realizou entre os meses de outubro e novembro de 2020 é um exemplo disso. Tendo como tema “Museus e memórias: costurando presente, passado e futuro”, o concurso teve como público-alvo professores de qualquer nível de ensino e estudantes de educação básica, com idade a partir dos 10 anos. Apesar de premiar apenas os três primeiros classificados de cada categoria (professor e estudante), todos os poemas foram declamados em vídeos postados nas redes sociais do Museu, por meio da participação de servidores do MMP e de pessoas atuantes no campo cultural de Juiz de Fora e região. O objetivo foi adensar e/ou reabilitar laços afetivos do público com a instituição, estimulando produções artísticas autorais sobre o tema proposto.</p>



<p>Escritos por professores e estudantes de diferentes faixas etárias, os poemas deixaram entrever variadas concepções de museu e evocaram memórias afetivas que ligam seus autores a diversos espaços e objetos museais. Alguns deles externaram seu repertório de nostalgias, trazendo para o presente um passado relido sob as lentes de um romantismo à Casimiro de Abreu: “Oh! Que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”. Houve quem associou os museus a um passado de realeza, ambiente de “conservação” nos sentidos prático e político da palavra, em que os objetos contemplados são blindados ao toque de quem os observa. Outros explicitaram sua crença na história como “mestra da vida” e nos museus como espaços de consagração de “grandes feitos”, cuja missão é rememorar o passado para impedir a repetição de erros futuros. Por fim, houve ainda os que refletiram sobre a complexidade das narrativas e das memórias arraigadas nos objetos e espaços museológicos: de um lado, os que verbalizaram o entendimento de que as lembranças e os esquecimentos são escolhas e projetos; de outro, mas em sentido convergente e complementar, os que utilizaram a metáfora da trama de um tecido para conectar passado, presente e futuro a uma estrutura dinâmica e não linear. Afinal, é no entrecruzamento dos fios das temporalidades que se forma o “tecido” da história representada nos/pelos museus.</p>



<p>Esse concurso de poesia nos possibilitou, de alguma maneira, acessar experiências e memórias; e mais do que isso: nos permitiu estabelecer uma rede de interlocução de afetos com todos que dele participaram, direta ou indiretamente. Sabemos que isso, por si só, não é suficiente para desconstruir as tais “narrativas canônicas”, engessadas, que tentam aprisionar o público no lugar de “tábula rasa” do conhecimento. Porém, se um dos principais desafios dos museus é provocar reflexões, é plausível reconhecer que nada disso é possível sem uma prévia escuta/observação que aproxime o público para fomentar o diálogo. Mesmo quando o discurso contemplativo parece suplantar a reflexão, as memórias afetivas não deixam de transbordar imaginação, fantasia, encanto, mistério e, é claro, subjetividades.</p>



<p>A tarefa de pensar os museus como espaços de produção de conhecimentos científicos, munidos de ferramentas epistemológicas necessárias à análise crítica de seus objetos e narrativas, não deve e não pode dispensar a potência libertadora da poesia e sua capacidade de oferecer inúmeras possibilidades de experimentação da linguagem e de (re)apresentação dos objetos. Quem disse que poesia e ciência devem percorrer caminhos separados? Como numa fita de Möbius, é a partir de uma interdependente relação entre poesia e ciência que as memórias fluem e voam, que perspectivas, olhares e sensações se metamorfoseiam, que estranhamentos são gerados, que “camisas de força” são rompidas e que janelas se abrem para reflexões, conhecimentos e múltiplas vozes.</p>



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<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>CHARTIER, Roger. <em>Textos, impressão, leituras.</em>In: HUNT, Lynn (org.). A nova história cultural. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.<strong></strong></p>



<p>GUIMARÃES, Manoel Luiz Salgado; RAMOS, Francisco Régis Lopes. (orgs.). <strong>Futuro do Pretérito:</strong> escrita da História e História do Museu. Fortaleza: Instituto Frei Tito de Alencar, 2010.</p>



<p>RAMOS, Francisco Régis. <strong>A danação do objeto:</strong> o museu no ensino de História. Chapecó: Argos, 2004.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong></strong></strong></strong> é Professor de História e historiador. Graduado, mestre e doutorando em História pelo PPGHIS/UFJF. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio – Juiz de Fora – MG. Dedica-se a pesquisas relativas ao campo da história social da cultura/literatura, sociabilidades, trajetórias e memórias.</p>
</div></div>



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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 15 Nov 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 071]]></category>
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		<category><![CDATA[Dia de Finados]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Os símbolos desempenham importante papel no processo de legitimação dos regimes políticos ao longo da história. Na transição do regime monárquico para o republicano no Brasil, no final do século XIX, diversas disputas pautaram a redefinição do repertório simbólico da nação. O processo de escolha da nova bandeira oficial do país, destinada a substituir a bandeira do Império, envolveu intensas batalhas entre concepções políticas distintas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="442" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=950%2C442&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-26174" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=1024%2C476&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=300%2C139&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=768%2C357&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?resize=1536%2C714&amp;ssl=1 1536w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/09/simbolos.png?w=1920&amp;ssl=1 1920w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Na ocasião da Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, pelo menos duas versões de bandeira se inspiraram no modelo norte-americano. Uma dessas versões, atribuída aos sócios do Clube Republicano Lopes Trovão, conservava nas faixas horizontais as cores verde e amarela da bandeira imperial. Esta chegou a ser levada pelos republicanos civis às ruas no dia 15 de novembro e foi hasteada por José do Patrocínio na Câmara Municipal, onde permaneceu até o dia 19. Uma dessas versões também esteve içada a bordo do navio <em>Alagoas</em>, que levou a família imperial para o exílio na Europa, tão logo a monarquia foi derrubada.</p>



<p>Apesar do entusiasmo de muitos republicanos brasileiros pela república estadunidense, a opção por este modelo de bandeira despertou divergências dos republicanos que se orientavam, de um lado, pela experiência revolucionária francesa e, de outro, pela filosofia positivista de Auguste Comte. Entre esses, havia ainda os que defendiam uma bandeira republicana que dialogasse mais fortemente com a tradição monárquica. Segundo Clóvis Ribeiro, Marechal Deodoro “queria manter a bandeira do Império, com eliminação apenas da coroa”. Alguns estudos e projetos de bandeira elaborados nesse período apresentam poucas alterações em relação à bandeira do Império, como é o caso de um projeto de bandeira existente no acervo histórico do Museu Mariano Procópio, em que apenas a coroa imperial foi substituída pelo barrete frígio (vermelho), o famoso símbolo republicano da liberdade na Revolução Francesa.  </p>



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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/5e7e0-imagem-1-1.jpg?w=950" alt="O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é 5e7e0-imagem-1-1.jpg" data-recalc-dims="1"/></figure>
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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/dd736-imagem-2-2.jpg?w=950" alt="O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é dd736-imagem-2-2.jpg" data-recalc-dims="1"/></figure>
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</div>



<p class="has-small-font-size"><em><strong>Imagens 1 e 2</strong> – Projeto de bandeira republicana encontrada no acervo do Museu Mariano Procópio (MG). Fotografia: Sérgio A. Vicente.</em></p>



<div style="height:32px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Dentre os vários modelos de bandeira em disputa naquele contexto, o governo provisório adotou, em 19 de novembro de 1889, a versão que seria considerada a oficial. Trata-se da versão concebida pelos positivistas ortodoxos e desenhada por Décio Villares. Enviada ao governo provisório de Marechal Deodoro da Fonseca por intermédio de Benjamin Constant, a nova bandeira oficial apostou na permanência de elementos da bandeira do Império, como o retângulo verde, o losango amarelo e as estrelas. Da antiga bandeira, foram excluídos apenas os emblemas imperiais, como a cruz, a esfera armilar, a coroa, os ramos de café e tabaco.</p>



<p>Embora considerado um modelo hegemônico – tendo em vista a força política dos positivistas na ocasião – e permanecendo como a bandeira oficial do país até a atualidade, sua aceitação não foi unânime. O lema “Ordem e Progresso”, evocado na divisa que atravessa a esfera azul, dividiu políticos, autoridades e alguns segmentos da sociedade civil: para uns, contrariava o conceito de liberdade atrelado à República e, para outros, significava a imposição de uma doutrina cujos adeptos não compreendiam parte expressiva da sociedade brasileira. A divisa positivista despertava, inclusive, críticas de alguns católicos, que viam nela a exaltação de uma seita “dissidente”. Domício da Gama, por exemplo, chegou a declarar na <em>Gazeta de Notícias</em>, em 16 de março de 1890, que estariam propagando na Europa “o boato de haver o Brasil substituído a religião católica pela positivista”.</p>



<p>Outros críticos da época, como o famoso caricaturista Ângelo Agostini (1842-1910), por diversas vezes publicizaram aspectos da realidade brasileira que consideravam contraditórios e contrastantes ao lema “Ordem e Progresso”, como as velhas mazelas políticas, econômicas e sociais enfrentadas pelo recém-instaurado regime republicano. Uma charge de Agostini, veiculada pela revista <em>D. Quixote, </em>traz algumas impressões sobre essa fase inicial da República brasileira – como se vê na imagem a seguir:</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/8e19f-imagem-3.jpg?w=950&#038;h=725" alt="O atributo alt desta imagem está vazio. O nome do arquivo é 8e19f-imagem-3.jpg" data-recalc-dims="1"/><figcaption><em><strong>Imagem 3 –</strong> Charge de autoria de Angelo Agostini. Revista D. Quixote, 25/11/1895. Acervo do Museu Mariano Procópio. Fotografia: Sérgio A. Vicente.</em></figcaption></figure>



<p>A charge representa a alegoria da República (Marianne) cabisbaixa, montada sobre um burro, em posição contrária à cabeça do animal, puxado por um cabresto, pelas mãos de autoridades brasileiras, em sentido oposto à “Estrada do Progresso”. Na mão esquerda de Marianne, a bandeira positivista “ostenta” em sua divisa o lema “Desordem e Retrocesso”.</p>



<p>Em 1896, o poeta Correia de Almeida (1820-1905) também não poupou sua verve satírica ao registrar sua “desilusão” com o curso do novo regime e o patriotismo estampado no manto cívico republicano. No livro <em>Produções da Caducidade</em>, o idoso padre-poeta de Barbacena satirizava os “iludidos” com o que entendia como a falsa marcha do Brasil para o progresso:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Inveja eu até que tive somente
de quem crê que o país vai caminhando
a passos de gigante, desde quando
a milícia nos trouxe o bom presente.</em></pre>



<p>O padre-poeta, valendo-se de sua auto-ironia, incorporava a persona de um “velhinho” para expressar todo seu humor cáustico. Não era ele um “sebastianista”, um saudosista da monarquia ou defensor de sua restauração. Padre Correia integrava aquele grupo intelectual que, depois de muita militância abolicionista e críticas às mazelas do Brasil-Império na imprensa, assistia a tudo como um ancião que não “acompanha a brava gente” nem “atende às vozes do comando”, limitando-se a assistir ao “espetáculo” da política brasileira:</p>



<pre class="wp-block-verse has-text-align-right"><em>Agora vem tentar-me de repente
outra inveja maior, e estou banzando,
sem atender às vozes do comando,
e sem acompanhar a brava gente.</em></pre>



<p>A persona do padre-poeta e a Marianne de Agostini, descontentes e desiludidos, parecem arrastados pelas forças do retrocesso, percebendo-se impotentes no empreendimento de qualquer luta ou resistência capaz de transformar a realidade. No entanto, escrevendo ou desenhando, Almeida e Agostini tinham à sua disposição uma única arma: a quixotesca linguagem do humor. Assim como ambos, muitos intelectuais “inconformados” e “desajustados” se valiam do humor como verdadeiro refúgio. E mais do que isso: como chave interpretativa e identitária da nação.</p>



<p>Ironizar, debochar e carnavalizar o ridículo levado a sério poderia parecer para muitos humoristas a arte de parafrasear piadas prontas, em que a “desordem” simula a “ordem”; e o “retrocesso”, o “progresso”. Assim expressava <em>O Malho</em>, em 15 de novembro de 1913, por ocasião dos quatorze anos da Proclamação da República: “O nosso povo anda tão acabrunhado com as dificuldades da sua vida, tão indiferentes às preocupações e gentilezas do mundo oficial, tão enojado pela pressão constante das ratas e gafes de seus dirigentes, tão desesperado por se sentir cada vez mais banido de todos os seus direitos, que só se preocupa em reagir pelo único meio de que o não podem despojar: o riso, a chacota, a esmulambação de todas as <strong>seriedades caricatas</strong>!”</p>



<p>Uma charge de Storni acompanha esse texto da revista. Nessa charge, o autor representa o “Zé Povo” (versão brasileira do personagem “Zé Povinho”, bastante conhecido na revista humorística portuguesa <em>O Antonio Maria</em>), apreensivamente posicionado sobre a esfera azul da bandeira do Brasil, que, não obstante o lema que carrega (“Ordem e Progresso”), encontra-se prestes a rolar ladeira a baixo. Duas mãos misteriosas, porém, seguram-na, impedindo que o desastre aconteça. E, logo abaixo da charge, o texto prossegue: “Embora o Brasil esteja sempre à beira do clássico abismo, não se precipita nele – ou não cai – porque há uma Divina Providência, que sempre o ampara&#8230;” À mercê das forças do imponderável, o “povo” (“Zé Povo”, melhor dizendo) figura no limiar do precipício, desprovido de amparo e assistência em um regime que se auto intitula ancorado nos princípios da ordem e do progresso.</p>



<figure class="wp-block-image"><img decoding="async" src="https://bodoqueonlineart.files.wordpress.com/2021/12/4817c-imagem-4.jpg?w=950" alt="" class="wp-image-12698" data-recalc-dims="1"/><figcaption>Charge de Storni.&nbsp;<em>O Malho</em>, Rio de Janeiro, ano 12, 15/11/1913. Acesso em:&nbsp;<a href="http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=116300&amp;pagfis=25942">Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional</a>. Acesso em: 13/11/20.</figcaption></figure>



<p>Essas não foram, certamente, as únicas representações satíricas das paradoxais relações entre o lema positivista de uma bandeira, seu discurso cívico-pedagógico e a realidade brasileira. Estamos novamente à mercê da própria sorte (ou azar) nesse país. Porém, continuamos “arrotando”, hipocritamente, um lema positivista do século XIX, sem sabermos sua origem e muito menos as divergências e dificuldades de se “costurar” consenso a partir dele, num país tão diverso e plural como o Brasil.</p>



<p>O “patriótico” lema sempre reaparece ao menor sintoma de imunodepressão da democracia. Talvez “reaparecer” não seja o termo mais apropriado, tendo em vista que, desde o momento em que passou a ser professado no Brasil, não apresentou indícios de desaparecimento. Pelo contrário, em circunstâncias específicas, como as que estamos vivendo atualmente, ele tem ganhado maior vitalidade, embora continue não convencendo diversos setores progressistas da política brasileira.</p>



<p>O fato é que, atualmente, o famoso lema se transformou em dilema, estando em alta entre representantes da extrema direita, que não apenas arrogam para si o papel de legítimos patriotas e guardiões da nação, como também monopolizam os símbolos nacionais. Continuamos caminhando sem ordem nem progresso, mas insistindo na permanência de simulacros em meio ao caos: “escolas militares são melhores”; “na ditadura que era bom”; “intervenção militar já”; “a culpa é dos direitos humanos”; etc. Continuamos nos comportando como o “Zé Povo” das páginas da revista <em>O Malho</em>, sonhando com o “fantástico” resgate de uma “ordem” e de um “progresso” que nunca existiram. É esta República que temos a comemorar? Até quando exaltaremos lemas, mitos e messias?</p>



<p>Enquanto isso, a esfera azul não para de rolar. A cada giro, maior o massacre e o nível de tontura&#8230;</p>



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<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>ARAÚJO, Maria Marta. <em>Com quantos tolos se faz uma república?</em> Padre Correia de Almeida e sua sátira ao Brasil oitocentista. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.</p>



<p>CARVALHO, José Murilo de. <em>A Formação das Almas:</em> o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.</p>



<p>RIBEIRO, Clóvis. <em>Brasões e bandeiras do Brasil.</em> São Paulo: São Paulo Ed., 1933.</p>



<p>SALIBA, Elias Thomé. <em>Raízes do Riso: </em>a representação humorística na história brasileira – da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.</p>



<p>VELLOSO, Monica Pimenta. <em>Modernismo no Rio de Janeiro:</em> turunas e quixotes. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1996.</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>No cemitério, uma flor: sobre lembranças e esquecimentos</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Nov 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 069]]></category>
		<category><![CDATA[costumes]]></category>
		<category><![CDATA[Dia de Finados]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde criança, tenho o hábito de visitar cemitério no dia de Finados. Lá em casa, sempre nutrimos carinho pela memória dos mortos, hábito herdado de nossos antepassados. Guardo em um “doce” lugar da memória a minha empolgação para auxiliar minha tia na pintura dos túmulos da família, em Simão Pereira (MG). A cor escolhida era sempre o “azul cor de céu”, apesar da atmosfera tipicamente cinzenta e chuvosa dessa data. Aquela chuva fina e persistente, que cai como lágrimas de Deus a abençoar as almas dos que não mais habitam esse plano, confortando as mentes dos vivos que convivem com as eternas cicatrizes da perda. &#8220;Hoje, o dia está chuvoso como se fosse Finados&#8221;. Até hoje ouço comentários do tipo, sobretudo das pessoas mais velhas.</p>



<p>No entanto, se nesse dia o céu poucas vezes nos sorria com seu azul exuberante, por outro lado, nunca o encaramos como um dia pesado, fúnebre e de tristezas medonhas. A alegria da família reunida, o carinho de minha mãe na colheita das flores no jardim, o prometido picolé comprado no bar ao lado da pracinha após a missão cumprida no cemitério, tudo isso alegrava nossos corações, não obstante a dor da lembrança dos entes queridos que não mais se encontram entre nós.</p>



<p>Hoje, não foi diferente. Apesar de mais rápida, a visita ao cemitério foi regada de flores de todos os tipos. Primeiro, enfeitamos os túmulos dos parentes. Depois, como de costume, passamos por cada sepultura anônima, enferrujada e esquecida pelo tempo, perdida no meio da grama, e depositamos em cada uma delas uma pequena e singela flor. Sempre encarei esse hábito como um pequeno gesto de carinho com a memória alheia, de quem nunca vimos e não sabemos quem foi. Mas, como costume é costume, e desse não abro mão, simplesmente o faço sem muito auxílio da razão. Outro costume, esse sim uma sensibilidade de historiador, é o de ficar contemplando as artes tumulares e lendo epitáfios. A cada ano, uma nova descoberta. Uma poesia aqui, um versículo bíblico ali&#8230;</p>



<p>Algumas sepulturas só conseguem ser contempladas de cabeça erguida. Túmulos arranha-céus, imponentes e pretensamente feitos para a eternidade; outros, por sua vez, só podem ser observados olhando para o chão. Depende do status do cidadão. Afinal, até as necrópoles possuem símbolos de distinção. Hoje, um detalhe me chamou especial atenção: um fragmento de túmulo, uma foto caída ao chão, colada num frio pedaço de mármore. Um suspiro final da memória de um homem. De um homem negro, trajado de terno e chapéu, falecido cem anos atrás (talvez), cujo nome não mais se conhece. Que nome era o seu? Onde nasceu? Que trajetória percorreu? Por que morreu?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/ba84a-finados-2017-tumulo_foto.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12597" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>A vida é assim: não sabemos por que nascemos, quando partiremos e nem para onde iremos. Desconhecemos até mesmo os destinos e usos que farão de nossas memórias. Seremos lembrados ou esquecidos? Condenados ou exaltados?</p>



<p>O defunto-autor Brás Cubas, narrador-personagem do clássico livro de Machado de Assis (1839-1908), &#8220;Memórias Póstumas de Brás Cubas”, diz que &#8220;<em>cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.</em>&#8221; A única certeza que temos é de que a vida só vale a pena quando elegemos o amor como o grande guia dos lugares por onde passamos e de tudo o que fazemos e realizamos. Por isso, depositei essa flor ao lado desse pequeno e pouco notado resquício de tempos pretéritos&#8230; Uma homenagem às memórias de indivíduos que, pelos mais diversos motivos, não são mais consagradas ou celebradas no tempo presente.</p>



<p>Independente da fé e da religião, celebremos nesse dia especial a memória de todos os que pela experiência terrena passaram e agora habitam, quem sabe, o campo imponderável do transcendente.</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Simão Pereira, 02 de novembro de 2017.</em></p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-10 wp-block-columns-is-layout-flex">
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4d2c9-loja-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11599" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/82f24-impressa-2.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11600" data-recalc-dims="1" /></figure>
</div>
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>O &#8220;Cine Palace&#8221; das minhas memórias e “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Oct 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 068]]></category>
		<category><![CDATA[A Terceira Morte de Joaquim Bolívar]]></category>
		<category><![CDATA[Cine Palace]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=12474</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com o fechamento do Cine Palace, na Rua Halfeld, uma fatia importante da cultura juizforana se esvaiu. Um espaço que habita as memórias de muita gente, dentro e fora de Juiz de Fora. A primeira recordação emblemática que tenho desse cinema data do ano 2000, quando, aos 14 anos, começava a desbravar a vida urbana.</p>



<p>Naquele ano, mais especificamente no mês de abril, um menino da zona rural visitava a cidade para assistir ao &#8220;A Terceira Morte de Joaquim Bolívar&#8221;, do diretor Flávio Cândido. O filme, cuja trama se reportava ao período da ditadura civil-militar brasileira, narra a saga de um jovem idealista de esquerda, Joaquim Bolívar, que, na luta e resistência contra a destruição do vilarejo histórico de &#8220;Burruchaga&#8221;, &#8220;morre&#8221; em três etapas da narrativa: as duas primeiras, físicas, no período do golpe civil-militar de 1964 e no contexto da lei da anistia (1979); e a terceira, simbólica e ideológica, na virada das décadas de 1980-1990, remetendo ao momento em que o personagem se vê corrompido pelo capitalismo neoliberal.</p>



<p>O cenário das filmagens abarcou, predominantemente, as regiões de São José das Três Ilhas (distrito de Belmiro Braga – MG) e Simão Pereira (MG). Acompanhei de perto a rotina das filmagens, a presença dos atores Jonas Bloch, Othon Bastos, Antonio Pitanga e outros, no sítio de minha família, em Simão Pereira (MG), nos idos de 1997 e 1998, quando tinha 11 anos. Lembro-me de visitar a barraca verde-amarela instalada pela equipe das filmagens, na extensa baixada existente lá no sítio; de observar a grande bandeira do Brasil, surrada, desbotada e esgarçada, balançando ao ritmo do vento, na ponta de um bambu bem alto, cortado ali mesmo, em nossa propriedade. Lembro-me também das minhas bisbilhotices curiosas de garoto, que, juntamente com minha irmã, Verinha, mexia nas quinquilharias guardadas dentro daquela barraca. Lembro-me do helicóptero sobrevoando nossa casa! Lembro-me dos moleques dos arraiais da redondeza, sentados no alto do morro, assistindo, curiosos, às filmagens. Lembro-me dos atores enfrentando a água fria do chuveiro lá de casa, que ainda não contava com o conforto da energia elétrica! Lembro-me da minha redação sobre o filme, no colégio! Lembro-me de minha outra irmã, Aninha, escondida na barraca verde-amarela, literalmente chorando a derrota do Brasil para a França, na copa de 1998 (seria um presságio?). Lembro-me dos objetos que minha mãe, Nair, emprestou para compor o cenário das filmagens: a lamparina velha, a cadeira de madeira, a centenária chaleira preta e a chapa de ferro antiga, na fornalha improvisada.</p>



<p>Porém, mais importante do que assistir extasiado aos bastidores das filmagens, à movimentação dos atores, dos figurantes e da equipe de produção, foi receber convite para assistir à pré-estreia do filme no Palace, em Juiz de Fora. Um evento célebre. A excepcionalidade do fato me fez guardá-lo com uma saudade &#8220;docemente provinciana&#8221;, como diria Manuel Bandeira. Depois disso, não o vi mais.</p>



<p>Coincidentemente, nesse estranho e apocalíptico ano de 2020, em que as circunstâncias pandêmicas me fizeram aproximar ainda mais das lembranças pessoais, resolvi reabilitar essas memórias: retirei o cartaz do filme da gaveta, coloquei-o numa linda moldura e o pendurei na parede do meu quarto, na roça. E, agora, depois de muito procurar o filme na internet, tive a emoção de me deparar com ele, novamente, diante dos meus olhos. Dessa vez, em tela pequena, é verdade. Uma tela de um <em>notebook</em> que jamais poderia imaginar um dia ter contato.</p>



<p>Mas a emoção, certamente, não foi menor do que aquela sentida no Palace, na virada do milênio. Não posso negar o quão incrível foi poder confrontar as memórias cristalizadas e ingênuas da adolescência com a visão do historiador, adulto, de hoje. Que emoção rever a charrete laranja de meu pai, Tõezinho, que, carinhosamente, conserva e usa até hoje! Que emoção rever nosso cachorro &#8220;Bob&#8221;, o fiel escudeiro do nosso cavalo, &#8220;Sereno”, ambos já em outro plano! Que emoção rever a igreja e os casarões históricos de São José das Três Ilhas! Que emoção rever as paisagens de meu lugar de origem e os objetos carregados de memórias (alguns deles ainda com a minha família)!</p>



<p>Romantismo e saudosismo a parte, é salutar constatar que, vinte anos depois, minhas percepções das críticas políticas, da realidade brasileira, do contexto histórico, das nuances das representações imagéticas, da forma de assistir aos filmes, evoluíram. O ensino médio cursado em Juiz de Fora, a graduação e o mestrado em História na UFJF, a atual experiência de doutorando e minha trajetória profissional como professor e historiador me permitiram desenvolver a maturidade intelectual necessária para perceber muitas coisas imperceptíveis àquela época. Uma delas foi a percepção de que somente um cinema com as características do Palace poderia exibir um filme nacional, de cunho não comercial, como “A Terceira Morte de Joaquim Bolívar”.</p>



<p>Podemos imaginar, portanto, que esse confronto entre presente e passado também trouxe desencantamentos. Hoje, entendo que aquela bandeira do Brasil, surrada, desbotada e esgarçada, posicionada ao lado de uma barraca verde-amarela, não estava ali de maneira fortuita. O Cine Palace, minha referência na linda e longa rua Halfeld do ano 2000, não existe mais. Sucumbiu ao capital. Está oco, ainda que cheio de mercadorias que “alimentam” o consumismo deprimente e insosso da sociedade contemporânea. Por ironia do destino, diante de seu recente desmonte, assistimos a um drama real, em que parte da sociedade juizforana vivenciou, literalmente, a “terceira morte de Joaquim Bolívar”&#8230; Entretanto, mesmo oco, sem mais poder preencher um vazio impreenchível, o Palace estará sempre e umbilicalmente associado a esse momento marcante que acabo de relatar, em que me sensibilizei e despertei para sonhos, vocações e afeições até hoje vivas dentro de mim, através dos livros, da História e das artes. Mas uma inquietação permanece: o que estamos fazendo para que outras gerações tenham essa oportunidade de continuar a sonhar?</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1"/></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Ponte que caiu!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 11 Oct 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 066]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[poema]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/11/ponte-que-caiu/">Ponte que caiu!</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Homenagem póstuma à ponte de Sobragy</em></p>



<pre class="wp-block-verse">No início, eram duas margens de terra
Cortadas por um rio
Depois, com o barulho do trem
irradiando as fagulhas do progresso pelo mar de montanhas das Minas Gerais,
quiseram transpor aquelas águas.
Estávamos sedentos de modernidade.
Queríamos encurtar a busca de novidades na estação.
Sabe aquele novo jornal da capital?
Sim! É verdade!
Tenho que buscar aquela carta trazida pelo vapor!
Mas como transpor aquelas águas?
Não tínhamos asas para sobrevoá-las como pássaros.
Se bem que, se asas não temos,
inteligência não nos falta para inventá-las!
É verdade!
Vem aí o grande invento do brasileiro Santos Dumont!
Afinal de contas, é tempo de uma tal de bela época, <em>Belle Époque</em>, dizem os franceses, né?!
<em>Belle Époque</em> que nada, sô!
Nóis tinha memo que rachar estrada de a pé,
pisando descarço em chão de terra esburacada e
matando cobra com o carcanhar pelo caminho.
Desconfiado!
Sim!
Mineiro é desconfiado!
Desconfiadíssimo!
Cê doido de atravessar aquele rio a nado!
Caminho rápido nem sempre é caminho fácil...
O jeito é buscar o trajeto mais longo para chegar ao arraiá.
Depois de muitas idas e vindas debaixo de sol e chuva, por caminhos longos e tortuosos,
uma estrangeira chegou encantando a todos e todas.
Dizem que ela veio de um lugar “abacana” que só vendo,
chamado “Glasgow”, lá na Escócia.
Isso mesmo!
Só sei que aquele amontoado de ferros,
que, no início, só servia para nos atravessar por caminhos mais curtos (santa modernidade!),
foi conquistando um lugar em nossos corações...
Obrigado, Divino Espírito Santo!
Só você para nos trazer este presente!
Lá do alto da montanha, Ele nos abençoa de sua capelinha!
Essa não há de se “esborrachar” na água
como outrora ocorreu com a antiga ponte de Bom Sucesso!
E, assim, passaram-se 114 anos!
Mais de um século de pé,
aliás, esticada sobre as águas,
como uma velha bailarina,
esguia e elegante,
que nunca parou de dançar e
desafiar as leis da gravidade.
Que gravidade!
Pena que nessas terras ninguém vivo há para nos contar
como foi a sua inauguração...
Ela viveu o centenário da Independência do Brasil!
Cê veja bem, sô!
É... Não parece,
mas tudo nessa vida
pe-
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; re-
&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ce...
Antes de completar o segundo tempo da partida, ela ruiu!
Afogou-se nas águas do Paraibuna!
Desabou antes de ver os duzentos anos de independência que batem em nossa porta.
Ela – como o Brasil – sucumbiu a tantos desgostos.
Divino Espírito Santo que me desculpe, mas vai aí um desabafo:
Ponte que caiu!
Assim como a ponte,
não estamos mais inteiros.
O abandono nos mutilou pela metade...
Será que um dia inteiros voltaremos ser?
Será que um dia reerguida a veremos?
Talvez...
Mas, para que isso aconteça,
antes de inteira vê-la,
há que nos fazermos inteiros novamente...
Nova mente! Mente nova!
Nova mente!
Que as promessas mentirosas não nos sejam travessias.
Que a sua restauração nos encha de alegria.
Que as promessas não sejam vazias.
Que a “velha” nos volte a servir um dia...
Para que, no banquete da esperança,
ela nos combata a ânsia
de um passado comum perder.
Tirar a ferrugem é preciso.
Retalhos de ferro enferrujados,
atados por pingos de solda,
não hão de ter liga!
Se liga!
Ponte para o futuro sim!
Mas cuidado!
Sem pontes para o passado,
perigosas pinguelas para o futuro!</pre>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Pedra, Memória e História</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/09/27/pedra-memoria-e-historia/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Sep 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 064]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Sérgio Augusto Vicente]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Sérgio Augusto Vicente</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/4cf0f-90.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12147" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p>Vejam como as memórias são interessantes. Esta poderia ser apenas uma imagem de natureza para ser contemplada; mas a pesquisa histórica possibilita acessar as diversas camadas do tempo sobrepostas a uma imagem aparentemente banal. Nesse lugar, hoje tomado de mato e com uma frondosa e bela árvore antiga ao lado, havia uma casa onde moraram meus avós paternos, meu pai, meu tio Sebastião e minhas tias. Uma moradia de empregados localizada numa fazenda perto do sítio que minha mãe herdou de suas tias-avós. Tratava-se de uma casa de veraneio construída para&#8230; os patrões que iam passar temporadas na roça, a procura do ameno clima da região.</p>



<p>No entanto, essa pomposa casa, de madeira, vidraças e circundada por uma confortável varanda, acabou sendo posteriormente preterida pelos proprietários, que resolveram mudar a sede para outro ponto da fazenda. Assim, justificava-se a moradia daquela família de pobres e de dependentes para aquele lugar. Nas memórias de infância do meu meu pai e das minhas tias, ficaram eternizadas as lembranças desse período que eu poderia chamar de &#8220;áureo&#8221; (como o nome do médico que a comprou, o Dr. Áureo). Tanto assim o foi que, ao ser demolida para dar lugar a um casebre que, depois de muitos anos, também foi demolido, faziam questão de contrapor esta àquela: &#8220;mas a nossa casa não era essa; era uma casa muito mais bonita e charmosa!&#8221;.</p>



<p>A pedra semi-enterrada, escondida no meio do mato, que podemos observar na foto, pode parecer que &#8220;sempre esteve ali&#8221;. Mas não. Em certo dia de chuva torrencial, a água a fez rolar do pico do morro localizado em frente à casa. A cena, que durou segundos, eternizou-se por anos e anos na memória dos moradores. Minha tia se lembra de todos apreensivos dentro de casa, vendo aquela pedra rolar, em alta velocidade e pressão, praticamente raspando a parede lateral da edificação. A tragédia, que imaginavam ser imensa, felizmente, não passou de pequenos danos, de segundos de aflição que foram suficientes para se perpetuarem em suas memórias.</p>



<p>Enfim, a pedra rolou, os moradores sobreviveram, mudaram-se dali, a casa se esvaiu com o tempo, um casebre foi construído no mesmo local, que, por sua vez, também foi demolido. Entretanto, a pedra continua no mesmo lugar, ali pertinho da árvore frondosa que a reverencia. Interessante, não é? Mas esse episódio não seria hoje reabilitado, se, décadas depois, a memória não se tornasse, para mim, objeto da história. Caso contrário, essa imagem não continuaria tendo o significado simbólico que continua tendo para a nossa família. Com toda a sua beleza e importância, a pedra continuaria sendo simples pedra, a árvore sendo simples árvore e o terreno, esvaziado da presença humana &#8211; percepção certamente compartilhada por todos aqueles que por ali passam hoje, com exceção dos que ali moraram. Tudo muito lindo e importante do ponto de vista ecológico, mas vazio de histórias e narrativas que desvelam a interação do ser humano com o espaço que o circunda.</p>



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<p><strong>Sérgio Augusto Vicente</strong> é bacharel, licenciado, mestre e doutorando em História pela UFJF. Dedica-se ao estudo da história social da cultura no Brasil, abrangendo temas como trajetórias individuais e de grupos, sociabilidades, associativismo, história intelectual, história social da literatura, acervos documental e bibliográfico, patrimônio cultural, memória e educação. Professor de História e historiador. Atualmente, trabalha no Museu Mariano Procópio (Juiz de Fora – MG).</p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/b6aad-fotos-carol.jpg19.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-6960" data-recalc-dims="1" /></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>O Brasil e o autoritarismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 19 Jul 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 054]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História do Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Intelectuais]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[Poliana]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://atomic-temporary-162935141.wpcomstaging.com/?p=11034</guid>

					<description><![CDATA[<p>por:  Poliana Vieira Côrtes Lopes</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-drop-cap">As relações dos intelectuais com a estrutura de poder do Estado brasileiro, sempre foi algo extremamente imbricado e complexo. Ao longo da história política do Brasil, Esses atores sociais frequentemente se atribuíram a função de &#8220;agentes da consciência e do discurso&#8221;, como afirma Mônica Pimentel Veloso, em seu artigo “Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo”, parafraseando Foucault. A autora continua sua análise afirmando que, em consequência da estrutura patriarcal, autoritária, e até a sua condição como país periférico, o Brasil, apesar do grande número de pessoas sem instrução, acaba reforçando esse tipo de prática em representações corriqueiras como falar em nome dos “<em>destituídos de capacidade de discernimento e expressão, foi facilmente absorvido pelo intelecto brasileiro.</em>” (VELLOSO, 1997)</p>



<p>Nos momentos de mudanças históricas intensas ou crises profundas, as elites intelectuais brasileiras marcaram presença no contexto político, defendendo o direito de interferirem no processo de organização nacional. Nesse sentido, é possível perceber esse tipo de ação em vários momentos históricos.</p>



<p>Logo após a Independência do Brasil, quando estava em andamento a construção do projeto da Jovem Nação, os intelectuais agiram como guias sentindo-se inspirados pela ideia nacional. Através de seus capitais culturais e intelectuais, possuíam o objetivo de promover a autovalorização do país. De acordo com Lilia Schwarcz era uma tarefa grandiosa, pois uma nova constituição seria redigida e uma história teria que ser inventada para o “novo” país.</p>



<p>Anos mais tarde, na transição do regime imperial para República, os intelectuais novamente assumem o posto de bastiões do Brasil, com o objetivo de guiar o país à modernização. Munidos do conhecimento científico buscavam remodelar o Estado, lutando contra a incapacidade teórica e administrativa dos políticos.</p>



<p>As consequências do pós-guerra se fazem sentir na década de 1920 brasileira. Dentre seus vários efeitos, destaca-se a decadência do mito cientificista, e o ideal cosmopolita de desenvolvimento cede seu lugar ao credo nacionalista. A busca pelo ideal de brasilidade, resgatado das raízes da pátria estão no foco das preocupações intelectuais. É possível lembrar de como a arte e a literatura influenciaram o país nesse momento.</p>



<p>Com esses três exemplos expostos de maneira geral, fica clara a constituição da identidade dessa classe de indivíduos, que, historicamente, buscaram se distinguir da sociedade.</p>



<p>Já no Estado Novo (1937-1945), a matriz autoritária de pensamento, que confere ao Estado o poder máximo, vai delinear formas mais definidas. A partir daí, as mais distintas elites passam a identificar o Estado como o cerne da nacionalidade brasileira. “Se, historicamente, a construção do nacionalismo vinha se constituindo em uma das preocupações fundamentais dos intelectuais, agora eles passariam a situar a sua tarefa no domínio do Estado”(VELLOSO, 1997)</p>



<p>No período acima citado, podemos analisar a relação entre o Estado e os intelectuais a partir de fontes bastante ricas, pois há uma profunda inserção deste grupo social na organização político-pedagógica do regime. Isso se deve ao fato de que tais membros da classe intelectual, se empenharam em popularizar e disseminar as ideologias do governo. As estratégias de socializar a doutrina política vigente, trazendo-as para o cotidiano da população, foram desenvolvidas e aplicadas, principalmente, pelo Ministério da Educação e Departamento de Imprensa e Propaganda &#8211; DIP.</p>



<p>Por outro lado, antes que o Brasil presenciasse a ascensão do regime autoritário disseminando sua base ideológica com ajuda da classe intelectual, é interessante lembrar que desde o início dessa breve República, vários períodos de exceção interromperam o curso de um Estado Democrático. Foi assim no período da República militar de Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1894) que governaram com parte do período presidencial sob estado de sítio. De igual modo, Artur Bernardes, nos anos 20, teve em quase todo o seu mandato o estado de sítio instalado. Também na ditadura do Estado Novo (1937-1945), quando as estratégias de convencimento da população começaram a ser modificadas, como foram citadas acima. E, amais adiante, de 1964 a 1985, tivemos o fenômeno do golpe militar integrando esse contexto.</p>



<p>Sendo assim, é interessante pensar em algumas características do governo de Getúlio Vargas a partir de uma perspectiva integrada à história política e social do Brasil, bem como do contexto internacional da época para entender que o golpe de Estado foi defendido como uma “reação” às ameaças comunistas que supostamente tomariam o poder. A base do modelo fascista de governo, em geral, ganhou força historicamente em virtude do medo dessa ameaça, tonando necessário o surgimento de um salvador, capaz de  tirar o país do risco iminente. Por esse motivo, mito da nação e do herói nacional, foram plenamente utilizados na implantação de regimes antidemocráticos, não só no Brasil, mas em vários países do mundo.</p>



<p>Um dado relevante para alimentar essa discussão encontra-se em uma citação, fora desse contexto, no plenário da constituinte de 1946.&nbsp; Gilberto Freyre afirma: “o passado não foi, ele continua”. Infelizmente tal afirmação se apresenta como uma incômoda realidade, tendo em vista que o Brasil, em pleno 2020, vive outro capítulo dessa história de exceções, com a constante ameaça ideológica autoritária engendrada no alto escalão da governança brasileira, perpetrada  por uma guinada conservadora e reacionária, como destaca Lilia Swhwatrcz em seu livro: <em>O autoritarismo brasileiro</em>.</p>



<p>Sendo assim, é possível afirmar que é profundamente&nbsp; necessário conhecer esse passado político brasileiro para entender como as classes de intelectuais fizeram parte da história dessa nação. A ação dessa classe, a favor ou contra os governos, se colocando como influencia para a população desprovida de instrução, por muitas vezes é capaz de enraizar ainda mais uma carga de subserviência e inaptidão, que tem o potencial de encaminhar o país para a normalização de ataques à democracia e ascensão de lideres e ideologias autoritárias. Por outro lado, com a educação, a ciência e a cultura sob constante ataque, precisamos entender que a resistência à esses processos políticos e sociais é algo sensivelmente difícil. Como disse Millor Fernandes: “O Brasil tem um enorme passado pela frente”.</p>



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<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Poliana </strong></strong></strong></strong></strong></strong>Vieira Côrtes Lopes</strong> é formada em artes pela UFJF, é professora, especializada em restauração e mestranda no PPG de Patrimônio da Fiocruz do Rio de Janeiro e sócia da Instituição Cultural Bodoque Artes e Ofícios.</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



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		<title>Tolkien: convite para lutar a boa luta</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Jun 2020 21:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 050]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Julio Cesar Conejo]]></category>
		<category><![CDATA[Memória]]></category>
		<category><![CDATA[tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Tolkien]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Júlio César Conejo</p>
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<h3 class="wp-block-heading"><strong>I &#8211; Tolkien, filho de seu tempo</strong></h3>



<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;“Que é que diz o farfal das folhas?”</em><br>Riobaldo, “Grande Sertão: Veredas”</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Descobri que minha arma é o que a memória guarda (&#8230;)&#8221;</em><br>Milton Nascimento e Fernando Brant – “Saudade dos Aviões da Pan-Air”</p>



<p>É comum usarmos irrefletidamente a expressão “aquela pessoa estava a frente de seu tempo”. Ora, ninguém pode estar a frente de seu próprio tempo, das condições materiais de seu tempo histórico. Toda obra, que não se separa da vida que a produz, recebe influências de sua época, das condições materiais dadas no tempo em que foi escrita. Tais influências existem ainda que o autor beba da própria história, ainda que o autor consiga <em>pensar no mesmo nível dos mitos</em>, como é o caso da vasta obra de J.R.R. Tolkien (1892-1973).</p>



<p>Como muitos jovens que habitaram o mesmo tempo que o dele, principalmente na Europa, Tolkien tomou parte na barbárie, olhou a escuridão de frente e voltou, transformado, profundamente marcado no corpo e, em simultâneo, na mente. Voltou, transformado como só como um soldado entrincheirado pode voltar, da terra da sombra, da visão da morte em escala industrial, filha da fé no progresso, na tecnologia, na busca por lucro. Mais próximo da verdade, então, seria dizer que <em>a época em que cada ser humano vive marca-o indelevelmente</em> e ele, <em>sujeito histórico</em>, também marca sua época.</p>



<p>Quando do nascimento do escritor, poeta e professor John Ronald Reuel Tolkien em janeiro de 1892, na África do Sul, o Império Britânico comandava metade da superfície terrestre e de suas gentes, tal como os mares, armados e guardados por sua Marinha Real, a maior então existente, para afiançar o julgo de suas colônias. Findava um século profundamente marcado por uma revolução dupla: a Revolução Industrial – que deu o tom para os rumos econômicos orientados pelo pensamento liberal burguês -, e a Revolução Francesa – determinante para o pensamento político daquele século (HOBSBAWM, 2007). Ao cabo das Guerras Napoleônicas, o continente europeu entrou em um período de ausências de grandes conflitos em seu território, acompanhado de uma profunda fé na ciência, no progresso, na razão instrumental, no modo de vida moderno e no fogo da indústria, em suma: fé na potência humana de “dobrar” a Natureza, que só seria interrompido em 1914 com a eclosão da Guerra. &nbsp;</p>



<p>Os detalhes sobre acontecimentos dispersos sobre a guerra e dos atos de heroísmo individuais precisam dar espaço para o <em>conhecimento das causas</em> das quais o conflito foi efeito, posto que conhecer algo é conhecer as causas. Nas raízes da guerra que determinou e deu início do longo século XX estão as rixas das grandes potências européias no decorrer do século anterior, estando no centro da questão a expansão colonial para obtenção de matéria-prima e para a ampliação do mercado consumidor das mercadorias produzidas nas metrópoles, matérias-primas e mercados para onde os produtos pudessem ser escorridas, sem o qual o próprio o capital &nbsp;não poderia continuar existindo. <a href="#_ftn1">[1]</a></p>



<p>A forte industrialização que deu sentido à economia britânica no século XIX marcou a ferro e fogo a região de Birmigham, ao norte da Inglaterra, onde a família de Tolkien viveu por quatro anos. Mudaram-se da África do Sul para a Inglaterra após a morte do pai, e a paisagem fabril da cidade causou forte impressão, agradando-o pouco. Com a morte da mãe, aos trinta e quatro anos, vitima de complicações ligadas à diabetes, passou a morar com o irmão na casa de uma benfeitora, Sra. Faulkner, onde conheceu Edith Bratt, sua futura esposa. Em Oxford, travou contato com uma paisagem onde a Natureza pôde ser vista, de perto e devagar, produzindo a si mesma.</p>



<p>Tal qual a maioria dos jovens dos quais era contemporâneo, Tolkien atendeu ao chamado às armas feito por Lord Kitchener (1850-1916), posto que “O País precisava deles” junto ao esforço de guerra. Embarcou para a França em junho de 1916 como segundo-tenente do IIº Corpo de fuzileiros de Lancashire para lutar nas trincheiras na região do Somme. Em novembro do mesmo ano retornou à Inglaterra, acometido de “febre das trincheiras” (CARPENTER, 2019: 358). Donde reside, então, a <em>liberdade</em>, a <em>ação</em> capaz de tornar um singular humano em sujeito histórico em uma época de barbárie? O que pode um corpo/mente defronte ao arado do horror e dos sulcos que ele abre em nós? O que pode nascer dali? A história, então, é apenas um acumulo de tragédias, declínio permanente de uma Idade de Ouro donde o passado sobrevive apenas porque presa em um finíssimo e fragilíssimo fio?&nbsp; Cumpre, como disse Pascal, “trabalhar pelo incerto, ir pelo mar, caminhar sobre uma prancha” (PASCAL, 2001: 36)</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>II &#8211; Decadência e história</strong></h3>



<p class="has-text-align-right"><em>“É triste que nos encontremos só agora, no final. Pois o mundo está mudando: sinto isso na água, sinto isso na terra, e farejo no ar. Não acho que nos encontraremos de novo.”</em><br>Barbárvore, “O Senhor dos Anéis”, p.1040</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; “O sertão está em toda parte.”</em><br>Riobaldo, “Grande Sertão: Veredas”</p>



<p>No prefácio d’O Senhor dos Anéis, Tolkien explicitou suas razões:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>(&#8230;) para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho, especialmente por ser ele fruto de uma inspiração primordialmente linguística, e por ter sido iniciado a fim de fornecer o pano de fundo ‘histórico’ necessário para as línguas élficas. (TOLKIEN, 2014: XIII)</em></p>



<p>Embora o autor tenha, em sua vida e obra, elevado a produção de suas ideias ao nível dos mitos – que são caracterizados pela ausência de qualquer relação com a temporalidade e cuja mensagem dá-se <em>sub specie </em><em>æ</em><em>ternitatis<a href="#_ftn2"><strong>[2]</strong></a>, </em>isto é, aconteceu, acontece e acontecerá eternamente (e por eternidade entenda-se <em>aqui</em> e <em>agora</em>) -, o “fundo histórico” na obra de J.R.R. Tolkien que aparece supracitadamente tem um “sentido” que pode ser visto à distância. Para Tolkien, a motor história da Terra Média é a história da <em>decadência <a href="#_ftn3"><strong>[3]</strong></a></em>, por uma leitura vertical da história, de cima para baixo. A forma com que Tolkien enxerga o movimento da história em seus livros reflete a forma como o próprio autor vê a história da humanidade, da qual era, ele próprio, mestre das antigas tradições do norte da Europa.</p>



<p>Tolkien não era historiador de oficio, embora profundo conhecedor e amante da história. Portanto, não tomou parte das querelas teórico-metodológicas historiográficas. Uma figura que certamente influiu na concepção de história de Tolkien, tanto quanto da intelectualidade inglesa durante a primeira metade do século XX, foi a do historiador profissional Arnold J. Toynbee (1889-1975), também professor, autor do monumental <em>A Study of History</em>, de doze volumes. Para Toynbee, “o conceito de <em>declínio</em> é basilar na história, que se manifesta apenas por ações externas: justiça divina, agressão da natureza, assassinato por outras sociedades. As civilizações suicidam-se. Nesta fase, há uma perda de autodeterminação: rejeita do novo, idolatria do efêmero, autodestruição do militarismo, intoxicação da vitória” (LE GOFF, 2011).</p>



<p>Cronologicamente, a história de Arda, mundo da Terra Média, foi divida pelo autor em Eras, sendo relatados acontecimentos da Primeira à ao início da Quarta Era. A Primeira, narrada n’O Silmarillion, é palco da produção do mundo por <em>Eru</em>, o Único, que em Arda é chamado de <em>Iluvatar</em>, e a partir da criação da canção &#8211; donde surgiu o mundo &#8211; de seus filhos, os <em>Ainuir</em>, os Sagradas, <em>gerados por seu pensamento</em>, e do surgimento das raças dos elfos e dos anões e dos homens (TOLKIEN, 2006: 3). A história da <em>Grande Guerra do Anel</em>, narrada n’O Senhor dos Anéis, situa-se ao cabo da Terceira Era até o advento do retorno do Rei, marco do início da Quarta Era. No desenrolar dos eventos da obra, finíssimos fios que ligam as Eras ao longo tempo podem ser encontrados, dando continuidade e fornecendo causalidades.</p>



<p>Três exemplos destes linhames entre uma luz Idade de Ouro dos Dias Antigos que resiste à escuridão nos tempos da Guerra do Anel são emblemáticos. O primeiro, mencionado n’O Hobbit, são as espadas que a Companhia de Thorin Escudo-de-Carvalho, encontra na caverna dos trolls. São espadas forjadas na Primeira Era, na cidade <em>Gondolin</em> – descrita n’O Silmarillion, por ferreiros élficos guiados pela habilidade de Maeglin (TOLKIEN, 2006: cap. XVI), pensadas para causar horror à orcs com sua simples visão. A espada de Gandalf, <em>Glamdring</em>, tal como a espada de Bilbo, <em>Ferroada</em>, fizeram parte do espólio da Companhia (TOLKIEN, 2002: 42, 51). O segundo exemplo é ligado às figuras de Aragorn, ligados as histórias de Beren Maneta, quem retirou uma das três silmarils, com a ajuda de Luthien, da coroa de ferro de Melkor, o primeiro Senhor do Escuro. Tanto Aragorn quanto Arwen são descendentes diretos do Dias Antigos, dos Homens do Oeste, cuja linhagem parecia diminuir tal qual pequena chama no escuro<a href="#_ftn4">[4]</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/cce15-julio1.jpg?w=950&#038;ssl=1" alt="TN-The_Two_Trees_Doom.jpg" class="wp-image-10415" data-recalc-dims="1" /><figcaption>&#8220;A Perdição das Duas Árvores&#8221;, Ted Nasmith</figcaption></figure>



<p>O terceiro exemplo, mais elucidativo de todos, justamente por relacionar-se à luz: a luz de uma estrela que salva Samwise Gamgi e Frodo na toca de Laracna. É aqui que a capacidade de continuidade em Tolkien é admiravelmente trabalhada. Quando da criação do mundo, duas árvores, as <em>Árvores de Valinor</em>, batizadas de <em>Teuperion</em> e <em>Laurelin</em>, são criadas. Dessas árvores emanam as luzes da Terra Média, correspondentes à luz do Sol e a luz da Lua, antes que esses fossem criados. Melkor, em sua ganância e inveja, destruiu as árvores com o auxílio de Ungoliant, de quem descende Laracna. Com a destruição das Árvores, a única coisa que emitia tal luz eram as gemas de Fëanor, maior de todos os noldor, os elfos-profundos. As gemas foram roubadas por Melkor, tenho assim Fëanor jurado, junto a seus filhos e demais noldor, dentre eles a Senhora Galadriel, que a recuperação das silmarils dar-se-ia a qualquer custo e ao enfrentamento de quem quer que fosse, mesmo que se preciso fosse, com os próprios criadores do mundo. Ao cabo da <em>Guerra da Ira</em>, onde se deu a queda de Melkor e sua expulsão do mundo, as silmarils foram separadas, uma foi lançada ao mar por Maglor, outra foi lançada nas entranhas da terra por Maedhros, e a terceira, utilizada por Eärendil, o Marinheiro<a href="#_ftn5">[5]</a>, foi transformada em estrela, ficando, assim, as gemas legadas separadamente ao mar, à terra e ao céu. Assim sendo, a única luz remanescente das luzes das Árvores de Valinor foi transposta em estrela, a Estrela Eärendil, a mais amada pelos elfos, de quem a Senhora Galadriel retira luz e entrega à Frodo como presente quando da partida, da sociedade do anel, de Lorien.</p>



<p>Assim sendo, a luz que o Samwise, o Corajoso, apresentou-a contra Laracna na escuridão de sua toca quando toda a esperança havia minguado, é a própria luz de uma silmaril, a de Eärendil, portadora da luz de Teuperion e Laurelin, revelando-se a si mesma.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/06/c1445-julio2.jpg?w=950" alt="TN-Shelobs_Retreat.jpg" class="wp-image-10416" data-recalc-dims="1" /><figcaption>&#8220;A Retirada de Laracna&#8221;, Ted Nasmith</figcaption></figure>



<p>Houve um tempo em que a ciência História levava em conta apenas documentos oficiais, produzidos por instituições governamentais, voltadas aos grandes feitos e à admiração dos vultos de grandes figuras; em suma: uma história exclusivamente política. Era tido como objeto da ciência História o que estava relacionado ao exercício do poder e do funcionamento da burocracia; logo, os documentos mais confiáveis eram os oficiais. Durante o século XX, a concepção do que pode ser considerado como documento, como indício da passagem do homem no tempo, transformou-se radicalmente: documento histórico é toda a produção humana no decorrer do tempo. Em Tolkien, a história parece ser a expressão da luta de uma chama para manter-se viva diante de uma tempestade e é da persistência da chama que depende a sobrevivência da luminosidade. Se é assim que a história de fato se desenvolve, não vem ao caso, aqui. Os enredos de Tolkien se passam, ao fim e ao cabo, dentro de nós, na realidade da mente, arquetipicamente, e nem por isso menos real. Enfrentar A Sombra é tarefa difícil e imprescindível. Coragem.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>III Imaginação, intuição, liberdade</strong></h3>



<p class="has-text-align-right"><em>“Voltar quase sempre é partir para outro lugar”</em><br>&#8211; Paulinho da Viola</p>



<p class="has-text-align-right"><em>&#8220;Literatura é o fragmento dos fragmentos;</em><br><em>Do que aconteceu e foi dito escreveu-se o mínimo,</em><br><em>e restou o mínimo do que se escreveu.&#8221;</em><br>&#8211; Goethe, “Os anos de aprendizado de Wilhem Meister”</p>



<p>Tudo começa por causa dos afetos. Não se é livre por suprimir os afetos, o que é impossível, mas é-se livre graças a eles. Tolkien não teria produzido “O Senhor dos Anéis”, tampouco Guimarães Rosa teria feito brotar “Grande Sertão: Veredas”, sem um profundo <em>amor</em> pela linguagem. Tudo começa pelos afetos: foi a <em>pena</em> que Bilbo sentiu por Gollum que impediu espada de matá-lo e tendo, com isso, ajudado “moldar o destino de todos” (TOLKIEN, 2014: 61).</p>



<p>Acerquemo-nos brevemente, a guisa de ilustração, de Winston Smith, protagonista do &#8220;1984&#8221; de George Orwell. No único ponto de sua casa que é livre da perspectiva do <em>Grande Irmão</em> que vigia todos os membros do Partido, 24h, Smith escreve em um caderno, de forma truncada, lenta e que vai, gradativamente, tomando forma e intensidade. Escreveu, mesmo com o constrangimento do Grande Irmão e das vicissitudes da vida; escreveu mesmo tendo clareza de que o simples fato dele possuir um caderno era perigosíssimo, que o desejo misturado com medo de escrever já era, por si só, um crime. O que importa é o instante preciso do aqui e agora em que se escreve, instante de fuga da esperança e do medo: aqui e agora. Se isso causará o fim do regime do Grande Irmão, não importa: o que importa é o <em>ato</em> de colocar no papel o descontentamento, o desamparo, dar forma ao desconforto que existe. &#8220;Manter-se firme e livre por dentro&#8221;, aconselhou Stephan Zweig; criar uma fortaleza dentro de si, nas palavras de Ralph Waldo Emerson. Cumpre comunicar o que quer que seja, da forma que seja, para alguém que não se sabe quem, o que há dentro, dar materialidade à ideia, não menos real por ser pensamento.</p>



<p>Não há entre nós, partes humanas da Natureza, quem não deseje viver mais, sem ser impedido nem constrangido, delimitado. E é aqui que reside a frustração maior de nosso tempo histórico: a aceitação da condição de seres que duram, que atravessam o tempo, por ele atravessados e significados. Não há o que possamos fazer para impedí-lo: vivia-se, envelhecia-se e morria-se antes de chegarmos aqui. Daí esse gosto amargo na boca, esse luto sempre, posto que há perda sempre. &nbsp;Bom mesmo é agir, aqui e agora. E só é possível agir aqui e agora. Mesmo o conhecimento das causas de um evento passado deve, necessariamente, partir do presente em direção a eles, ou seja, ao passado e ao evento para, enfim, voltar ao presente, onde sentimos e experimentamos seus efeitos. Não temos escolha e <em>liberdade não é livre-arbítrio</em>:</p>



<p class="has-text-align-right"><em>A liberdade humana é a aptidão ou potência para o múltiplo simultâneo que segue da necessidade da natureza da mente e do corpo na duração, e da potência do intelecto, na eternidade. (CHAUÍ, 2016: 600)</em></p>



<p><strong>Livre, então, é quem age, isto é, produz a própria vida a partir de si mesmo</strong>: a potência de quem age aqui e agora. Isso não nega o passado, posto que é algo feito graças a ele. A memória &#8211; individual e coletiva &#8211; é uma condição necessária, mas não suficiente, para o exercício da <em>ética</em>, ou seja, o <em>exercício da liberdade e da responsabilidade</em>. Memória que liberta, que é ferramenta da autonomia; memória que aprisiona, serve para que sirvamos. Marcas, em ambos os casos, e condições da nossa finitude. Posto de outra maneira: um agente histórico, aquele que produz e é produto do seu tempo histórico através da força com que deixa marcas no mundo ao mesmo tempo em que é marcado por ele, <em>tanto mais tem potência para mudar o rumo dos acontecimentos de seu contexto histórico quanto mais estiver na companhia de outros</em>, também agentes. Potência é não isolamento; potência é comunicar-se e <strong>a coisa mais preciosa do mundo é uma palavra verdadeira</strong>, quando temos força para dizê-la. Tal agir, inseparável da liberdade, é válido para a multidão &#8211; para a multiplicidade simultânea de corpos agindo em conjunto &#8211; quanto para a antiguidade e humildade de escrever à mão.</p>



<p>Seria leviano dizer que conduzir um diário, uma carta ou, no caso de Tolkien, a criação de uma língua &#8211; e para dar sustentação à ela, um mundo inteiro &#8211; possam derrubar um tirano. Cumpre dizer, entretanto, que podem , mesmo que de forma singela, não alimentar, ou alimentar um pouco menos, a <em>causa da tirania</em>, qual seja, a ignorância e o medo &#8211; sobre nós mesmos e sobre o mundo -, tão indistinguível do desejo triste de servir e ser servido. <strong>Tal ignorância não é causa, mas efeito de condições históricas específicas que, por sua vez, são alimentadas por essa ignorância e por esse medo que um diário e uma carta combatem, sem negá-lo</strong>.</p>



<p>Por muito tempo, escrever à mão foi a única maneira de conectar-se a outro vivente através da distância física e através do tempo. Hoje, nesta sociedade em rede, o corpo perde seus atributos: perde-se no espaço e na duração, ou seja, no tempo. Escrever à mão é exercitar, simultaneamente, <em>a</em> <em>potência da mente e do corpo</em>. Simultaneamente, já que são uma só e a mesma coisa. Tal <em>ato</em> não é, contudo, receita de felicidade. O que acontece é que ela nos liga ao único momento que realmente importa e, ao fazê-lo, a ansiedade quanto ao porvir perde um pouco de seu poder sobre nós, uma vez que respondemos a uma espera com uma ação, mesmo que fugaz, mesmo que pequena, mas que existe e que é bela apesar de tudo. Escrever à mão, então, é um pouco de nossa potência desejando aumentar, indefinidamente; <strong>escrever é viver mais, alivio do duro desejo de durar</strong>. Acontece que temos pouco tempo, temos pressa, e gostamos pouco da solidão, cada vez menos.</p>



<p>Escrever é a própria <em>vida em ato desejando desejar</em> mais vida, indefinidamente. “Quero dizer que te amo muito, e escrevo porque te amo, porque desejo que saiba disso”. Duro desejo de durar que nos define, que marca nossa finitude descontente consigo mesma. Escrever no papel para como ato de rebeldia às telas, ao que está longe, para ficar aqui perto: &#8220;Quanto mais longe se viaja, menos se sabe; menos <em>realmente</em> se sabe&#8221;, cantou George Harrison com sua belíssima luz interior. Mal sabem que algo em nós, que não é o <em>Eu</em> – mas o <em>Demo</em> roseano &#8211; pega em nossa mão, nos ensina sobre nós mesmos, sendo o melhor professor, combatente imanente em nós contra as vozes que deixaram marcas, que nos significaram, que se misturaram com nossa própria maneira de pensar.&nbsp;</p>



<p>Cumpre ver uma folha de papel em branco como um convite ao distanciamento das telas dos <em>gadgets</em>, porquanto durar o desejo de continuar ali, porquanto durar o tempo do desejo de se criar, de habitar uma fortaleza interior. &#8220;No diário eu não apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto possível do que poderia fazer com outra pessoa; eu me crio.”, revelam-se os diários de Susan Sontag (SONTAG, 2009: 179) Conduzir um diário é uma experiência de tornar mais claros os conteúdos produzidos pela mente e dá corpo às conversar que temos com nós mesmos. Isso, quando na companhia de outros corpos, sugere que há mais em nós do que um olhar rápido pode absorver.</p>



<p>A obra de Tolkien é um contra-discurso à tentativa de dobrar a Natureza: sábio mesmo é quem se alia a ela, um belíssimo exemplo das potencialidades da junção entre fantasia criadora e intuição, isto é, o conhecimento que a mente adquire ao saber-se como parte da Natureza inteira.</p>



<p>Além do mais, é um grande repositório de conselhos, de frases que, se tomadas isoladamente, transformam-se em proposições, válidas universalmente, posto que falam ao mais profundo em nós. As coisas têm seu próprio tempo e, como a sutileza com que a magia enche seu universo, tem seu próprio espírito: é o que Tolkien nos oferece, sob a perspectiva da Natureza, na fala de seus personagens. O que passamos a amar depois de terminar algum de livro seu são as pequenas coisas: uma boa refeição, um gole de cerveja, uma pedaço de pão com manteiga e um pedaço de queijo, um pouco de fumo, a presença dos amigos, as árvores&#8230; Pobres de nós, neste nosso tempo acelerado e acelerando, quase esquecendo que temos corpo.</p>



<p>Lembrar e esquecer<em>, </em>ambos são necessários, significando que escapam do reino do bem e do mal para <em>o mundo como ele é</em>, ou seja, para o que não pode deixar de ser nem pode ser de outra maneira, tais como nós, necessariamente finitos e frágeis, que desejamos perseverar, viver mais e melhor, fruir do corpo para fruir aqui e a agora. Marcar no papel &#8211; nessa banalidade bonita &#8211; que estivemos aqui, mesmo que rapidamente, mesmo que de forma pobre, cansativa e frustrante, igual toda a gente. Tolkien, pensando ao mesmo nível dos mitos, escrevendo gratuitamente, por prazer, por distração, nos momentos de solidão em que não havia ninguém por perto para conversar, <em>existiu em ato</em> em nos deixou algo belíssimo. Bom mesmo é desejar continuar e lutar a boa luta. <em>Carpe æternitatem.</em></p>



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<p><a href="#_ftnref1">[1]</a> No instante em que eu finalizava este texto, chegou-me a notícia, através da mais rápida de minhas bestas aladas, que a Universidade de Oxford, retirará de suas instalações a estátua de Cecil Rhodes (1853-1902), autor da célebre frase “Se pudesse, anexaria os planetas”, referindo-se ao processo de expansão colonial britânico na segunda metade do século XIX. O que é a vida, não o é?</p>



<p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Sob a perspectiva da eternidade.</p>



<p><a href="#_ftnref3">[3]</a> Para uma abordagem da trajetória histórica do conceito de decadência, cf. LE GOFF, 2011.</p>



<p><a href="#_ftnref4">[4]</a> Cf. “O Senhor dos Anéis”, Apêndice A, Anais dos reis e governantes, V.</p>



<p><a href="#_ftnref5">[5]</a> A história e o papel de Eärendil, “Amante do Mar”, é digníssima de nota dentre as figuras heróicas de Tolkien, assim como a de Sam Gamgi. Eärendil, com o auxilio da potência de uma das silmarils, conseguiu navegar para o Oeste até Aman para pedir auxílio da hoste de Valinor contra Melkor. Depois saiu velejando pelos céus em sua nau Vingilot, portando a silmaril que Beren e Luthien haviam retirado de Angband, fortaleza de Melkor (TOLKIEN, 2006: 411)</p>



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<p><strong>Referências bibliográficas</strong></p>



<p>CARPENTER, Humphrey. <strong>J.R.R. Tolkien, uma biografia</strong>. Harper Collins: Rio de Janeiro, 2019</p>



<p>CHAUÍ, Marilena de Souza. <strong>Nervura do Real – Imanência e Liberdade em Espinosa. Vol. II: Liberdade</strong>. Companhia das Letras: São Paulo, 2016.</p>



<p>FONSTAD, Karen.Wynn. <strong>O Atlas da Terra-Média</strong>. Martins Fontes: São Paulo, 2004.</p>



<p>HOBSBAWM, Eric John Ernest. <strong>Era das Revoluções: 1789-1848</strong>. Paz e Terra: Rio de Janeiro, 2007</p>



<p>LE GOFF, Jacques. <strong>História e Memória</strong>. Editora Unicamp: Campinas, 2011</p>



<p>PASCAL, Blaise. <strong>Pensamentos</strong>. Martins Fontes: São Paulo, 2001.</p>



<p>ROSA, João Guimarães. <strong>Grande Sertão: Veredas</strong>. Companhia das Letras: São Paulo, 2019</p>



<p>SEMMELMANN, Cristina Casagrande de Figueiredo. <strong>Em boa companhia</strong><strong>: a amizade em O senhor dos Anéis.</strong> 2017. Dissertação (Mestrado em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa) &#8211; Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017</p>



<p>SONTAG, S. <strong>Diários: 1947-1963</strong>. Companhia das Letras, 2009</p>



<p>TOLKIEN, J.R.R. <strong>O Hobbit</strong>. 2ª edição, 5ª tiragem. Martins Fontes: São Paulo, 2002</p>



<p><strong>_______________.O Senhor dos Anéis</strong>. Vol. Único. 1ª edição, 7ª reimpressão. Martins Fontes, 2014</p>



<p>_______________.<strong>O Silmarillion </strong>. 2ª edição. Martins Fontes: São Paulo, 2006</p>



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<p><strong>Júlio César Conejo de Souza</strong> é historiador. Às vezes professor; sempre aprendiz. Ambulante campo de batalha de afetos contraditórios, pai de plantas e de gatos. Mestre em Ciências pela FFLCH/USP.</p>



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