Arte como Caminho Espiritual: Parte 01

Sempre fico abismado de conversar com aquele tipo de pessoa que sabe nomear as coisas, acho que nasceram com algum tipo de habilidade de reter as informações e acessá-las com maestria. Sabe? Quando se está numa conversa e a pessoa diz: “No monólogo do Ato III Cena II de Hamlet, o príncipe diz a Guildenstern: ‘Imaginais, então, que eu sou mais fácil de tocar do que esta flauta?’. Eu cheguei em casa, a primeira coisa que fiz foi pegar Hamlet e abrir no Ato III Cena II, e estava lá. (Isso realmente aconteceu)

Como isso é possível? Parece que não estava dentro dos planos fazer com que meu raciocínio fosse desse tipo, digamos, enciclopédico (nota aos leitores: claro que eu tive que consultar para saber em qual Ato e Cena se encontrava a passagem que citei de Shakespeare). Confesso que invejo. Os assuntos em minha cabeça mais parecem um caldeirão de informações que eu não sei se eu li em algum artigo acadêmico ou se peguei em alguma conversa enquanto andava no ônibus. 

Surge assim, partindo de uma premissa. E de repente tudo parece fazer sentido. O que é preciso, a partir disso, é fazer algum tipo de acordo diplomático entre todas essas informações em forma de sensações e as palavras. E aí acontece uma espécie de trefilamento de tudo isso. Percebe? Trefilação é transformar aquela montanha de minério de ferro naquele fio quase invisível que passa energia elétrica. É impossível, como fazer tudo isso — TUDO ISSO — sair por um único fio? Eu estou sempre em guerra com as palavras, com a escrita, são minhas inimigas, por isso a necessidade desse tipo de aliança.  Sempre saio em desvantagem, mas é assim que é, e é assim que segue sendo.

Dessa vez, a premissa surgiu como um estalo: “Pra mim a arte é um caminho espiritual”. 

(Pausa) 

De novo: “A arte é um caminho espiritual.” 
Faz sentido?

É, fazia sentido dizer isso. Como se fosse algo facilmente compreensível. De onde eu tirei isso? Parecia algo que li em algum lugar. Mas eu li? Ou alguém me disse? Foi em alguma aula da faculdade? Algum programa na tv, algum vídeo do youtube? Não fazia ideia. De qualquer forma a afirmação ressoava na minha cabeça: “A arte é um caminho espiritual… é óbvio”. 

Está bem, não parece óbvio, se formos dar espaço logo vem as perguntas: mas o que é arte? O que é caminho? O que é espiritual? De que arte, caminho ou espirito estou falando? O que significava dizer que a arte, pra mim, fora um caminho espiritual?


Robert Anthony é músico compositor experimental.


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