Fontes: minha cabeça

“(…) pois se tudo é opinião, nada é verdade.”

Este título surgiu como uma brincadeira entre família. É, no momento, a forma mais pacífica e assertiva de lidar com as mensagens e informações que chegam nos celulares de meus pais diariamente. Mas cá entre nós: mesmo entre risos e piadas, o problema é sério! 

No mundo do século XXI, a ideia de verdade se desgarrou e anda se desgarrando -afinal, é uma construção- dos dados técnicos que a embasam. Ao passo que encorajamos a ideia do público enquanto espaço potencial de produção (sobretudo os espaços virtuais), a tal da “minha opinião” se alimenta e se torna disforme ao bom senso, mas ainda sim, consegue se capilarizar ganhando projeção não mais simbólica, mas se institucionalizando como assinatura equivalente aos dados e/ou conhecimento científico. A regra do jogo é clara: não há regra. 

Notamos isso não apenas no âmbito dos debates acalorados das redes sociais, mas em debates grandes, ou melhor, O Grande Debate. 

Advogada, mestre em direito penal pela USP e professora na pós graduação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Gabriela Prioli trazia o vigor do debate público, coeso e embasado nos dados técnicos científicos no programa ao qual era vinculada, no entanto, em um debate sobre justiça e lei (retorne a primeira frase desse parágrafo e ligue os pontos) fazendo oposição a Tomé Abduch, cuja formação se encontra na área de engenharia civil, a mesma se sentiu na responsabilidade de elevar o nível técnico do debate para que este pudesse ser encaminhado sem o acirramento de polarizações construídas por camadas de achismo, todavia foi interrompida e constrangida pelo intermediador -SIM, O INTERMEDIADOR DO DEBATE- repetidas vezes, como se o predicado por ela conquistado fosse uma questão de -também- opinião. 

Se tudo é opinião, nada é verdade. Joguemos ao vento as literaturas clássicas para aqueles que se dedicam a área das humanidades e nos tornemos confeiteiros, de uma vez por todas. Surreal, mas este é o conselho do assessor do atual presidente da República e que também é irmão do atual ministro da Educação. 

A opinião não constitui fonte científica, portanto, não é uma verdade. O conhecimento científico se difere por inúmeras questões, as que valem ressaltar são: sistematização e análise. Ainda que a opinião possa se desgarrar da integridade e ética social, o conhecimento científico não parte de uma análise feita aos pares, antes mesmo de ser compartilhado, nasce na escuta, no envolvimento e observação social. Longe de ser um momento onde o cientista se isola da realidade para falar sobre ela, é um momento rico justamente por propiciar ao cientista o oposto, ou seja, enquanto se estuda fenômenos de natureza social, biológica, fisiológica, econômica, política, etc etc etc, você os vive, os sente, interage com o seu objeto de análise. Enquanto instituição, a opinião apenas mostrará sua precariedade de ação a longo prazo, pois esse é o momento onde pesquisas com reconhecimento e especialização técnica tem os seus frutos, logo, quando este último não vier à tona, entraremos em um colapso moral, ético. É o estado do caos, que -curiosamente- se tornará matéria para uma análise científica. 

Interessante como as situações ocorrem em escala (pois a realidade está para todos, mas se apresenta de forma diferente para todos). Por esses dias me envolvi em um debate, ou ao menos tentei me envolver, no que diz respeito a uma publicação de instagram -eu, que já havia mandado essas tribulações para o caixa prego em nome de minha saúde mental-. Fui surpreendida por uma série de mensagens onde a ideia central era: “eu não quero pensar, pois não vou mudar o que penso.” O que deveras me comoveu e ao mesmo tempo me encheu de inquietação, afinal, se as pessoas abdicam da reflexão, do pêndulo crítico por possuir narrativa pobre mas uma vaidade em excesso, como elas dialogam e constroem personalidade além das construções fenotípicas (ao que pode se enxergar fisicamente)? Ainda é válido o comportamento de arguição racional no século XXI, ou a pós verdade tornou isso algo obsoleto/fora de moda? Ao menos, descobri que sou cafonérrima para a onda de influenciadores digitais jovens adultos preocupados em legislar sobre a vida do outro. 

Soma se a tudo isso, o fato de que o mundo se racionalizou por funções de gênero específicas e, quando mulheres decidem ultrapassar essa barreira da aceitação masculina, são interrompidas, constrangidas, na tentativa de que essas “voltem ao seu lugar de origem”. Mas cabe protestar nesse texto que: o lugar da mulher é aquele que ela deseja se especializar e/ou atuar. Ponto. 

Estamos no século XXI, acho que já é a terceira ou quarta vez que digo isso, mas o faço para reforçar o tom do surrealismo, afinal, pensava se em viagens coletivas ao espaço, mas por hoje, preciso afirmar -por verdade científica-: FOI UMA DITADURA. HOUVE TORTURA. COVID-19 NÃO É UMA GRIPEZINHA. AQUECIMENTO GLOBAL EXISTE. SUA OPINIÃO NÃO CONSTITUI VERDADE E, POR FIM, A TERRA É REDONDA, CARAMBA!


Gyovana Machado é graduanda em História pela UFJF, formada no Seminário Teológico Rhema Brasil, líder de música em A Igreja.



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