CASSANDRA É UM GRITO

Em primeiro lugar, devo me apresentar. Meu nome é Milena Martins Moura, sou poeta, tradutora e editora da revista cassandra, dedicada à divulgação e à promoção da arte de mulheres. Começo me apresentando, mas, na verdade, o que importa mesmo para este texto é a cassandra, um espaço de união e sororidade que completa seis meses neste outubro frio de 2021.

E é com muita alegria que escrevo as primeiras linhas da parceria entre a Trama e a cassandra. A partir de agora, vamos ter um espacinho mensal por aqui e a Trama terá seu espaço por lá também. Você, leitor da Trama, vai ouvir falar da gente com alguma frequência. Espero que goste do que lê. Se quiser nos conhecer, é só acessar https://revistacassandra.com.br!

Mas voltemos à cassandra. Antes de tudo, é preciso dizer que essa revista foi um sonho guardado na gaveta por onze anos. Tudo começou no ano de 2010, 850 anos atrás, quando não tínhamos muitas redes sociais por aí. Era a época da literatura de blog, que revelou diversos bons escritores. Mas que tinha suas limitações. Autores como eu, que começaram naqueles tempos, certamente hão de lembrar.

As ferramentas de blog eram muitas, mas todas sofriam do mesmo mal: falta de alcance. O escritor saía por aí implorando leitores. Cara nova geração, as coisas não apareciam na timeline da gente não, viu! A timeline não tinha sido inventada! Se você quisesse ler, tinha que procurar. E se você não soubesse que eu existo, não me procuraria.

[Não vou problematizar as redes sociais neste texto, não é o propósito. A gente sabe que elas têm seu quinhão de problemáticas. E é um baita de um quinhão grande! Mas a minha mais recente experiência me mostrou que pelas redes é também possível reunir uma rede de apoio e contato real, apesar dos algoritmos que se propõe reger nosso comportamento. Guardo essa discussão para mais à frente.]

Se você quisesse ser lido, precisava fazer com que seus leitores quisessem procurar você. Assim surgiram muitos projetos coletivos naquela época, inclusive revistas de artes e literatura que existem até nossos dias, como a Diversos Afins. Basicamente, a gente reunia uma galera e formava um blogão coletivo que serviria como uma vitrine dos nossos textos. Todo mundo saía divulgando e assim leitores e outros autores descobriam a existência desse espaço e iam lá nos ler.

Participei de muitos projetos desse tipo, inclusive um com a minha querida amiga Bruna Mitrano [que ainda vai aparecer nessa história algumas vezes] chamado Go!Morra. Cada um tinha seu perfil na plataforma de blog e ia lá postar seu textinho. No começo de quase todos esses projetos, a galera postava horrores, várias vezes por semana. Depois a frequência ia diminuindo até sumir. Procurem e acharão muitos blogs abandonados nos confins da Internet. Com os projetos de que participei não foi diferente. E tudo bem, não é uma crítica. Eu mesma abandonei vários. Prioridades mudam, a gente se forma, se casa, filhos nascem, começamos uma pós, depois outra, arrumamos um trampo tóxico, ou mesmo um bom. Crescer é um processo que mata muitos sonhos no caminho sem a gente nem perceber.

Em 2010, porém, com o Facebook já se popularizando no Brasil, Orkutão morrendo, Fotologs sendo abandonados e o WordPress e o Tumblr fazendo um certo sucesso, a Bruna [viu, olha ela aqui!] me convidou para mais um projeto desse tipo. Topei na hora, eu sempre topava. A Bruna era a agregadora e eu sempre ia na onda. E ela sempre tinha uns projetos muito bons. Entre muitas pessoas que ela convidou, lá estavam nomes como a ninna rizzi. Fiquei responsável por chamar um ilustrador e logo pensei no meu professor de desenho. Ela chamaria uma fotógrafa sua amiga. Estávamos começando o mestrado, eu era recém-casada. Estávamos empolgadas, com a vida toda pela frente, comercial de margarina. E.

O projeto nunca saiu do papel.

Eu nem lembro como ou por que acabou, acho que foram coisas da vida. Cada um seguiu seu rumo, fomos mudando de prioridades, nunca mais falamos do assunto. Acontece. [É sobre isso e tá tudo bem.]

Corta para 2020. Fiz um Instagram de arte. Nunca tinha pensado, em todos esses anos, em criar um perfil artístico e tentar usar as redes sociais ao meu favor. Em verdade, sempre fui bastante avessa a redes sociais por me sentir exposta e protegia meus perfis e contas como aquele personagem de O Santo e a Porca. Mas a pandemia me tirou o chão e o controle sobre mim mesma. Eu, que tinha passado algum tempo sem nem pensar na escrita, suportando trampo tóxico atrás de trampo tóxico e desistindo de muita coisa em nome da boa e velha adulthood real para a qual ninguém nos prepara, voltei a escrever quase como forma de salvação. O fundo do poço estava escuro demais e o iluminei com poesia. Criar o perfil artístico e voltar a investir na minha arte [lembrar dessa parte essencial e central da minha vida, que eu abandonei sob pena de deixar a mim mesma para trás] foram consequências quase óbvias em um tempo em que a vida como a conhecemos tinha precisado se voltar para o on-line.

Já no início desse ano bizarro e atípico de 2021, fiz um daqueles links na bio do Instagram. Estava voltando a publicar em revistas, como não fazia tinha então uns cinco anos, e queria organizar meus escritos. No entanto, algumas das minhas primeiras publicações [lembrem que eu comecei a escrever com intenções profissionais, o que quer que isso seja, em 2006, 970 anos atrás] eram muito antigas. Blogs como o Coruja Cultural, o Artilharia Cultural e o portal Página Cultural, do qual havia sido colunista, acabaram, não sobrou nem o resquício do site abandonado [os culturais morrendo me fazem pensar em como a cultura é tratada no nosso país, sobretudo nos dias de hoje]. Morreu também o saudoso Portal Cronópios, onde publiquei com muita honra pelos idos de 2011 ou 2012. Na época aparecer ali foi zerar a vida para a Milena de 23, 24 aninhos.

Correndo atrás de publicações que ainda pudessem estar no ar, e achei algumas, lembrei que a Diversos Afins, que ainda está no ar e a todo o vapor [parabéns, Fabrício!] foi uma das primeiras publicações a me abrir espaço. Saí na leva 47, em 2010. Mas. Eu não. Conseguia. Achar o link. De jeito maneira. Isso porque a publicação era tão antiga que ainda estava no site antigo da revista. Procurei, então, na minha caixa de mensagens enviadas de e-mail as mensagens trocadas entre mim e o Fabrício Brandão, editor da Diversos Afins, nas quais eu mandava os textos para ele: ele devia ter me respondido com o link, pensei eu. E estava certa. Realmente eu ainda tinha as mensagens: com o envio de textos, com a resposta dele e o link. E algumas mensagens seguintes na conversa. Nas quais eu o chamava…

Para o projeto da Bruna [olha ela aqui de novo].

Fazia tanto, mas tanto tempo, e, para além do tempo, tantas coisas haviam acontecido na minha vida entre aquela proposta de projeto e o início de 2021, que eu nem lembrava mais daquelas mensagens. Nem do projeto em si. E reler tudo aquilo fez muitas coisas voltarem à minha cabeça.

A vontade de ter novamente um projeto coletivo, uma revista de literatura que divulgasse e promovesse novos nomes, por exemplo. Ela nunca havia ido embora, para ser honesta. Desde então eu tinha uma grande vontade de fazer parte de um espaço cultural. De promover arte e literatura, algo tão necessário em tempos nos quais artistas parecem ter virado inimigos número um da nação. Minha relação com a cultura nunca morreu, só ficou adormecida e despertou na porrada com a pandemia. Foi só a vida, que foi fechando as janelas, até ficar muito escuro para tatear o passado.

Ler aquela troca de mensagens, como eu dizia, me criou um tipo de emplastro Brás Cubas pessoal. Eu não conseguia mais tirar a ideia fixa de criar uma revista literária da cabeça. Fiquei presa nessa ideia por algumas semanas e ela foi ganhando um pouco de forma: uma revista de artes e literatura; uma revista para, de e por mulheres [e esse foco foi o grande diferencial da cassandra; o que me fez achar que a ideia fixa tinha potencial de ser mais que uma ideia, por ser algo tão necessário em tempos de retrocesso]; uma revista mensal com sede em alguma plataforma digital [escolhemos o Medium, do qual eu já era, então, usuária assídua]; uma revista chamada cassandra.

Será que alguém vem comigo nessa?

[Lembram lá em cima quando eu falei que ia guardar a discussão pra mais tarde? O mais tarde é agora, mas a discussão não é exatamente uma elucubração discursiva sobre um tema de problemática sociologicamente supimpa da atualidade. É só uma experiência pessoal e, como tal, contestável por toda pessoa que tenha vivido uma experiência semelhante com resultado diferente. O que acontece. Vida não é ciência exata; duas experiências diferentes não se anulam…

… Essa, enfim, é a hora em que devo dizer que as redes sociais, com todo o seu potencial ruim, podem sim proporcionar uma rede de apoio e contato muito verdadeira e real. Pelas redes, conheci uma mulherada maravilhosa, talentosa e prestativa. Em tempos tão dolorosos quantos esses pandêmicos e desgovernados, fiz amizades sem as quais tenho certeza de que teria pirado durante o isolamento. As redes, enfim, podem mostrar o pior das pessoas, disseminar notícias falsas e julgamentos inquisitoriais. Têm, como eu disse, um baita quinhão de bosta. Mas também seu quinhão de beleza. Pitadas de amor ao próximo. Sororidade a gosto.]

Será que alguém vem comigo nessa?, eu dizia.

Joguei uma caixinha nos meus stories do Instagram explicando o projeto e convidando quem se interessasse. E recebi bem mais respostas do que esperava. Onze mentes insanas queriam vir comigo nessa. Algumas que eu conhecia pessoalmente, amizades antigas, como a Gianna L. C., companheira de Uerj, e a Luzia Rohr, minha professora de canto lírico [e mezzo soprano preferida!]. Algumas que eu virtualmente já conhecia bem e admirava muito, como a Thainá Carvalho e a Priscila Branco, duas artistas multifacetadas e pessoas maravilhosas. E algumas cujo trabalho eu conhecia, mas com quem não tinha tido a oportunidade de bater um papo, como a Cecília Lobo, que eu conhecia do Fazia Poesia, do podcast da Revista Desvario, da entrevista no portal Como Eu Escrevo, mas com quem eu nunca tinha papeado. E veio a se tornar minha companheira na edição da cassandra [e vai escrever alguns textos aqui neste espaço também].

Ao todo, juntamos doze autoras fixas e começamos, todos os meses, a chamar também três convidadas, enquanto preparamos todos os trâmites para abrir nossa primeira chamada de submissão de material. Tudo na revista, do logo em formato de flor [cortesia da Priscila] até as sugestões dos nomes das convidadas e a paleta de cores do Instagram, foi criado coletivamente por todas as nossas colunistas. Dessa mistura, saiu uma revista que não se propõe colocar ninguém em caixinhas. Com respeito à arte e à linguagem de cada autora, fixa ou convidada, e que deseja divulgar cada vez mais o trabalho de cada vez mais artistas mulheres.

Por isso mesmo, cada um desses seis meses de cassandra trouxe novidades. Não conseguimos nos contentar só com três convidadas mensais, precisávamos fazer mais que isso. Criamos nosso quadro “Feito por Mulheres” para divulgarmos projetos. Depois disso passamos a usar nosso Instagram (@revistacassandra) como forma de divulgarmos lançamentos de livros escritos por mulheres e Cecília se propôs também a resenhar livros para nosso perfil. Na nossa mais recente edição, n. 5, de setembro, trouxemos pela primeira vez duas artistas visuais, para mostrarmos o trabalho de mulheres em mais esferas artísticas.

Não posso narrar nossa história, e o faço aqui de maneira tão completa, sem citar nossas queridas convidadas, que temos a honra de ter conosco enriquecendo nosso espaço. Artistas tão diversas e potentes, que tanto admiramos.

Nossa edição n. 1 contou com Maíra Ferreira, Juliana Cajives e Bruna Mitrano [olha ela aqui de novo!]. A segunda edição, teve a participação de Mell Renault, Gabriele Rosa e Ana Mendes. Da n. 3, participaram Clarissa Macedo, Carla Guerson e Anna Clara De Vitto. Convidamos, para a quarta edição, Micaela Tavares, Gabrielle Dal Molín e Dia Nobre. Nossa mais recente edição, a n. 5, trouxe a poeta Juliana Gelmini e as artistas e escritoras Raïssa de Góes e Anna Apolinário. Também tivemos, nas nossas edições, os projetos Toma Aí Um Poema, podcast de poesia produzido por Jéssica Iancoski, Andreia Moema, Monique Sandrielly e Belise Campos; Passos da Pedra ao Mar, antologia de autoras sergipanas produzida pela nossa colunista Thainá Carvalho e por Amanda Reis, com capa de Evelyn Xavier; e LiterAmazônicas, dossiê de poetas da região amazônica brasileira, com capa de Monique Malcher e produção da nossa colunista Ana Yanca, de Adriele Santiago, Cássia Cardoso e Iana Saissem Mura. Na nossa edição mais recente, nossa editora Cecília Lobo mostrou seu projeto de podcast Quer um copo?

Não vou dar spoiler da edição n. 6, que está bem próxima de ir ao ar. Nossas edições saem sempre na última segunda-feira de cada mês. E definitivamente não darei spoiler da edição especial lindíssima que sairá no meio do mês que vem. Mas posso adiantar que ambas estão riquíssimas [e ilustradíssimas].

Escrevo estas linhas no dia 11 de outubro de 2021 e, a partir da perspectiva que tenho hoje, vejo que a cassandra não é só um espaço em crescimento. Ela é também um espaço em fermentação, como uma boa cerveja. Temos muitos sonhos e muita vontade. Nem sempre é possível abraçar o mundo com as pernas quando é preciso também pagar as contas. Mas estamos colocando cada coisa pra funcionar aos pouquinhos. Uma cerveja boa precisa de seu tempo de maturação.

Nossa primeira chamada de originais, por exemplo, foi amadurecendo com o tempo e agora está pronta para ser servida. Vamos abri-la de 1º de novembro a 1º de dezembro de 2021. Para o ano que vem, temos muitos planos, muitas mudanças, e muita surpresa boa no bolso.

Começamos com o mote da sacerdotisa Cassandra, que, na mitologia grega, era assombrada por suas premonições. Pensei nesse nome porque toda mulher vive de antecipações. Precisamos estar três passos à frente para conseguirmos chegar ao mesmo lugar. Precisamos antecipar todos os riscos inerentes à nossa condição de mulheres. Precisamos antecipar todos os erros para evitá-los, porque para nós todo erro é uma última chance.

Uma mulher que não se antecipa é engolida.

Para quem nos acompanha, acredito ser clara nossa vontade de que nenhuma voz jamais morra na garganta.

Queremos ser o espaço do grito.

cassandra é: Milena Martins Moura e Cecília Lobo (editoras); Ana Yanca, Andreza Andrade, Beatriz Rocha, Camile Veiga, Christy Najarro Guzmán, Gabriele Marques, Gianna L. C., Luzia Rohr, Priscila Branco e Thainá Carvalho (colunistas).

Publicação mensal; ISSN 2763-8383

Endereço: https://revistacassandra.com.br / Instagram e Facebook: @revistacassandra.

Contatos por revistacassandra@gmail.com


cassandra é um grito. revista de artes e literaturas feitas por, de e para mulheres.

Milena Martins Moura é poeta, editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Publicou os livros Promessa Vazia (Multifoco, 2011), Os Oráculos dos meus Óculos (Multifoco, 2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021), além do plaquete de poesias Banquete dos Séculos (edição da autora, 2021). É editora da cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia.


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