Acordou. Decidiu que esse seria o dia de dar um basta em sua depressão. Por que sofrer por alguém que não mereceu, em momento algum, todas as suas lágrimas? Lágrimas salgadas, assim como esse amor: salgado e amargo. 

Escreveu, então, numa folha de papel ofício, todos os passos que deveria seguir para esquecer esse alguém, de quem se recusava a dizer o nome. Não teve a intenção de prescrever uma receita infalível, mas tornava público o remédio que a salvara de um problema mais sério que a solidão. 

Pela última vez, enxugou seu rosto e centrifugou seu espírito. Deu bom dia ao sol. Olhou-se no espelho, escovou os dentes, arrumou os cabelos lisos dando a eles um penteado diferente do que normalmente fazia. Modificar o externo é um bom começo para transformar o interior. 

Para começar, lembrou-se dos conselhos de Ovídio Nasão. Se as lembranças o sobressaltarem e você não se sentir bem com elas, esmague-as, enquanto são novas. Tomou uma boa dose de bebida, na esperança de entorpecer os sentidos, “rememore com frequência os atos de tua criminosa amiga”, como diria Ovídio, e colocou no papel todos os defeitos que ele possuía. Não se esqueceu de colocar também, todos os prejuízos que ele lhe causou. Em alguns momentos, distorceu para pior as qualidades do ex, enganando sua mente. 

Ócio? Jamais. Ocupou sua mente e seu tempo em coisas produtivas, sentindo-se mais segura, retomando os ensinamentos de Ovídio: “O amor se rende a uma ocupação”. Saiu, viajou, fez novas amizades. Visitou sua mãe. Há quanto tempo não se viam. Isolar-se só pioraria sua condição e poderia aumentar a paixão que queria esquecer. Não teve medo, recuperou suas forças e exorcizou toda a sua insegurança com longos banhos de arruda, deixando a água escorrer pelo ralo e, com ela, todo o suor dos dias que lhe impregnaram de lembranças. E deu descargas, quantas foram necessárias para se libertar daquelas algemas. Houve um aumento significativo em sua conta de água, por outro lado, tinha agora mais um motivo para retomar os projetos de trabalho que ficaram engavetados anos a fio, sem sequer terem sido revisados, por medo de não ter tempo de ficar com ele, de quem ela se recusa a dizer o nome. 

Assim, o que ela achava que era um tormento, um sofrimento, não passou de recordações que nem lhe doem mais. Pensou em seu ex como uma página virada do seu folhetim e começou a escrever uma nova página da sua longa história aqui na Terra. 

Hoje, sexta-feira, marcou um jantar com o homem grisalho do escritório vizinho. Mas isto já é uma outra história… 


Joseani Adalemar Netto é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros. 


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4 Comentários

  1. Minha cara e doce amiga Joseani Adalemar Neto. Quão orgulhosos devem estar seu Tiãozinho e Dona Elza por perceberem a grande mulher, pesquisadora, professora, aldravista e escritora que se tornou. Orgulho de tê-la conhecido e desfrutar de sua amizade e respeito há tanto,, tanto tempo !!!

  2. Linda crônica! Tô esperando a “outra história “.

  3. Maravilhoso! Adoro os conto da Joseani.

  4. Sérgio Augusto Vicente

    Adorei o conto! Gostei, especialmente, da forma como vc narrou a virada na vida de Bárbara. O gasto excessivo de água é a necessidade de retomar os trabalhos abandonados para conseguir se dedicar com afinco ao amor que deixara.
    Ela toca a vida em frente, começa a ocupar a mente, trabalha e se interessa por outro homem no escritório ao lado.
    Empoderamento feminino encontrado na conquista de autonomia para escolher um novo amor.
    Um novo amor em que ela não anule a sua existência ou se afunde numa relação de dependência?

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