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	<title>Arquivos Ano 002, N 067 - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Editorial &#8211; A Trama no Barraco</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:29:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Barraco]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Luciano Nascimento</p>
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<p>Recentemente, no dia 25 de setembro deste 2020 fatídico, dois episódios de discussões entre pessoas anônimas causaram certo estardalhaço nas redes sociais e chegaram aos noticiários. Os episódios aconteceram nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, ambos em áreas nobres (entenda-se: áreas frequentadas por muitas pessoas com algum dinheiro, e por algumas pessoas com muito dinheiro). Os vídeos dessas ocorrências logo viralizaram: “<em>Barraco</em> no Leblon”; “<em>Barraco</em> no Gero”. Mas “barraco” por quê? E o que isso tem a ver com a Revista Trama? Em síntese, é o seguinte: nossa liberdade vem de saber o que está por trás de “barracos” assim&#8230;</p>



<p>Não que a liberdade da nossa revista venha das intrigas intestinas de um casebre improvisado instalado na Rua Dias Ferreira, claro que não! Na verdade, a nossa liberdade – a liberdade de nós todes, não só do pessoal da revista – vem da percepção que temos do poder das palavras (“<em>Palavras, ai, palavras!/ Que estranha potência a vossa!”</em>, já dizia Cecília Meireles no<em> “Romanceiro da Inconfidência</em>”); vem da percepção e da incorporação desse poder, de seu usufruto intencional, consciente. Porque é nelas, nas palavras, que reside a única possibilidade real de libertação das pessoas. E é isso que a gente aqui na Revista quer ajudar a tramar&#8230;</p>



<p>Então: “barraco” é o nome vulgar da “construção habitacional” (não há sarcasmo aqui, por favor! o sarcasmo está na indiferença de quem não se aflige com pessoas vivendo em condição tão desumana!) ainda muito comum em comunidades muito pobres Brasil afora, as “favelas”. Usada nas várias manchetes que noticiaram as discussões nos bairros chiques do Rio e de Sampa, a palavra “barraco” assume um valor metonímico  &#8211; ou seja, veicula uma relação <em>parte pelo todo</em>: o “barraco” (a parte) passa a significar a “favela” e, potencialmente, qualquer coisa que haja nela (o todo).</p>



<p>A metonímia (essa relação de continuidade entre <em>parte</em> e <em>todo</em>) não é só um recurso estilístico, uma “figura de linguagem”, como muites de nós aprendemos na escola. Não! A metonímia é um mecanismo cognitivo, algo que nossa mente faz naturalmente, o tempo todo. Com a metáfora acontece a mesma coisa &#8211; e quem se interessar em saber um pouco mais sobre isso pode dar uma olhada nos estudos dos linguistas estadunidenses George Lakoff e Mark Johnson, ou em alguns da professora Margarida Salomão (brasileira e ex-reitora da UFJF).</p>



<p>Aqui, o que nos importa é mostrar que, quando se fala em “barraco no Leblon” ou “barraco no Gero”, está também se dizendo que algo aproximou, no plano do pensamento, bairros ricos e favelas. Nos casos em questão, esse algo não foi a generosidade ou o senso de cooperação mútua &#8211; tão recorrentes nas comunidades pobres quanto escasso nas cercanias burguesinhas -, mas, sim, aquilo que muita gente preconceituosa, elitista e ignorante imagina ser o mais comum nas localidades menos abastadas: a desordem, a agressão, a falta de urbanidade. Em suma, “barraco no Leblon” é uma forma preconceituosa e elitista de dizer, por metonímia: “surpresa: gente mal educada no bairro nobre”.</p>



<p>Talvez você que me lê agora esteja pensando: “Que nada! Isso é chute! Não dá pra ter certeza disso!”. Engano; dá, sim. Tanto é que, alguns dias depois do ocorrido, já cientes de que as pessoas envolvidas eram arquitetas, médicos, etc, e de que a manchete infame causava prejuízo à imagem daquelas localidades ricas, os jornais e sites de notícia de maior credibilidade trocaram a expressão “barraco no Leblon” por “caso Leblon”, “briga no Gero”&#8230; Está tudo no Google, é só procurar. Esse é um forte indício de que a expressão preconceituosa causou algum mal estar nas redações. Pelo menos isso.</p>



<p>É, a ligação entre <em>as palavras e as coisas</em> não é tão transparente quanto pode parecer (a bênção, Michel Foucault!). Estar atento a isso é lançar âncora na materialidade de nossas relações sociais, é assumir e exercer uma parte da “estranha potência” das palavras. E é aí que o papel da Trama começa a aparecer, entende? Na busca por ajudar a esclarecer um pouco mais essas coisas aparentemente tão confusas&#8230; Só que, para isso, a gente precisa falar um pouquinho de Linguística. É rápido, a gente promete.</p>



<p>Pois bem: <em>palavras</em> são <em>sinais</em>, são a parte material (sonora) das <em>línguas</em>; <em>línguas</em> são <em>códigos</em>, isto é, sistemas organizados de sinais convencionados (as palavras); esses códigos só podem se estabelecer porque o cérebro humano é estruturalmente predisposto para o trato com eles &#8211; ou seja, para sua compreensão e re/co-produção; essa predisposição “orgânica”, típica da espécie humana, tem o nome de <em>linguagem</em>.</p>



<p>Para simplificar um pouco as coisas, vamos apelar para a metáfora: nosso cérebro (o órgão físico, esponjoso) é como um <em>hardware</em> (de um celular, por exemplo); a linguagem é o nosso <em>software</em> mais abrangente, nosso sistema operacional (o IOS ou o Android instalado), que dá funcionalidade ao <em>hardware</em> porque permite tanto a interface do usuário (externo) com o celular (sua operação interna) quanto a organização de todo o sistema do aparelho, agilizando a interação entre os <em>apps</em> também instalados; as diferentes línguas são <em>apps</em> menores, de alguma forma facultativos, executados dentro do ambiente do sistema operacional.</p>



<p>Quer dizer: o <em>Homo sapiens</em> interage com o mundo por meio da linguagem; ela, por sua vez, permite a cada e a todo <em>hardware</em> (o cérebro, o indivíduo) o trato com diferentes formas (diferentes códigos) para impressão e/ou expressão do mundo; as palavras são parte essencial de um código específico, o verbal, que, como recurso expressivo, alcançou, sobretudo por motivações históricas e socioculturais variadas, certa prevalência ante aos demais códigos (como a pintura, a dança e a música, por exemplo). Entretanto, essa prevalência não significa que as palavras sejam capazes de “traduzir” o mundo exatamente como ele é.</p>



<p>Na verdade, é muito questionável essa coisa de “o mundo como ele é”; o mais provável mesmo é que exista algo semelhante a uma infinidade de mundos, cada um deles mais ou menos à feição de quem os olha, ouve, prova, cheira ou sente (concreta ou abstratamente), e depois relata sua experiência a quem está à volta. Só para exemplificar essa afirmação, a Física já comprovou que um mesmo objeto pode ter, ao mesmo tempo, tantas cores quantos forem seus observadores &#8211; tudo em função de fatores objetivos, como ângulos de observação, acuidade visual, entre outros. Os pintores impressionistas exploraram muito esse fenômeno óptico, e uma boa amostra disso é a série de quadros da Catedral de Rouen, de Claude Monet.</p>



<p>Voltando às palavras, esse perigo nelas é difícil de perceber e de explicar – e é exatamente isso que estamos tentando fazer aqui. É que, por estarmos tão acostumados a elas, desde tão jovens, na maioria das vezes não percebemos o quanto elas, as palavras, são incapazes de dar conta da real diversidade das coisas do mundo. Ou seja: <strong>em geral, acreditamos, de maneira meio ingênua, que as palavras são as coisas, ou, no mínimo, que cada palavra dá nome a uma coisa só, sem margem de erro, independentemente de quem lide com essa coisa ou com essa palavra. Mas não é assim.</strong></p>



<p>Porque, por um lado, como já vimos, palavras são parte de códigos, e a funcionalidade dos códigos é refém de uma boa dose de convenção, de acordo entre seus usuários; por outro lado, as palavras imprimem e expressam visões de mundo, e tais visões de mundo podem diferir muito entre si. Essa zona nebulosa de significados e sentidos – quase um <em>Triângulo das Bermudas</em> entre <em>palavras</em>, <em>gentes</em> e <em>coisas</em> – é a origem da potência da língua, mas também de seu perigo: pessoas com visões de mundo parecidas tendem a se agrupar em torno da tal perspectiva compartilhada, ou seja, em torno de uma mesma <em>ideologia</em>. Diferenças ideológicas tendem a gerar estranhamentos mútuos de variados graus de frequência e intensidade.</p>



<p>E é precisamente desse ponto de tensão que rebentam tanto a poesia quanto as guerras.</p>



<p>Enfim, por trás da aparente graça da expressão “barraco no Leblon”, está o carimbo de uma ideologia. Uma visão de mundo que soma à pobreza econômica tudo de ruim: incivilidade, violência, indisciplina&#8230; desonestidade, falta de brio, de inteligência&#8230; falta até de direito à vida e ao bem-viver. Tudo isso, por trás da aparente graça da expressão “barraco no Leblon”, e de tantas outras, semelhantes.</p>



<p><em>É preciso estar atento e forte</em> para lidar com essas armadilhas. Língua e linguagem têm suas teias&#8230;</p>



<p>Nós, por outro lado, temos a nossa Trama.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1a42c-luciano-19.23.45.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11365" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Luciano Nascimento</strong></strong> é mangueirense, filho, marido, pai, professor, flamenguista, psicopedagogo&#8230; mais ou menos nessa ordem. É, também, idealizador do projeto Dê Efiência.(<a rel="noreferrer noopener" href="http://www.deeficiencia.com.br/" target="_blank">www.deeficiencia.com.br</a>) E-mail: <a href="mailto:prof.lcnascimento@gmail.com">prof.lcnascimento@gmail.com</a></p>
</div></div>



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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg4_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11385" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>[Arredores] O Rap na cidade, com Set</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:28:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Arredores]]></category>
		<category><![CDATA[Carol Cadinelli]]></category>
		<category><![CDATA[Entrevista]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[periferia]]></category>
		<category><![CDATA[Rap]]></category>
		<category><![CDATA[Set]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Trama Bodoque</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na cena musical de Juiz de Fora, o Rap é com certeza um dos braços mais quentes. Sempre com produções novas cheias de rima e beat, que trazem as realidades periféricas, a cena do Rap é responsável por unir gente de todos os bairros em torno do som.</p>



<p>Atualmente, um dos exemplares mais conhecidos no meio é o Set. Estudante de Jornalismo, o rapaz de apenas 22 anos já conta com um álbum, quatro singles lançados e um clipe novinho em folha pra comprovar que dá pra fazer música independente em Juiz de Fora.</p>



<p>Essa semana, a Trama conversou com o Set sobre a cena do Rap em Juiz de Fora e sobre seus projetos musicais. Rola pra baixo pra conferir a entrevista!</p>



<div class="wp-block-image is-style-default"><figure class="aligncenter size-large is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/1408f-whatsapp-image-2020-10-16-at-19.50.56.jpeg?resize=727%2C889&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12395" width="727" height="889" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Set em apresentação.</figcaption></figure></div>



<p><strong>Trama: Como você começou na música? O que te estimulou a compor e a cantar?</strong></p>



<p><strong>Set:</strong> Eu sempre tive muito contato com música, cresci com a minha mãe escutando muita música, especialmente músicas brasileiras de amor. Mais tarde, eu tive contato com música gringa, nos DVDs de Hip Hop, quando começaram a chegar aqui &#8211; até com a Beyoncé -, comecei a curtir, mas ainda gostava muito dos sons mais românticos, e não conhecia o rap com outra pegada. Já quando eu fui fazer o meu primeiro som, já escutava muito Emicida, Racionais, já tinha mais consciência sobre a realidade que eu estava inserido, e isso fez toda a diferença na hora que eu escolhi ser artista. Antes mesmo de escrever meu primeiro som, eu já sabia que eu ia ser artista, que era isso que eu queria &#8211; e eu já escrevia poesia, sem ser muito ritmado, assim, e não escrevia sobre muita coisa conceitual, era mais objetivo. </p>



<p>Depois, entrei na faculdade de jornalismo, em 2016, acabou que eu caí na sala do Everton Beatmaker, que já era um cara ímpar na cidade de produção do rap e outros gêneros, já tinha um nome, já trampava com os melhores, e eu falei muito com ele sobre querer fazer música. E aí ele foi me ajudando, me apresentando pro RT Mallone, pro Brackes, por exemplo, e eu quis fazer parte daquilo. Daí eu peguei meu primeiro beat com ele, e consegui escrever uma música, que só transbordou de mim, que era um momento que eu estava passando. A partir daí, eu escrevi algumas músicas românticas, que falam de amor, mas não necessariamente de um jeito bom, uma coisa mais crua, de sentimento humano, que às vezes não é só bonito &#8211; e elas vieram a ser do meu primeiro álbum, o Invernia, que veio logo depois do &#8216;Me Diz&#8217;, meu primeiro single.</p>



<p><strong>T:  Com 22 anos, você já tem um álbum lançado, mais quatro singles, e todo o seu trabalho é permeado por parcerias com uma galera que já é bem forte na cena do Rap de JF &#8211; como o RT Mallone, por exemplo, e o Beatmaker.</strong> <strong>Como você percebe a sua própria evolução de carreira dentro da cena da cidade, nesse processo de criar laços e parcerias, e vir desde lá o seu primeiro single em 2017, pra chegar agora em 2020 com o clipe de &#8216;Ela Sabe&#8217;, que é uma parceria tão forte?</strong></p>



<p><strong>S:</strong>  Eu tenho até dificuldade de separar o lado de carreira dos laços, assim &#8211; a minha arte é tão pessoal que eu só faço música com quem é de fé, com quem é meu amigo, que entende que existe isso dentro de mim que é &#8220;ou eu faço arte ou não faço nada&#8221;, e que a gente se sente pleno fazendo isso. As primeiras vezes que eu vi o RT no palco, foi igual ver o Kendrick Lamar, assim; e aí fui conhecendo essa galera, o Brackes, o Sagate, e conversando com eles, me entendendo com eles, e foram eles que me disseram que era possível fazer música aqui, fazer algo diferente e novo. E eles me dão muitos conselhos até hoje.</p>



<p>E sobre carreira, lançamentos, e tal, eu acho até que poderia ter evoluído até melhor, porque eu tenho muita música pronta, tenho muito material, mas tenho que ter paciência na divulgação, e planejar melhor mesmo. Mas acho que a carreira tem fluido bem, melhor agora que eu tô estruturado e com um norte mais bem delimitado. E ano que vem, acho que se tudo voltar ao normal, eu volto com tudo também; tenho muita coisa minha pra revisitar, a própria &#8216;Ela Sabe&#8217;, que o clipe foi gravado há um ano, e o som tem dois anos já, e eu tinha muita dificuldade técnica e orçamentária pra fazer &#8211; então a gente mesmo gravou o clipe com celular, e foi difícil para editar, passou no Sirius, depois no João Paulo Brum, e ele que deu toda essa estética final urbana, mas crua, que tem a ver com o Trap Underground, e tal. Mas a gente só conseguiu soltar o clipe um ano depois de gravado.    </p>



<p><strong>T: A maioria da galera do rap aqui de JF tem raízes muito demarcadas na periferia da cidade, e falam muito dos seus próprios bairros. No seu caso, você não costuma abordar muito as suas origens nesse sentido. Como foi, e é, pra você, a questão de entrar em um meio musical que em geral traz esse traço de territorialização como força, sem trabalhar essas questões?</strong></p>



<p><strong>S:</strong>  Essa pergunta me faz refletir muito sobre a minha maturidade musical, mesmo. Eu moro no Vitorino, sempre morei aqui, nascido e criado, e o RT, por exemplo, sempre morou no São Benedito, perto de mim, sempre tive amigos no Linhares e tal, e aquilo das músicas [terem essa demarcação] sempre esteve muito presente pra mim, mas eu não conseguia trazer isso para as letras. Para mim, falar de amor era fácil, só saia de mim, e por muito tempo eu sentia que eu só conseguia falar de amor &#8211; e eu cheguei até a conversar disso com os meus produtores, o Everton também, e concluí que era uma questão de maturidade artística, assim.</p>



<p>E aí, acabou que eu comecei a escrever uns sons mais nessa pegada, assim, que lancei um em primeiro de janeiro de 2018, que é o &#8220;Pra Começar Bem&#8221;, que fala da eleição presidencial, e no primeiro de janeiro do ano passado lancei &#8220;O Homem no Meu Funeral&#8221;, que fala do meu bairro. Mas para mim foi uma questão de conseguir entender melhor e canalizar em forma de música, e ver como eles [os outros amigos rappers] faziam, e aí quando o amor deixou de ser uma questão tão urgente pra mim, eu comecei a conseguir escrever sobre a periferia, as situações que os moleque aqui passam. </p>



<p><strong>T: </strong> <strong>&nbsp;Você comentou sobre as dificuldades de orçamento pra fazer as coisas: gravar música, gravar clipe, divulgar o trabalho; e tenho certeza que a maior parte da galera do Rap vai concordar contigo nesse ponto. Qual você percebe que é a origem desse problema na cena do rap de JF?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> É difícil rastrear essa origem. Vira e mexe, a gente debate esses problemas da cena musical daqui que precisa mudar. Mas eu acredito que isso tenha a ver com pouco investimento no setor cultural daqui &#8211; hoje em dia eu vejo a FUNALFA se mobilizando bem mais, coisa que eu não via muito dois anos atrás, e isso é importante demais pro Rap.</p>



<p>E eu não sei se é a raiz do problema, mas o investimento público em cultura é importante demais. No momento atual do nosso país, parece até piada a gente falar disso né, mas é isso. Pô, eu quero fazer show em teatro, sabe? E não tem um edital aberto pra isso. E além disso, tem também a questão privada, do comportamento das casas de show na hora de chamar os artistas, que prioriza os artistas externos e gasta uma grana pra fazer show dessa galera, que vem do Rio, de SP, de BH, enquanto a gente daqui fica como secundário. E eu queria ver esse mesmo nível de investimento com a galera daqui, porque a galera daqui tem o mesmo talento da galera de fora.</p>



<p><strong>T: Esse investimento mais massivo em artistas de fora te faz pensar em ir pra outras cidades? Como você percebe a questão de produzir arte em JF?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Eu tenho pensado muito sobre o cuidado dessas coisas que vêm prontas pra gente. Às vezes, pra um artista aqui de JF, de uma zona periférica, ir pra São Paulo parece a grande meta; e eu já pensei isso, também. Mas hoje em dia, eu não tenho essa ânsia. Eu tô me localizando mais. Primeiramente, a minha música é pra tocar pessoas, e pra fazer companhia, e eu acho que isso tem que começar a acontecer aqui na minha rua, no meu bairro, na minha cidade, pra conquistar o mundo. Esse é o jeito que eu trato música, com carinho, de levar as coisas pra cada lugar.</p>



<p>A ideia de ir pra fora, pra algum grande centro, me atrai no sentido de que show gira mais lá, o capital é melhor, o senso de oportunidade é maior, né? Porque JF ainda não é metrópole. Mas eu acredito que quando a minha música não couber mais aqui, ela vai chegar em São Paulo. Por enquanto, eu ainda tenho muita coisa pra fazer aqui. Quero ir, claro, conhecer, fazer parceria, mas trazer coisa pra cá, trazer ideias, projetos pra cá, e eu não quero me distanciar das minhas raízes também.</p>



<p>A questão de produzir arte independente aqui é difícil, primeiramente porque a gente já é muito injetado pelas culturas de fora, mas também por conta da propagação de formação; a cena musical daqui é muito nova ainda, e os cara tão fazendo acontecer agora, o ápice tá sendo agora, com as galera fazendo som de alto nível.</p>



<p><strong>T: &nbsp;Quais foram as suas inspirações mais diretas para o clipe de &#8216;Ela Sabe&#8217;?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> De inspiração visual, eu arrisco dizer que tem muita influência do Atlanta, alguns enquadramentos me lembram muito o Hiro Murai e como ele filma o cotidiano, e a gente fez esse clipe num rolê que a gente dava de verdade &#8211; não foi set de gravação ou locais pensados -, e a gente só resolveu filmar um dia desses. E aí, na questão da estética, o JP Brum soube dar essa sujada na imagem, pra passar essa ideia mais urbana. Mas o clipe foi gravado num perrengue, com dois celulares, e as imagens tiveram que passar por um tratamento mais pesado.</p>



<p>No fim das contas, o clipe saiu muito bonito, com uma estética urbana, noite street, assim, e foi uma surpresa linda. </p>



<p><strong>T: A escolha pelo Bahamas 24h para o clipe foi muito bem pensada no sentido de que é um local de rolê mesmo da galera, e que vocês conseguiram trazer pra dentro do clipe como um elemento tanto de pertencimento à cidade quanto transformá-lo em algo cosmopolita através da estética e do som que imprimiram nesse cenário.</strong> <strong>Tendo isso em vista, como você pensa que as produções locais podem popularizar e aumentar o alcance da produção de Juiz de Fora a longo prazo?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Eu penso que a gente precisa criar uma estética nossa, local, e importar o mínimo possível num sentido um tanto modernista mesmo, de pegar um tanto, saber aproveitar o que dá e jogar o resto fora. Porque a gente mora aqui, a gente não mora na gringa, a gente não mora na metrópole. Então por mais que o Rap chegue aqui já como um gênero importado, porque veio dos EUA, eu acredito que a gente tem que saber criar a nossa própria estética &#8211; e eu ando indo atrás disso, não de trazer pronto, mas de descobrir mesmo, e vejo muita gente daqui fazendo o mesmo, e retratar a nossa cidade (em vez de um cenário, ou um carro que a gente não tem, ou uma casa que a gente não mora) é uma forma de deixar a cidade expandir a nossa arte. É uma coisa que faz o público daqui se sentir representado, e não uma coisa poética de querer representar uma vida que aqui não tem. É nisso que a produção de JF precisa mirar pra gente ser grande, assim. E é isso o que eu quero fazer.</p>



<p><strong>T:  &nbsp;Desde a época da Pantera Cor de Rosa, da MC Xuxu, filmado no Parque Halfeld, que fica claro para mim esse impacto de pensar os lugares do nosso cotidiano enquanto lugar de arte, até pra que as pessoas entendam que é possível fazer arte na cidade.</strong> <strong>Nessa perspectiva, o que você diria pra alguém que está começando agora na arte e se sente orfão de apoio e de espaço para produzir aqui na cidade?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Eu diria &#8220;bem vindo à luta&#8221; (risos). Porque é isso, a gente também se sente orfão de apoio e espaço, e se alguém começa agora, e passa a frequentar os espaços, vai ver que tá todo mundo procurando apoio, patrocínio, e descolar uma gravação em estúdio. E é difícil, nem todo mundo consegue. Mas pra não desmotivar, assim, também, eu acho que a música encontra muito as pessoas, e a gente vai formando laços. E isso é uma das melhores coisas, independente do sucesso econômico. Com certeza a música vai te unir com pessoas que você nunca imaginou, que vão te ensinar coisas incríveis, e vai te colocar num espaço de pertencer, porque a galera aqui sabe muito o que quer para a cena daqui, como um negócio autênticos e que também alimente a gente. É colar com as pessoas certas, que fazem a arte por motivos bons, pra entrar nesse ambiente.</p>



<p><strong>T: &nbsp;Você comentou, lá no início, que tem muito essa coisa de escrever sobre amor, que é um tema fácil pra você &#8211; e realmente, ele tá em boa parte das suas músicas. Mas outro tema bem recorrente nas suas letras é a questão da ostentação, em que você fala de marcas, de estilo, de consumo &#8211; e que é um tema recorrente no rap. Queria que você comentasse um pouquinho sobre essa questão e como essa temática se encaixa na cultura do rap mesmo enquanto ponto de fortalecimento, identificação, etc.</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Essas letras, pra mim, são como um vislumbre de futuro, um futuro em que eu posso comprar as coisas, essas marcas que são de qualidade e tal. Essas músicas pensam em um modelo de sucesso, e eu vejo que, pra mim, isso me injeta e me molda de algumas formas. Mas eu querer ter um cordão de ouro, e uma roupa da hora, e um Air Jordan, por exemplo, vem muito da formação identitária do rap, que vem dos Estados Unidos; e eu falo como participante dessa cultura, também. Mas revisitando essas músicas, eu vejo elas de uma forma um pouco diferente &#8211; porque não tem problema você falar de marca, de luxo, e tal, mas isso não pode ser vendido como a felicidade plena, entende? Eu tomo cuidado e tenho mais essa consciência agora de tentar não vender muito esse ideal de felicidade baseado nesse lifestyle.</p>



<p>Em &#8216;Ela Sabe&#8217;, é uma letra mais descontraída, mais de festa, e é essa a vibe que me bate pra escrever letras que tenham essa abordagem. Então eu não levo muito como uma coisa poética ou educativa, nem com uma ideia de literacia.</p>



<p><strong>T: Você comentou agora sobre essa questão da escrita poética, ou com literacia, e isso me remeteu muito à sua experiência no jornalismo e com a escrita de forma geral. Como é, pra você, trabalhar esses dois mundos &#8211; a escrita poética/literática e o rap -, que tantas vezes são vistos como opostos?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Esses mundos, pra mim, eles se separam como eu separo o que é mecânico e o que é emocional. Trabalhar a escrita de uma matéria jornalística, pra mim, é algo mais mecânico, que eu preencho uma fórmula de texto; e eu sempre escrevi nesse sentido, de escrever crítica de cinema, que foi o meu primeiro rolê de pensar a arte. E literatura me inspira muito, vira e mexe eu trabalho diretamente uma palavra; mas escrever poesia, pra mim, é bem mais emocional. Porque quando eu tô precisando escrever algo mais íntimo, vem em forma de poesia, em forma de música, os versos melodizados.</p>



<p><strong>T: Na própria FACOM, foi onde você conheceu o Beatmaker, e de lá saíram outros nomes da música de JF também, e até do nicho específico do rap &#8211; como o J.Vito, com quem você tem uma parceria, e a Marcella, que não é exatamente do rap mas com quem você também já fez parceria. Como você entende essa relação entre o espaço da FACOM e a música de Juiz de Fora, tendo essa perspectiva de alguém que observa isso de dentro?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Realmente a FACOM é um ambiente que atrai uma galera da música, né? Até outros tipos de música, mesmo, galera do Rock também. Mas no rap, por exemplo, o J. Vito foi meu veterano, que me guiou no início, me deu dicas de escrita, de mostrar letras pra ele em intervalo de aula. E vendo de dentro, eu sinto que a FACOM traz muita liberdade pra gente falar de coisas próprias em determinada parte do curso, e nessa época, pra mim, foi quando eu pude usar pra aflorar o meu sentido artístico. Eu entrei na faculdade pensando &#8220;sobre o que eu vou escrever&#8221;, e a minha decisão já era escrever sobre a arte &#8211; mas calhou que eu passei a escrever a arte em si, mas acho que tem a ver com essa relação com a escrita e de ter uma certa sensibilidade nisso.</p>



<p><strong>T: Você já comentou que tem muita coisa pronta, guardada, pra sair. O que vem por aí primeiro?</strong></p>



<p><strong>S:</strong> Então, eu resolvi revisitar algumas coisas na minha arte, assim, como &#8216;O Homem no Meu Funeral&#8217;, por exemplo. E vai ter clipe dela, vou gravar esse ano ainda. E, assim, eu vou lançar um curta documental de uns dias que eu passei na Bahia &#8211; e eu tenho um EP que chama &#8216;Coisas da Vida&#8217;, que eu escrevi ele em Salvador, que tem essa pegada bem brasileira mesmo, e que coincidiu de eu ter a oportunidade de ir em um outro lugar da Bahia e gravar umas imagens, e aí vai sair o curta.</p>



<p>E falando de música, primeiro de janeiro eu tô aí de novo, vou vir com uma reflexão sobre esse ano de pandemia, pensando do por quê disso tudo estar acontecendo, vindo de uma lógica minha de fé &#8211; e vai chamar &#8216;Pandemônio&#8217;. E pra deixar um gostinho, eu tenho o meu segundo album de estúdio, que vai vir um álbum colaborativo com o Brackes Mallone, BRK, que chama &#8220;Complexo Guache&#8221;, que trata de uma perspectiva de melhora diante da depressão, e trabalhando com a ideia das cores, tá bem bonito &#8211;  e as coisas estão bem encaminhadas já, por isso que tô falando delas.</p>



<p>E fora isso, tem outras coisas que já tem o instrumental gravado, e já tem um conceito e a letra pensada, mas que faltam algumas etapas ainda.</p>



<p><strong>T: &nbsp;Qual pergunta você gostaria que eu tivesse feito e não fiz? E qual a resposta para ela?</strong></p>



<p><strong>S: </strong> Acho que nem tem uma pergunta, mas queria deixar pra galera que eu vou continuar aqui, fazendo muita música, pra galera não esperar coisas parecidas, que eu tenho a ideia de fazer outros sons, funk, dancehall, reggae, e outras coisas que eu já tenho pensada aí, flertar com muitos gêneros, porque eu posso fazer tudo, música é vastidão. E eu espero que a minha consiga tocar muita gente, de verdade.</p>



<p>&nbsp;</p>



<p>Assista ao clipe de &#8216;Ela Sabe&#8217;:</p>



<figure class="wp-block-embed-youtube wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe title="Set - Ela Sabe (feat. RT Mallone, Brackes Mallone, Sirius. &amp; Jovem Saga) [prod. Erik RK]" width="950" height="534" src="https://www.youtube.com/embed/wxIhmKVKvmo?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<p class="has-text-align-right has-normal-font-size"><strong>Sobre a Entrevistadora:</strong></p>



<p><strong>Carol Cadinelli</strong> é jornalista, apaixonada por palavras. Escreve, edita, revisa, traduz e, vez ou outra, fotografa. Atualmente, é editora na Trama, Social Media na Peregrina Digital e escritora nas horas vagas.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/073d7-loja-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11574" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/revista-trama-edicao-impressa-edicao-001"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/72b80-impressa-3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11608" data-recalc-dims="1" /></a></figure>
</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/affnana/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>Sobre o ato de votar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:27:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Déborah Silva]]></category>
		<category><![CDATA[Democracia brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[Eleições Municipais]]></category>
		<category><![CDATA[Voto consciente]]></category>
		<category><![CDATA[Voto obrigatório]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Deborah Silva</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Mais um ano de eleições no Brasil e a discussão sobre a obrigatoriedade do voto, como sempre, reaparece. Já existem muitos materiais disponíveis sobre os argumentos de quem é a favor ou contra o voto obrigatório, então, além dessa análise, vamos trabalhar aqui com conceitos mais básicos que antecedem a confirmação de uma escolha nas urnas, e os motivos pelos quais votamos e devemos votar.</p>



<p>A primeira coisa que precisamos entender falando de eleições é o que elas representam para o nosso Estado. A Constituição prega que “todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”, e isso significa que vivemos em uma democracia representativa.</p>



<p>Este modelo consiste na delegação do poder de decisão a algumas pessoas, sempre com base em alguns princípios, tais como: observância dos procedimentos constitucionais; igualdade de todos perante a lei; sufrágio universal; e mandatos eletivos com temporalidade definidas.</p>



<p>A valorização dessa democracia se dá pelo fato de que, quantitativamente, ela é capaz de permitir a participação de toda a sociedade, ao contrário do que acontecia na democracia direta grega, por exemplo, em que só os homens atenienses eram cidadãos capazes de opinar e decidir, enquanto o resto da população ficava de fora desse processo. Ainda, essa forma de representação facilita a tomada de decisões em um país grande como o nosso, já que aperfeiçoa o tempo das discussões e a logística sobre os temas.</p>



<p>Assim, o voto nada mais é que um dos mecanismos para se efetivar a soberania popular. Hoje em nosso país ele é universal, obrigatório para brasileiros entre 18 e 70 anos e facultativo para analfabetos e jovens entre 16 e 18 anos. Algumas de suas características são protegidas com maior rigidez, ou seja, são cláusulas pétreas, não podendo o voto deixar de ser direto, secreto, universal e periódico. A obrigatoriedade pode ser revista por emenda constitucional, mas por que deve ser assim?</p>



<p>Inicialmente, deve-se restar claro que o ato de votar é um dever e não só um direito, que se baseia na responsabilidade que cada cidadão tem para com a coletividade ao escolher seus mandatários. O eleitor é verdadeiro componente do órgão eleitoral, então o voto tem o caráter de uma função pública.</p>



<p>Além disso, o estágio democrático em que o país se encontra não é propício ao voto facultativo, já que grande parte da população ainda vive em estado de pobreza e tem baixo nível de escolaridade, fazendo com que muitos desconheçam alguns de seus direitos. A tendência é que o voto facultativo exclua das urnas essas camadas da sociedade, enquanto a obrigatoriedade seria um forte instrumento para manifestação da vontade política.</p>



<p>Outro argumento diz respeito ao caráter pedagógico do voto, pois mesmo não sendo anual, o resultado em longo prazo seria uma sociedade com cultura política mais forte, com hábito e interesse na informação e no pleito em geral. A participação constante no processo eleitoral tende a deixar o eleitor mais ativo socialmente.</p>



<p>Outro aspecto seria o nível de participação e legitimidades das eleições. Nunca aconteceu de mais de 50% do eleitorado se ausentar, e isso evita controversas acerca da credibilidade das instituições. Esse cenário é muito importante para democracias não totalmente consolidadas, com tendência à instabilidade político-institucional, como é o caso do Brasil, além de auxiliar a questão do custo-benefício.</p>



<p>Esses argumentos apontados até aqui são de natureza mais técnica, aqueles que vemos com maior frequência. Entretanto, se fizermos uma análise mais prática, uma verdadeira autocrítica, é possível perceber que o ato de votar é mais significativo do que parece.</p>



<p>A cada dois anos há um pedido para que as pessoas parem e reflitam sobre o que significa uma democracia representativa, e o que a lei de fato exige é o comparecimento, mas o voto em si pode ser nulo, branco ou em alguém. Isso significa que, se você está 100% insatisfeito com todos os candidatos na disputa, ninguém irá te obrigar a depositar confiança em algum deles.</p>



<p>Em uma democracia tudo que diz respeito à coletividade deve ter sim a participação de cada um individualmente, por uma preocupação com o todo. É o que acontece na vacinação obrigatória, por exemplo, a responsabilidade não é só para proteger a mim mesmo, mas o maior número de pessoas na minha cidade, no meu estado, e no país.</p>



<p>É notório que o processo não é necessariamente prazeroso e apresenta muitos problemas. Por vezes ouvimos ou dizemos que não há mais solução para o Brasil, ou que a política não funciona mais e por isso não nos interessa. Se já vivemos em um momento de extrema demonização política em razão da corrupção, perpetuar esses estigmas seria validar uma tentativa de isenção da nossa responsabilidade de mudar o que não está funcionando.</p>



<p>Em quantos pleitos eleitorais nós consultamos os planos de todos os candidatos? Quantas vezes fomos atrás dos projetos de leis e da história política deles? Ainda que de forma superficial, é inegável reconhecer quanto engajamento é possível produzir nos meses anteriores à eleição, desde conversas com os familiares até as pesquisas, toda essa bagagem anterior movimenta a democracia. &nbsp;</p>



<p>Cabe a nós uma consciência sobre o voto, uma consciência cívica que não é restrita pela obrigatoriedade. Pelo contrário, se enxergarmos o voto como instrumento de resistência e luta, vamos perceber como, a cada novo pleito eleitoral, podemos analisar em retrospecto o que nossos votos transformaram. E nossa educação política deve ser cotidiana, não só por nós, mas por todas as populações vulneráveis e marginalizadas que tanto dependem de vereadores, prefeitos, governadores bem preparados.</p>



<p>Nós já sabemos que as principais soluções para um país melhor estão na educação básica e em resolver os problemas da desigualdade socioeconômica, e é pensando nisso que devemos deliberar com a noção de que, naquele momento, o voto de todos tem o mesmo peso.</p>



<p>Nossa democracia tem 32 anos e nasceu de um período ditatorial em que as pessoas eram perseguidas, torturadas e mortas por darem suas opiniões. Hoje, não só podemos ser resistência, como podemos atacar as instituições que não estão em compatibilidade com o Estado Democrático de Direito. Por isso, usemos nosso voto e usemos com consciência, responsabilidade e principalmente motivação, sabendo que votar é um verdadeiro ato revolucionário.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>REFERÊNCIAS</strong></p>



<p>POLITIZE. <strong>Voto Facultativo</strong>.&nbsp; Disponível em: &lt;<a href="https://www.politize.com.br/voto-facultativo/">https://www.politize.com.br/voto-facultativo/</a>&gt;.</p>



<p>SENADO. <strong>Vantagens e desvantagens do voto obrigatório e facultativo.</strong> Disponível em: &lt;<a href="https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td-6-vantagens-e-desvantagens-do-voto-obrigatorio-e-do-voto-facultativo">https://www12.senado.leg.br/publicacoes/estudos-legislativos/tipos-de-estudos/textos-para-discussao/td-6-vantagens-e-desvantagens-do-voto-obrigatorio-e-do-voto-facultativo</a>&gt;.</p>



<p>BRASIL. <strong>Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil</strong>. Brasília: DF: Senado, 1988.</p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/17081-debra-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11621" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong><strong><strong>Déborah Silva</strong></strong>&nbsp;</strong></strong>é pós graduanda em Direito Constitucional.&nbsp;</p>
</div></div>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>Dos tempos que se foram, mas não passam: os ensinos da infância e a responsabilidade do eu com o outro</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:26:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Aglomeração nas Igrejas]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Gyovana Machado]]></category>
		<category><![CDATA[Religiosidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gyovana Machado</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Algumas memórias atacam quando cutucadas. Esse é um fenômeno recorrente em minha vida; acredito ser esse o motivo das risadas em público desacompanhadas de uma piada externa, ou de alguém que as provoque externamente: a mágica acontece num instante interno e pronto. Sem muitas justificativas, sou puxada a passados que, em algumas circunstâncias, não querem passar. Isso é ruim, mas é bom.</p>



<p>Com o dia das crianças, eu consegui me lembrar de certos juízos e valores &#8211; na época, inquestionáveis &#8211; que moldavam a minha forma de expressão no mundo. Aumentando a lente, posso dizer que comecei a pensar na minha relação e nas concepções sobre individual e coletivo. Nunca fui uma criança solitária, mas sempre preservei o que, hoje em dia, compreende-se por solitude. Ter o meu espaço não apenas físico, mas também de desenvolvimento amplo das ideias, era fundamental para que eu conseguisse dialogar com o mundo a minha volta; caso contrário, eu dispunha de um humor pra lá de irritante e, assim, afastava qualquer possibilidade de juízo claro e constante pelo dia. Já chorei quando meu pai, passando em frente o ponto onde eu esperava o ônibus após a escola, não me viu e seguiu em frente. Segurei o choro até chegar em casa (ok, umas lágrimas caíram pelo caminho) e, por lá, desabei; era como ter visto O oásis no deserto mas ter esfregado o olhos e ter me conscientizado de que era apenas um delírio. Minha responsabilidade individual, quando desfocada no/do outro, gerava apenas delírios em mim &#8211; ou seja, <strong>quando não vejo <em>aquele que não sou eu</em>, me afogo em ideais que respondem apenas às minhas demandas mas que, ao fim e ao cabo, não passam de delírios.</strong></p>



<p>Um dos conselhos pertinentes na História é olhar para o passado a partir do presente &#8211; ou seja, inverter a lógica da linha do tempo para quebrar o paradigma invisível de que o tempo é linear e progressivo; horrores acontecem pelo caminho. Por exemplo: falava-se em desenvolvimento contínuo no século XX (lembre se do clima Belle Époque na Europa), que seria como um trem sem os freios apontando e seguindo para destinos gloriosos; no entanto, houve um acidente pelo caminho, e o causador dele tem por nome &#8220;guerras&#8221; &#8211; sobretudo aquela que mobilizou grandes potências de sua contemporaneidade: A Primeira Guerra Mundial, que deu o tom para o início do século. O mundo é um moinho, já diria Cartola.</p>



<p>Quando me estiquei na reflexão individual-coletivo, portanto, não pude deixar de lado o que <em>é </em>o meu presente -ou como <em>está</em> o presente em que vivo. Dessa forma, consegui tirar algumas conclusões prévias para entender os absurdos que encontro pelo caminho &#8211; não em uma tentativa de os justificar, longe disso, mas para complexificar algumas irritações que surgem em mim quando olho para o outro ou até mesmo pra mim.</p>



<p>A assimetria/simetria é a baliza que sempre acredito ser auto evidente em qualquer esfera do conhecimento, seja ele teológico, político, econômico, etc infinita (cabe dizer que digo dos campos onde tenho certo tipo de atuação e que me mantenho atualizada). Nesse primeiro citado, me desenvolvi em todos os sentidos durante a minha formação cidadã na pré-adolescência, adolescência e início da juventude. A religiosidade sempre foi motivo dos meus afetos e também desafetos; por isso, acredito eu, esse ser o ambiente em que mais presto a minha observação. A ideia de missiologia &#8211; ou seja, a propagação da Mensagem em que se crê &#8211; sempre passou pelo fio do testemunho que, numa linguagem mais clara, se traduz como <em>ser aquilo que se crê e fala. </em>Assim sendo, percebendo que a integração da fé cristã converge no ponto da &#8220;vida e vida em abundância&#8221; (Jo 10:10), é um tanto quanto assimétrico enxergarmos os prédios físicos lotados em um presente onde se tem um vírus disseminado e que tem matado sem a escolha de um padrão ou tipo ideal de pessoas (é óbvio que existem pessoas mais vulneráveis, mas as exceções apenas demonstram que ele ainda é o desconhecido). De toda forma, concluo que a assimetria desses espaços se dá pela escolha de não manutenção da vida; portanto, o abandono do testemunho como aspecto fundamental da vida cristã. Indo um pouco além na argumentação, percebe-se uma projeção &#8211; errônea &#8211; dos conceitos de soberania divina e de comunhão para justificar e legitimar a aglomeração nesses espaços. Sendo mais clara: a narrativa que se constrói gira em torno do argumento de que  &#8220;deus não permitirá a disseminação e contágio do vírus enquanto nos reunimos fazendo a <em>sua </em>vontade&#8221;; a igreja prédio é um espaço fundamental pois é onde se gesta a comunhão e, sem ela, há um desgaste no que se entende sobre <em>ser </em>igreja. São afirmações tão cristalizadas e inquestionáveis que legitimam aglomerações e distinções com relação aqueles que repensam esses usos e desusos do carimbo divino. Ora, a imagem de Deus como um micro administrador das nossas vidas, que dá conta das nossas irresponsabilidades, é criada pelo capitalismo para sua sobrevivência, pois, se antes se justificava a tirania como escolha divina, hoje se justifica o culto aos egoísmos como uma necessidade que, no entanto, é compartilhada entre um número ínfimo de cidadãos dispostos a abdicar da coesão e equilíbrio em nome de uma agenda que não leva em consideração o coletivo. </p>



<p>Recebi uma mensagem por esses dias de um rapaz que estava triste com o que havia sofrido nesses espaços e que, por ele, deveríamos colocar fogo nos prédios, mas que não o fazia pois tinha bom senso. Concluo esse texto dizendo o mesmo que disse a ele, pois, de toda forma, sou parte desse espaço: &#8220;- Às vezes, tudo parece tão errado que a solução se apresenta assim pra gente: vamos botar o prédio abaixo e começar do zero. Mas com calma e sabedoria, conseguimos (em nome de Jesus) dialogar melhor nos espaços de fé cristã&#8221;. </p>



<p>Pois bem, se a transcendência coletiva tem sido benéfica para os que experimentam dela, isso eu não questiono; na verdade, estou longe de pôr uma interrogação na experiência do outro, mas sou uma das vozes que permanecerá questionando: seria essa atitude uma condição de delírio? </p>



<p>&#8211; esse questionamento pode ser estendido para além do espaço aqui abordado.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:22% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/c748b-biogyo.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8843" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Gyovana Machado </strong></strong>é Cristã, graduanda em História pela UFJF e formada no Seminário Teológico Rhema Brasil.&nbsp;</p>
</div></div>



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<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/08/443e6-galeriaiury3-1021x1024-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-10527" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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		<title>CASA D&#8217;ITALIA: A MEMÓRIA E A CULTURA ITALIANA EM JUIZ DE FORA E REGIÃO</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:25:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Casa DItalia]]></category>
		<category><![CDATA[Herança Ítalo-Brasileira]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Patrimônio Cultural]]></category>
		<category><![CDATA[Patrimônio Histórico]]></category>
		<category><![CDATA[Rafael Bertante]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Rafael Bertante</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>Frente aos acontecimentos recentes em torno da decisão por leiloar a Casa D&#8217;Itália de Juiz de Fora, membros da instituição e da sociedade civil se mobilizaram em prol da preservação do símbolo cultural, localizado no coração da cidade </em></p>



<p>Há oitenta anos, a cidade de Juiz de Fora acolhe um importante centro de preservação e difusão da cultura italiana no país, a Casa d’Italia de Juiz de Fora.&nbsp; Criada sob um contexto fascista, o local tinha por intuito, reunir os italianos que viviam fora de seu país de origem, para que pudessem manter seus costumes e apoiar o regime instaurado na Itália. Com o passar dos anos, algumas características da Casa foram se transformando, exceto seu empenho em conservar e promover a cultura italiana.</p>



<p><strong>A Origem e a História da Casa D&#8217;Italia</strong></p>



<p>A presença de imigrantes italianos em Juiz de Fora se tornou significativa a partir das últimas décadas do século XIX, quando muitos chegaram para trabalhar nas lavouras de café da região e outros, atraídos pelo desenvolvimento urbano, desempenharam inúmeras funções no comércio e indústria local. Como herança da atuação dessas pessoas pelo município, vemos ainda hoje seus traços na arquitetura, arte, culinária, costumes, festas, danças e músicas.</p>



<p>Nos anos de 1930, com a finalidade de aproximar os italianos que viviam fora da Itália, o Governo Fascista de Mussolini, incentivou a construção das “Casas da Itália”. Entre os principais objetivos desse projeto estavam à ampliação do controle sobre as associações das colônias e criação um espaço em que se pudessem celebrar as datas do regime.</p>



<p>Deste modo, vários imigrantes e associações italianas se mobilizaram pela causa e investiram na construção da Casa d’Itália de Juiz de Fora. Assim, em 1933, foi adquirido o terreno e logo deram início à obra. Sob a responsabilidade da Companhia Industrial e Construtora Pantaleone Arcuri, a construção foi erguida em 1936, com um projeto em estilo <em>Art Déco</em>, realizado pelo arquiteto Raphael Arcuri. Para colaborar com a iniciativa, o Governo italiano enviou 50 contos de reis e os letreiros, que se encontram na fachada do prédio.</p>



<p>A inauguração da Casa d’Italia de Juiz de Fora ocorreu em 1939, trazendo como os principais objetivos, auxiliar e unir a colônia italiana da cidade. Naquela época, as suas funções eram a instrução, escola, biblioteca, hospital, beneficência, lazer e esporte. Para abrigar todas essas atividades, o prédio contava com dois andares e um subsolo. Além disso, a Casa também possibilitou a interação entre os imigrantes e a população local.</p>



<p>Durante a II Guerra Mundial, o espaço foi tomado pelo Governo brasileiro, passando a servir como Circulo Militar. Ao final do conflito, a Casa pode retornar as suas funções. Manteve-se auxiliando as famílias dos imigrantes e propagando a cultura italiana através de aulas do idioma italiano, danças, músicas e pesquisas. Contudo, o que outrora a ligava governo fascista, passou, a partir de então, a compor um centro de convivência e de aprendizado democrático e sem fronteiras.</p>



<p>Em 1985, através do decreto 3.359, o imóvel foi tombado como patrimônio da cidade de Juiz de Fora, com a justificativa de ser um “marco da presença e da relevante contribuição da colônia italiana para o desenvolvimento do Município e o valor artístico”. Portanto, fica claro que a Casa d’Italia proporcionou a criação de vínculos afetivos através da cultura italiana, se materializado em uma arquitetura excepcional, que documenta um período histórico.</p>



<p><strong>A Casa D&#8217;Italia Hoje</strong></p>



<p>Atualmente, a Associação Ítalo-Brasileira San Francesco di Paola é a mantenedora do espaço que abriga o Departamento de Cultura, biblioteca, a capela de San Francesco di Paola, a agência consular – vinculada ao Consulado da Itália de Belo Horizonte – o curso de língua italiana &#8220;Cultura Italiana&#8221;, o grupo de dança folclórica italiana Tarantolato, o Coral Itália Tra Noi, o grupo de bordadeiras, o time de bocha &#8220;Casa D&#8217;Italia JF&#8221;, uma escola de pizzaiolo e um atelier de artes. Além destas atividades, a Casa também promove uma série de eventos típicos, palestras e festas que promovem a cultura italiana.</p>



<p>A partir deste breve histórico, torna-se necessário contestar a recente decisão do Consulado de Belo Horizonte, em colocar em leilão a Casa D’Italia de Juiz de Fora que foi doada simbolicamente, no passado, para o governo Italiano para fins de preservação. A sua importância envolvem aspectos patrimoniais e afetivos que englobam a cidade, os descendentes da coletividade italiana e as famílias que se uniram para construir esse espaço de cultura. Em 81 anos, a Casa D’Italia de Juiz de Fora viu as diversas transformações da história e hoje é um símbolo da resistência, da luta pela preservação da memória dos imigrantes italianos da cidade e região.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Referências</strong></p>



<p>BERTANTE, Rafael de Souza. <strong>Um olhar sobre a sociabilidade italiana em Juiz de Fora:</strong> italianos maçons e a “Unione Italiana Benso di Cavour”. Dissertação (Mestrado em História). UFJF, Juiz de Fora, 2017.</p>



<p><strong>CASA D’ITÁLIA. </strong>Disponível em:&lt;https://casaditaliajf.wordpress.com/Sobre&gt;</p>



<p>OLIVEIRA, Roberta<strong>. Juiz de Fora 169 anos: parte da história da cidade se passa pela Casa d&#8217;Itália. </strong>Disponível em: &lt;https://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2019/05/31/juiz-de-fora-169-anos-a-busca-e-possibilidades-de-novas-historias-na-casa-ditalia.ghtml&gt;.</p>



<p><strong>PATRIMÔNIO CULTURAL. CASA D&#8217;ITÁLIA &#8211; DOMUS ITÁLIA. Disponível em: &lt;</strong><a href="https://pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/bens_tombados/casa_italia.php">https://pjf.mg.gov.br/administracao_indireta/funalfa/patrimonio/bens_tombados/casa_italia.php</a><strong>&gt;</strong></p>



<p>FERENZINI, Valéria Leão. Os italianos e a Casa d’Italia de Juiz de Fora. In: <strong>LOCUS:</strong></p>



<p><strong>revista de história</strong>. Juiz de Fora, v. 14, n. 2p. 149-159, 2008.</p>



<p>OLENDER, Marcos. “Pedra miliar da nossa arte e da nossa estirpe”: A Casa d&#8217;Itália de Juiz de Fora. In: <strong>LOCUS:</strong> <strong>revista de história</strong>. Juiz de Fora, v. 14, n. 2 p. 161-185, 2008.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong>Rafael Bertante</strong>&nbsp;</strong>é Mestre, Licenciado e Bacharel em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Cursa, atualmente, Doutorado em Ciência da Religião pela mesma instituição, e integra o Departamento de Cultura da Casa D’Itália de Juiz de Fora.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Mulheres rurais, indígenas e afrodescendentes são essenciais para estratégias de recuperação à crise</title>
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		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
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		<category><![CDATA[Mulher Rural]]></category>
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		<category><![CDATA[sociedade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: ONU Brasil</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-center"><em>Por ocasião do Dia Internacional da Mulher Rural, celebrado no dia 15 de outubro, 11 organizações e as embaixadoras da campanha #MulheresRurais, Mulheres com Direitos, se uniram à ação &#8220;15 dias de iniciativas transformadoras&#8221;, compartilhando histórias e mensagens sobre direitos e autonomia econômica;&nbsp;o papel produtivo da mulher rural em sistemas agroalimentares; redução de lacunas e uma vida livre de violência. Leia os relatos da&nbsp;Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).</em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/77d53-capa_fao.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-12406" data-recalc-dims="1" /><figcaption>Foto |  FAO</figcaption></figure>



<p>Por ocasião do Dia Internacional da Mulher Rural, celebrado no dia 15 de outubro, 11 organizações e as embaixadoras da campanha #MulheresRurais, Mulheres com Direitos, se uniram à ação &#8220;15 dias de iniciativas transformadoras&#8221;, compartilhando histórias e mensagens sobre direitos e autonomia econômica;&nbsp;o papel produtivo da mulher rural em sistemas agroalimentares; redução de lacunas e&nbsp;<a href="http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1314723/">uma vida livre de violência</a>.</p>



<p>Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), na região, a pobreza extrema no meio rural pode chegar a 42%, um número totalmente inédito. Segundo essas estimativas, 10 milhões de habitantes rurais –dos quais quase 6 milhões são mulheres– poderiam entrar em uma situação em que a renda não chega nem mesmo para cobrir as necessidades básicas de alimentação.</p>



<p>Durante a pandemia, as mulheres rurais, indígenas e afrodescendentes que trabalham nas áreas rurais, continuaram seu trabalho para atender à demanda por alimentos nas cidades, nas comunidades rurais e em suas próprias famílias.</p>



<p>Porém, muitas ainda realizam suas atividades produtivas enfrentando desigualdades como o trabalho informal, a sobrecarga do trabalho doméstico não remunerado, a dificuldade de acesso a recursos produtivos como terra, água, insumos agrícolas, financiamento, seguros e capacitação.</p>



<p>Elas também enfrentam barreiras para comercializar seus produtos nos mercados, além do aumento da violência de gênero que tem sido visto durante a pandemia nos países da região.</p>



<p>Para Rafael Zavala, Representante da FAO no Brasil, a mobilização de diversas organizações no âmbito da campanha de #MulheresRurais, coloca em evidência a crescente conscientização da importância de seu papel para o desenvolvimento sustentável. “Não há dúvida do papel central que elas desempenham na produção, fornecimento e comercialização de alimentos, bem como na preservação dos saberes tradicionais. Portanto, é urgente desenvolver estratégias com foco no desenvolvimento das mulheres, principalmente para as que trabalham com emprego rural não-agrícola, e foram mais afetadas pela pandemia”.</p>



<p><strong>Uma recuperação nas mãos das mulheres rurais</strong></p>



<p>Segundo a FAO, o contexto atual exige uma vigorosa reação política, estatal, intersetorial e de cooperação para o desenvolvimento, a partir da qual a região deve ser capaz de responder à urgência e, ao mesmo tempo, caminhar para um exercício igualitário dos direitos das mulheres e dos homens, como única forma de nos transformarmos em sociedades mais equitativas e resilientes.</p>



<p>Para que as estratégias de recuperação pós-pandemia sejam eficazes, em conjunto com as mulheres rurais, é necessário:</p>



<ul><li>Valorizar e incluir a abordagem de gênero como elemento fundamental nas estratégias de resposta à pandemia.</li><li>Garantir diagnósticos desagregados por sexo, idade, etnia, localização geográfica e modalidade de emprego, que permitam uma maior estimativa da vulnerabilidade das populações rurais.</li><li>Fortalecer a cobertura de programas e projetos de segurança alimentar e nutricional, a fim de atender às necessidades alimentares urgentes dos setores mais vulneráveis.</li><li>Promover a articulação de programas produtivos, de proteção social e de capacitação voltados para a agricultura de pequena escala.</li><li>Investir na liderança das mulheres e envolvê-las nas estratégias de resposta.</li><li>Considerar como pilar prioritário de reativação econômica a instalação de sistemas de atenção, educação, alimentação escolar e redução da violência de gênero.</li><li>Ativar circuitos curtos de abastecimento e comercialização de alimentos e promover a inclusão de mulheres produtoras.</li><li>Promover ações conjuntas com o setor privado, a fim de desenvolver programas que garantam seu acesso ao trabalho decente e à proteção social.</li></ul>



<p><strong>Organizações que participaram da ação “15 dias de iniciativas transformadoras” no Brasil:</strong></p>



<ol><li>Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO</li><li>Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Mapa</li><li>Secretaria de Desenvolvimento Rural/Entidade da Superintendência de Agricultura familiar da Bahia (SDR/SUAF)</li><li>Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura – IICA</li><li>Cooperativa Castrolanda</li><li>Secretaria da Agricultura, Pecuária e Aquicultura de Tocantins – SEAGRO/TO</li><li>Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil – CNA</li><li>Embrapa Rondônia</li><li>Emater de Minas Gerais</li><li>Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola – FIDA</li><li>SOS Amazônia</li></ol>



<p><strong>A liderança da mulher do campo no fortalecimento da agricultura sustentável</strong></p>



<p>Na zona rural de São Paulo, no Distrito de Parelheiros, Lia Goes de Moura, de 47 anos, trabalha com a produção de alimentos orgânicos na Fazendinha Pedaço do Céu. Neta de produtores de cana-de-açúcar e melancias na região de Palmeiras dos Índios, em Alagoas, e uma das fundadoras da Cooperativa Agroecológica dos Produtores rurais e de Água Limpa da Região sul de São Paulo (COOPERAPAS), ela trabalha em busca do fortalecimento da agricultura local, preservação do meio ambiente, redução da perda e desperdício dos alimentos, e o desenvolvimento rural sustentável.</p>



<p><a href="http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1313030/">Leia o relato no site da FAO.</a></p>



<p><strong>Sororidade em Rede: produção e comercialização para uma vida livre da violência</strong></p>



<p>É sob o sol do Sertão Nordestino que Jaciara Ladislau, conhecida como Kiki, realiza as atividades de casa, as atividades produtivas no roçado, a comercialização de sua produção na feira agroecológica quinzenal do município de Sento Sé na Bahia e coordena a Rede de Mulheres do Sertão do São Francisco.</p>



<p><a href="http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1314108/">Leia o relato no site da FAO.</a></p>



<p><strong>Vayrene Milhomem da Silva: produtora e agroextrativista gerencia agroindústria de polpas naturais em Tocantins</strong></p>



<p>Vayrene Milhomem da Silva é agricultora familiar e herdou de seus pais agricultores, há vinte anos, 135,5 hectares de terra. Hoje, a propriedade é conhecida como Fazenda São Jorge, e fica no município de Barrolândia, Tocantins. Antes de ser produtora, ela era comerciante, tinha um mercado local. Entretanto, desde que recebeu sua herança, se fixou no campo de onde não saiu desde então.</p>



<p><a href="http://www.fao.org/brasil/noticias/detail-events/pt/c/1312739/">Leia o relato no site da FAO.</a></p>



<p></p>



<p><strong><em>Matéria originalmente publicada em </em><a href="https://brasil.un.org/pt-br/96038-mulheres-rurais-indigenas-e-afrodescendentes-sao-essenciais-para-estrategias-de-recuperacao"><em>Nações Unidas Brasil</em> </a><em>em 09/10/2020 &#8211; Atualizado em 16/10/2020.</em></strong></p>



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<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:19% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/982c5-onubio.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8891" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>A ONU (Organização das Nações Unidas) </strong></strong>é uma organização internacional formada por países que se reuniram voluntariamente para trabalhar pela paz e o desenvolvimento mundiais.</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large is-style-default"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-5 wp-block-columns-is-layout-flex">
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</div>



<div class="wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow">
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</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir nessa quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/tuncaliozge"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg9_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11393" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>CAÇADORA DE HISTÓRIAS: LÁGRIMAS, A RESTAURAÇÃO DO SER</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/18/cacadora-de-historias-lagrimas-a-restauracao-do-ser/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:23:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Caçadora de Histórias]]></category>
		<category><![CDATA[Família]]></category>
		<category><![CDATA[Lágrimas]]></category>
		<category><![CDATA[Victória Vieira]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Victória Vieira</p>
<p>O post <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/18/cacadora-de-historias-lagrimas-a-restauracao-do-ser/">CAÇADORA DE HISTÓRIAS: LÁGRIMAS, A RESTAURAÇÃO DO SER</a> apareceu primeiro em <a rel="nofollow" href="https://revistatrama.artebodoque.com">Revista Trama</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em>Há alguns dias, logo depois de almoçar, a água se desprendia da torneira de maneira vagarosa, e os raios do sol já fortes nessa recém-nascida primavera atravessavam cada gotinha translúcida enquanto atingiam os pratos lambuzados do mais perfumado feijão do bairro. Durante essa atividade tão simples e cotidiana, me peguei pensando no quanto dói ver nossos pais, irmãos e avós chorarem. Dói de verdade, fisicamente. E agora tu deves estar te perguntando o quanto de pensamento e reflexão cabe num lavar de louças, né?</em></p>



<p><em>O fato é que esse pensamento me trouxe uma sensação muito forte e também um questionamento: Por quê?</em></p>



<p><em>Quando nascemos, precisamos de calor, proteção e afeto. Essa é a receita que nos permite sobreviver os primeiros instantes fora do ventre de nossas mães, e isso não termina quando somos bebês&#8230; Prossegue por toda a vida.</em></p>



<p><em>Nossos pais, irmãos mais velhos e avós são portadores da ancestralidade, e deles vem o aconchego, os ensinamentos, o impulso para viver e também o porto seguro para onde retornar. Enxergamos essas pessoas como fortes, inabaláveis, sólidas; e, quando elas choram ou de alguma forma se mostram vulneráveis, nós não sabemos como agir.</em></p>



<p><em>Mas é importante não esquecer que são humanos com sentimentos vezes elevados a potências muito altas e que um dia nos foram abrigos logo devem ser abrigados.</em></p>



<p><em>Ah, já me estendi por aqui&#8230; É que falar sobre nosso começo é sempre tão curandeiro. Mas, vamos à<strong>&nbsp;</strong>história?</em></p>



<p>&#8220;Era uma manhã dengosa que se espreguiçava lentamente num Domingo de verão. Começávamos o ritual: Café da manhã sem pressa e com morangos cobertos de aveia e mel, caminhada com nosso cachorro e mais tarde, almoço na casa de nossos avós. Lá, com certeza, a gente encontraria arroz fresco, frango em molho repleto de temperinho verde e salada de rúcula. Sol por todo o quintal, toalhas espalhadas pela grama e a família fazendo fotossíntese (contém humor!). </p>



<p>A gente sempre se enrolava em conversas, histórias, piadas&#8230; e, no fim do dia, um café da tarde cheio de fartura e amor. Numa dessas rodas tagarelas, sempre surge algum relato antigo, travessura de infância, paixonite adolescente, etc. Até que meus avós começam a recordar um período muito difícil e triste da vida deles e não conseguem segurar a emoção&#8230; Ela escorre pelos olhos, e tem efeito dominó em todos que lá estavam. Eles nunca haviam tocado naquele assunto justamente com medo dessas santas lágrimas rolarem. </p>



<p>Mas, sabe o que aconteceu? Eles conseguiram enxergar de uma forma completamente diferente e repleta de perdão. Quando vi aqueles olhinhos de vidro se encherem d’água e embaçarem os óculos, senti um aperto no peito, nó na garganta&#8230; Tudo o que se pode imaginar. Porque nunca tinha visto eles assim: Vulneráveis, reais. Mas vi o quanto eles precisavam pôr para fora e estabelecer uma nova sensação perante tudo o que viveram. Foi aí que percebi: Lágrimas precisam sair porque restauram tudo o que há de corroído, quebrado, sem luz. Lágrimas restauram nosso ser.&#8221;</p>



<div style="height:20px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p><em>Gostou da leitura? Então vou te contar um segredo: Contar histórias é a medicina da minha vida. </em></p>



<p><em>Uni tudo isso num projeto que floresce de maneira vagarosa e especial que se chama “Caçadora de Histórias”. Tu podes conferir ele lá no Instagram e se quiser participar, escreve para mim através do e-mail <a href="mailto:tuahistoriaaqui@gmail.com">tuahistoriaaqui@gmail.com</a> e me deixa te ajudar a enxergar a heroína/herói que és em tua própria trajetória.</em></p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong>Victória Vieira</strong> é escritora e idealizadora do projeto Caçadora de Histórias. Caçando e ouvindo histórias, vou escrevendo a tua com minhas palavras e te ajudando a ter um novo olhar sobre ela. Siga o projeto no <a href="http://instagram.com/cacadora.de.historias">Instagram</a>.</p>



<div style="height:50px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iuryborel/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/4079c-sketch-brasil-1.png2_.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-9943" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Voluntário</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2020/10/18/voluntario/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[amizade]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[Gabi Guarabyra]]></category>
		<category><![CDATA[Mapa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Gabi Guarabyra</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fábio está sozinho em uma parte afastada da casa com seu frasco de remédios em<br>tons pastéis na mão. Teoricamente aqui deveria ser o jardim, mas nada naquele ambiente frio remete ao esperado de um jardim de verdade. Um verde estranho e luminescente cobre tudo ao redor, deixando a atmosfera um tanto artificial. Ele toma um comprimido. </p>



<p>Apesar disso tudo, ainda era melhor estar aqui do que estar em casa. Aqui, as coisas não faziam muito sentido, mas pelo menos a permanência era uma escolha, e não uma imposição. Aqui ele seria capaz de esquecer, deixar o mundo para trás, se perder para se encontrar novamente. Pelo menos, ele acreditava. Alguma coisa estava estranha ultimamente, a sensação constante e inexplicável de que ele precisava sair dali crescia a cada dia.</p>



<p>&#8211; Ei, você está ouvindo isso? &#8211; a voz de Número 2 subitamente faz com que Fábio<br>volte de seus devaneios. Ela sempre falava com um tom macio e convidativo, como quem está constantemente tentando te convencer de alguma coisa. </p>



<p>Desde que Fábio chegou, teve poucos atritos com Número 2. Ela era jovem, devia ter a mesma idade dele. Fábio nunca perguntou seu nome de verdade; por aqui, ela era apenas um número, como todos os outros. Ele era o único que ainda fazia questão de ser chamado pelo nome de origem.</p>



<p>&#8211; Estou ouvindo. Os passarinhos estão cantando. São 11 horas, eles sempre cantam<br>exatamente às 11 horas. &#8211; respondeu. &#8211; É o único som bonito por aqui. </p>



<p>Com isso, Fábio sente o movimento brusco de Número 2 levantando ao seu lado.</p>



<p>&#8211; Isso não é verdade! Gosto do som dos talheres na hora do almoço. &#8211; Ela diz quase<br>ofendida, como se ele tivesse cometido uma grande ofensa ao não exaltar o som da prata batendo na porcelana todas as tardes.</p>



<p>&#8211; Ora, do jantar não? &#8211; Ele questiona, com um fundo de ironia na fala.</p>



<p>&#8211; Claro que não. O jantar aqui sempre é sopa, eu detesto sopa. &#8211; ela levanta a voz &#8211; Aliás, gosto menos ainda do barulho das pessoas comendo sopa. Sabe do que eu estou<br>falando? Além das colheres serem substancialmente mais irritantes do que os garfos, as<br>pessoas parecem que não conseguem colocar uma porção de sopa na boca sem reproduzir os barulhos mais irritantes captados pelo ouvido humano.</p>



<p>Depois dessa declaração profunda e complexa, os dois caem em silêncio. Ele repara<br>que não se lembra que dia é hoje. Aqui, uma das coisas mais importantes é se manter<br>atento ao tempo. É a única coisa capaz de firmar os moradores na realidade, fazê-los recordar alguma coisa familiar com a vida comum que levavam antes de cruzar estas<br>portas. Domingo? Quarta? Era difícil lembrar. Se perguntou se valeria a pena perguntar<br>para Número 2, mas ela nunca o respondia. Ela dizia que não fazia diferença em que dia<br>estávamos &#8211; o que era um completo absurdo, pois as quartas feiras eram dias sagrados por aqui. Vez ou outra, ele perdia uma quarta; quando isso acontecia passava todos os minutos seguintes até a próxima quarta concentrado no tempo. Toda quarta feira, eles vêm.</p>



<p>Fábio nunca tinha visto de fato a presença dos tais homens de sorriso largo, mas<br>ouviu diversas histórias. Eles, os homens simpáticos e arrumados, inteligentes e gentis,<br>vinham todas as quartas e escolhiam quem poderia sair naquela semana. Alguns até saem para sempre. Fábio tinha sede de mundo, vontade de experimentar o diferente. Já não lembrava mais da sensação de estar no sol, caminhar pelas ruas ou dar um abraço. Não se lembrava muito bem de sua casa, mas sabia que não queria voltar para lá. Se não estava satisfeito antes e está começando a se perder por aqui, para onde mais poderia ir?</p>



<p>&#8211; Que dia é hoje? &#8211; Ele desiste de cerimônias e pergunta, já esperando uma resposta<br>evasiva.</p>



<p>&#8211; Quarta. </p>



<p>Ele se surpreende duplamente. Primeiro, pela resposta direta e honesta.<br>Segundo, era hoje.</p>



<p>&#8211; Preciso me arrumar. </p>



<p>Antes que pudesse se mover, ela puxa seu braço com força.</p>



<p>&#8211; Não. Fica aqui. Você nem sabe de verdade pra que você tá se arrumando. Fica<br>aqui comigo. Você gosta de passar tempo comigo, não gosta? Então. E se você for embora e eu ficar aqui sozinha?</p>



<p>&#8211; Aí você vai ficar feliz por mim, mas triste de me ver ir.</p>



<p>&#8211; Eu quero ficar com você. Se você não se arrumar, se você não for… aí você vai<br>estar escolhendo ficar aqui comigo. &#8211; A voz dela trazia uma angústia. Era quase possível<br>sentir na pele os pedidos de Número 2.</p>



<p>&#8211; Eu vou, com ou sem você. &#8211; Se manteve firme, peito estufado, queixo empinado.</p>



<p>Seu físico não combinava nem um pouco com seus pensamentos naquele momento. Uma insegurança começava a inundar seu corpo e sua mente. O que tem de tão ruim lá fora?</p>



<p>Será que ela ainda se lembra? Não ousaria perguntar. Respira fundo e alcança seu frasco<br>de remédios. Toma mais um.</p>



<p>&#8211; Sabe, Fábio, por vezes me pergunto se o mundo é grande o suficiente para todo<br>mundo ser feliz. </p>



<p>Essas palavras não foram proferidas diretamente para ele, mas para o universo. Ela mantém o olhar vago, tenta não observar Fábio. A cegueira de Fábio é uma<br>grande frustração para ela. Sempre fora fascinada por olhares, dividir percepções sobre<br>formas, cores e luzes, mas ali estava todos os dias ao lado daquele homem que usava uma venda como um amuleto da sorte. Olhos cobertos, coração protegido. </p>



<p>&#8211; Os pássaros pararam de cantar.</p>



<p>&#8211; Pararam. &#8211; responde Fábio &#8211; Talvez alguma coisa tenho assustado eles. Eu vou me arrumar.</p>



<p>&#8211; Espera! &#8211; Número 2 grita, e fica alguns segundos pensando no próximo movimento<br>de seu jogo, qual será a estratégia para mantê-lo com ela. &#8211; Almoça primeiro. É, se você for mesmo embora hoje, quero que pelo menos a gente tenha um último almoço juntos.</p>



<p>Um último almoço? Era esse seu grande trunfo? A decepção de Fábio é visível em<br>sua expressão corporal. É claro que ele esperava um grande depoimento, páginas e<br>páginas de um discurso improvisado bem ali que pudesse fazer sentido o suficiente para<br>que ele ficasse. Um almoço? Não era bem o que queria.</p>



<p>&#8211; A gente podia se despedir sem um evento. Não é a Santa Ceia. ‘O último almoço’<br>soa muito dramático. </p>



<p>Quem não conhece Fábio poderia se convencer de sua falta de apego; mas a verdade é que ele era uma das pessoas mais dramáticas que Número 2 conhecia. É verdade que ela não tinha muitos contatos, mas conhecia cada traço, cada músculo, cada reação de Fábio.</p>



<p>&#8211; Hoje o almoço é lasanha. E mais, não é qualquer lasanha, é quatro queijos, sua<br>preferida! </p>



<p>Então ela ia realmente continuar insistindo na narrativa do almoço. É verdade<br>que lasanha quatro queijos é seu prato favorito, mas, sentado à mesa de refeições, ele<br>sentia que nada tinha gosto de verdade. Era como se alguma coisa tivesse levado seus<br>sentidos. Ele sentia o gosto das coisas, podia tocar e experimentar texturas e temperaturas, mas não era o verdadeiro protagonista da história. Número 2 teria que se esforçar mais se quisesse realmente evitar sua partida.</p>



<p>Quando percebe que sua aposta no almoço não foi bem sucedida, os olhos de Número 2 parecem mudar de foco. A cegueira de Fábio impede que ele perceba essa sutileza, o que talvez seja bom para ele. Os olhos caramelo claro agora parecem queimar, seus pensamentos processando possibilidades e a respiração ficando cada vez mais rápida. O coração dos dois parece acelerar simultaneamente, como uma conexão sobrenatural que é impossível ser quebrada. No fundo, os dois sabiam que dificilmente conseguiriam se separar, não importava o quanto um deles queira. Seria preciso cortar as<br>duas pontas da corda.</p>



<p>&#8211; Você conhece a história do fogo? &#8211; Ela pergunta com o tom de voz quase apático,<br>olhando para longe. Não espera a resposta. &#8211; O fogo era uma criança, abandonada por ser difícil demais, se escondeu em alguns cantos. Tentou não machucar ninguém, mas com o tempo a solidão crescia, tornando o fogo mais perigoso, mais arisco. Não se atrevia a chegar perto por medo, mais medo de machucar o outro do que a si. Um<br>dia, o fogo chegou em uma pequena casa. Lá ele encontrou a água. Ela era muito amada, e parece que ninguém se lembrava da enchente ou da tempestade, só do orvalho e dos<br>banhos de cachoeira. Não era justo. Com ele, sempre se lembravam do incêndio antes do conforto da lareira e do fogão que esquentava a comida. Ele só queria se aproximar da água e perguntar qual era o segredo. Quanto mais perto ele chegava dela, menor ele se sentia. Presença que dói, mas que ama. Presença que controla e não vai embora.</p>



<p>Quando ela acaba de falar a atmosfera inteira do lugar está diferente. O silêncio não é daqueles confortáveis e sem cobrança, é um silêncio de julgamento de ambas as partes. </p>



<p>Ele se sentindo injustiçado, atacado por aquela pequena história aparentemente inocente. </p>



<p>Ela com a defesa armada, esperando os golpes que surgiriam de sua pequena performance literária. </p>



<p>Nem sempre as palavras são nossas melhores armas. Uma coisa interessante sobre aqueles dois é que por vezes pareciam morar dentro da mente um do outro. De pé naquele ambiente branco e verde iluminado e fluorescente, decidem que aquela briga teria que esperar por um outro momento. Fábio estava com pressa, tanta pressa, mas já nem se lembra para que. Coração acelerado, palmas das mãos suadas, a venda em seus olhos coçando como nunca, quase como se tentassem saltar de sua face e fazer com que ele voltasse a enxergar o ambiente como realmente é. Fábio toma um comprimido. O mundo está novamente em paz.</p>



<p>&#8211; Número 2?</p>



<p>&#8211; Hm?</p>



<p>&#8211; Pra onde eu quero ir?</p>



<p>&#8211; Para lugar nenhum &#8211; ela grita. &#8211; Você não quer ir para lugar nenhum. Se te levam<br>para fora, o mundo inteiro vira ao contrário e você vai se lembrar de tudo, eu não quero que você lembre. Eu não quero, e você também não. Se quisesse tanto se lembrar, teria parado de tomar esses comprimidos, parado de vir para o pátio todos os dias, tirado a venda dos olhos. Não. Você quer ficar aqui, mas você não sabe disso.</p>



<p>Ela não disse nada disso de verdade. O impulso e a agressividade ficaram pra trás,<br>dando espaço para um aceno de cabeça sutil com hesitação.</p>



<p>&#8211; Você quer ficar, Fábio. Eu sei que quer. &#8211; Ela diz com a voz mais doce que<br>consegue. &#8211; Eu vi os pássaros. As pessoas. As cores. Eu vi o fogo, eu deitei na cachoeira. É<br>lindo. É lindo, mas não vale a pena.</p>



<p>&#8211; E quando você viu tudo isso? Você sempre esteve aqui! &#8211; Ele retruca com violência.</p>



<p>Algumas coisas não devem ser ditas, e sim descobertas. Infelizmente, o mundo não<br>é feito de respostas, e sim de perguntas. Quanto melhores as perguntas, melhores os<br>lugares aos quais conseguimos chegar. Naquele ponto, não seria justo que Número 2 revelasse a verdade para Fábio. Seria cruel, na verdade. Como poderia expor todos os acontecimentos dos últimos anos como um livro aberto? Como poderia despejar a verdade por cima de tantas crenças? </p>



<p>Não faria isso. Não aqui, não agora.</p>



<p>&#8211; Fábio, com quantos anos é sua primeira lembrança?</p>



<p>Silêncio.</p>



<p>Os pensamentos de Fábio começam a acelerar, ele tentar chegar a uma conclusão. Começa aos poucos, pelo dia de hoje. O que ele almoçou hoje? Eles foram almoçar? Fábio se lembra vagamente de ouvir alguma coisa sobre lasanha, pássaros e quartas feiras. Que dia é hoje?</p>



<p>&#8211; Você lembra de ser criança? &#8211; Ela continua. &#8211; De brincar de pique esconde? Se<br>lembra da sua adolescência, seu primeiro beijo?</p>



<p>&#8211; Claro que lembro, quem esqueceria uma coisa dessas? &#8211; Ele responde na<br>defensiva, mesmo sabendo que, na verdade, não se lembra de nada. </p>



<p>Ela ri da resposta. Não uma risada alta e contagiante; uma risada triste, carregada de pena. Respira fundo e segue com mais uma tentativa, agora um pouco mais incisiva.</p>



<p>&#8211; Sua casa era a última da rua. Isso facilitava as coisas, já que todas eram<br>exatamente iguais, então você sabia que era só andar até o final. Lá dentro, não tinha nada nem ninguém de especial também. O lugar é só um lugar qualquer se ninguém estiver lá.</p>



<p>Alguém estava lá. Seus pais estavam. Os dois sempre sorridentes, congelados e sempre sem tempo. Sua mãe trabalhava na área de cosméticos, passou a vida buscando a fórmula mágica do rejuvenescimento. Seu pai trabalhava com desenvolvimento de softwares para uma grande empresa de celulares e computadores. Resumindo, seus pais estavam ocupados com o que havia de mais importante no mundo: as aparências e a tecnologia. Tudo isso não deixava muito tempo para cuidar de uma criança, que foi crescendo cada vez menos interessada no mundo.</p>



<p>&#8211; Que bom que se lembra dos seus pais. É só isso?</p>



<p>Fábio fica surpreso com a indagação de Número 2. Não se lembra de ter dito nada daquilo em voz alta, eram apenas pensamentos. Será que estava pensando alto esse tempo todo?</p>



<p>&#8211; É só isso. Estranho, as coisas estão um pouco confusas agora.</p>



<p>&#8211; Toma outro remédio. Já tem bastante tempo desde o último.</p>



<p>Pela primeira vez, sentiu seu estômago revirando com a ideia de colocar o comprimido na boca. Ele não tinha gosto de nada, dissolvia quase instantâneamente, uma pequena pílula de ar.</p>



<p>&#8211; Acho que não, posso esperar mais um pouco.</p>



<p>&#8211; Não, não pode. Tá na hora, se não vai ficar tarde.</p>



<p>&#8211; Eu não quero.</p>



<p>&#8211; Vamos almoçar? É lasanha de quatro queijos.</p>



<p>Essa pergunta o pegou de surpresa.</p>



<p>Então ainda não tinha almoçado. Pelo menos uma peça estava de volta no seu quebra cabeça do dia.</p>



<p>&#8211; O que tem na comida? &#8211; Ele pergunta, desconfiado.</p>



<p>&#8211; Queijo &#8211; ela responde, debochada.</p>



<p>&#8211; Você entendeu a pergunta.</p>



<p>&#8211; Entendi, e respondi. Você deve estar com fome pra fazer uma acusação absurda<br>dessas. Se eu quisesse te envenenar não precisaria de uma lasanha, e você sabe bem<br>disso.</p>



<p>&#8211; Antes de ir, você pode me contar outra história? Pra eu sentir que estou aqui. &#8211; A<br>voz de Fábio soa tão ingênua, tão infantil, que é foi impossível para ela negar esse pedido.</p>



<p>&#8211; Onde é aqui, exatamente?</p>



<p>&#8211; Onde você quiser. Só preciso sentir meus pés no chão de novo.</p>



<p>&#8211; 200 anos atrás, em 1932, um homem escreveu um livro. &#8211; Número 2 pausa por um<br>segundo. Tenta escolher as melhores palavras para a próxima parte. &#8211; Se chama ‘Admirável mundo novo’. O livro fala sobre uma sociedade perfeita, dividida em castas. A ordem é o principal componente, todos tomavam um remédio chamado Soma, que preserva a mente e todo mundo vive bem.</p>



<p>&#8211; Só isso? Qual o conflito? Toda boa história tem um conflito.</p>



<p>Aquilo nem parecia uma história de verdade. Mais parecia uma sinopse de revista sobre um livro qualquer. Cadê a jornada, os erros, amores?</p>



<p>&#8211; A sociedade é perfeita, não tem conflitos.</p>



<p>&#8211; Parece uma merda de livro.</p>



<p>Ele não acha isso de verdade. Fábio sempre escolhe o perfeito. Os pratos mais limpos, os talheres mais polidos, as plantas sem nenhum bichinho sequer… Para ele, é impensável querer ver a sujeira das coisas. Mesmo assim, sente falta de um conflito.</p>



<p>Percebeu que está sentindo falta de… sentir. Sentir qualquer coisa, tristeza, desespero,<br>alegria, amor, qualquer coisa mais do que esse enorme vazio. Talvez sentir o vazio já seja<br>um começo. Quanto mais ele pensa, menos respostas encontra. Aquela história de fazer as perguntas certas nem sempre é confortável.</p>



<p>Número 2 sabe que ele está a poucos momentos de decifrar o enigma, principalmente passadas tantas horas sem os remédios. Ela se sente exausta, quanto mais tempo ele passa longe dos comprimidos, mais desgastada ela se sente. Deseja do fundo de seu coração que ele mude de ideia, que pare de tentar buscar o que ficou pra trás, mas<br>sabia que esse momento precisava chegar.</p>



<p>&#8211; Fábio &#8211; ela diz trêmula, com a voz falhando. &#8211; Você sabe onde você está?</p>



<p>&#8211; Não, mas acho que estou começando a lembrar daquela história, a do livro. </p>



<p>&#8211; Admirável mundo novo? </p>



<p>&#8211; Isso. Tinha um conflito sim. A sociedade era dividida em castas, né? Os mais prestigiados e os menos prestigiados. Existia uma reserva. Uma reserva de selvagens, pessoas que rejeitam os costumes civilizados. </p>



<p>&#8211; Quem você acha que é, Fábio? Um selvagem ou um civilizado?</p>



<p>Essa pergunta tocava em um ponto crucial. Um deles era quem Fábio de fato era, o outro era quem Fábio acha que deveria ser. “Deveria” é uma das palavras mais perigosas do nosso vocabulário. A quantidade de pressão e expectativa contidas nessas quatro sílabas chega a ser injusta. Fábio, um homem feito de oportunidades e possibilidades, todas jogadas fora pelo medo de ver o mundo. Tinha tanto medo de se encontrar que se perdeu cada vez mais.</p>



<p>Número 2 entende aquele silêncio. Era o silêncio que dizia que Fábio estava quase entendendo. Agora não tinha mais como voltar atrás, era melhor seguir. </p>



<p>&#8211; Os selvagens sabem que são selvagens. Entendem. Entendem que antes ser um selvagem do que ter a vida controlada, ser um experimento, um teste, uma ilusão. Os<br>civilizados não são nada mais do que selvagens negando a própria essência, não acha? </p>



<p>&#8211; Aquilo que eles tomam no livro… Soma. É isso que tinha no queijo? É isso que eu<br>tomo todos os dias?</p>



<p>Essa pergunta é tão inocente que Número 2 jura que daria um abraço em Fábio se pudesse. </p>



<p>&#8211; Isso é só um livro, Fábio. Sua vida não é interessante o suficiente para virar ficção. </p>



<p>&#8211; A gente bem parece que tá vivendo num livro com esse seu suspense todo e essa maldita história de venda, quartas feiras e selvagens. Eu quero uma história de verdade.<br>Uma história sobre a gente, alguma coisa pra me fazer lembrar.</p>



<p>Ela não tinha certeza se ele estava preparado pra isso, mas como já havia dito, tudo já tinha ido longe demais, e não tinha mais forças para lutar contra. </p>



<p>&#8211; Quando a gente era criança, a gente visitou um lago. A gente foi escondido, não era<br>pra estar ali. Era um segredo. A gente queria ver os peixinhos, só isso. Nos disseram que<br>era um lago lindo, um círculo perfeito rodeado de pedrinhas brancas, como nos filmes de<br>romance. A gente nunca tinha visto peixes de verdade, só no mercado, mortos ou na<br>televisão. Nem um único aquário. Pegamos um caminho por entre os muros de trás da<br>escola, seguimos uma trilha de concreto com algumas plantinhas saindo das rachaduras.<br>Chegamos no lugar que os peixinhos deveriam estar, mas não estavam. &#8211; a voz de Número 2 se embaralha; é perceptível que ela não quer continuar a história, mas continua mesmo assim. &#8211; Encontramos homens. Homens tristes, sujos, com agulhas, pedras e com fome. O lago tinha cheiro de esgoto e sangue. Os homens nos olhavam como os pescadores olham para os peixinhos. Nessa hora a gente só pensou que aquilo tudo tinha sido um erro. Não existe nada tão bonito que valha a pena ver todo o resto. Não existe, Fábio. A gente só queria ver os peixinhos. A nossa perna ardia de tanto correr, caímos em cima de uma garrafa de vidro e rasgamos o joelho direito. Essa cicatriz é um lembrete. Um lembrete pra não sair daqui. </p>



<p>&#8211; Será mesmo que o mundo não tem peixinhos, Número 2?</p>



<p>&#8211; Você pode parar de me chamar assim agora, Fábio.</p>



<p>&#8211; E os homens? Eles não vem mais?</p>



<p>&#8211; Você ainda não entendeu? Os homens estão aqui todos os dias. Trabalham aqui.<br>Todo dia é quarta feira.</p>



<p>O lago, os peixinhos, a fome, a venda. Tudo fazia sentido agora, muito mais do que ele queria admitir. Fábio nunca fora obrigado a nada, estava naquele lugar por escolha, por medo. Como poderia ter se convencido tão fácil que aquela menina, aquela voz realmente chamava Número 2? Nada disso é real.</p>



<p>&#8211; Claro que é real. É tão real quanto estar lá fora. &#8211; ela interrompe seus pensamentos.<br>É claro que ela conseguia ler sua mente, ela estava lá dentro. Esse tempo todo, ele estava em absoluto silêncio, no mesmo cômodo da clínica, sem se mover nenhum centímetro. A voz continua, a raiva cresce. &#8211; Cegueira voluntária. Nem todo mundo aguenta as mazelas do mundo, então prefere se esconder. Esse seu remédio não é soma, mas poderia ser. Você pode parar de tomar. Parar de esquecer e voltar a ver o lago e os homens. As crianças com fome, as guerras, as mortes, mas pra que?</p>



<p>Se Fábio tira a venda, sabe que é o fim. Ele se lembra agora. Tudo está um pouco turvo, mas se lembra. Fábio se voluntariou para um teste, um teste em uma clínica inovadora, que prometia uma nova experiência de vida para todos os voluntários: bastava um comprimido algumas vezes por dia. Se a experiência não fosse do agrado do voluntário, deveria tirar a venda, depositá-la em uma caixa verde próxima à cama, e ir embora.</p>



<p>&#8211; Se você for, eu desapareço. &#8211; a voz de Número 2 parece cada vez mais longe<br>enquanto ela argumenta. &#8211; Você está sozinho. Eu só estou aqui pra te lembrar porque<br>viemos pra cá. Se você ou qualquer outro morador tirar a venda quer dizer que se lembra e se arrepende, e pode ir pra casa. Mas cuidado, uma vez que a gente volta a enxergar, não dá mais pra ignorar. Quem você era vai sempre ser parte de quem você é. Você veio pra cá pra não ver mais a sujeira, e é isso que você tem vivido pelos últimos 654 dias. Tem certeza que quer desistir de tudo agora?</p>



<p>A verdade é que não tinha. </p>



<p>Agora que sabia que sua liberdade dependia apenas dele mesmo, as coisas ficaram menos atrativas. A única luta era contra si mesmo, e isso não soava heroico o suficiente. </p>



<p>As pessoas têm mania de se sentirem donas de algum tipo de desafio, uma jornada feita exclusivamente para elas, uma batalha épica contra o mundo, mas nem sempre é assim. Naquele momento, Fábio não podia ver, mas estava cercado por outros iguais a ele em uma sala branca e verde. Alguns com comprimidos na mão, outros desfazendo lentamente o nó que prende a venda em seus olhos, todos alheios à quantidade de pessoas que realmente estavam ali. </p>



<p>Todos presos em suas próprias mentes, sem interação, sem risadas, sem dor.</p>



<p>Quando Fábio está prestes a se livrar de tudo, os passarinhos começam a cantar. Talvez os dois fiquem por ali mais algum tempo.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Gabi Guarabyra </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é atriz, diretora, dramaturga e professora. É pós-graduanda em Gênero e Sexualidade pela FACED-UFJF e compartilha frentes de trabalho teatral no <a href="https://www.instagram.com/coletivofemininojf/">Coletivo Feminino</a> e no <a href="https://www.instagram.com/nucleoprisma/">Núcleo Prisma</a>. </p>



<hr class="wp-block-separator" />



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
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		<title>Estéreo &#8211; Capítulo 4</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:21:59 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[Estéreo]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara Pippa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Bárbara Pippa</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Eu beijei outra menina.</p>



<p>Falei assim, do nada e como quem não queria nada, fingindo ser um assunto qualquer e ter trazido à tona apenas para passar o tempo da aula que estávamos sem paciência para assistir.</p>



<p>Ana olhou para trás, sem virar muito o pescoço, mas pude perceber um pouco de surpresa no seu rosto.</p>



<p>Me aproximei mais, ficando praticamente debruçada em seu ombro, ainda assentada na mesa detrás.</p>



<p>Ficávamos no fundo da sala <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;turma do fundão <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;mas prestávamos atenção quando era do agrado e evitávamos as matérias que realmente não nos pertenciam.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; É? <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Ela deu um meio sorriso, que arrisco dizer ter sido irônico. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Foi mais rápido do que você imaginou então. E como foi?</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Foi bom. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Não tinha sido como foi com ela. Mas realmente foi bom. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Foi interessante.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Então você agora tá realmente confirmada, legal. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Não era uma pergunta.</p>



<p>&#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Acho que sim. &#8211; Abaixei ainda mais a voz, para que ninguém escutasse. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Mas devo isso a você.</p>



<p>Ela riu, discretamente e se encerrou o assunto.</p>



<p>Percebi que aquela mulher que trouxera ao ar minha sexualidade havia sido apenas um ponto, como se realmente eu estivesse presa em correntes e necessitasse que alguém aparecesse com a chave para me libertar.</p>



<p>Ela me libertou, e eu consegui correr para o mundo que me esperava.</p>



<p>E passei a admirar o que antes eu não percebia nas pessoas, nas mulheres e, especialmente, na própria Ana. Cada detalhe que antes era apenas comum, se tornou novidade e magnífico.</p>



<p>Aconteceu o que acontece com grande parte das pessoas que eu conheço quando dá o primeiro beijo em uma pessoa do mesmo sexo: eu me apaixonei.</p>



<p>Eu estava encantada e absolutamente apaixonada por Ana.</p>



<p>Todas as mulheres que fizeram parte da minha vida posteriormente e com as quais eu conversei sobre esse assunto, concordavam e também diziam ter sentido a mesma coisa em seu primeiro contato assim.</p>



<p>Parece que havia uma generalização em relação ao primeiro beijo desse aspecto. Além de ser especial <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;por ser o primeiro de fato a abrir portas ao mundo o qual pertencemos <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;era como se ele transformasse aquela pessoa que foi beijada em um ser totalmente único e diferente, incapaz de se parecer com os demais.</p>



<p>Hoje, analisando, eu continuo tendo certeza do que senti. Eu estava realmente apaixonada por Ana. Nós combinávamos em vários aspectos e nosso beijo foi a junção que faltava.</p>



<p></p>



<p>Na vida já me apaixonei diversas vezes, de várias maneiras e cada paixão se tornou exclusiva a seu modo.</p>



<p>Algumas paixões são menores, menos intensas e acabam com a mesma rapidez que iniciaram. Algumas são fortes e duradouras, e se fazem lembrar pelo resto da vida, mesmo após o fim. Algumas são correspondidas, outras não.</p>



<p>Minha primeira grande paixão foi por um rapaz que nem sequer me desejava. E para ele, eu era capaz de <img decoding="async" width="16" height="23" src=""> estupidamente  dar o mundo. Ele me tinha como amiga, mas eu queria mais. E nunca tive mais. Até hoje me recordo de tudo o que senti naquele período e, não me arrependo de nada.</p>



<p>Prefiro me arrepender de ter feito e vivenciado, de ter ido atrás mesmo que não tenha dado certo e quebrar a cara por isso, do que passar uma eternidade imaginando o que poderia ter acontecido se eu tivesse feito algo.</p>



<p>Quando me declarei para ele, foi sutil sua forma de negar que era recíproco e a vida seguiu.</p>



<p>Mas, a Ana, eu não poderia falar o que sentia. Era um medo que tinha em mim maior do que o próprio sentimento e do que a vontade de dizer.</p>



<p>Era tudo confuso ainda, eu era incapaz de ter certezas sobre a vida e, como dizer para uma amiga que se gosta dela? (Ainda desconheço esse jeito).</p>



<p>Cada dia era uma luta para evitar olhá-la com uma cara de boba apaixonada, para evitar rir demais de alguma piada que ela contasse, para evitar me aproximar demais fisicamente.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Acho que você precisa seguir em frente na descoberta, e aí vai acabar esquecendo a Ana. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Mauricio era a única pessoa que sabia.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Será?</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tenho certeza. É porque foi seu primeiro beijo com uma menina, eu também me apaixonei pelo meu primeiro cara. Comum.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Então é o melhor a fazer. <img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Apesar de não ter certeza sobre.</p>



<p>Geralmente, eu deixava a vida me levar e não buscava pessoas para ter encontros no meio do caminho. Foi a partir desse momento que iniciei uma nova perspectiva em começar a procurar contatos para ter tais momentos.</p>



<p>Era complicado, sem a internet, sem aplicativos de relacionamento. Tinha que ser no “<em>boca a boca”;</em> tinha que ser explanando para outras pessoas o que eu estava a procura.</p>



<p>Evitava falar disso com Ana, tentando levar normalmente nossa amizade e ignorando toda e qualquer motivação de gritar meu desejo.</p>



<p>Mas, éramos amigas e amigas conversam sobre tudo, então, acabávamos chegando a esse ponto, do qual ficava inevitável fugir.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; E aí, você vai levar o encontro adiante? <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Ela falava tudo e sobre tudo com a maior naturalidade, me fazia sentir confortável em poder dividir meus pensamentos.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Vou. Amanhã vamos nos encontrar.</p>



<p>Eu havia sido apresentada via mensagem de texto para uma amiga de um amigo de um amigo.</p>



<p>Éramos adolescentes, e a única possibilidade de encontros reais eram durante o horário de aula. Cabulávamos aula sim, para poder dar beijo na boca. Eu não era a única, e tinha apenas começado a fazer isso tardiamente, quase próximo dos últimos anos do colégio <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e aquele era o meu último.</p>



<p>Era errado, claro, faltar aula. Mas era em função de poder viver.</p>



<p>Era em função de poder ter experiências e momentos que jamais teríamos a oportunidade em outra ocasião. Éramos jovens e queríamos tudo para aquela hora <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;e ainda, dependendo do que for, quero para ontem.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Vou sair durante o intervalo. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> A diretoria se limitava a fingir que não via e não entrava em contato com os pais, o que ajudava ainda mais nosso golpe de sorte. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Aí amanhã de manhã te conto como foi.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Beleza. &#8211;<img decoding="async" width="16" height="23" src=""> Ana não demonstrava ciúmes ou chateação, e isso causava em mim uma necessidade de que ela sentisse essas coisas. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Tô curiosa pro seu terceiro beijo.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Eu também. Tô me sentindo meio promíscua. <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; E ri.</p>



<p><img decoding="async" width="16" height="23" src="">&#8211; Porque tá ficando com as pessoas? Pára! Você tem o direito de ficar com quem quiser, com quantas pessoas quiser, como quiser e sem ser chamada de nada por isso! Somos livres, meu bem.</p>



<p>E de fato, somos. Somos livres para ficarmos com quem quisermos, como quisermos e quando quisermos, ninguém tendo nada a ver com isso.</p>



<p>As pessoas têm o costume de cuidar da vida alheia e da frequência das relações que elas têm, se preocupando demais com quantos homens/mulheres uma mulher se encontrou em determinado mês; quantas bocas beijou numa balada <img decoding="async" width="16" height="23" src="">&nbsp;é o machismo incorporado no dia a dia, limitando a possibilidade de sexo casual apenas para os machos.</p>



<p>Mulheres tem desejos, necessidades, prazer. Mulheres querem fazer o que querem fazer, e não é um homem que vai dizer o que ela deve ou não. Hoje temos mais consciência disso, apesar de ainda existir e ser extremamente forte essa forma de machismo, e temos de ir contra cada vez mais para que seja entendido a liberdade feminina como uma obrigação perante a sociedade.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<p><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong><strong>Barbara Pippa </strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong></strong>é nascida em Juiz de Fora, participante em antologias de poemas e contos. Acredita em astrologia e muda o cabelo de acordo com o humor.</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: artistas para seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/iambrendamarques/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/10/ef7bc-begaleria8-1.png?w=950" alt="" class="wp-image-10819" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie pautas identitárias. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/9acee-publi-ediccca7acc83o-impressa-1.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5668" data-recalc-dims="1" /></figure>





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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.artebodoque.com/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/747d3-publi-bodoque3.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-5017" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background">Clique na imagem para acessar a loja virtual da Bodoque!</p>
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		<title>Exatamente como ele</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 18 Oct 2020 21:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 002, N 067]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[juiz de fora]]></category>
		<category><![CDATA[Vinícius Lara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por:  Vinícius Lara</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fazia muito calor em outubro. Atipicamente, chovia pouco; o tempo estava seco, e a temperatura chegava perto dos quarenta graus. Um calor sem esperança que trazia na cabeça com detalhes a imagem de um inferno que queima sem consumir, que abafa sem sufocar e que aproxima os ensebados torsos que procuram pela brisa. Além do fogo no ar, tinha também os pernilongos e os mosquitos de luz. </p>



<p>Já faz dois anos não vejo as nuvens de tanajuras rua afora, brigando ou brincando de acasalar. São muitos prédios ao redor, pouca água e muita poça. Pernilongos dominam a primavera, fazendo um pouco mais difícil relaxar e se refrescar depois das dezoito horas.</p>



<p>Acordei no meio da madrugada. Estava pingando suor e, quando me mexia na cama, sentia que o Roberto estava escorrendo também. Tentei me aconchegar em seu peito, como gosto de dormir, mas ele estava gorduroso, amanteigado. Dormia o sono dos justos, dos bobos ou dos bêbados &#8211; tanto faz. Mesmo que já dormisse com ele desde julho, nos últimos dias minha impressão era a de que estava perto demais. Dormia como se estivesse no paraíso. Olhei o rosto comprimido no travesseiro, a boca torcida, o semblante de menino. O calor não era tanto pra ele, era para mim. Me sentei na cama, e ele respirou mais forte &#8211; quando me movo, é um hábito que ele respire fundo; mas o sono é pesado e ele logo se acostuma. Mesmo dormindo nua, me sentia prestes a derreter.</p>



<p>Dormimos de janela fechada por conta dos pernilongos. Se o quarto ficasse aberto, as chances de que nos carregassem ou bebessem a alma pelo canudinho eram reais. Nossa casa fica ao lado de um terreno não construído, com capim baixo &#8211; de onde nuvens desses irritantes sobem todas as noites que são quentes. Para dormir em paz, é preciso deixar a janela trancada; sem vento, sem mosquitos. O ar diminui; não consigo me sentar na janela e acender um cigarro como fiz muitas vezes. Protejo a mim e ao Roberto, ao mesmo tempo que me confino no quarto. Isso deve ser uma espécie de metáfora de vida. Nessa altura, o sono me deixou.</p>



<p>Ainda sentada, o meu quarto parecia estranho naquela penumbra. O espelho reflete um ensaio do cômodo, mas as roupas penduradas que aparecem ali não me parecem familiares. O altar que fiz no ano passado, no canto, na cabeceira da cama, está entulhado. Peças e peças se juntam sobre a mesa baixa; Lakshmi não conversa bem com Santa Bárbara, nem com as velas e os terços. É uma bagunça, ali. Não foi a primeira vez que senti, mas era bem forte naquela noite a impressão de que essas coisas estavam debochando de mim. As estátuas aproveitavam confortavelmente sua contemplação infinita, mas eu estava acordada, desassossegada, abafada. Meus patuás pareciam me dizer que abrisse a janela, que deixasse o vento entrar. Que eu fizesse isso: agora.</p>



<p>Levantei, mas o Beto não notou. Decidi tomar um banho e voltar a me deitar mais fresca. Fiquei não sei quanto tempo de pé olhando ele dormir. Ele não é bonito, é infantil. Às vezes, tenho a impressão de que é exatamente por isso que estou com ele até hoje: ele é fraco de diversas maneiras. O rosto magro e desarmônico em relação ao corpo, a barba rala. A felicidade que fica em dizer para os amigos que me tem e isso basta. Sou um teto na vida desse homem, sendo que nunca fui teto na de ninguém. Mais de uma vez, fui a outra, fui a louca, fui a reserva; e em nenhuma dessas vezes eu tive o que mostrar. Agora tenho. É porque esse homem é quase infantil que deixo ele me amar, e às vezes penso em deixar que faça um filho em mim. Quase me basta.</p>



<p>Na noite do dia anterior, antes de deitarmos, ele fez uma insinuação que não gostei. Um amigo de quem também não gosto, e que já foi um caso quando nós éramos adolescentes, disse ao Roberto que eu não era confiável o suficiente para vivermos juntos. Penso que um homem teria questionado o amigo, mas o Beto questionou foi a mim. “<em>Você não é uma mulher de confiança</em>”. Observando ele dormir, era quase como se as palavras continuassem sendo ditas em voz alta ali dentro. Como eu poderia não ser de confiança se ele estava tão desarmado na minha cama? Por que ele me trouxe essa notícia? Por que eu, e não ele, estava acordada no meio da madrugada?</p>



<p>Liguei o chuveiro no frio e fui deixando a água bater na nuca e nas costas. Mesmo assim, o banheiro se encheu de vapor. Não cheguei a pensar especificamente em alguma coisa, me vinham flashes no pensamento. Minha mãe, quando era mais nova, desenhava muito bem. Gostava de se arrumar e era expressiva. Com o tempo, isso foi se apagando de pouco em pouco, até que sumiu. Quando eu era pequena ainda me lembro de desenhar comigo, me ensinar a segurar o lápis do jeito certo e traçar uma linha reta sem régua. O segredo era olhar o ponto onde a linha terminava e não o traço em si. Às vezes, eu conseguia, outras não. Lembrei disso, mas quando a memória estava lá, ocupando minha cabeça, puxou outra. Minha mãe não desenha mais, não se produz mais. Ela usa remédios para dormir e desenvolveu compulsão pela limpeza da casa. Se está livre, passa pelos cômodos recolhendo as miudezas espalhadas. É um jeito que ela encontrou de ser. Mas eu não sei…</p>



<p>Olhando pra baixo, eu vi meus pés que obstruíam um pouco o curso da água na direção do ralo. Reparo nas minhas pernas, na tatuagem que fiz quando quase vivi um amor. Passar os pés acompanhando o rejunte do azulejo parece prazeroso, e foi o que comecei a fazer, brincando. Tapei como pude o ralo e a água parecia que iria transbordar. Quando abri caminho o volume seguiu para o buraco com força.</p>



<p>Meu pai traiu minha mãe várias vezes.</p>



<p>Revi histórias de quando eu era pequena. Conversas que eu não deveria ter escutado, e minha mãe chorando. Não sei exatamente como foi, mas suspeito. Os tios se envolveram, minha avó também. Lembrei de ver minha mãe definhando pela casa de dois cômodos em que nós morávamos. Ninguém deveria assistir sua própria mãe sofrendo assim. O que me espanta, hoje, é reconhecer que não senti raiva dele. Como eu poderia? Nós duas estávamos muito mais próximas, nós duas amávamos a ele, que, por sua vez, tinha outras namoradas fora de casa. Eu deveria ter sentido raiva do meu pai? Saber dessas coisas, na verdade, me fez querer ser como ele. Não sei o que isso significa, mas com oito anos eu já tinha certeza de que não existe o amor. Tive homens, mas eu era meu pai. Eu sou… Minha mãe deveria ter saído de casa? Quando ela ficou e deixou de desenhar, ela me deu o recado de um destino.</p>



<p>O pensamento saltou para os homens que tive na vida, mas não fez evoluções suficientes ali. Usei muitos deles, gozei alguns, amei dois. Isso foi rápido, porque depois de a água quente escorrer pelo cano do chuveiro, a que vinha da caixa era mais fria. Comecei a tremer. Na medida que a água continuava caindo, o tom moreno da pele roxeou; foi quando desliguei e me enrolei na toalha para voltar ao quarto. Estava seca de água, mas pingava de mim melancolia. Roberto dormia ainda. Ele dormia sempre. Além de me bajular como se eu fosse a melhor coisa que aconteceu naquela vidinha de bosta, o Beto continuava dormindo.</p>



<p>Continuava abafado, mas eu me sentia melhor. Deitei de novo, mas sem abraçá-lo. Reparava o teto, o espelho, o altar, a janela fechada, e tudo de novo, de novo, de novo. Não tive mais sono. Era desaforo viver daquele jeito, refém de pernilongo. Mas era só da janela aberta que eu tinha receio? Enquanto pensei assim Roberto resmungou alguma coisa que não entendi. Senti raiva dele por estar dormindo. Senti raiva que estivesse na minha cama pegajoso daquele jeito. Senti raiva porque ele duvidou de mim. Sentir ódio porque ele seria aquilo, daquele jeito, pelo resta da vida dele.</p>



<p>Taquicardia. Desconforto no limite. Curioso é que minha cabeça começou a me contar uma versão <em>soft </em>de minha própria vida. Culpa dos pais, dos professores, dos primeiros amores, do ex-marido, das mentiras que me contaram&#8230; Foi aí que eu ri para&nbsp; mim mesma. Eu sou como ele&#8230;&nbsp; Olhei no relógio a primeira vez desde que despertei, eram 05h17. Cutuquei o Roberto até que ele acordasse assustado.</p>



<p>“Vai lá, abre a janela pra mim, depois você volta e dorme mais.”</p>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-media-text alignwide is-stacked-on-mobile" style="grid-template-columns:20% auto"><figure class="wp-block-media-text__media"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2020/04/41684-bio-vin-lara.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-8647" data-recalc-dims="1" /></figure><div class="wp-block-media-text__content">
<p><strong><strong>Vinícius Lara </strong></strong>é psicanalista, historiador, fotógrafo amador e um apaixonado pelo absurdo</p>
</div></div>



<hr class="wp-block-separator" />



<div class="wp-block-group"><div class="wp-block-group__inner-container is-layout-flow wp-block-group-is-layout-flow">
<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/fdf84-assinatura-4.png?w=950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11677" data-recalc-dims="1" /></figure>





<hr class="wp-block-separator is-style-wide" />



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</div>
</div>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-large-font-size">Galeria: Artistas pra seguir na quarentena</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://www.instagram.com/viajeronima/"><img decoding="async" src="https://i0.wp.com/tramabodoque.com/wp-content/uploads/2021/12/43ef4-fotos-carol-copy.jpg8_-1021x1024.jpg?resize=950%2C953&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-11314" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<p class="has-text-align-center has-very-light-gray-color has-very-dark-gray-background-color has-text-color has-background has-medium-font-size"><em>Apoie os artistas nessa quarentena. Em tempos de cólera, amar é um ato revolucionário.</em></p>
</div></div>
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