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	<title>Arquivos Joseani Adalemar Netto - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Laura </title>
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		<pubDate>Sun, 12 Nov 2023 18:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 189]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Linda jovem, de pele macia feito algodão e preta como a noite. Nasceu e viveu em um vilarejo sem muitas novidades. Qualquer forasteiro era motivo de olhares e cochichos. Ela sonhava com a cidade grande, com suas luzes e altos prédios, imaginava com tanta verdade que, às vezes, se esquecia de tirar as roupas do varal que dormiam dependuradas e acordavam úmidas do orvalho. Era então repreendida por sua mãe que a considerava uma cabeça de vento. A mãe, acostumada aos afazeres domésticos, aos cuidados com os filhos e marido, sem tempo para conversas fiadas, quase sempre ignorava os desejos da filha, tão sonhadora, tão desejosa de um outro lugar.&nbsp;</p>



<p>Quando a noite surgia, após o jantar, Laura assentava-se com a família em volta do rádio que transmitia as notícias da Capital, ansiosa pelo próximo capítulo da novela que ela nunca conseguia ouvir por completo, pois tinha de se recolher aos seus aposentos para descansar o corpo e voltar ao trabalho do dia seguinte. Ia para a cama a contra gosto e deixava-se embriagar pela fantasia romântica dos amores impossíveis. Assim, completava os capítulos que ouvia no rádio e que nunca conseguia terminar. Assim adormecia e sonhava.&nbsp;</p>



<p>Um dia, em pleno sol de verão, Laura avistou no horizonte uma poeira que anunciava a chegada de mais um forasteiro. Seu vilarejo era um atalho para a estrada que levaria à Capital. Somente os que viajavam a cavalo se arriscavam a passar por ali. A estrada era de terra, irregular, cheia de buracos. Volta e meia, os que insistiam em atravessá-la de carro precisavam da ajuda dos moradores para retirarem seus automóveis dos buracos, esculpidos pela natureza um tanto selvagem daquele lugar. Mas aquele dia era diferente dos outros. Nenhuma ave de rapina no céu, nenhuma nuvem espreitando o sol, nenhum sinal. O silêncio do dia fora rompido apenas pela poeira e pelo trotar do cavalo que podia ser ouvido ao longe.&nbsp;</p>



<p>Sem mais nem menos, Laura sentiu um frio na barriga, um arrepio que a tirou de seus afazeres para observar melhor. Não era apenas um cavalo. Eram cavalos e carroças que se atreviam a adentrar o vilarejo sem pedir licença e aos poucos foram surgindo como caravana no deserto. Pessoas começaram a sair de seus casebres, a debruçarem-se nas pequenas janelas, a abancarem-se nos portões e portas. Todos curiosos, apreensivos. Eram carroças coloridas amontoadas por pessoas coloridas. Cavalos de crinas longas e arreios brilhantes. Homens e mulheres diferentes, coloridos. Pareciam saídos dos livros de aventura, dos poucos livros de aventura lidos por Laura. Sim, como romântica incorrigível, aprendera a ler com a vizinha as primeiras letras e, depois, foi só uma questão de tempo para devorar os romances que dona Vânia a emprestava. Mas logo os romances ficaram escassos e ela partiu para os livros de aventura escondidos num embornal encardido, que levava sempre consigo como um tesouro. Lia sempre no horário do almoço, quando então podia descansar da labuta e sonhar.&nbsp;</p>



<p>Os homens, mulheres, cavalos e carroças se puseram na pracinha em frente à pequena Capela de Santa Matilde e logo foram cercados pelas crianças e moradores daquele lugarzinho perdido no tempo e no espaço.&nbsp;</p>



<p>Com movimentos rápidos e muito tumulto foram logo abrindo uma tenda em verde, azul, amarelo e vermelho. De repente, o céu azul tomou uma coloração mais acinzentada, anunciando a chegada de uma chuva torrencial. Porém, aquelas criaturas não se intimidaram e continuaram suas tarefas, gritando uns com os outros, ordenando, rindo numa embolada desconcertante para aqueles habitantes tão acostumados com o silêncio do lugar.&nbsp;</p>



<p>Laura, tão logo terminou de lavar as roupas, estendê-las, pôs-se na praça a fazer perguntas a um jovem alto, robusto e de cavanhaque. Tratava-se de um circo. Na verdade, um pequeno circo, porém enorme para aquele lugar. Laura encantou-se. Viu surgir na sua frente toda espécie de cores e de gentes. Eram sim, personagens saídos de suas fantasias. Mal podia esperar para ver o grande espetáculo do <em>CircusVolanti</em>. Voltou para casa depressa, para concluir suas tarefas do dia e pediu suplicante que sua mãe a deixasse ver o espetáculo. Os artistas resolveram pernoitar, seria apenas uma apresentação, de graça, para aquela comunidade esquecida e amarelada.&nbsp;</p>



<p>Apesar das nuvens que prometiam uma tempestade, a tenda pôs-se de pé e podiam-se ouvir os preparativos para o grande e inesquecível espetáculo. Em pouco tempo, as nuvens se dissiparam, o sol voltou escaldante e foi sumindo aos poucos no horizonte dando espaço para que a escuridão da noite se fizesse presente. Os geradores de energia foram ligados e faziam um barulho tremendo. E a cada movimentação por debaixo das lonas era motivo para a curiosidade de todos que, neste momento, já estavam em fila e prontos para adentrar a arena.&nbsp;</p>



<p>Nem noticiário, nem novela. Aquela noite a história seria contada ao vivo e em cores. Quando o mestre de cerimônia mandou que abrissem as cortinas, as pessoas do vilarejo se acotovelaram, empurraram umas as outras buscando um espaço sob a lona. Alguns, mais velhos, preferiram ficar em casa, talvez por medo do desconhecido, talvez por hábito mesmo. Mas Laura estava lá, na primeira fila, ansiosa, coração batendo cada vez mais forte, arrepiando-se e aguardando os encantos que viriam desfilar na sua frente.&nbsp;</p>



<p>Palhaços, anões e mulher barbada fizeram a alegria de todos. Trapezistas e contorcionistas deixaram estupefatos até àqueles que se achavam sabedores das coisas. E Laura em catarse, até que adentrou em um cavalo branco o homem do cavanhaque e desfilou fazendo acrobacias em cima do quadrúpede. Estendeu à mão a Laura e num relance transformou-a em uma artista, mesmo que por uns poucos instantes, cavalgando em círculos e dando a ela as rédeas daquele belo animal. Depois, deixou-a só, num canto e terminou sua apresentação.&nbsp;</p>



<p>Naquela noite, estrelas pipocavam diante dos olhos de Laura. Dormir? Como? Não conseguia esquecer-se do cavaleiro, de seu olhar entorpecedor, de sua voz a lhe dizer: “pegue as rédeas, o mundo é seu&#8230;”. Fechou os olhos por uns instantes e, decidida, levantou-se, pegou seu embornal, colocou-se em trajes de festa e ficou na espreita por uma fresta na janela de seu quarto. As pálpebras começaram a pesar e, aos poucos, Laura adormeceu assentada em um banquinho de vime diante da janela. Mal amanheceu o dia, os circenses foram desfazendo os sonhos semeados naquela noite inesquecível. Rapidamente as lonas foram guardadas em carroças, cada um foi se ajeitando como podia e a caravana se colocou novamente na estrada.&nbsp;</p>



<p>Quando o sol já se fazia alto, Laura acordou, correu até a praça e viu-se sozinha. Sem lona, sem cavaleiro, perdida na poeira amarelada deixada pelo circo. Caminhou alguns quilômetros e deteve-se. Sabia que era impossível alcançá-los. Choramingou, arrancou de dentro do embornal o livro que carregava e o esmigalhou como se esmigalha um sonho perdido. Voltou lentamente para o vilarejo ainda ouvindo as gargalhadas, o trotar dos cavalos, os urros de surpresa e medo do público e a voz do cavaleiro que dizia “pegue as rédeas, o mundo é seu&#8230;”. Contentou-se, mais uma vez, com os noticiários do rádio e as novelas que nunca terminavam. Criou para si, um mundo só seu e, aos poucos, se desfez.&nbsp;</p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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		<title>Marina</title>
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		<pubDate>Sun, 29 Oct 2023 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 187]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[História]]></category>
		<category><![CDATA[Marina]]></category>
		<category><![CDATA[muher]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cresceu ouvindo seu pai cantar para ela e jurava, até ontem, que a música “Marina Morena” tinha sido composta em sua homenagem. Sentia-se a dona do rosto mais lindo da face da Terra. E se recusava em borrocar suas maçãs e boca com o vermelho dos batons e dos blush’s vistos nos rostos de tantas meninas da sua idade. Até ontem.&nbsp;</p>



<p>Nasceu em uma cidade pequena, de pequenos hábitos como ir à sala de cinema nos domingos à tarde, fazer avenida, como dizem os mais velhos ao se referirem a passeios pela praça central da cidade. Gostava de estudar, apesar de não ter as melhores notas da classe. Enquanto os moleques jogavam bola na rua, Marina ficava na varanda de casa com algumas colegas, conversando sobre os amores possíveis e impossíveis que sempre povoam a mente ingênua de uma menina aos quatorze anos. Não se destacava dentre suas amigas, bonitas e vaidosas, nem era tão popular, mas por possuir uma casa de varanda ampla e estratégica, as meninas sempre convocavam Marina para as conversas de fim de tarde. Sim, a varanda era estratégica. De lá dava pra ver o bar do Senhor Américo, um português carrancudo que recebe em seu estabelecimento os rapazes emancipados e que tomam cerveja. Estratégica porquê de lá dava para avistar a Rua do Meio, que deixa flagrar os homens que vão à casa de Dona Telúria, temida pelas mulheres casadas da cidade, sabe-se lá o porquê. Estratégica porquê de lá era possível ver o entra e sai das moças casadoiras na casa de Madame Vanja, uma cartomante que dizem saber o futuro de cada um que a procura e que ensina simpatias e chás pra todas as ocasiões. Todas as ocasiões. E estratégica porque todos os dias, às dezessete horas e trinta minutos, Quim passava por ali rumo à pensão da figura mais extravagante da cidade, Soraia. Uma travesti que aluga quartos em sua casa e que faz shows na boate Pedacinho do Céu, assim chamada ironicamente pelos seus frequentadores. Todas as meninas se derretiam por Quim e Marina não era diferente. Todavia, alimentava uma certeza: seu coração era dele e ele deveria ser dela, só que ele ainda não sabia disso. Quim, Joaquim Mendes Cavalcante. Rapaz alto, de pele morena, olhos acastanhados e covinhas sedutoras que faziam Marina e suas amigas suspirarem profundamente todas as vezes que ele passava diante de seus olhos. Quim trabalhava no único Posto de Saúde que havia em Santa Rita da Fé e vez por outra atendia as meninas que lá chegavam. Dor no ombro, enxaqueca, palpitações, ora, desculpas esfarrapadas, só pra verem o médico jovem, recém-chegado, e sentir bem de pertinho seu hálito de cravo. Mas Marina não se dava a esse trabalho. Sabia que ele seria dela e vice-versa, nunca duvidou disso. Por sua vez, o Doutor Joaquim atendia as meninas e as dispensava, aconselhando que fizessem um pouco de repouso, nada mais. Ele era simples e muito fechado, apesar disso, lidava com essas pequenas situações com bom humor. Quase não falava. Mas suas covinhas, quando sorria ou movimentava os lábios, seduziam, inevitavelmente.&nbsp;</p>



<p>Marina, que sempre se achou a mais linda da cidade, até mesmo mais linda que Gláucia, sua vizinha de cabelos encaracolados e sedosos, resolveu que iria conquistá-lo, para inveja de suas amigas. Pouco se sabia sobre ele. Discreto, além do trabalho só era visto nas missas de domingo e, de vez em quando, na sacada de seu quarto, na pensão de Soraia, onde lia por horas e parecia contemplar um pedaço meio rasgado de um papel que parecia ser uma fotografia. De quem seria? No auge de seus vinte e seteanos, nunca tinha sido visto com nenhuma moça e sabia-se que ele não era de Santa Rita da Fé. Havia chegado para ocupar o cargo de médico há mais ou menos uns três anos, após prestar concurso público. Desde que chegou à cidade era alvo de observações, por ser jovem ainda e ter uma vida tão acanhada pra sua idade. Não fez amizades, não se enamorou, cumpria um ritual que, às vezes, incomodava. Até mesmo pra uma cidade tão pequena. De casa para o trabalho, de casa para a missa. Essa era a rotina de Doutor Joaquim. De qualquer forma as moças andavam suspirando e apostando quem conseguiria chegar ao coração do jovem. Por conta do pedaço de papel que mais parecia uma fotografia surrada pelo tempo, Marina tornou-se obsessiva em conquistar o jovem médico. Resolveu observá-lo com mais cuidado na esperança de que aquele papel fosse nada mais que uma foto de sua mãe ou de sua família e que ele comtemplava para diminuir a saudade. Não era ingenuidade, aliás, de ingênua Marina não tinha nada. Era confiante e obstinada. E, aos quatorze anos, já sentia os hormônios fervilharem. Os rapazes já não lhe causavam ojeriza. A menina do rosto, que nunca vira um blush ou um batom, entregou-se ao exercício de observar Joaquim, a princípio de sua varanda ampla e estratégica, mas aos poucos, essa observação foi se tornando um ofício que a levaria a desvendar o mistério da hipotética fotografia. Feito Sherlock Homes, colocou toda a sua criatividade para funcionar e passou a frequentar o Posto de Saúde com dores nas juntas. Nas primeiras visitas ao médico, nenhuma novidade. Puxava conversa e ele desconversava. Porém, suas idas ao consultório foram se tornando uma rotina, o que chamou a atenção de seus pais que logo quiseram levá-la para a Capital para exames mais minuciosos. Claro, ela se recusou. Depois de umas quatro visitas tomou coragem:&nbsp;</p>



<p>__Doutor Joaquim, observo o senhor de minha varanda e vejo que gosta de ler, não é mesmo?&nbsp;</p>



<p>__Sim, dona Marina.&nbsp;</p>



<p>__Ah, por favor, sou ainda uma menina, tire o dona, me chame apenas de Marina. Qual o autor que tanto lhe prende a atenção?&nbsp;</p>



<p>__Gosto de Júlio Verne e suas aventuras.&nbsp;</p>



<p>__Hum, entendo. Você não é daqui. Já deve ter viajado muito, conhecido muitos lugares, apesar de jovem. Você parece ser um aventureiro, acertei?&nbsp;</p>



<p>__Nem tanto, dona, quer dizer, Marina. Sou jovem, mas não provei ainda das aventuras da vida. Minha maior aventura foi me mudar pra esta cidadezinha.&nbsp;</p>



<p>__E ao se mudar pra cá, tenho certeza de que deixou pra trás um grande amor&#8230;&nbsp;</p>



<p>__Perdoe-me, não entendi.&nbsp;</p>



<p>__É que tenho visto, também, um papel&#8230; uma fotografia, talvez&#8230; que parece dividir sua atenção entre as aventuras de Monsieur Júlio Verne e a contemplação da figura ali representada. Mas não quero ser indiscreta.&nbsp;</p>



<p>O silêncio entregou-o. Na certa era sim a fotografia de uma mulher. Por uns instantes a menina doce conseguiu desconcertar o médico, faces rubras e um sorriso amarelado, daqueles que indicam um flagrante qualquer. Não será fácil conquistá-lo. Fala pouco, não convive com os rapazes de sua idade. Divide seu tempo entre o Posto de Saúde, a casa de pensão e a missa aos domingos. Marina, que não era muito dada a rezas e terços, passou a frequentar assiduamente as missas e a sentar-se ao lado de Joaquim. Puxava conversa sobre qualquer assunto, pra ver se conseguia descobrir algo. Um belo domingo de primavera convidou-o para um suco em sua casa, onde também estariam suas amigas e amigos de escola. Pensou que seria uma boa oportunidade para mostrar a todos que era amiga dele e que em breve poderiam ter algo a mais. Já era bochicho na cidade a amizade entre os dois. Alguns apostavam que havia mais do que isso, outros não acreditavam em tal possibilidade. Joaquim não aceitou o convite, justificou-se de qualquer maneira, usando subterfúgios não convincentes. Aquele domingo de primavera foi o mais longo e o mais chato para Marina que não se interessou por nada do que seus amigos fofocavam. Mas não desistiu de Joaquim, aos poucos foi entendendo que ele preferia mulheres mais velhas, mais experientes. Deduções feitas a partir dos poucos diálogos que tiveram. Decidiu: “tenho quatorze anos, nunca me pintei. É hora de mostrar que já sou uma mulher”. E a doce Marina imprimiu em seu olhar um quê de sedução, um ar oblíquo e olhou-se fixamente no espelho do quarto. Examinou suas curvas, seus longos cabelos e sua pele morena.&nbsp;</p>



<p>Todos os anos, em meados de setembro, a cidade virava uma festa. A Festa da Primavera em que as belas rosas, cultivadas nos roseirais de cada casinha, eram a grande atração. Vinham pessoas dos arredores e até da capital para o momento em que se comemorava a estação mais florida do ano. Todas as moças enfeitavam-se de rosas, menos Marina, que conservava ainda a infância travestida em seu vestidinho de renda. Porém, tão florida quanto a estação mais florida do ano, lá estava Marina, com um vestido azul, impecável e que deixava entrever sua silhueta de menina transformada em mulher. Com lábios avermelhados pelo batom e sua face rosada como as rosas da estação, parecia ter desabrochado. Ninguém a reconheceu, a princípio. E ela, tal qual Perséfone, encantou a todos, menos a seu alvo: Doutor Joaquim. Este, boquiaberto, lançou lhe um olhar tão frio que a primavera com seus aromas e suas flores parecia ter se transformado em um inverno rigoroso e eterno. Marina sentiu-se desprezada, sem saber o motivo de tamanha desfeita. Correu por entre as pessoas como um bicho que foge de seu predador. Trancou-se no quarto a chorar copiosamente. Adormeceu entre soluços e revolta. Ao acordar, caminhou em direção à varanda que, estrategicamente, permitiu reconhecer a sombra de Quim com aquele maldito papel em mãos. Das bochechas rosadas e da boca vermelha restaram apenas algumas pinceladas que desenhavam na face os sulcos que as lágrimas haviam cavado em seu rosto agora amarrotado como um lençol de núpcias. E ao olhar-se refletida no vidro da porta que dava para a sala, percebeu as marcas dos sonhos desfeitos.&nbsp; Não era mais a menina doce de outrora. Sentia-se a moça mais linda da cidade, até ontem.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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		<title>Manuela</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/09/24/manuela/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Sep 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 182]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cores reluzentes, tintas incandescentes, olhares espertos, suspiros suspeitos, toque de mãos, palavras salpicadas, vazias. Sussurros, suspiros, cigarros apagados, brasas em cinzas, linhas retorcidas, agulhas tortas. Entra e sai de gente, entreabrir de portas. Zero horas e mulheres tecendo suas madrugadas, velhas colchas de retalhos, como se cerzissem suas próprias vidas e tentassem ajuntar às suas lembranças um significado para dias tão vazios e tão impregnados do sol da manhã.&nbsp;</p>



<p>Odores se misturam em valsas esquecidas, bocas se embaralham em hálitos de hortelã e cravo. Seios, pernas, pernas, braços, unhas, dentes, dentes, carne. Gozo! E mais alguns trocados depositados no criado mudo e cego do quarto ao lado.&nbsp;</p>



<p>Assim era a rotina de Manuela. De dia o trabalho doméstico, a limpeza da casa, o cuidado com o pai doente e de noite o frenesi da casa em que trabalhava. Cansada dessa vida que de prazer não lhe dava nada, levou o pai para um asilo. Vendeu os móveis da casa para prover as necessidades do ancião e jogou-se no Rio Preto. Não deixou sequer uma explicação, uma carta, um adeus. Apenas encerrou seus tormentos e sua angústia. Ninguém sentiu sua falta. Transformou-se em estatística. E seu pai ainda vive sob os olhares cuidadosos de enfermeiras bondosas que à noite se travestem para viver uma outra vida.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;</p>



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<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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		<title>Jezabel</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Aug 2023 18:56:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 178]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[julgada]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[penitencia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Conteve-se por alguns instantes diante da Igreja. Pensou, titubeou, arrependeu-se. Voltou para casa. Trocou-se e fez um café forte. Porém, por mais que tentasse não conseguia esquecer. Casou-se com um homem bom, de costumes e valores e que acreditava piamente em sua pureza. Mas até quando conseguiria manter as aparências? Até quando dissimular seria a saída? Sua mente revoltosa traía sua vontade sincera de ser feliz junto de Jairo. Precisava falar com alguém.&nbsp;</p>



<p>Decidiu novamente procurar o padre e lhe contar seus mais íntimos segredos. Livrar-se de vez dos tormentos de seu passado e tornar-se verdadeiramente pura para seu marido. Levar adiante o sonho de ter uma família, um lar, um bom homem que lhe acompanharia para todo o sempre.&nbsp;</p>



<p>Vestiu-se novamente e caminhou, agora sem medo, até a Igreja. Procurou pelo simpático padre e estabeleceu com ele uma severa confissão, esperançosa de lavar a alma e o coração.&nbsp;</p>



<p>“Pequei, padre! Pequei contra mim mesma. Pequei contra o que acreditava, pequei por calar-me. Pequei por aceitar a carne, por renegar a alma. Ah, Senhor! Quem dentre os homens não peca? Pequei por amar a vida. Por amar os homens&#8230;”&nbsp;</p>



<p>Recebeu do padre a penitência. Voltou pra casa mais leve. Enfeitou-se como nunca para aguardar o marido que não veio.&nbsp;</p>



<p>Do outro lado da cidade, Jairo embriagava-se de perfumes alheios. E Jezabel adormecia mais uma noite em silêncio e fria.&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
</div>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/5P6bxSaRg2cK48jDngP6CY?si=0xXOqkk_QzGWuUYT-GgGtg"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31307" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



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<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Ismália</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/07/30/conto-joseani/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Jul 2023 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 174]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[adaptar]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[consequencias]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[disfarçar]]></category>
		<category><![CDATA[historia]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[Patriarcado]]></category>
		<category><![CDATA[viver]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sobre a escrivaninha uma lista de coisas a fazer. Tarefas do dia a dia realizadas com afinco e amor à família. Dona de casa, desde sempre, era zelosa no cuidado dos filhos e do marido. Um homem de ideias retrógradas, de cabelos divididos ao meio e manias que perturbavam. Seguro, pra não dizer pão duro, quase sempre achava um absurdo o preço da manteiga e regulava as compras da casa. Ela, de uma paciência invejável e um equilíbrio de monge, não brigava. Fazia pesquisas de preço, aproveitava as promoções, reaproveitava tudo o quanto era possível e aprendeu a costurar para diminuir os gastos com lojas de roupas.&nbsp;</p>



<p>Quando o marido chegava em casa, cansado de mais um dia de trabalho, ela o recebia com os olhos brilhando de saudade, com o jantar à mesa e os filhos penteados e silenciosos. O silêncio era imperativo na presença do marido. E ela sabia bem como silenciar sua voz, suas necessidades, seus desejos e seus filhos. Fora assim durante toda a sua vida.Desde pequena sentia a frieza de seu pai e de seus irmãos mais velhos, via sua mãe em silêncio obsequioso. Aprendera, acostumara-se. Era assim que tinha de ser.&nbsp;</p>



<p>Hoje é seu aniversário. Setenta anos. Acordou no raiar do dia, como sempre. Fez o café, pôs a mesa e aguardou em silêncio o burburinho do amanhecer em sua casa. Porém, o silêncio era maior do que o de costume. Afinal, seus filhos já eram homens e não mais viviam ali. O marido morrera aos 50 anos, de causa desconhecida. Sentou-se à mesa, serviu-se do café doce e abriu um álbum de fotografias que lhe trouxe à mente as recordações da vida. Seus olhos lacrimejaram de saudade. Dessa saudade que a gente só sente quando é dia de aniversário. Sabia que não tinha sido tão feliz assim como fingira toda a vida.&nbsp;</p>



<p>Sozinha, sentia falta dos filhos, do marido arrogante, das trouxas de roupas para lavar, das louças empilhadas depois do almoço de domingo e do silêncio que precisava fazer para não incomodar aquele com quem se casara tão jovem. Antes, o silêncio era uma ordem que ela obedecia sem questionar e o fazia porque entendia que era assim mesmo que tinha de ser. Hoje, o silêncio não era mais imperativo, mas era a única coisa que restara. E como doía não poder fazer barulho para logo em seguida silenciá-lo.&nbsp;</p>



<p>Levantou-se, tirou a mesa, aguardou que a campainha tocasse. Porém, nem os filhos, nem os netos romperam aquela manhã. Suspirou longamente e decidiu viver seu silêncio em outro canto. Saiu do prédio sem fazer barulho e sem ser notada. Nada levou, deixou tudo como estava. Tomou um táxi e partiu.&nbsp;</p>



<p>À tardinha, os filhos vieram para uma visita cordial de aniversário, trazendo seus filhos e esposas, como faziam todos os anos. Quando adentraram o apartamento, minuciosamente arrumado, com cheiro de jasmim, não foram recebidos por Ismália. Procuraram e se preocuparam, então. Ninguém a vira saindo do prédio, ninguém escutara nada durante todo o dia. Ninguém dera por sua falta, afinal de contas, era ela tão silenciosa! Só se ouvia, muito de vez em quando, o chiar da panela de pressão.&nbsp;</p>



<p>Em pouco tempo puseram-se a procurá-la nos hospitais, nos asilos, nas casas de parentes, de vizinhos, nas esquinas e nada. Como resposta apenas o silêncio. Depois de horas indo e vindo, contornando os quarteirões, e já preparados para acionar a polícia e registrar seu desaparecimento, avistaram Ismália assentada na beira de uma ponte, sobre o mar, olhando para o céu fixamente como que em uma torre, conversando com a lua. Não houve tempo. Todos à sua procura paralisaram-se diante da cena que passava pelas retinas incrédulas de cada um.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ismália enlouqueceu em silêncio e em silêncio expirou. Seus filhos verteram lágrimas e sem terem o que fazer, também se silenciaram.&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center">Envie sua proposta para nossas chamadas para publicação e para exposições!</h3>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31756" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo-1024x258.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31754" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
</div>
</div>



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<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-10 wp-block-columns-is-layout-flex">
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/5P6bxSaRg2cK48jDngP6CY?si=0xXOqkk_QzGWuUYT-GgGtg"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31307" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



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<div class="wp-block-image">
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		<title>Ilka Blacknight </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jul 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 172]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[recomeçar]]></category>
		<category><![CDATA[refazer]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Da mãe herdou os olhos,</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>do pai herdou a cachaça,</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>da irmã um ódio profundo,</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>da vida uma cusparada na cara que lhe acertou em cheio.</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Mas nasceu com um coração de teimosia</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>e se traveste toda a noite para tentar mais uma vez.</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Munique Duarte</em></p>



<div style="height:51px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Viu-se refletida no vidro fumê de uma vitrine. Olhou-se demoradamente. Observou os olhos cansados, a pele enrugada. Envelheceu de repente. Dormiu e acordou assim, como uma uva passa. Não era mais a jovem de pele delicada, olhar vivaz e sorriso de pérola. Estava ali diante de si mesma, observando-se, analisando-se. Por pouco não perdeu a condução. Iria visitar a amiga que há algum tempo jazia numa cama de hospital. A morte, agora, parecia espreitá-la em cada esquina que cruzava. A amiga, de profissão, caiu doente numa manhã de sábado. “Fosse uma manhã de segunda-feira”, dizia ela, “seria feriado na cidade”.</p>



<p>Ilka não é seu nome de pia, Blacknight não é seu sobrenome, este foi dado a ela por gentileza dos clientes que assim a apelidaram. Tão pouco nasceu assim: velha. Fora uma moça vistosa, de cabelos brilhosos e olhos de um verde esmeralda que hipnotizavam quem muito os olhasse. De voz aveludada, um corpo bem feito, seios que apontavam para o céu e uma boca carmim. Era o desejo nem tanto silencioso dos homens daquela cidadezinha que mal existia no mapa. Por onde passava arrancava olhares e comentários. Mas também não nascera assim, bela jovem. Fora uma criança esmirrada, de pele ressecada. Nascera em uma casa de pau a pique, no interior do sertão mineiro. Convivera com a miséria e um pai bêbado que batia na mãe e em quem se atrevesse a entrar na frente. Não estudara, mas conhecera bem o peso de uma enxada, a dor da fome e da sede. Aos quinze anos perdera a mãe e a irmã mais velha com quem aprendera a escapar dos maus tratos do pai e a não se contentar com tão pouco. Cansada daquela vida famigerada, fugiu, sem olhar para trás. Do pai não se sabe o destino, provavelmente enterrou sua vida em algum boteco gastando a féria do dia em cachaça e vociferando pelos cantos da boca. Dos irmãos teve notícia há alguns anos. Todos ainda vivem naquela cidadezinha remota, do mesmo jeito como foram deixados por ela há anos e anos. Cortara os laços que a ligavam ao passado. Viajara durante dias e noites até chegar à capital. Morara debaixo da ponte, pedira esmolas, recebera nãos com muito mais frequência do que se pode imaginar, como cusparadas que a humilhavam. Mas nascera com um coração de teimosia. Aprendera, desde cedo, a esquivar-se, a seduzir, a esperar. Uma vez, quando menos esperava, encontrou um senhor calvo de olhos pretos e pele morena. Pediu alguns centavos para o pão do dia. Recebeu um sorriso e um convite. O que poderia ser pior do que estar na rua, desprotegida e sozinha?&nbsp; No mesmo dia, Ilka viajou alguns quilômetros com o homem até chegar em uma cidade sem graça. A promessa era de que ela não mais precisaria mendigar migalhas pelas ruas. Banho quente, roupas novas e até perfume foram os primeiros agrados a Ilka. Uma boa noite de sono em uma cama só para ela. Juntou-se a outras meninas que também acreditavam ter tirado a sorte grande, mas depois de duas semanas dessa regalia nunca antes provada, o homem calvo e generoso resolveu cobrar pela hospedagem e tudo mais. Perdia, naquela noite, a sua pureza e o resto da esperança de que a vida poderia lhe sorrir. Depois, foi oferecida a outros homens que pagavam para tê-la na cama que deixou de ser só sua. Pobre Ilka, não conhecera o amor. Achava todos os homens asquerosos, ruguentos. Tomava banhos intermináveis logo que o expediente terminava e prometeu pagar sua dívida ao homem calvo, sair daquele antro e tentar vida nova. Era teimosa e determinada. Em uma manhã de outubro, encarou-o de igual para igual, deu-lhe a notícia libertadora. Pegou sua pequena trouxa e saiu, mais uma vez, sem olhar para trás. Andou por horas e chegou a um posto de gasolina. Conseguiu tomar um banho sem ter que pagar, afinal, o frentista ficou hipnotizado pelo verde esmeralda de seus olhos. Ofereceu-lhe um pingado, ao qual não houve recusa. Despediu-se do bom homem e retomou sua caminhada, queria chegar à cidade o quanto antes e estabelecer-se. Juntara durante um tempo uma quantia que daria para se virar até encontrar um emprego. Mais algumas horas e já estava na praça central onde havia uma pequena igreja, uma sorveteria e bancos povoados por senhores e senhoras contemplando a correria das crianças e os beijos apaixonados dos jovens amantes. Parou, olhou ao redor, sentou-se em um dos bancos, fixou seu olhar na cruz alta da torre da igreja, mas não conseguiu rezar. Seu coração de teimosia estava cheio de farpas e seu corpo doído da longa caminhada. Refez-se um pouco e procurou a pensão mais em conta para passar a noite. Na manhã seguinte procurou emprego e por não ter instrução voltou à pensão, sem sucesso. Durante sua volta, encontrou o frentista que a havia acolhido no posto da beira da estrada. Este, ainda hipnotizado, dirigiu-lhe a palavra convidando-a para um sorvete. Aceitou o convite, atacou o sorvete com fome de leoa e deparou-se com o frentista a devorá-la com os olhos. Porém, não se intimidou. Encarou-o e logo, sem pensar muito, compreendeu o próximo passo. Em pouco tempo já estavam nus devorando-se um ao outro, e na calada da noite o frentista, saciado, vestiu-se, depositou alguns trocados no criado mudo, assim como Ilka o havia pedido. Foi para casa satisfeito, mas sem ter provado do gosto provavelmente doce daqueles lábios carmim. Prometeu voltar. Poderiam ter começado ali um belo romance, mas a moça entendeu que não nascera para romances. Precisava comer e pagar as contas. Estabeleceu-se, neste instante, o começo de sua vida. Foi expulsa da pensão acusada de fornicação. Alugou um sobrado simples, decorou-o como pôde e passou a acolher em sua casa tantas outras moças que também precisavam viver. Juntas, recebiam frentistas, borracheiros, guardas de trânsito, bancários, advogados. Toda espécie de homem e logo estava inaugurado o estabelecimento de Ilka, uma bela mulher de gestos delicados, olhar sedutor e uma boca de tirar o fôlego. Todos que começaram a frequentar sua casa queriam provar dos seus beijos, porém ela nunca permitiu que ninguém tocasse em seus lábios. Aqueles que se atreveram saíram de seu estabelecimento arrastados. Ora, uma mulher que se preze tem o controle de seu corpo e de suas vontades. Beijar estava fora de cogitação. Afinal de contas, o beijo é uma prova de amor e amor era a última coisa que ela poderia querer. Considerava os homens uma raça desprezível, serviam apenas para lhe pagarem as contas, usava e abusava deles. Seus poderes de sedução ficaram conhecidos e vinham homens de todos os cantos terem com ela alguns momentos de prazer que diziam valer a pena e o bolso. Ao contrário do que se possa pensar, o fato de não conseguirem arrancar de Ilka um beijo sequer era um afrodisíaco ainda mais potente e, com isso, a freguesia aumentava a cada dia. Todos apostando em quem conseguiria conquistar os ósculos mais desejados da cidade. Aumentavam as apostas, aumentavam os lucros, simples assim. Dizem que muitos dos homens que a conheceram nunca mais foram os mesmos. Alguns diminuíram consideravelmente suas riquezas ao deixarem nos aposentos de Ilka valores imensuráveis, joias, ações. Tudo em nome do prazer. Ninguém nunca a via caminhar pela cidade durante o dia. Para saber de Ilka só mesmo à noite, durante o expediente. E quanto mais negra a noite, melhor eram os seus serviços. Daí o sobrenome Blacknight. Enfim, não conseguiu um emprego como balconista, mas conseguiu sair da miséria e em pouco tempo já podia se regozijar de uma pequena fortuna. O sexo para ela era um trabalho tão digno como outro qualquer e se orgulhava disso, era uma excelente profissional, das poucas que ainda existiam no mercado. Depois de alguns bons anos de trabalho resolveu que iria se aposentar. Ainda era jovem, teria muitos anos pela frente, mas decidiu viver uma outra vida, em outro lugar. Entregou sua casa à primeira moça que veio se juntar à sua equipe. Distribuiu presentes às raparigas como forma de gratidão pelos serviços prestados com tanta fidelidade e preparou uma linda festa de despedida. Convidou seus clientes mais fiéis e mais generosos. Estavam todos animadíssimos, quem sabe, agora, já que está se despedindo, daria a graça de um beijo. E quem seria o sortudo? Por outro lado, pairava uma certa melancolia no ar. Nunca mais a cidade seria a mesma sem Ilka Blacknight. Ela sabia receber como ninguém. Em sua casa podia se encontrar a alegria, o prazer, a liberdade. Viviam-se momentos de puro gozo, longe das convenções sociais que escravizam. Lá, a seriedade dava lugar aos instintos, desfazia as rugas de preocupação e libertava as fantasias mais ocultas até mesmo dos mais tímidos, dos mais pudicos. Era uma terapia, que custava caro, é verdade, mas valia a pena. Inevitável que uma saudade precoce já começasse a invadir os corações sedentos de sexo. A festa começou às 19h e varou a noite estrelada e quente daquele vinte e cinco de setembro. Ilka adentrou a sala ampla do sobrado em um vestido transparente, azul turquesa, que esculpia em sombras suas curvas e acentuava os verdes olhos e a linda boca vermelha. Por que deixar todos aqueles amantes órfãos de seus carinhos, assim, tão cedo? Para um coração de teimosia, basta a teimosia. Não havia explicações, apenas a vontade imensa de ser outra em outro lugar. Quando todos, já bêbados, imploravam um beijo apenas, Ilka despediu-se. Houve quem se atirasse aos seus pés, houve quem oferecesse toda a sua fortuna. Houve quem lhe dirigisse palavras de ingratidão. Alguns faltaram com decoro, mas só alguns, os mais inconformados. Os outros logo compreenderam que aquela mulher ora Ariel ora Caliban devia ser eternizada em suas lembranças, apenas. Ilka começou a escalar a longa escada-caracol que a levaria a seus aposentos e, antes de desaparecer, olhou mais uma vez para todos que também a olhavam e viu, encostado no portal da sala de estar, um figura esguia, de chapéu panamá e um terno azul escuro. Diferente de todos os outros, este homem a olhava fixamente e podia-se ver suas pupilas dilatadas e a tensão muscular nas maçãs do rosto. Em poucos segundos Blaknigth reconheceu o homem do posto que a alimentara quando de sua chegada. O homem que, generosamente, ofereceu-lhe sorvete na praça. O homem que fora seu primeiro amante naquela nova cidade. O homem com quem poderia ter começado um romance e que sumira tão logo Ilka começasse seus trabalhos na casa nova. Sim, ela sentira falta do corpo quente e suado do frentista. Havia desenvolvido por ele um carinho e uma gratidão que nunca pudera pagar. Ali estava a figura que, naquele momento, fez com que Ilka estremecesse. Uma troca de olhares e o frentista rompeu o salão, desviando-se dos homens agora distraídos com as meninas dançantes e alcançou os primeiros degraus ao encontro da bela dama com quem já vivera momentos inebriantes. Sem palavras, os dois tornaram-se um, e envolvidos pelos lençóis macios que ainda guardavam o frescor da juventude, entrelaçaram-se e protagonizaram um momento único na vida de Ilka. O beijo. A despedida sonhada por todos os que agora se contentavam com as meninas dançantes no salão. Ele sabia. Ela sabia. Não mais se veriam, não mais se tocariam, não mais se amariam. Não mais se beijariam. Seriam um para o outro apenas uma lembrança, apenas um lapso nos momentos de devaneio. Mal a manhã chegou, Ilka despachou suas malas e seguiu rumo à sua nova vida, mais uma vez sem olhar para trás, levando consigo o gosto ainda quente e molhado do beijo dado em sua despedida. Mordiscou o cantinho da boca para sentir mais uma vez a sensação do primeiro beijo, como uma adolescente entorpecida pelas ilusões da idade. Seguiu adiante, estabeleceu-se em sua nova casa, comprada com afortuna economizada por ela dos antigos clientes. Linda casa, lindo jardim, bem maior que o sobrado que ficou para trás. Ali viveu o resto de sua vida entre lembranças que tentava esquecer e amigos novos que fizera ao chegar e que nada sabiam de seu passado. Era uma dama, generosa e bela, apenas. Frequentava as festas, os encontros sociais, os chás beneficentes. Nunca tivera medo de encontrar-se com alguém do passado, sabia ela que os que ficaram para trás temeriam ver desmascaradas as suas escapadelas do lar e seus segredos confidenciados em longas noites escuras na cama de Ilka. Agora, tomara para si seu nome de batismo. Cândida, Senhora Cândida. De gestos delicados, olhar profundo, sorriso leve encantava a todos a sua volta. Nunca mais voltara à cidade que lhe deu os proventos do presente. Nunca mais se encontrara com o único homem capaz de lhe beijar os lábios. Respeitada pelos amigos que fizera em sua nova vida, era outra em outro lugar. Hoje, pela manhã, recebeu um telefonema a cobrar e a voz tremida pedia que ela voltasse para uma outra despedida. Sua amiga de profissão estava moribunda e queria vê-la. Pensou, titubeou, mas uma lágrima de saudade, de melancolia brotou em seus olhos. Era Dalva, doente, cansada, amiga de luta com quem dividira momentos de tristeza e alegrias. Não podia dar as costas a ela. Não podia apagar de sua vida a vida que levara e a amizade construída. Era leal, era generosa. Desta vez não pediu ao motorista que lhe levasse a parte alguma. Arrumou uma pequena mala e foi, sozinha, ao encontro de sua amiga. Tomou o táxi e a cada quilômetro percorrido uma lembrança, um arrepio. Chegou enfim à cidade, desembarcou, caminhou, era dia de um sol radiante. Parou em um ponto de ônibus em frente a uma vitrine fumê onde se viu refletida. Olhou-se demoradamente. Quase perdeu a condução. Envelheceu de repente. Dormiu e acordou assim, feito uva passa. Dalva morreu antes de poder se despedir como queria. Cândida não se despediu, apenas olhou para o corpo cansado da amiga e sentiu a morte espreitá-la. Mas seu coração era de teimosia e teimou em não morrer tão cedo, mesmo que tão velha.</p>



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<h3 class="wp-block-heading">Envie sua proposta para nossas chamadas para publicação e para exposições!</h3>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31756" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo-1024x258.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31754" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



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<figure class="wp-block-image size-full is-style-rounded"><img loading="lazy" decoding="async" width="720" height="719" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=720%2C719&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31983" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?w=720&amp;ssl=1 720w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=40%2C40&amp;ssl=1 40w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=275%2C275&amp;ssl=1 275w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=205%2C205&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=480%2C479&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/2.-Retrato_autora.jpg?resize=600%2C599&amp;ssl=1 600w" sizes="(max-width: 720px) 100vw, 720px" data-recalc-dims="1" /></figure>
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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong>&nbsp;É natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/5P6bxSaRg2cK48jDngP6CY?si=0xXOqkk_QzGWuUYT-GgGtg"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31307" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Diva</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/06/25/diva/</link>
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		<pubDate>Sun, 25 Jun 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 169]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[cantora]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Pela manhã recebeu a visita de seus netos que há muito não via. Entre uma conversa e outra, entre um delírio e outro, Diva contemplava a juventude em seus netos e rememorava com eles os dias de glória vividos nos palcos de um teatro antigo de sua cidade natal. Diva cantava e encantava seu público. Nos anos cinquenta ela reinava entre as cantoras de rádio. Conheceu Armando, seu marido, agora em descanso eterno, em uma de suas apresentações. Ele prometeu mundos e fundos, sucesso, dinheiro e uma vida bem mais abastada. Ela, tomada de amor, encantou-se e entregou-se a esse homem que a abandonou em sua terceira gravidez, por conta de “outros rabos de saias”, assim ela dizia. Mas que voltava todas as vezes que o dinheiro era escasso. Diva, aos poucos, foi perdendo espaço, oportunidades, pois precisava cuidar dos filhos pequenos e num piscar de olhos, a bela cantora tornou-se lavadeira para manter a casa e as despesas. Perdeu a glória, que foi logo esquecida, perdeu a honra e a vida nos palcos. Perdeu Armando e as ilusões, passou a viver somente para os filhos que a deixaram ali, só, em uma casa de repouso. Hoje, nem cantar consegue mais. E por um momento, de mãos dadas com seu neto mais velho, revelou-se:&nbsp;</p>



<p>Fui criança, fui jovem. Hoje receio esquecer meu nome. Minhas pernas fracas não sustentam mais meu esqueleto frágil e disforme. As lembranças para mim são flashes que se embaralham ao dormir. Tenho medo de sonhar. Tenho medo da escuridão quando fecho os olhos. Entenda: há mil razões para partir e um milhão para ficar. Já não tenho paladar, só o amargo do beijo que um dia dei. Minhas rugas contam por si minha história e minhas mãos antes ágeis não me obedecem mais. Meus olhos azuis embranqueceram-se de cataratas, talvez, por saudades do Iguaçu. Meus cabelos negros amarelaram-se, folhas velhas de um livro esquecido no tempo. Já nem sei quantas vezes contei esta história. Entenda: meus passos débeis já não querem regressar. Minha voz rouca teima em se calar. Meus olhos lacrimejam ácido. Quantas vezes quis rezar e não pude! Quantas vezes, ao gritar, emudeci! Meu coração parece pular de tanta vida, mas meu sangue já não corre, caminha. E o ar parece azul quando o tenho para mim. Entenda: a saudade do que já foi é o único bem a partilhar. O futuro? Não importa, o presente é o único lugar, a solidão a única estrada e a poesia? Acabou. Entenda: é preciso despertar.&nbsp;</p>



<p>Os olhos de Vinícius não escondiam sua tristeza diante das palavras agridoces de sua avó. Seu peito parecia se romper de tanto pranto. Quando, enfim, conseguiu se recompor, percebeu que Diva já não estava mais ali.&nbsp;</p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong>&nbsp;</p>



<p>natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
</div>
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		<title>Clara</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 28 May 2023 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 165]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Clara]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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<p>1.&nbsp;</p>



<p>Clara. Nome simples. Duas sílabas. Fácil de pronunciar. Porém, era Clara um paradoxo. Vivera sem os pais por toda a infância. Criada por uma tia com fobia social, quase nunca saía de casa. Foi mandada a uma escola de freiras aos oito anos de idade e, lá, mais uma vez a clausura. Pela manhã, aulas de aritmética, língua portuguesa, francês e latim. À tarde, geografia, história, ciências. À noite, o terço, a novena, a prece ritualística, o jantar, a clausura. Menina doce, não entendia o porquê da escuridão em sua vida. Faltava-lhe a afetividade materna, o olhar paterno. Faltava-lhe liberdade. Faltava clareza na vida de Clara. Era ela um paradoxo. Não quis seguir a vida religiosa, mas cumpriu uma promessa: visitar velhinhos, tristes e solitários, enclausurados, buscando em cada um as figuras materna e paterna. Mas faltava-lhe liberdade. Ao sair do internato precisou trabalhar. Sua tia, cada vez mais, trancada em seu mundo de silêncios. Não tinha com quem conversar. Acostumou-se com a rotina: trabalho/casa/trabalho; casa/asilo/casa.Todas as quintas-feiras, dia de sua folga, visitava um grupo de idosos em um pequeno asilo do outro lado da cidade. Acordava cedo, tomava seu banho, um gole de café amargo e saía do prédio antigo, sujo, escuro e pesado. Atravessava a avenida, caminhava por um quarteirão e aguardava calmamente o ônibus 213 que a levaria até o Bairro das Graças. Descia do ônibus, caminhava por mais um quarteirão e pegava o metrô, disputando espaço com pessoas apressadas, barulhentas em seus silêncios, solitárias e nubladas. O batom vermelho de Clara contrastava com o cinza da cidade e das pessoas cimentadas em seus pensamentos. Enfim, depois de 2 horas de viagem entre caminhadas, ônibus e metrô chega à estação Bom Sucesso e continua sua saga até o Asilo São Francisco para encontrar com os idosos a quem atendia em silêncio, cumprindo sua promessa.Aos 30 anos, conheceu Isaac, um homem pálido, esguio e de olhar distante. Enfermeiro, estudante de Farmácia, 26 anos. Encontrou em Isaac a companhia perfeita: ele quase não falava, mas deixava-a em êxtase quando a tomava pela cintura e a apertava contra o peito. Sexo. Era a única coisa que deixava a vida de Clara um pouco mais leve. E as quintas-feiras se tornaram uma promessa fácil de ser cumprida. Compromisso? Não. Apenas sexo. Apenas o prazer. E que se danem os velhinhos. As quintas-feiras são melhores com Isaac.Na última quinta, Clara seguiu todo o ritual: banho, café amargo, caminhada pelo quarteirão. Ponto do ônibus 213. Todavia, percebeu algo estranho no ar. Um silêncio difícil de entender. Onde as pessoas estressadas? Onde os carros frenéticos? Tudo em silêncio. Esperou pelo 213 por mais de 30 minutos. E quando enfim o ônibus apontou na esquina, fez sinal e ele não parou. Sentiu-se invisível. Impotente. Ora, há anos o 213 passa por esta rua, por esta esquina, sempre na mesma hora. Acostumou-se com a rotina. Mas naquele dia, o 213 resolveu atrasar e, o pior, resolveu não parar pra sua mais fiel passageira. O que acontecera? Não havia tempo para lamentações. Resolveu seguir em frente e caminhar a pé até o Bairro das Graças para enfim pegar o metrô. Os velhinhos não podiam esperar. Isaac, na certa, estaria ansioso, aguardando Clara para mais alguns efêmeros momentos de sexo. E ela não poderia, jamais, deixar de cumprir sua promessa. Mas o dia realmente estava diferente. As poucas pessoas nas ruas comportavam-se tão bem, que Clara resolveu diminuir os passos para observar melhor aquela quinta-feira atípica, tão realmente silenciosa. Morrera alguém de importância nacional? Era dia de jogo do Brasil? Sem entender a real daquele dia, seguiu, observando as caras translúcidas das pessoas que há tantos anos, cumprindo uma rotina, eram desalmadas e cinzentas como as ruas da cidade.&nbsp;</p>



<p>“Recuso-me a correr!” Exclamou! “Não é minha culpa o atraso do dia.” Afirmou. “Que os velhinhos esperem”. Decidiu. E continuou sua caminhada pelos quarteirões. Na certa o metrô, assim como o ônibus, não obedeceria ao combinado de todas as quintas-feiras. Continuou a andar, tentando se esconder do sol que, agora escaldante, secava as gotas da chuva que a surpreenderam ao longo do caminho. Chegou, enfim, no cruzamento que dava para o Asilo São Francisco. Diferente das outras ruas, o cruzamento em movimento frenético impediu que Clara atravessasse rumo ao cumprimento de sua promessa. Fez uma, duas, três tentativas&#8230; Nada. Os automóveis pareciam implacáveis, os semáforos em contusão sempre acusavam o verde sem chances para que os transeuntes fizessem a travessia. Antes, sozinha na encruzilhada. Agora, abafada pelo aglomerado de pessoas confusas que, como Clara, não conseguiam atravessar. A calma e as certezas da caminhada outrora feita debaixo da chuva e do sol escaldante que se atreveu em aparecerdavam espaço à sensação de impotência tantas vezes provada pela menina solitária em seu mundo cinza e claustro. Pensara nos velhinhos que a esperavam, sedentos de sua atenção. Pensara em Isaac que a esperava tão sedento quanto. Pensara nas pessoas aglomeradas, como ratos de laboratório, sedentas por um espaço na encruzilhada tomada por carros insensatos que não percebiam a urgência de cada um. Pensara, finalmente, em si mesma. Em quatro longas horas de caminhada provara toda a sorte de sensações: raiva, desejo, solidão, medo, preocupação, calma&#8230; Como um milagre os semáforos voltaram a funcionar e os carros diminuíram a velocidade até pararem diante do vermelho que indicava a vez de quem ainda não havia tido vez. Todos, como que em reta final de uma corrida olímpica atravessaram. Menos Clara que virou seu corpo para o caminho de volta ao prédio de onde nunca deveria ter saído, como sua tia, que se trancafiara em um mundo só seu, sem carros, pessoas, velhinhos, sem Isaac, sem vida. Avistou uma placa de um bar qualquer e como sedenta de uma vida que nunca tivera, entregou-se a um copo de aguardente e a dois, e a três, cinco, embriagando-se de lembranças, rancores e desejos. Não voltou ao prédio, não visitou os velhinhos, não sentiu os braços de Isaac entrelaçando-a, não se mexeu. Deixou-se ficar no balcão, enternecida pelas cores dos cartazes que pipocavam as paredes daquele bar qualquer. Trocou sua promessa de noviça, trocou o silêncio de sua tia, trocou os abraços de Isaac, trocou sua vida fadada às cinzas da cidade pelo balcão daquele bar.&nbsp;</p>



<p>2.&nbsp;</p>



<p>Eram 22 horas quando o dono do bar, um homem calvo, de olhos azuis e cavanhaque torto, tocou nos ombros de Clara e a despertou de sua catarse.&nbsp;</p>



<p>__Moça, já vamos fechar.&nbsp;</p>



<p>Ela levantou seus olhos avermelhados dos efeitos do álcool, sorriu um sorriso franco. Agradeceu pela bebida, levou a mão em sua bolsa e depositou sobre o balcão o dinheiro de sua embriaguez. Olhou ao redor e sentiu-se mal. Como se provasse, naquele instante, dos olhares reprovadores das freiras com quem convivera a infância e a adolescência. Mas os olhos, agora, não eram das freiras complacentes e maternais. Eram olhos que a desnudavam como se quisessem devorar sua pele clara, tão clara para um lugar tão escuro como aquele.Era tarde. Era tarde para arrepender-se. Era tarde para voltar no tempo. Era tarde para voltar pra casa a pé. Era tarde para tomar o metrô, o ônibus e caminhar os quarteirões de sempre até seu prédio. Um táxi. Sim. Um táxi devolveria a rotina perdida daquela quinta-feira. Logo na esquina tomou a condução que a levaria de volta para sua vida insípida. Já em casa, sentindo-se mais segura, olhou pela fresta do quarto de sua tia. Lá estava a figura esquálida de tia Laura, assentada na beira da cama a ler uma bula de remédio vencido. Exatamente como Clara a deixara pela manhã. Tudo igual. Pelo visto nada mudara. “E deveria?”. Pôs-se nua diante do espelho, examinou-se. Tudo igual. Nada mudara. Abriu o chuveiro e deixou-se ficar por longos 15 minutos. A água lava o corpo, a alma maculada por um dia tão&#8230; tão&#8230;Mas e sua promessa? E Isaac? Na certa não sentiram sua falta. Para os velhos deveria ser apenas mais uma dessas voluntárias voluntariosas. Para Isaac, só mais uma mulher carente dentre tantas que, provavelmente, já passaram por seus abraços.O bar. Ah, o bar&#8230; nunca estivera em um por tanto tempo. No máximo entrava, comprava fósforos e saía, sem olhar ao redor. A cabeça doía. Seus pés fumegavam. As pontas dos dedos, dormentes. Autocomiseração. Não. Nada de sentir pena de si mesma ou de se autocondenar. Uma boa noite de sono bastaria. O sono cura qualquer ressaca, qualquer culpa. “O sono alimenta”. Não havia comido até agora. Também não comeria nada. Vestiu sua camisola rosa, calçou suas chinelas. Olhou pela fresta do quarto de tia Laura. Tudo igual. Nada mudara. Deitou-se e entregou-se a um sono profundo. “Amanhã.” “Amanhã será outro&#8230;”.&nbsp;</p>



<p>3.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O despertador avisou que já era um novo dia. Clara abriu os olhos devagar. Sentiu-se despertando do torpor noturno e pôs-se de pé. Calçou as chinelas e foi até a cozinha arrastando-as como que correntes pregadas em seus tornozelos.Há tempos não se sentia assim. Era tão normal acordar a essa hora, fazer seu café amargo, arrumar-se para mais um dia de trabalho. Mas o que fora aquela quinta-feira rompendo a monotonia de sua vida?Tomou uma xícara do café, arrastou novamente suas correntes até o quarto de tia Laura, olhou pela fresta e lá estava ela, dormindo o sono dos justos.Arrumou-se para o trabalho na Quinta Avenida, segundo andar. Prédio antigo de paredes amareladas pelo tempo e grandes portas de madeira, janelas de venezianas e persianas que emperravam todos os dias. O prédio guardava escritórios de contabilidade, dentistas e pequenas empresas de cobrança. Clara trabalhava em uma delas. Como gerente financeira, passava oito horas do seu dia entre contas, boletos e borderôs. Não lidava diretamente com os funcionários, que eram em número de seis, contando com o chefe Hermenegildo. Tratava somente com Tônia e Oswaldo a quem passava os resultados e as metas a serem alcançadas. Cobrava deles que cobravam dos outros as cobranças a serem recebidas. E voltava novamente para as máquinas de calcular e a máquina de escrever. Almoçava, inevitavelmente, na lanchonete do outro lado da rua. Vinte minutos eram suficientes para atravessar a rua e engolir um salgado, um suco e um brigadeiro. Voltava ao escritório e subia os lances da escada com pressa de não deixar que o serviço acumulasse. Contas, números, nomes e às 17 horas já estava pronta para trancar a gaveta e voltar para casa. Todos os dias. A mesma coisa. “E por que seria diferente?” Foi esta a sua escolha. Uma vida insípida. Também, não quis se entregar ao matrimônio. Bem que Oswaldo a cortejou durante meses, tentou, mas Clara foi irredutível. Não se entregou ao celibato do convento, não se entregou a Oswaldo em casamento, mas entregou-se aos calorosos momentos com Isaac. Única pausa na rotina fria dos dias que se seguiram desde sua entrada no Convento Santa Helena.De vez em quando ainda sente os olhares de admiração de Oswaldo. Mas é em Isaac que pensa. Amor? Não. Ainda não havia provado do amor. Tinha consciência disso. Afinal, Clara conhecia bem o amor nos folhetins romanescos que lia todos os sábados na varanda de seu apartamento, enquanto observava as pessoas na rua que sustentava seu prédio velho e silencioso. Paixão? Talvez. Dessas que fazem perder o sono enquanto se aguarda o momento do encontro. Eram, na verdade, cômodos e rotineiros os encontros com Isaac. Sem perguntas, sem respostas. Apenas momentos que ela classificava como uma pausa na rotina. Mas&#8230; depois de um ano inteiro já não seria rotina? Um paradoxo, como Clara.Ao descer as escadas do prédio rumo à Quinta Avenida, segundo andar, sala 201, um frio percorreu sua espinha. Será que hoje as pessoas, os automóveis, os ônibus, o metrô estariam em perfeita harmonia com a rotina de sempre? Ou teriam enlouquecido de vez, desde ontem e estariam agindo ao bel prazer?Titubeou por uns instantes, coisa incomum para alguém que contraiu o hábito dos horários rígidos e dos protocolos inadiáveis. Pensou em voltar para casa e esconder-se, como fazia Laura, sua tia. Mas seguiu adiante. Caminhou por alguns minutos e lá estava diante do prédio impoluto que, como ela, cumpria horários e protocolos. Cumprimentou o porteiro e escalou as escadas até o segundo andar. Abriu a porta que rangia. “Oswaldo esqueceu-se do óleo mais uma vez”. Acendeu as luzes amareladas como as paredes e tentou abrir as persianas que emperravam todos os dias. Mas aquela sexta-feira não seria como as outras. A quinta rompera para sempre o ciclo que se iniciara há mais de dez anos.&nbsp;</p>



<p>4.&nbsp;</p>



<p>Mais uma vez cumpriu o contrato que assinalara há anos com o Doutor Hermenegildo, entre máquinas de calcular, máquina de escrever e cobranças a Tônia e Oswaldo. Quando deu a hora do almoço de vinte minutos na lanchonete do outro lado da rua, Clara foi tomada pela mesma sensação: o peso das correntes em seus tornozelos. Desceu as escadas arrastando suas correntes e sapatilhas cinza, não cumprimentou o porteiro. Seguiu em frente com um peso que lhe atormentava a alma. Atravessou a rua, entrou na lanchonete e não fez o pedido de sempre. Lembrou-se do dia anterior naquele bar qualquer do cruzamento que daria no Asilo São Francisco. Do escritório até o bar levaria horas. Subitamente lhe veio à lembrança as cores dos cartazes nas paredes sujas daquele lugar igualmente sujo e um desejo: fazer parte daquelas paredes. Colar-se e calar-se lá, para sempre. Ser um ponto claro na imundície daquelas paredes e sorver o aroma etílico de cada um que por lá passasse, como um espectro sugando a energia viva de cada um.“Não. Não é da minha natureza. Esta não sou eu. Não posso me entregar a esses pensamentos. Não nasci para estar nesses lugares. Não sou dada ao submundo. Ou já pertenço a ele e não percebi? Preciso trabalhar&#8230; Isaac, palpita-me o coração quando penso em você. Salva-me. Abraça-me. Deixa-me senti-lo&#8230; preciso trabalhar! Deus! O que está havendo? Eu sou Clara&#8230; hoje ainda é sexta, preciso voltar ao trabalho”.Caminhou alguns passos e não conseguiu mais se mexer. A cidade a engolia. As pessoas acotovelavam-se num imenso frenesi. O coração de Clara pulava tão forte que podia ser percebido debaixo das rendas de sua camisa. Os carros corriam num vai e vem frenético. Onde o silêncio de ontem? Onde as cinzas pinceladas nas paredes das casas e prédios? Onde o cinza do asfalto?Claramente, seus sentidos estavam perturbados. Algo havia mudado na cidade ou dentro dela?Fechou os olhos por alguns segundos na tentativa de recuperar a razão. Abriu-os e caminhou em direção ao ponto do ônibus 213. Mas hoje não é dia de visita. “Que se dane o calendário!” “Preciso de frescor.”“Preciso das mãos de Isaac atravessando meu corpo”. Assim, entrou no 213, abandonando a Quinta Avenida, deixando para trás o trabalho impoluto, as cobranças à Tônia e a Oswaldo que, igualmente, deveriam cobrar os outros funcionários que cobrariam Marias, Antônios e Josés.Desceu próximo ao metrô, mas decidiu caminhar até o cruzamento de todas as quintas-feiras. “Que se danem as quintas-feiras, as sextas e todos os dias dessa vida medíocre!” “Quero mais”.A essa altura, o peso nos calcanhares ganhava uma leveza de tirar o fôlego e seus passos dúbios ganhavam velocidade de lince e ia cruzando ruas, quarteirões. E feito um animal em dia de caça, espreitou as pessoas, seus olhares, seus movimentos, milimetricamente. Descobriu que o mundo é bem maior que seu quarto, seu apartamento, maior que a Quinta Avenida, que o asilo e maior até que os abraços de Isaac. Descobriu que não existem limites e que poderia subverter sua vida quando quisesse, sem rotinas, protocolos, sem velhinhos, sem tia Laura. Sem Isaac.Parou no cruzamento. Não atravessou. Voltou seu olhar para o bar do dia anterior e, decidida, adentrou o espaço imundo sob olhares curiosos. Não se intimidou. Sentou ao balcão, olhou fixamente para as paredes caiadas de cartazes de cerveja e mulheres de borracharia. Pediu uma aguardente. Subverteu a lógica de seus dias cinzas e apagados pela monotonia construída ao longo do tempo&#8230;&nbsp;</p>



<p>Dizem que Clara, até hoje, lá está, enternecida pelo caleidoscópio de cartazes colados nas paredes, enternecida por suas lembranças. Clara é um paradoxo na claridade daquele lugar sem luz.&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong>&nbsp;</p>



<p>É natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
</div>
</div>



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		<title>Bárbara</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Apr 2023 18:59:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 161]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Bárbara]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Acordou. Decidiu que esse seria o dia de dar um basta em sua depressão. Por que sofrer por alguém que não mereceu, em momento algum, todas as suas lágrimas? Lágrimas salgadas, assim como esse amor: salgado e amargo.&nbsp;</p>



<p>Escreveu, então, numa folha de papel ofício, todos os passos que deveria seguir para esquecer esse alguém, de quem se recusava a dizer o nome. Não teve a intenção de prescrever uma receita infalível, mas tornava público o remédio que a salvara de um problema mais sério que a solidão.&nbsp;</p>



<p>Pela última vez, enxugou seu rosto e centrifugou seu espírito. Deu bom dia ao sol. Olhou-se no espelho, escovou os dentes, arrumou os cabelos lisos dando a eles um penteado diferente do que normalmente fazia. Modificar o externo é um bom começo para transformar o interior.&nbsp;</p>



<p>Para começar, lembrou-se dos conselhos de Ovídio Nasão. Se as lembranças o sobressaltarem e você não se sentir bem com elas, esmague-as, enquanto são novas. Tomou uma boa dose de bebida, na esperança de entorpecer os sentidos, “rememore com frequência os atos de tua criminosa amiga”, como diria Ovídio, e colocou no papel todos os defeitos que ele possuía. Não se esqueceu de colocar também, todos os prejuízos que ele lhe causou. Em alguns momentos, distorceu para pior as qualidades do ex, enganando sua mente.&nbsp;</p>



<p>Ócio? Jamais. Ocupou sua mente e seu tempo em coisas produtivas, sentindo-se mais segura, retomando os ensinamentos de Ovídio: “O amor se rende a uma ocupação”. Saiu, viajou, fez novas amizades. Visitou sua mãe. Há quanto tempo não se viam. Isolar-se só pioraria sua condição e poderia aumentar a paixão que queria esquecer. Não teve medo, recuperou suas forças e exorcizou toda a sua insegurança com longos banhos de arruda, deixando a água escorrer pelo ralo e, com ela, todo o suor dos dias que lhe impregnaram de lembranças. E deu descargas, quantas foram necessárias para se libertar daquelas algemas. Houve um aumento significativo em sua conta de água, por outro lado, tinha agora mais um motivo para retomar os projetos de trabalho que ficaram engavetados anos a fio, sem sequer terem sido revisados, por medo de não ter tempo de ficar com ele, de quem ela se recusa a dizer o nome.&nbsp;</p>



<p>Assim, o que ela achava que era um tormento, um sofrimento, não passou de recordações que nem lhe doem mais. Pensou em seu ex como uma página virada do seu folhetim e começou a escrever uma nova página da sua longa história aqui na Terra.&nbsp;</p>



<p>Hoje, sexta-feira, marcou um jantar com o homem grisalho do escritório vizinho. Mas isto já é uma outra história&#8230;&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong>&nbsp;é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/7EC7yPVRK5Zra9LrSTb1wL?si=qoJJIBynQ_2pOfYDqgBZrQ"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-29026" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



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<figure class="aligncenter size-large"><a href="https://www.youtube.com/c/BodoqueTV/featured"><img loading="lazy" decoding="async" width="576" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=576%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-26890" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=576%2C1024&amp;ssl=1 576w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=169%2C300&amp;ssl=1 169w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=768%2C1365&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?resize=864%2C1536&amp;ssl=1 864w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/10/banner-trama.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 576px) 100vw, 576px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure></div></div>
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