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	<title>Arquivos conto - Revista Trama</title>
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	<description>Arte, Cultura e Criatividade</description>
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		<title>Convulsão</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Nov 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 190]]></category>
		<category><![CDATA[comun]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[convulsão]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
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		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Ana Gilbert</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>A praça é grande, parece aumentada neste dia de sol. Transbordante. De gente e de energia. Cada folha, cada pedacinho de grama parece constatar isso. Tudo é vibrante e, ainda assim, emana uma estranha calmaria, como se o tempo, embevecido com a cena que criara, tivesse decidido deixar de seguir seu caminho e, também ele, quisesse aproveitar a tarde. O vento rendeu-se ao tempo e juntos coagularam o fluxo da vida.&nbsp;</p>



<p>No início, são apenas passos na grama, botas pesadas cujo som é abafado pela terra. Talvez ninguém perceba as pequenas dores que vão causando nas flores miúdas, nos insetos que rastejam sem pressa, alheios à suspensão do tempo e à cumplicidade do vento.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>São botas que marcham, em obediência cega ao ritmo ancestral. Acoplados às botas, corpos. Corpos de homens. Vão rasgando marcas na terra, como se de um corpo feminino se tratasse. Sulcos de terra vermelha como tantas outras marcas que provocaram na carne de mulheres reais. As suas próprias mulheres e outras, das quais fizeram uso. Objetos descartáveis a serviço de homens vorazes.&nbsp;</p>



<p>Trazem as mãos ocupadas com armas pesadas, os homens. Armas prontas para o disparo. As mãos são grossas e não sabem acariciar peles que vibram. Apenas sentem prazer ao toque frio do metal. Excitam-se com o poder que sentem. Gigantes em escala humana. As expressões olham o vazio adiante, sempre adiante, com olhos ausentes.&nbsp;</p>



<p>A terra vibra em agonia insuspeita, reverberando fundo e mais fundo, alastrando um grito calado pelo horror. Os homens marcham como demônios. Desarticulados do mundo, as passadas firmes e lentas, e as pessoas olham como se de um filme se tratasse. Ou uma excentridade. Uma criança entorta o olhar e vê a arma de outro ângulo. Pensa que é uma brincadeira. E eles seguem. Esmagam o miolo delicado da flor – um dedo; torcem o caule da erva que se espalha – o mamilo de um seio quente. Pisoteiam o cigarro jogado ao chão, que queima lentamente a terra – a vulva que se oferece ao carinho.&nbsp;</p>



<p>A excitação cresce. Os homens marcham, indiferentes a tudo, ao sol, ao vento e à paralisação do tempo. E, na praça, as pessoas entorpecidas permanecem na infância dos seus próprios pensamentos, inconscientes do perigo. Há muito perderam a capacidade de reconhecê-lo. Há muito acreditam que a sombra recolheu-se, vencida. A tensão é quase palpável; porém, pouco se distingue da algazarra das crianças. Os latidos dos cães, antes misturados aos gritos dos pequenos, começam, pouco a pouco, a diminuir de volume. Os cães levantam as orelhas, apuram o olfato. Eles sabem.&nbsp;</p>



<p>E mais alguém.&nbsp;</p>



<p>Uma mulher observa a cena e, como os cães, fareja a ameaça. Ela, uma dessas mulheres violadas por seu homem. Ela e seu grito mudo.&nbsp;</p>



<p>Ao sinal invisível, os homens começam a disparar. Descarregam as armas, como uma ejaculação coletiva, fruto de um gozo inominável. Uma nuvem de pássaros tinge o azul do céu com gritos vermelhos. As pessoas vão caindo, flor a flor. E os cães. Algum uiva escondido, desejando, talvez, não ter sobrevivido. Outros correm, para cairem sobre a grama, adiante. Ou serem chutados junto a um banco, onde outros corpos já desabaram.&nbsp;</p>



<p>Os homens disparam. As pessoas são nada. Morrem sem entender o que se abateu sobre elas. A mulher que observa está dentro de um carro, à espera. Não sabe bem de quê. Da decisão sempre adiada? do gesto que acenderá a ignição e colocará o carro em fuga?&nbsp;&nbsp;</p>



<p>De súbito, percebe o que significa o seu cotidiano. Os homens estão a chegar perto de si. E num gesto de louco sacrifício, ou de repentina lucidez, abre a porta, avança em passos leves, encara os homens que chegam perto e mais perto. Deita-se na terra, entregue, para que seja feito de forma explícita, tudo o que é feito sob a luz dos olhos fechados.&nbsp;</p>



<p>Começa a ventar.&nbsp;</p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Ana Gilbert</strong> nasceu no Rio de Janeiro. É psicoterapeuta, pesquisadora e fotógrafa. O seu envolvimento com imagens, palavras e imaginação levou-a a trabalhar na intersecção entre fotografia e literatura. Tem como exercício criativo constante a transformação de palavra em fotografia e fotografia em palavra, em parceria com escritores e fotógrafos.&nbsp;</p>



<p>Depois de muitos anos de publicações acadêmicas, decidiu dar mais atenção à escrita ficcional.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Como pesquisadora, é autora de <em>Vértice do impensável: um estudo de narrativas em síndrome de Down</em>(2012) e colaboradora nos livros <em>Activist film festivals: towards a political subject</em> (2016), <em>Para onde vai o tempo? Relatos e ficções à volta de contextos de vulnerabilidade</em> (2020) e <em>Art and Activism in the age of systemic crisis: aesthetic resilience</em> (2021).&nbsp;</p>



<p>Na esfera ficcional, teve contos publicados nas coletâneas <em>Antologia Minimalista</em> (2020), <em>Crocitar de Lenore</em>(2021), <em>Prêmio Off Flip</em> (2021), <em>Contos Minimalistas</em> (2021) e <em>Contágios &#8211; Contos &amp; Crónicas ! Coletivo Mapas do Confinamento</em> (2022).&nbsp;</p>



<p>Como fotógrafa, apresentou seu trabalho em exposições individuais e coletivas.&nbsp;</p>



<p>Colabora no projecto <em>Fotografar Palavras</em> desde 2017.&nbsp;</p>



<p>Integra o colectivo da editora Minimalista desde a sua fundação, e administra o blog <a href="https://anagilbertphotography.blog/">Sutilezas do Olhar</a>.&nbsp;</p>



<p><a href="https://www.instagram.com/ana_gilbert/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ana_gilbet</a></p>
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		<title>Laura </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 12 Nov 2023 18:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 189]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[nomes]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Linda jovem, de pele macia feito algodão e preta como a noite. Nasceu e viveu em um vilarejo sem muitas novidades. Qualquer forasteiro era motivo de olhares e cochichos. Ela sonhava com a cidade grande, com suas luzes e altos prédios, imaginava com tanta verdade que, às vezes, se esquecia de tirar as roupas do varal que dormiam dependuradas e acordavam úmidas do orvalho. Era então repreendida por sua mãe que a considerava uma cabeça de vento. A mãe, acostumada aos afazeres domésticos, aos cuidados com os filhos e marido, sem tempo para conversas fiadas, quase sempre ignorava os desejos da filha, tão sonhadora, tão desejosa de um outro lugar.&nbsp;</p>



<p>Quando a noite surgia, após o jantar, Laura assentava-se com a família em volta do rádio que transmitia as notícias da Capital, ansiosa pelo próximo capítulo da novela que ela nunca conseguia ouvir por completo, pois tinha de se recolher aos seus aposentos para descansar o corpo e voltar ao trabalho do dia seguinte. Ia para a cama a contra gosto e deixava-se embriagar pela fantasia romântica dos amores impossíveis. Assim, completava os capítulos que ouvia no rádio e que nunca conseguia terminar. Assim adormecia e sonhava.&nbsp;</p>



<p>Um dia, em pleno sol de verão, Laura avistou no horizonte uma poeira que anunciava a chegada de mais um forasteiro. Seu vilarejo era um atalho para a estrada que levaria à Capital. Somente os que viajavam a cavalo se arriscavam a passar por ali. A estrada era de terra, irregular, cheia de buracos. Volta e meia, os que insistiam em atravessá-la de carro precisavam da ajuda dos moradores para retirarem seus automóveis dos buracos, esculpidos pela natureza um tanto selvagem daquele lugar. Mas aquele dia era diferente dos outros. Nenhuma ave de rapina no céu, nenhuma nuvem espreitando o sol, nenhum sinal. O silêncio do dia fora rompido apenas pela poeira e pelo trotar do cavalo que podia ser ouvido ao longe.&nbsp;</p>



<p>Sem mais nem menos, Laura sentiu um frio na barriga, um arrepio que a tirou de seus afazeres para observar melhor. Não era apenas um cavalo. Eram cavalos e carroças que se atreviam a adentrar o vilarejo sem pedir licença e aos poucos foram surgindo como caravana no deserto. Pessoas começaram a sair de seus casebres, a debruçarem-se nas pequenas janelas, a abancarem-se nos portões e portas. Todos curiosos, apreensivos. Eram carroças coloridas amontoadas por pessoas coloridas. Cavalos de crinas longas e arreios brilhantes. Homens e mulheres diferentes, coloridos. Pareciam saídos dos livros de aventura, dos poucos livros de aventura lidos por Laura. Sim, como romântica incorrigível, aprendera a ler com a vizinha as primeiras letras e, depois, foi só uma questão de tempo para devorar os romances que dona Vânia a emprestava. Mas logo os romances ficaram escassos e ela partiu para os livros de aventura escondidos num embornal encardido, que levava sempre consigo como um tesouro. Lia sempre no horário do almoço, quando então podia descansar da labuta e sonhar.&nbsp;</p>



<p>Os homens, mulheres, cavalos e carroças se puseram na pracinha em frente à pequena Capela de Santa Matilde e logo foram cercados pelas crianças e moradores daquele lugarzinho perdido no tempo e no espaço.&nbsp;</p>



<p>Com movimentos rápidos e muito tumulto foram logo abrindo uma tenda em verde, azul, amarelo e vermelho. De repente, o céu azul tomou uma coloração mais acinzentada, anunciando a chegada de uma chuva torrencial. Porém, aquelas criaturas não se intimidaram e continuaram suas tarefas, gritando uns com os outros, ordenando, rindo numa embolada desconcertante para aqueles habitantes tão acostumados com o silêncio do lugar.&nbsp;</p>



<p>Laura, tão logo terminou de lavar as roupas, estendê-las, pôs-se na praça a fazer perguntas a um jovem alto, robusto e de cavanhaque. Tratava-se de um circo. Na verdade, um pequeno circo, porém enorme para aquele lugar. Laura encantou-se. Viu surgir na sua frente toda espécie de cores e de gentes. Eram sim, personagens saídos de suas fantasias. Mal podia esperar para ver o grande espetáculo do <em>CircusVolanti</em>. Voltou para casa depressa, para concluir suas tarefas do dia e pediu suplicante que sua mãe a deixasse ver o espetáculo. Os artistas resolveram pernoitar, seria apenas uma apresentação, de graça, para aquela comunidade esquecida e amarelada.&nbsp;</p>



<p>Apesar das nuvens que prometiam uma tempestade, a tenda pôs-se de pé e podiam-se ouvir os preparativos para o grande e inesquecível espetáculo. Em pouco tempo, as nuvens se dissiparam, o sol voltou escaldante e foi sumindo aos poucos no horizonte dando espaço para que a escuridão da noite se fizesse presente. Os geradores de energia foram ligados e faziam um barulho tremendo. E a cada movimentação por debaixo das lonas era motivo para a curiosidade de todos que, neste momento, já estavam em fila e prontos para adentrar a arena.&nbsp;</p>



<p>Nem noticiário, nem novela. Aquela noite a história seria contada ao vivo e em cores. Quando o mestre de cerimônia mandou que abrissem as cortinas, as pessoas do vilarejo se acotovelaram, empurraram umas as outras buscando um espaço sob a lona. Alguns, mais velhos, preferiram ficar em casa, talvez por medo do desconhecido, talvez por hábito mesmo. Mas Laura estava lá, na primeira fila, ansiosa, coração batendo cada vez mais forte, arrepiando-se e aguardando os encantos que viriam desfilar na sua frente.&nbsp;</p>



<p>Palhaços, anões e mulher barbada fizeram a alegria de todos. Trapezistas e contorcionistas deixaram estupefatos até àqueles que se achavam sabedores das coisas. E Laura em catarse, até que adentrou em um cavalo branco o homem do cavanhaque e desfilou fazendo acrobacias em cima do quadrúpede. Estendeu à mão a Laura e num relance transformou-a em uma artista, mesmo que por uns poucos instantes, cavalgando em círculos e dando a ela as rédeas daquele belo animal. Depois, deixou-a só, num canto e terminou sua apresentação.&nbsp;</p>



<p>Naquela noite, estrelas pipocavam diante dos olhos de Laura. Dormir? Como? Não conseguia esquecer-se do cavaleiro, de seu olhar entorpecedor, de sua voz a lhe dizer: “pegue as rédeas, o mundo é seu&#8230;”. Fechou os olhos por uns instantes e, decidida, levantou-se, pegou seu embornal, colocou-se em trajes de festa e ficou na espreita por uma fresta na janela de seu quarto. As pálpebras começaram a pesar e, aos poucos, Laura adormeceu assentada em um banquinho de vime diante da janela. Mal amanheceu o dia, os circenses foram desfazendo os sonhos semeados naquela noite inesquecível. Rapidamente as lonas foram guardadas em carroças, cada um foi se ajeitando como podia e a caravana se colocou novamente na estrada.&nbsp;</p>



<p>Quando o sol já se fazia alto, Laura acordou, correu até a praça e viu-se sozinha. Sem lona, sem cavaleiro, perdida na poeira amarelada deixada pelo circo. Caminhou alguns quilômetros e deteve-se. Sabia que era impossível alcançá-los. Choramingou, arrancou de dentro do embornal o livro que carregava e o esmigalhou como se esmigalha um sonho perdido. Voltou lentamente para o vilarejo ainda ouvindo as gargalhadas, o trotar dos cavalos, os urros de surpresa e medo do público e a voz do cavaleiro que dizia “pegue as rédeas, o mundo é seu&#8230;”. Contentou-se, mais uma vez, com os noticiários do rádio e as novelas que nunca terminavam. Criou para si, um mundo só seu e, aos poucos, se desfez.&nbsp;</p>



<p></p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço bacana de apoio e fomento à cultura pode mostrar também você e a sua marca!</h3>



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		<title>Manuela</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/09/24/manuela/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 24 Sep 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 182]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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		<category><![CDATA[vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Cores reluzentes, tintas incandescentes, olhares espertos, suspiros suspeitos, toque de mãos, palavras salpicadas, vazias. Sussurros, suspiros, cigarros apagados, brasas em cinzas, linhas retorcidas, agulhas tortas. Entra e sai de gente, entreabrir de portas. Zero horas e mulheres tecendo suas madrugadas, velhas colchas de retalhos, como se cerzissem suas próprias vidas e tentassem ajuntar às suas lembranças um significado para dias tão vazios e tão impregnados do sol da manhã.&nbsp;</p>



<p>Odores se misturam em valsas esquecidas, bocas se embaralham em hálitos de hortelã e cravo. Seios, pernas, pernas, braços, unhas, dentes, dentes, carne. Gozo! E mais alguns trocados depositados no criado mudo e cego do quarto ao lado.&nbsp;</p>



<p>Assim era a rotina de Manuela. De dia o trabalho doméstico, a limpeza da casa, o cuidado com o pai doente e de noite o frenesi da casa em que trabalhava. Cansada dessa vida que de prazer não lhe dava nada, levou o pai para um asilo. Vendeu os móveis da casa para prover as necessidades do ancião e jogou-se no Rio Preto. Não deixou sequer uma explicação, uma carta, um adeus. Apenas encerrou seus tormentos e sua angústia. Ninguém sentiu sua falta. Transformou-se em estatística. E seu pai ainda vive sob os olhares cuidadosos de enfermeiras bondosas que à noite se travestem para viver uma outra vida.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Cuidado onde Pisa</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Aug 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 177]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[dia a dia]]></category>
		<category><![CDATA[escola]]></category>
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		<category><![CDATA[vida]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joel Tavares</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando eu tinha dez anos de idade, uns meninos do meu colégio me aplicaram uma cama-de-gato. Um deles ficou agachado atrás de mim e o outro me empurrou, gritando “CUIDADO ONDE PISA!”, para que eu caísse de costas. Essa brincadeira, comum entre a garotada, gerava boas risadas. Entretanto, nesse dia foi diferente.&nbsp;</p>



<p>Mal começaram a rir com os dedos apontados para a vítima estatelada no chão e suas faces assumiram um tom grave. O sangue esvaia pela região dorsal da minha cabeça, tingindo de vermelho o piso amarelo-claro do pátio. Fiquei convulsionando de boca aberta e olhos revirados em tela branca até a ambulância chegar.&nbsp;</p>



<p>Depois daquele incidente, além de cinquenta pontos na parte posterior do crânio, eu manifestei um distúrbio psicológico raro entre os jovens. Meu terapeuta disse que era um “caso atípico de ptofobia”. Normalmente, o medo de cair é desenvolvido por idosos que tiveram um trauma relacionado à queda. Eles têm dificuldades para andar devido ao medo. Precisam de acompanhantes e algo para se apoiarem enquanto se movimentam.&nbsp;</p>



<p>Comigo a ptofobia deu-se da seguinte forma: eu era capaz de me locomover sem ajuda, mas quando estava próximo a um local onde poderia haver risco de queda (escadas, buracos, beiradas e etc) eu me afastava espasmódicamente. Era como se meu cérebro acionasse um alerta, me mantendo longe do perigo.&nbsp;</p>



<p>Fiquei famoso na cidade. Apareci no jornal, em programas de TV e ganhei um apelido: Escadinha (eu detestava). Meus pais receberam uma indenização generosa da escola e das famílias de Carlos Silva e Ricardo Maia, meus nêmesis juvenis, que tiveram que mudar de cidade por conta das ameaças dos vizinhos. O “Escadinha” virou um mártir e os dois se transformaram no símbolo da violência.&nbsp;</p>



<p>A escola continua de pé em seus muros de concreto. Formei-me lá.&nbsp;</p>



<p>Onze anos depois, fomos para a capital. Eu não suportava ser chamado de “Escadinha” e meus pais assentiram com a mudança.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Porém, esse foi o início de um terrível pesadelo.&nbsp;</p>



<p>As pessoas na cidade afundavam seus rostos em celulares e andavam apressadas nas ruas, logo, elas esbarravam!&nbsp;</p>



<p>Sim! Era mais comum receber uma trombada na Avenida Presidente Vargas do que num Maracanã lotado. E a cada encontrão, um precipício se abria atrás de mim. Parecia que eu iria despencar e arrebentar minha cabeça no chão como uma pinhata.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O medo de cair tornou-se insuportável e aterrorizante.&nbsp;</p>



<p>Um dia, eu perdi por completo o controle que possuía sobre os abismos de minha mente. Sequer eu consegui aguardar, na calçada, o semáforo fechar, sem avistar alguém insinuando suas intenções de me empurrar na frente de um ônibus a 90 km/h.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Não me chamem de louco! Por mais que eu estivesse sendo dominado pelo pavor, ainda conseguia distinguir o real do ilusório. Algumas pessoas me perseguiam com olhares zombeteiros, sorrisos malignos e pérfidos propósitos, quer você acredite ou não! Disputavam silenciosamente quem iria operar a minha destruição como naquele dia no colégio.&nbsp;</p>



<p><em>CUIDADO ONDE PISA!</em>&nbsp;</p>



<p>Um raio gélido subiu por minha coluna até a lesão em minha cabeça e meu espírito esmoreceu.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Por Deus, eu juro que sentia o contato de mãos em minhas espáduas. Meus cotovelos giravam para trás golpeando os pseudo-fantasmas.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Corri para longe do meio-fio e do perigo iminente, me esgueirando por um muro de um prédio, até acender a luz vermelha do sinal de trânsito. Mas isso só piorou a questão dos olhares. Eu não conseguia esconder meu terror. Sentia calafrios. Meus lábios tremiam. <em>Eles perceberam</em>! Passavam os olhos sobre mim como se eu fosse uma aberração.&nbsp;</p>



<p><em>ESCADINHA! ES-CA-DI-NHA!</em>&nbsp;</p>



<p>— Tá tudo bem, amigo? — disse um homem barbudo, vestindo um moletom surrado. Ele se aproximou tocando meu ombro.&nbsp;</p>



<p>— Tá. — contraí o corpo e fugi pelo muro.&nbsp;</p>



<p>— Você tá tremendo.&nbsp;</p>



<p>— Não se-se preocupe. Tô-tô bem. — eu bodejava.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O sinal fechou.&nbsp;</p>



<p>&nbsp;— O-o-obrigado.&nbsp;</p>



<p>Caminhei trêmulo pela faixa de pedestres. Minhas costas concavaram-se como um casco de tartaruga.&nbsp;</p>



<p>— Acho que você não está nada bem. — o homem seguia ao meu encalço, bradando atrás de mim. Minha vista embaçava. Não sabia se era sequela de meu medo recente ou a voz do meu perseguidor.&nbsp;</p>



<p><em>CUIDADO ONDE PISA!</em>&nbsp;</p>



<p>— Eu te-te conheço? — perguntei olhando por cima de minha corcunda.&nbsp;</p>



<p>— Conhece sim, Escadinha.&nbsp;</p>



<p><em>Escadinha? ESCADINHA! ES-CA-DI-NHA!</em>&nbsp;</p>



<p>— Você… de-de-de onde eu te conheço?&nbsp;</p>



<p>Faltavam uns 10 metros para a calçada. O suor se acumulava sobre minhas sobrancelhas e inundava meus cílios, que não conseguiam contê-lo. Meus olhos ardiam. Eu limpava-os com as costas das mãos. Os joelhos dobravam a cada passo. Sentia-me como Quasímodo, rondando tétrico pelos telhados de Notre Dame.&nbsp;</p>



<p>— Nós brincávamos no colégio. Depois aconteceu um acidente, nossas famílias se desentenderam e minha vida mudou da água pro esgoto. Acho que toda ação tem uma consequência, certo?&nbsp;</p>



<p><em>Carlos?</em>&nbsp;</p>



<p>— Carlos era o meu melhor amigo. Foi morto por um agiota semana passada. Tava atolado em dívidas. Assim como eu. E não adianta fugir desses caras. Eles te perseguem onde quer que você vá.&nbsp;</p>



<p>— Ri-ricardo? — virei-me em direção a ele assim que subi na calçada. Eu arfava. Minha roupa colava no corpo como se fosse uma segunda pele.&nbsp;</p>



<p>Ricardo se deteve ao meu lado. O rosto estendeu num esgar sombrio.&nbsp;</p>



<p>— Bem, Escadinha, eu vou por ali. Em breve vamos nos esbarrar, tenho certeza.&nbsp;</p>



<p>Ele tinha uma expressão cínica. Estendeu a mão na altura da minha cintura.&nbsp;</p>



<p>O sinal abriu.&nbsp;</p>



<p>O barulho das buzinas e dos motores dos carros fizeram meus pensamentos girarem como uma máquina de lavar. A cabeça pesou em direção ao solo e foi como se a mão de Ricardo se afastasse de mim, inversamente ao efeito de <em>zoom</em>. A proximidade do meio-fio me causou vertigens.&nbsp;</p>



<p><em>VOU CAIR!</em>&nbsp;</p>



<p>Os joelhos cederam e fui tombando de lado em direção ao asfalto da avenida. O horizonte passava pastoso e lento. A buzina de um ônibus preencheu o mundo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Foi então que Ricardo me segurou e me puxou bruscamente para perto de si, evitando o desastre.&nbsp;</p>



<p>— Ei! Cuidado onde pisa.&nbsp;</p>



<p>Deu dois tapinhas em meu ombro e caminhou, no sentido contrário ao meu, assobiando uma canção de Bobby Parker.&nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joel Tavares</strong> é ator, escritor, roteirista e poeta. Em 2020, seu conto &#8220;O homem moderno&#8221; foi publicado online através da Pipa Agência de Conteúdos, que foi contemplada no edital da SECEC-RJ com o projeto “Contos Confinados”. Seu conto “O ratinho poeira” foi encenado no “Festival Up”, através de uma montagem lúdica de teatro de sombras. No mesmo ano, venceu o prêmio de Melhor Roteiro no “Festival Filma em Casa” pelo curta-metragem &#8220;Isolados em Nós&#8221;, prêmio escolhido pela roteirista indicada ao Emmy, Thelma Guedes.</p>



<p>Instagram: <a href="https://www.instagram.com/soujoeltavares/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@soujoeltavares</a></p>



<p><a href="https://www.instagram.com/soujoeltavares/#"></a></p>



<p> </p>
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		<title>Inventário de dentes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 20 Aug 2023 18:56:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 177]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[dente]]></category>
		<category><![CDATA[lição]]></category>
		<category><![CDATA[narrativa]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Carolina Fellet</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>De repente, parei de escutá-lo para lhe observar os dentes. Não bastasse a matéria-prima de origem desconhecida meio aparentada com as conchas, eles somam 32. Trinta e dois dentes exatos fincados em cada organismo humano. &nbsp;</p>



<p>Acolher esses búzios de cálcio é parte do nosso destino. Assim como ser guardião da combinação de dados que nos faz à imagem e semelhança dos ancestrais. No inventário do tempo, herdamos ainda uma sequência de unhas, cílios, veias, pelos, dedos, tecidos anexados a uma massa vertical altamente perecível.  &nbsp;</p>



<p>E, na gênese dos dentes, parece haver sedimentos milenares de tempos sem registro no calendário. Até que nos tornássemos um corpo cheio de tecnologias depositado em alguma coordenada geográfica, qual terá sido a movimentação secreta do planeta? &nbsp;</p>



<p>Remessas e remessas de gente em pleno funcionamento vital. Que energia clandestina mantém vivos quilos e quilos de rins, fígados, corações, pulmões, globos oculares? Fora os dentes. &nbsp;</p>



<p>As sucessões familiares, muito mais que pingentes cravejados de brilhantes pendurados de pescoço em pescoço, se dão mesmo é pelos dentes. <em>Impressionante como Celina tem o sorriso da vovó Antonela</em>. &nbsp;</p>



<p>Não podia ficar de fora desta história o Xodó, cuja vista panorâmica são as canelas dos Oliveira durante o almoço ou os rodapés do 201 no Leme. Pois não é que o Xodó usa os dentes como artilharia? Experimente lhe recusar o pedaço de suflê da dona Isabel para ver!&nbsp;</p>



<p>Bom, se só escutamos as músicas da nossa própria caixa torácica com um estetoscópio, seria muita petulância querer saber, sem algum aparato ultratecnológico, o local exato, nesse mundo de meu Deus, da gênese dos dentes de toda a humanidade.. &nbsp;</p>



<p>Em um quadro do Salvador Dalí talvez se torne compreensível a manifestação originária dos dentes. Ou, quem sabe, um arqueólogo nos ensinasse a cavar, cavar e cavar até encontrar as primeiras arcadas de que se tem conhecimento. &nbsp;</p>



<p>Enquanto isso, no ambiente de totura que são os consultórios dentários, com o pré-molar condenado, só resta submetê-lo a uma reforma de igreja, para não violar o que existe de sagrado na sequência de 32 dentes.  &nbsp;</p>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Carolina Fellet</strong> é autora finalista do “Prêmio Off Flip de Literatura 2022” na categoria “conto”. Trabalha como redatora e revisora de textos e ministra oficinas de escrita criativa em espaços e eventos culturais, escolas, empresas etc. É formada em jornalismo e pós-graduada em TV, Cinema e Mídias Digitais. Já escreveu orelhas e prefácios de livros, além de roteiros para apresentações teatrais. Participou de diversos concursos literários, tendo textos publicados em várias antologias.&nbsp;</p>



<p><a href="https://www.instagram.com/carolinafellet/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@carolinafellet </a></p>
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		<title>Cortina de Fumaça </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 06 Aug 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 175]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[crônica]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres]]></category>
		<category><![CDATA[realidades]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Rute Ferreira </p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong><em>4 anos</em></strong>&nbsp;</p>



<p>A fumaça sobe numa espiral miúda, tímida, quase pedindo desculpas por atrapalhar o fogo da vela; adultos e crianças (também um cachorro) em volta da mesa me dão os parabéns como se fosse incrível isso de conseguir me manter viva até os quatro anos de idade, e acho que a comemoração principal é dessa mulher adulta, a que me toma nos braços quando durmo, esquecida de mim mesma em qualquer canto da casa e depois me vejo na cama, pijama e cabelo em trancinha, confortável.&nbsp;</p>



<p><strong><em>9 anos</em></strong>&nbsp;</p>



<p>Difícil brincar com os meninos da rua, todos uns monstros, com suas garras e seus dentes afiados procurando encrenca; detesto todos e evito cada um, mas hoje brinco com eles porque estou entediada e o cheiro de carne queimada me lembra porque nunca brincamos juntos: vejo os olhos mortos do passarinho, o bico semiaberto, a plumagem rala, o bicho pedindo socorro depois de morto, me tire desses meninos, mas não há tempo, acertaram com a baladeira o passarinho e agora se completa o ritual, vão queimá-lo, o cheiro da carne queimada, das asas queimadas, não sei quem trouxe o fósforo, ainda bem que mataram o coitado antes de tocarem fogo, assim a dor é menor; quando os meninos deixam o lugar e se esquecem do passarinho eu olho a fumaça pequena que sai do corpo queimado quando toco nele com meus dedos, e o toque é bom.&nbsp;</p>



<p><em>(naquela mesma noite o passarinho entrou em meus sonhos, o corpo em chamas, a fumaça ocupava todo o sonho, ele me via com buracos no lugar dos olhos, o bico semi aberto e perguntava por suas penas)</em>&nbsp;</p>



<p><strong><em>15 anos</em></strong>&nbsp;</p>



<p>Todas as meninas da escola já beijaram alguém. A Amanda C. até já deu, ela chegou toda cochichos, mas contou como quem quisesse usar um microfone. Em geral eu não me importava com beijos e mãos em fechos de sutiã — nem peito eu tenho — mas a Amanda C. falou como doeu e foi bom e eu quis. O Cardoso estava na oficina quando entrei. Sozinho. Meu pai tinha viajado, aí a oficina ficava aos cuidados do Cardoso porque ele era o mais confiável, entrei de vestido. Sem calcinha. Cardoso, chamei, vem aqui que preciso te entregar uma coisa que o pai pediu. Ele veio com aquela flanela. Limpava os dedos com a flanela. Eu sabia que seria fácil. Porque o Cardoso já queria. Ele sempre me olhava como quem mastiga. O que foi, ele quis saber. A língua já se armando no lábio superior. Pensava ser caçador. Esperei que ele se aproximasse e o agarrei. Cardoso não demorou a entender qual a coisa que eu tinha pra entregar. Depois que terminou, ali mesmo apoiando meu corpo sobre uma Kombi, ele bateu na minha bunda com carinho e acendeu um cigarro. Não senti nada, a dor não foi tanta. Prazer nenhum. E foi muito rápido. A fumaça do cigarro que Cardoso soprava se distanciava de mim e eu queria tocá-la com os dedos para ver se meu prazer tinha escorrido por ali.&nbsp;</p>



<p><strong><em>23 anos</em></strong>&nbsp;</p>



<p>A fumaça que vem é densa e branca. Não vem do fogo, é de água. Eu acho que é de água. Gelo seco é água? Estou passando <em>Kajal</em> nos meus olhos e Baby conta uma história maluca: um homem que cortou o próprio pau depois de saber que tinha AIDS. Morreu? Como, de AIDS? Claro que não morreu. Mas você disse que. Chega. Você não entende nada. Você não conta uma história que preste, é toda cheia de furos. Minutos depois, estamos as duas em cena, dando loucas gargalhadas numa comédia que é o rascunho cruel de nós duas. A fumaça embaça minha visão mas eu sei que depois da peça aquele homem vai deixar aqui uma rosa solitária, no camarim, sem nenhum cartão. Depois, vai sumir pela fumaça da cidade, onde o aguarda a mulher que espera um bebê e que nunca vai ao teatro. É por essa mulher, mais que por ele, que me apaixono, mas é com ele que vou pra cama quando ele mente que precisa trabalhar até mais tarde, a voz sofrida segurando o telefone fixo da minha cozinha, enquanto, no mesmo instante, monta em mim sobre a mesa de mármore que ganhei de minha mãe.&nbsp;</p>



<p><em>(às vezes fico na frente da casa deles e vejo quando ela desce com o lixo e eu sinto que poderia comê-la, bebê-la, incendiá-la, é nela que penso quando ele me toma na cozinha e nessas horas sinto o gozo vir como um presente).</em>&nbsp;</p>



<p><strong><em>36 anos</em></strong>&nbsp;</p>



<p>Observo a pilha de papéis que formei e dou a mim mesma um instante antes de destruí-la. Seguro o isqueiro, ainda que não fume mais, sempre tenho um isqueiro. Queimo a ponta de um dos papéis e com ele vão se queimando contas, registros, cartas e fotografias de alguém que não lembro mais. Quando termina e a fumaça é quase fugaz, lembro de um sonho que tive há muito tempo — um passarinho queria buscar suas asas dentro da fumaça.&nbsp;</p>



<p><em>(silêncio, silêncio, silêncio)</em>&nbsp;</p>



<p><strong>51 anos</strong>&nbsp;</p>



<p>Silêncio.&nbsp;</p>



<p><strong><em>72 anos</em></strong>&nbsp;</p>



<p>Há tempos não lembro de nada. Esqueci de trancar a porta? Fechei a porta do quintal? Onde deixei o controle remoto? Será que eu tive algum filho? Meus pais ainda estão vivos? Lembro de um homem que há muito tempo se deitou sobre mim, os dedos sujos de graxa me entregavam uma rosa vermelha — seria isso ou estou misturando as coisas? Acho que era uma mulher que me dava rosas vermelhas, já não sei. Hoje resolvi cozinhar. Não sei se ainda sei cozinhar, não lembro o prato que coloquei no fogo. Fogo. Fogo. Fogo.&nbsp;</p>



<p><em>(Meu corpo esquentando como o de um passarinho sem asas, a carne queimada de bruxa, a fumaça que vai restar de mim.)</em>&nbsp;</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



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<p><strong>Rute Ferreira </strong>nasceu em São Luís (MA) em 1991 e atualmente vive em Tutoia, no litoral do estado. Possui graduação em Teatro pela UFMA. É autora de outros dois volumes de contos, <em>eu te serviria meu coração com vinho branco</em> (ed. voz de mulher) <em>e a estranha mania das abelhas </em>(ed. urutau) <em>e do romance bordado em ponto corrente,</em> que está concorrendo ao 8º Prêmio Kindle.&nbsp;</p>



<p>Instagram : <a href="https://www.instagram.com/ruteferreiras_/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">@ruteferreiras_</a>&nbsp;</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Ismália</title>
		<link>https://revistatrama.artebodoque.com/2023/07/30/conto-joseani/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Jul 2023 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 174]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[adaptar]]></category>
		<category><![CDATA[arte]]></category>
		<category><![CDATA[consequencias]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Sobre a escrivaninha uma lista de coisas a fazer. Tarefas do dia a dia realizadas com afinco e amor à família. Dona de casa, desde sempre, era zelosa no cuidado dos filhos e do marido. Um homem de ideias retrógradas, de cabelos divididos ao meio e manias que perturbavam. Seguro, pra não dizer pão duro, quase sempre achava um absurdo o preço da manteiga e regulava as compras da casa. Ela, de uma paciência invejável e um equilíbrio de monge, não brigava. Fazia pesquisas de preço, aproveitava as promoções, reaproveitava tudo o quanto era possível e aprendeu a costurar para diminuir os gastos com lojas de roupas.&nbsp;</p>



<p>Quando o marido chegava em casa, cansado de mais um dia de trabalho, ela o recebia com os olhos brilhando de saudade, com o jantar à mesa e os filhos penteados e silenciosos. O silêncio era imperativo na presença do marido. E ela sabia bem como silenciar sua voz, suas necessidades, seus desejos e seus filhos. Fora assim durante toda a sua vida.Desde pequena sentia a frieza de seu pai e de seus irmãos mais velhos, via sua mãe em silêncio obsequioso. Aprendera, acostumara-se. Era assim que tinha de ser.&nbsp;</p>



<p>Hoje é seu aniversário. Setenta anos. Acordou no raiar do dia, como sempre. Fez o café, pôs a mesa e aguardou em silêncio o burburinho do amanhecer em sua casa. Porém, o silêncio era maior do que o de costume. Afinal, seus filhos já eram homens e não mais viviam ali. O marido morrera aos 50 anos, de causa desconhecida. Sentou-se à mesa, serviu-se do café doce e abriu um álbum de fotografias que lhe trouxe à mente as recordações da vida. Seus olhos lacrimejaram de saudade. Dessa saudade que a gente só sente quando é dia de aniversário. Sabia que não tinha sido tão feliz assim como fingira toda a vida.&nbsp;</p>



<p>Sozinha, sentia falta dos filhos, do marido arrogante, das trouxas de roupas para lavar, das louças empilhadas depois do almoço de domingo e do silêncio que precisava fazer para não incomodar aquele com quem se casara tão jovem. Antes, o silêncio era uma ordem que ela obedecia sem questionar e o fazia porque entendia que era assim mesmo que tinha de ser. Hoje, o silêncio não era mais imperativo, mas era a única coisa que restara. E como doía não poder fazer barulho para logo em seguida silenciá-lo.&nbsp;</p>



<p>Levantou-se, tirou a mesa, aguardou que a campainha tocasse. Porém, nem os filhos, nem os netos romperam aquela manhã. Suspirou longamente e decidiu viver seu silêncio em outro canto. Saiu do prédio sem fazer barulho e sem ser notada. Nada levou, deixou tudo como estava. Tomou um táxi e partiu.&nbsp;</p>



<p>À tardinha, os filhos vieram para uma visita cordial de aniversário, trazendo seus filhos e esposas, como faziam todos os anos. Quando adentraram o apartamento, minuciosamente arrumado, com cheiro de jasmim, não foram recebidos por Ismália. Procuraram e se preocuparam, então. Ninguém a vira saindo do prédio, ninguém escutara nada durante todo o dia. Ninguém dera por sua falta, afinal de contas, era ela tão silenciosa! Só se ouvia, muito de vez em quando, o chiar da panela de pressão.&nbsp;</p>



<p>Em pouco tempo puseram-se a procurá-la nos hospitais, nos asilos, nas casas de parentes, de vizinhos, nas esquinas e nada. Como resposta apenas o silêncio. Depois de horas indo e vindo, contornando os quarteirões, e já preparados para acionar a polícia e registrar seu desaparecimento, avistaram Ismália assentada na beira de uma ponte, sobre o mar, olhando para o céu fixamente como que em uma torre, conversando com a lua. Não houve tempo. Todos à sua procura paralisaram-se diante da cena que passava pelas retinas incrédulas de cada um.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Ismália enlouqueceu em silêncio e em silêncio expirou. Seus filhos verteram lágrimas e sem terem o que fazer, também se silenciaram.&nbsp;</p>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center">Envie sua proposta para nossas chamadas para publicação e para exposições!</h3>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31756" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo-1024x258.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31754" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong> é natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
</div>
</div>



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		<title>A rodoviária</title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 30 Jul 2023 18:54:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 174]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[contar histórias]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Escritores]]></category>
		<category><![CDATA[Histórias]]></category>
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		<category><![CDATA[perturbada]]></category>
		<category><![CDATA[realidade]]></category>
		<category><![CDATA[rodoviária]]></category>
		<category><![CDATA[ver]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Gonzalo Dávila Bolliger</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Fazia tempo que eu não passava por lá. Antes, todo fim de semana, pegava ali o ônibus para ir ver a família. Talvez por isso, pela falta atual de costume, me pareceu ver mais pobres concentrados. E falo isso não porque eu tenha dinheiro, mas dava para sentir que eles não tinham nada.&nbsp;</p>



<p>Uma velha e um senhor imploravam frente a um guichê, braços e bocas abertas, deviam ter perdido a passagem. Bem mais na frente um homem esquálido, com as roupas rasgadas, dormitava babando de olhos abertos no chão e outro, agitado como se tivesse acabado de usar crack, e movendo os braços pra frente e pra trás, passou me pedindo dinheiro pra uma passagem pro Rio, falando que tinha acabado de sair da prisão, ao que eu dei dois reais para ele. E as lanchonetes, com seus salgados em estufas, e os poucos atendentes com cara de que mais um final de semana se passaria no trabalho&#8230;&nbsp;</p>



<p>Faltando quinze pra meia noite me aproximei do guichê, era a hora de comprar a passagem. O último pra Campinas, sim, saia meia noite, isso não tinha mudado; mas, por algum motivo, como nunca antes tinha acontecido, não tinha mais assentos&#8230; Eu ia ter que ficar até às 4 por lá, hora do próximo ônibus, até às 4 na amplidão daquele espaço&#8230;&nbsp;</p>



<p>Estava com sono, o cansaço das minhas pernas queria me puxar para baixo, mas eu sabia que não ia dormir. Era muita informação para simplesmente dormir. Então, de súbito, por mais pouco condizente com a situação que fosse, me veio certo entusiasmo&#8230; <em>Eu gostava do inesperado, aquilo que quebra a repetição dos dias. </em>&#8220;Que outra vez eu ia passar a noite na rodoviária?&#8221; &#8220;Quantas coisas eu não podia ver nessas horas?&#8221;&nbsp;</p>



<p>Me aproximei de um conjunto de banquinhos, banquinhos pretos que formavam um retângulo de frente a um banheiro. Neles muita gente estava recostada, alguns aparentando dormirem, outros, pelo visto, apenas fingindo que conseguiam. Esses últimos horários sempre deixam muitos órfãos, ou os expõem, pensava&#8230;&nbsp;</p>



<p>&#8220;Ela sempre foi assim&#8230; teimosa&#8230;&#8221; - vinha uma voz mais caipira que a minha de uns banquinhos frente ao meu, e era o casal de velhos que, de mãos e bocas abertas, tinham implorado no guichê &#8211; &#8220;quantas vezes a gente não falou pra ela, não se mete com esse cara?&#8221; &#8211; falava a senhora, cabelo já grisalho e bem penteado, óculos de aros de madeira, um vestido creme de crente &#8211; &#8220;E agora ela quer casar a todo custo, o cara acabou de sair da cadeia, vai bater tanto nela que não vai sobrar nem cabelo, mas não adianta, ela fala que ama ele, que vai muda ele, que Jesus colocou isso como missão pra sua vida&#8221; E via que o senhor &#8211; robusto, cabelo grisalho e estilo militar, de expressões rudes mas ao mesmo tempo polido, e com uma camisa branca de botões &#8211; apenas concordava, com um sorriso de meio não quero pensar nisso agora, como se conversassem disso o dia todo.&nbsp;</p>



<p>Do outro lado, a uns dez metros de mim, uma mulher insuportavelmente magra, moreninha, de uns quarenta ou cinquenta anos; talvez menos mas judiada pela vida&#8230; Seu cabelo seria considerado pelos outros “pixainha”, seus olhos eram pretos, redondos e fundos, marcas pequenas por todo o rosto estreito. E ao seu redor, trouxas, sacos, cobertas; e tudo esparramado, sobre seu colo, no assento do lado e no chão&#8230;&nbsp;</p>



<p>Ela de tempos em tempos me olhava e na sua expressão não conseguia entrever o propósito. E uma hora me encarou, me encarou algo bruxa, e acabei virando o rosto&#8230;&nbsp;</p>



<p>Ainda mais longe, perto do banheiro, em um assento solitário, uma mulher nem bonita nem feia, nem jovem nem velha, o cabelo pelo visto pintado de vermelho, extremamente penteado e todo gorduroso, quase como se tivesse passado gel (provavelmente algum xampu bem barato), cruzava e descruzava as pernas, me fitando quando a olhava. E na sua calça rosa choque bem grudada tinha em cada lado um rasgão, a carne aparecendo, atrativa e repulsiva, entre os vãos de tecido. Deve ser uma prostituta, pensei quando me olhou novamente. E mesmo sem que o quisesse pensei, <em>podia matar meu tempo indo com ela pra um motel barato&#8230;</em>&nbsp;</p>



<p>Seria algo que eu nunca mais faria. Algo bem vulgar para quebrar a repetição dos dias. Mas aí veio a paranoia, nada ilógica: ela poderia ter alguma doença, a camisinha estourar e eu ser contaminado para sempre; ou, e nessas circunstâncias isso era sempre possível, ela podia nem ser mulher&#8230;&nbsp;</p>



<p>Fiquei por um bom tempo olhando e desolhando, deixando possivelmente ela confusa se eu queria ou não queria, e o casal de velhos meio desconfiados, com um misto de curiosidade e reprovação.&nbsp;</p>



<p>Parei de olhar. Virei novamente o rosto. A mulher quase esqueleto me encarava, e me vinha na cabeça, <em>talvez também seja prostituta, vai ver há um nicho de prostitutas que atendem nas rodoviárias os passageiros perdidos, um mercado razoável. </em>Mas algo sério no seu olhar me disse que não&#8230;&nbsp;</p>



<p>Sendo como fosse, a curiosidade de saber o que significava seu olhar e a disponibilidade de tempo quase infinita não iam me deixar tranquilo.&nbsp;</p>



<p>Em um impulso me levantei, dei uma pequena volta entre os banquinhos e as lanchonetes, e quando voltei me sentei bem perto de onde ela estava. Titubeei um pouco, mas pensei, é normal puxar assunto quando se tem tanto tempo pela frente&#8230;&nbsp;</p>



<p>-Moça, o seu ônibus saia que horas? O meu era pra ter sido meia noite, mas por algum motivo já não tinha mais lugar.&nbsp;</p>



<p>Ela demorou pra responder, eu devia ter sido invasivo e já ia me preparando para pedir mil desculpas. Não porque ela tinha me olhado estranho eu tinha direito de fazer perguntas.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Ônibus? Eu não perdi nenhum ônibus.&nbsp;</p>



<p>-Desculpa&#8230; é que eu perdi o meu, aí achei que você também tivesse perdido&#8230; O ônibus que você está esperando, que horas vai sair?&nbsp;</p>



<p>Outro silencio e meus pensamentos me recriminando, dessa vez por ter sido insistente. <em>Talvez, aliás, ela só tivesse me encarado porque eu a encarei&#8230;</em>&nbsp;</p>



<p>-Não sei&#8230; Ainda não decidi pra onde eu vou.&nbsp;</p>



<p>Fiquei um bom tempo sem saber o que falar. &#8220;Ainda não decidi pra onde eu vou&#8230;&#8221; <em>Não era algo que se escute numa rodoviária&#8230;</em> Já tinha ouvido muitos lançarem essa frase, mas em todas as vezes se relacionava ao futuro, à vida.&nbsp;</p>



<p>E a minha falta de raciocínio, o meu não querer ver o óbvio, deve ter soado patético.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Chegou aqui por engano? Tipo se enganou de ônibus e não sabe como voltar? Se tiver sem dinheiro posso te ajudar com uns vinte reais. - e ao falar isso, sendo sincero, comecei a me arrepender, não tinha tanto pra ficar assim distribuindo&#8230;&nbsp;</p>



<p>Ela demorou novamente, seus olhos bruxos dessa vez me fitando.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Não, só cheguei. Perdi outras coisas. Estou faz mais de uma semana aqui.&nbsp;</p>



<p>Me veio um gigantesco sobressalto. Mais de uma semana, <em>os dias e noites passando indiferentes lá fora, centenas de rostos diferentes ou iguais nesse canto de espera, o cheiro leve da comida das estufas, o banheiro e seu odor distante a mijo e desinfetante, as roupas e o suor se revezando e acumulando, banhos mendigados nas duchas por cinco reais, os pensamentos girando em sua cabeça quase nunca podendo libertar-se.</em>&nbsp;</p>



<p>&#8211; Uma semana&#8230; E para onde pensa ir?&nbsp;</p>



<p>-Dá na mesma&#8230; Se eu pudesse voltar no tempo&#8230; eu não faria as coisas ruins que eu fiz&#8230; E poderia ter ficado no Ceará, na minha terrinha&#8230; De qualquer jeito, alguém vai morrer esta noite.&nbsp;</p>



<p>-Como?&nbsp;</p>



<p>-Alguém vai morrer esta noite &#8211; e sua voz parecia se virar para algum vulto, invisível, na sua frente.&nbsp;</p>



<p>-Porque sim, eu sei que alguém vai morrer esta noite&#8230;&nbsp;</p>



<p>E então se levantou, deixou todas as trouxas onde estavam e foi se afastando enquanto repetia um par de vezes, para si, aquela ladainha.&nbsp;</p>



<p>Eu fiquei um bom tempo atônito, o medo, a pena e o espanto fermentando dentro de mim. Sentia coisas como uma vontade de detê-la pelo braço, de levá-la a um lugar mágico onde se concertassem as pessoas desgraçadas, &#8220;e, e se alguém for mesmo morrer? Não é melhor tentar evitar?&#8221;, e ao mesmo tempo pensamentos inconvenientes do tipo, &#8220;Quem ela acha que é? O Antônio Conselheiro?&#8221;&nbsp;</p>



<p>Fiquei muito tempo assim até que por fim decidi me levantar e dar uma saída pra fora, respirar o ar fresco e tirar da cabeça a ideia ridícula de que a mulher realmente podia ser profeta ou, pior, que eu podia salvar sua vida ou a daquela pessoa que fosse morrer.&nbsp;</p>



<p>Cruzei as lanchonetes, passei pela entrada do metrô (no Tietê a rodoviária se conecta com ele), no caminho sorrisos e ameaças que me imploravam por taxis, &#8220;Não quer um taxi meu jovem? Não me fala que vai com os capangas dos uber!&#8221; Passei falando que não tinha nada, que só estava dando voltas, desci as escadas rolantes e lá estava eu na cálida noite, entre os carros dos taxis que ficam quase em frente da escada, os sem teto jogados no chão sujo, e a avenida Cruzeiro do Sul quase sem movimento.&nbsp;</p>



<p>Dei um par de passos, fui até uma ruazinha transversal à avenida, alguns estabelecimentos porcos abertos.&nbsp;</p>



<p>Um senhor moreno estava de pé na saída de um hotel ou motel, seus olhos eram espertos e algo cansados; ao me ver um sorriso contraindo as marcas gordurosas do rosto.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Quanto sai a noite?&nbsp;</p>



<p>&#8211; Sessenta por duas horas - e vendo que eu não replicava nem aceitava &#8211; Sabe, aqui vem toda hora casais e travecos, não posso reservar a noite pra ninguém.&nbsp;</p>



<p>&#8211; Quatro horas quanto sairia?&nbsp;</p>



<p>&#8211; Cento e quinze. - e vendo meu silencio de novo &#8211; Tá tudo caro estes tempos. E você nem imagina o quanto tem de traveco e puta no mundo.&nbsp;</p>



<p>Não pude evitar de ficar irritado. Era muito dinheiro pra dormir por míseras horas em um pequeno quarto malcheiroso ao lado de pessoas transando e perturbando meus sonhos já escassos&#8230;&nbsp;</p>



<p>Tentei me controlar. O homem não parecia ser de dinheiro e só estava enfim seguindo a corrente. <em>Cobrar tudo o que se pode cobrar. Ganhar tudo o que se pode ganhar.</em>&nbsp;</p>



<p>-Obrigado, outra hora volto – e fui me afastando lentamente, e como um bobo fiquei naquela ruazinha indo de cá para lá e de lá para cá.&nbsp;</p>



<p>Imaginei, não sei por que, a vida desses travecos que levariam seus clientes ao hotel; quais seriam seus pensamentos? Suas crises? Obviamente tinham muitas, todas as estatísticas pra isso apontavam, 600 mortes no Brasil nos últimos seis anos, umas cem mortes por ano, mas era difícil imaginar. E as prostitutas, como aquela de rosa choque e rasgões? <em>(Supondo que fosse prostituta, claro&#8230;) </em>Se alguma estivesse a ponto de se suicidar no que pensaria? Pois as pessoas sempre se matam por motivos muito diferentes. E os banqueiros suicidas na crise de 29? Pensariam mais no orgulho falido, no luxo perdido ou em quantas pessoas teriam jogado na rua? Como se poderia saber? E o homem ao meu lado, no chão, adormecido ou exausto, e coberto por uma coberta verde, azul e amarela, como ele contaria seus dias? Pois as pessoas sempre contam seus dias de forma diferente. Aquilo tudo era tremendamente triste.&nbsp;</p>



<p>Uma comoção cavernosa, que não costumava sentir, preencheu todo o ambiente.&nbsp;</p>



<p>Todos, enfim, chegariam ao fim do mês, dariam um terço do seu salário ao governo, o qual investiria em loterias, viúvas de militares e cartórios, outra grandíssima parte seria dada aos patrões, os quais tratariam todo funcionário como convicto fracassado, outra parcela ainda aos bancos, ávidos sempre por juros, e muitos ainda ofereceriam como sacrifício, junto com a alma, casas e carros aos pastores&#8230;&nbsp;</p>



<p>E todos, sem exceção, receberiam uma educação miserável e um futuro feito de alimentos gordurosos e esperas por fins de semana de entusiasmo ou cansaço concentrados. O governo e as elites, igualmente ignorantes mas de um jeito camuflado, bombardeariam o país com propagandas de casais margarina, promessas de carnavais infinitos, jogadores de futebol que ganham mais do que gerações de famílias. Quando um daqueles não favorecidos, por acaso ou esforço, chegasse a algum topo, ele se sentiria tranquilo em também explorar os demais. E a rede MAR, como sempre, mostraria lixões limpos e cidades apenas com aeroportos, sem rodoviárias&#8230;&nbsp;</p>



<p>Era muita crise em potência, e eu não podia fazer nada. Tentei acalmar os pensamentos, esperar que o mundo mostrasse seus lados luminosos, que as tragédias uma por uma se amenizassem.&nbsp;</p>



<p>Numa lanchonete uns salgados com mais fritura que recheio pousavam solitários. Dois jovens magros e com roupas justas escolhiam uma música na jukebox, possivelmente horrível. E vi, eles estavam felizes, de uma felicidade sem máculas, a menina quase se abaixando de tanto de rir e o cara gritando algo pelo visto engraçado, seu boné quasequase caindo.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Cruzei a ruazinha, fiquei de novo entre os taxis, a escada rolante em frente, e observei de perto os mendigos. Um deles, por uma brutal casualidade, assim como o outro que eu acabara de ver do outro lado, também estava enrolado em uma manta verde, azul e amarela.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Subi a escada, voltei a passear entre as séries de assentos, aquelas pessoas dormitando ou com os olhos caídos mas abertos. E ao longe o mesmo homem esquálido babando com os olhos no chão; o viciado em crack gesticulando mais dinheiro a alguém. O vazio crescendo, não havia como deter o turbilhão de raiva, pena e a ansiedade em seu estado mais puro.&nbsp;</p>



<p>            Me sentei no mesmo banquinho de antes. Mesmo não querendo os ouvi, o casal caipira continuava o mesmo assunto: &#8220;As coisas não são mais como antes, antes as pessoas se conheciam de verdade, na igreja, os pais um do outro&#8230; Já eles foi tudo no funk e ela já acha que é sua missão salvar ele&#8230; &#8221;&nbsp;</p>



<p>            Me virei para eles, a mulher de vestido creme dessa vez era a que ouvia as palavras escassas do marido, e o fazia como se estivesse a ouvir as palavras mais sábias do mundo.&nbsp;</p>



<p>            &#8220;Na nossa época não tinha isso de drogas, homens que não se comportam como homens, pessoas que acham normal não se casar na igreja&#8230; O mundo era mais simples, mais certo.&#8221;&nbsp;</p>



<p>            Já a mulher da profecia, a de olhos bruxos, não tinha voltado, tinha levado todas suas coisas e perambularia nessa espécie de sala de espera enquanto as semanas passavam. E a de rosa choque também brilhava por sua ausência. Apenas, recostados, vários rostos indefinidos.&nbsp;</p>



<p>Fechei os meus olhos, fantasiei estar no meu quarto, o interior, sem essa profusão de sombras&#8230; Mas não consegui.&nbsp;</p>



<p>Depois de um bom tempo em vão decidi molhar o rosto no banheiro, cagar e ao voltar tentar dormir pra valer em um daqueles banquinhos. Ainda tinha duas horas pela frente.&nbsp;</p>



<p>Molhei meu rosto, a água deslizando sonolenta, meu rosto jovem mas cansado&#8230;&nbsp;</p>



<p>Então foi quando, no boxe do banheiro, ao ter acabado de cagar, ouvi barulhos estranhos no mundo de fora&#8230;&nbsp;</p>



<p><em>Batidas, vozes grossas se juntando, indistinguíveis, barulho de torneira.</em>&nbsp;</p>



<p>Achei que era um assalto, um assalto estranho num banheiro de rodoviária, depois um aviso de emergência, quem sabe um atentado. &#8220;E se a mulher de olhos bruxos tivesse razão??&#8221;&nbsp;</p>



<p>&#8211; Desse jeito o terminal vai fecha, vai tudo acaba!&nbsp;</p>



<p>&#8211; A gente tem que manda fecha esse lugar, é tudo uma vergonha. Essas coisas não deviam nem existir.&nbsp;</p>



<p>Essas frases foram as mais distinguíveis, o resto pedaços de palavras e sons que não conseguia conectar, e uma pequena explosão ou batida, e os barulhos diminuindo, as vozes se afastando, uma porta que parecia se fechar, o ruído suave de água e logo o silencio. Tudo enquanto eu ficava encostado na privada, imóvel, esperando que não me ouvissem&#8230;&nbsp;</p>



<p>Quando o silêncio já durava um bom tempo, sai. Esperava restos de uma tragédia, um corpo no chão, sangue, uma arma, e lá, em frente ao espelho, uma travesti, com os olhos em direção a seu reflexo, molhava o rosto com gestos pausados. <em>Com gestos pausados como quem não quer ser olhado&#8230; </em>Não demorei para subentender o que tinha acontecido&#8230;&nbsp;</p>



<p>Passei reto. E não que não quisesse dizer algo, mas o que poderia dizer? O mundo é assim, as pessoas pensam assim&#8230; Chamamos a polícia, denunciamos eles por agressão física, moral? Sim, verdade, é mais fácil que te prendam&#8230; Eu te entendo, já sofri outros preconceitos&#8230; Você me entende o caralho&#8230;&nbsp;</p>



<p>Mas acho que foi mais pela inércia que não falei nada&#8230;&nbsp;</p>



<p>Me sentei pela terceira vez no mesmo banquinho, queria dar uma volta mas não tinha energias. Mesmo meus pensamentos não conseguiam surgir, e não vi nem quem estava ao meu redor, nem prestei mais atenção no casal de caipiras, os quais aposto que estavam no mesmo assunto. E os minutos, indiferentes, correndo no relógio na minha frente. Duas e dez, duas e quarenta, três e cinco&#8230;<em>Pouco a pouco o mundo chegando perto do embarque&#8230;</em>&nbsp;</p>



<p>Até que, não sei por que, ao imaginar em flashes a sequência do estranhíssimo, mas possivelmente cotidiano, tumulto (Como tinha começado? Teria recebido algum golpe ou assédio? Será que teria reagido?), me veio o óbvio. Eu não tinha visto a travesti sair do banheiro&#8230; Claro, podia ser que tivesse saído sem eu ver, eu estava no meu mundo, mas intui o contrário, e um medo indefinível me invadiu.&nbsp;</p>



<p>Fui até lá, e não precisei muito para ver onde estava. Jogado no chão, aparentemente sem consciência, estava aquele corpo que antes se olhava no espelho. Um menino, terninho roxo claro, cabelos com gel, e que por que raios não sei de onde tinha surgido, ao seu lado chorava.&nbsp;</p>



<p>&#8220;Ele, ela se cortou, está sangrando&#8230; que que se faz nesse momento? Que que se faz?&#8221; Eu também não sabia, demorei talvez segundos preciosos pensando, até que colocamos enfim um papel higiênico para conter o sangramento e liguei pra ambulância.&nbsp;</p>



<p>Quando eles chegaram as pessoas abriram os olhos, um rebuliço crescente, uma voz curiosa levantando a outra.&nbsp;</p>



<p>Os enfermeiros retiraram ela do banheiro, puseram ela nos banquinhos e, enquanto pelo visto faziam um breve exame para ver se resistia até a ambulância e colocavam uma gaze decente sobre o corte, a rodoviária inteira, umas vinte pessoas, saiu dos assentos e, para desespero dos profissionais, grudaram os olhos o mais perto possível, como quem vê o último episódio de uma serie que acabaram de descobrir.&nbsp;</p>



<p><em>O casal de caipiras cochichando, talvez rindo às escondidas. O menino do banheiro chorando junto aos pais, estes atônicos e talvez mais preocupados com o filho que com o outro. Os jovens que escolhiam as músicas na lanchonete agora sérios, as bochechas contraídas, como quem por primeira vez vê a morte. O pedinte viciado em crack alheio a tudo, só se aproveitando da pequena multidão, pedindo dinheiro pra mesma passagem. E a mulher de olhos bruxos, ali, de volta, andando em círculos, repetindo pra si o &#8220;alguém vai morrer&#8221;, só mais alto e às vezes junto a um terrível &#8220;ninguém sabe onde ir&#8221;.&nbsp;</em>&nbsp;</p>



<p>Quando esta passou ao meu lado, sem conseguir me controlar, murmurei para ela &#8220;talvez você tenha razão&#8221;, mas ela sequer me olhou. E, curiosamente, nem olhava para a pessoa que de fato podia morrer.&nbsp;</p>



<p>(E por acaso os donos das vozes do banheiro olhariam a cena? Entre as pessoas ali tinha só uns três homens de trinta a quarenta anos -pelo timbre das vozes deduzia serem dessa idade- e em nenhum, pelo tipo de olhar idêntico aos demais, conseguia visualizar os gritos e estrondos. <em>Enquanto isso o corpo imóvel entre as mãos dos enfermeiros, os olhos em volta hipnotizados.</em> Sim, talvez eles os assassinos não estivessem ali,<em> </em>talvez todos nós pudéssemos ser os donos das vozes&#8230;)&nbsp;</p>



<p>E logo os enfermeiros se levantando, praticamente só eu os seguindo, além de mim o cara e a garota da jukebox, o menino e seus pais, mais uns três rostos semidesconhecidos, uma pequena procissão&#8230; Os assentos, as lanchonetes, as sombras dos guichês e os rostos ao longe, tudo passando como sonho&#8230;&nbsp;</p>



<p>&#8220;Como é a situação?&#8221; perguntei aos enfermeiros enquanto seguia o cortejo. &#8220;Fui eu que chamei a ambulância, por favor como é a situação?? Me falem, fui eu que chamei, fui eu que vi tudo&#8221;, <em>insisti ignorando que o menino talvez tivesse visto mais</em>. E um deles, com o pé no elevador de emergências, em frente daquela entrada-saída do metrô, apenas respondeu, &#8220;é grave, muito grave&#8221;.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>A porta do elevador se fechou, em um segundo aquele corpo desapareceu da minha vista. E mal o elevador se fechara o pai do menino comentou para mim: &#8220;pelo que ouvi eles falando o corte não é o pior”, e o menino, com voz de quem se desculpasse, “moço, ele tomou alguma coisa, uma daquelas pílulas que matam, ouvi um doutor comentando pro outro&#8230;&#8221;&nbsp;</p>



<p>Quando tudo cessou, quando sem desviar o olhar do parapeito já tinha perdido a visão da travesti e dos enfermeiros na ambulância, e quando mesmo o resto da inútil procissão já se afastava, conferi o relógio: faltavam dez para as quatro.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Com toda a frieza do mundo sai dessa entrada-saída do metrô, cruzei novamente a rodoviária, desci sorumbático as escadas e me dirigi para o embarque.&nbsp;</p>



<p>Dentro do ônibus vi como a rodoviária Tietê se transformava em uma sombra espessa, ela que querendo ou não eu voltaria a ver muitas vezes, e logo a procissão de edifícios, de casas quase favelas, e só então a pista silenciosa e plantações de eucaliptos. E eu sabia, a culpa viria, e aquele ódio tanto de mim como do mundo, qualquer coisa que eu ou outro fizesse teria mudado o desenlace. E, de olhos fechados, sem dormir mas não de todo acordado, eu repassava as imagens, tudo tão concentrado como quando um velho repassa sua vida.&nbsp;</p>



<p><em>O casal caipira de braços abertos, o rosto da travesti frente ao espelho, as vozes grossas como explosões, a mulher de olhos bruxos, os sorrisos dos jovens ao pôr a jukebox e sua posterior tristeza sepulcral, o &#8220;essas coisas não deviam nem existir&#8221;, o casal falando da filha, a filha apanhando, o pulso cortado e o corpo no chão sujo, o rosto sedutor e repulsivo da mulher de rosa choque, duas horas sai sessenta reais, o mendigo com o manto verde, amarelo e azul, a travesti novamente (não usarei essa palavra pela culpa?), o desespero inocente do menino, de novo a travesti se olhando no espelho, agora talvez morta&#8230;</em> E entre tudo isso, sem adormecer nem me manter acordado, no semiescuro que não acabava, eu não conseguia parar de pensar,&nbsp;</p>



<p>&#8220;Quantos ainda não irão morrer nesta noite?&#8221;&nbsp;</p>



<div style="height:100px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center">Envie sua proposta para nossas chamadas para publicação e para exposições!</h3>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31756" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-trama.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a></figure>



<figure class="wp-block-image alignfull size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/06/30/chamada-de-inverno-para-publicacao-revista-trama-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="239" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo-1024x258.png?resize=950%2C239&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31754" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1024%2C258&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=300%2C76&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=768%2C194&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=205%2C52&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=480%2C121&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=600%2C151&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?resize=1200%2C302&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/chamada-expo.png?w=1401&amp;ssl=1 1401w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em>Clique na imagem para mais informações.</em></figcaption></figure>



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<figure class="wp-block-image size-large is-style-rounded"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="950" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=950%2C950&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-32285" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=1024%2C1024&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=300%2C300&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=150%2C150&amp;ssl=1 150w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=768%2C768&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=40%2C40&amp;ssl=1 40w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=275%2C275&amp;ssl=1 275w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=205%2C205&amp;ssl=1 205w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=480%2C480&amp;ssl=1 480w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=600%2C600&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=1200%2C1200&amp;ssl=1 1200w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?resize=800%2C800&amp;ssl=1 800w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/07/IMG_20220627_173913_556-1.jpg?w=1365&amp;ssl=1 1365w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>
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<div class="wp-block-column is-vertically-aligned-center is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow" style="flex-basis:66.66%">
<p><strong>Gonzalo Dávila Bolliger</strong> nasceu em 1989 em Lima, Peru, e se mudou para o Brasil em 1994 com os pais. Estudou Letras na USP, trabalha como professor e tradutor e tem como livros: <em>Rumo ao Âmago da Própria Voz</em> (poesia, pela editora Autografia); <em>Poemas esparsos</em> (primeiro livro feito, quando o autor ainda era adolescente, publicado pelo selo Pandora); <em>As Realidades Invisíveis</em> (conjunto conceitual de contos, novelas e romance; pela editora Autografia), <em>Um Gato no País dos Evangélicos </em>– uma sátira da nossa sociedade (novela, pela editora Autografia e também pela Maracaxá), <em>As Fronteiras do Sonho </em>(novela, pela editora Maracaxá), <em>A Melancolia </em>(poesia, pela Piraputanga) e a tradução do poema Altazor do chileno Vicente Huidobro (pela editora Maracaxá).&nbsp; É apaixonado por vários assuntos como artes, psicologia, antropologia, biologia e história. </p>
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<div class="wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-16 wp-block-columns-is-layout-flex">
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/5P6bxSaRg2cK48jDngP6CY?si=0xXOqkk_QzGWuUYT-GgGtg"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-31307" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/06/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="950" height="721" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=950%2C721&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-23741" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=1024%2C777&amp;ssl=1 1024w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=300%2C228&amp;ssl=1 300w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?resize=768%2C583&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2022/06/anuncie.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 950px) 100vw, 950px" data-recalc-dims="1" /></figure>



<h3 class="wp-block-heading has-text-align-center has-white-color has-black-background-color has-text-color has-background">Esse espaço maroto de apoio e fomento à cultura pode mostrar também a sua marca!</h3>



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		<title>Ilka Blacknight </title>
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		<dc:creator><![CDATA[]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 16 Jul 2023 18:58:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 172]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[conto]]></category>
		<category><![CDATA[cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
		<category><![CDATA[mulher]]></category>
		<category><![CDATA[recomeçar]]></category>
		<category><![CDATA[refazer]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p class="has-text-align-right"><em>Da mãe herdou os olhos,</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>do pai herdou a cachaça,</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>da irmã um ódio profundo,</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>da vida uma cusparada na cara que lhe acertou em cheio.</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Mas nasceu com um coração de teimosia</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>e se traveste toda a noite para tentar mais uma vez.</em>&nbsp;</p>



<p class="has-text-align-right"><em>Munique Duarte</em></p>



<div style="height:51px" aria-hidden="true" class="wp-block-spacer"></div>



<p>Viu-se refletida no vidro fumê de uma vitrine. Olhou-se demoradamente. Observou os olhos cansados, a pele enrugada. Envelheceu de repente. Dormiu e acordou assim, como uma uva passa. Não era mais a jovem de pele delicada, olhar vivaz e sorriso de pérola. Estava ali diante de si mesma, observando-se, analisando-se. Por pouco não perdeu a condução. Iria visitar a amiga que há algum tempo jazia numa cama de hospital. A morte, agora, parecia espreitá-la em cada esquina que cruzava. A amiga, de profissão, caiu doente numa manhã de sábado. “Fosse uma manhã de segunda-feira”, dizia ela, “seria feriado na cidade”.</p>



<p>Ilka não é seu nome de pia, Blacknight não é seu sobrenome, este foi dado a ela por gentileza dos clientes que assim a apelidaram. Tão pouco nasceu assim: velha. Fora uma moça vistosa, de cabelos brilhosos e olhos de um verde esmeralda que hipnotizavam quem muito os olhasse. De voz aveludada, um corpo bem feito, seios que apontavam para o céu e uma boca carmim. Era o desejo nem tanto silencioso dos homens daquela cidadezinha que mal existia no mapa. Por onde passava arrancava olhares e comentários. Mas também não nascera assim, bela jovem. Fora uma criança esmirrada, de pele ressecada. Nascera em uma casa de pau a pique, no interior do sertão mineiro. Convivera com a miséria e um pai bêbado que batia na mãe e em quem se atrevesse a entrar na frente. Não estudara, mas conhecera bem o peso de uma enxada, a dor da fome e da sede. Aos quinze anos perdera a mãe e a irmã mais velha com quem aprendera a escapar dos maus tratos do pai e a não se contentar com tão pouco. Cansada daquela vida famigerada, fugiu, sem olhar para trás. Do pai não se sabe o destino, provavelmente enterrou sua vida em algum boteco gastando a féria do dia em cachaça e vociferando pelos cantos da boca. Dos irmãos teve notícia há alguns anos. Todos ainda vivem naquela cidadezinha remota, do mesmo jeito como foram deixados por ela há anos e anos. Cortara os laços que a ligavam ao passado. Viajara durante dias e noites até chegar à capital. Morara debaixo da ponte, pedira esmolas, recebera nãos com muito mais frequência do que se pode imaginar, como cusparadas que a humilhavam. Mas nascera com um coração de teimosia. Aprendera, desde cedo, a esquivar-se, a seduzir, a esperar. Uma vez, quando menos esperava, encontrou um senhor calvo de olhos pretos e pele morena. Pediu alguns centavos para o pão do dia. Recebeu um sorriso e um convite. O que poderia ser pior do que estar na rua, desprotegida e sozinha?&nbsp; No mesmo dia, Ilka viajou alguns quilômetros com o homem até chegar em uma cidade sem graça. A promessa era de que ela não mais precisaria mendigar migalhas pelas ruas. Banho quente, roupas novas e até perfume foram os primeiros agrados a Ilka. Uma boa noite de sono em uma cama só para ela. Juntou-se a outras meninas que também acreditavam ter tirado a sorte grande, mas depois de duas semanas dessa regalia nunca antes provada, o homem calvo e generoso resolveu cobrar pela hospedagem e tudo mais. Perdia, naquela noite, a sua pureza e o resto da esperança de que a vida poderia lhe sorrir. Depois, foi oferecida a outros homens que pagavam para tê-la na cama que deixou de ser só sua. Pobre Ilka, não conhecera o amor. Achava todos os homens asquerosos, ruguentos. Tomava banhos intermináveis logo que o expediente terminava e prometeu pagar sua dívida ao homem calvo, sair daquele antro e tentar vida nova. Era teimosa e determinada. Em uma manhã de outubro, encarou-o de igual para igual, deu-lhe a notícia libertadora. Pegou sua pequena trouxa e saiu, mais uma vez, sem olhar para trás. Andou por horas e chegou a um posto de gasolina. Conseguiu tomar um banho sem ter que pagar, afinal, o frentista ficou hipnotizado pelo verde esmeralda de seus olhos. Ofereceu-lhe um pingado, ao qual não houve recusa. Despediu-se do bom homem e retomou sua caminhada, queria chegar à cidade o quanto antes e estabelecer-se. Juntara durante um tempo uma quantia que daria para se virar até encontrar um emprego. Mais algumas horas e já estava na praça central onde havia uma pequena igreja, uma sorveteria e bancos povoados por senhores e senhoras contemplando a correria das crianças e os beijos apaixonados dos jovens amantes. Parou, olhou ao redor, sentou-se em um dos bancos, fixou seu olhar na cruz alta da torre da igreja, mas não conseguiu rezar. Seu coração de teimosia estava cheio de farpas e seu corpo doído da longa caminhada. Refez-se um pouco e procurou a pensão mais em conta para passar a noite. Na manhã seguinte procurou emprego e por não ter instrução voltou à pensão, sem sucesso. Durante sua volta, encontrou o frentista que a havia acolhido no posto da beira da estrada. Este, ainda hipnotizado, dirigiu-lhe a palavra convidando-a para um sorvete. Aceitou o convite, atacou o sorvete com fome de leoa e deparou-se com o frentista a devorá-la com os olhos. Porém, não se intimidou. Encarou-o e logo, sem pensar muito, compreendeu o próximo passo. Em pouco tempo já estavam nus devorando-se um ao outro, e na calada da noite o frentista, saciado, vestiu-se, depositou alguns trocados no criado mudo, assim como Ilka o havia pedido. Foi para casa satisfeito, mas sem ter provado do gosto provavelmente doce daqueles lábios carmim. Prometeu voltar. Poderiam ter começado ali um belo romance, mas a moça entendeu que não nascera para romances. Precisava comer e pagar as contas. Estabeleceu-se, neste instante, o começo de sua vida. Foi expulsa da pensão acusada de fornicação. Alugou um sobrado simples, decorou-o como pôde e passou a acolher em sua casa tantas outras moças que também precisavam viver. Juntas, recebiam frentistas, borracheiros, guardas de trânsito, bancários, advogados. Toda espécie de homem e logo estava inaugurado o estabelecimento de Ilka, uma bela mulher de gestos delicados, olhar sedutor e uma boca de tirar o fôlego. Todos que começaram a frequentar sua casa queriam provar dos seus beijos, porém ela nunca permitiu que ninguém tocasse em seus lábios. Aqueles que se atreveram saíram de seu estabelecimento arrastados. Ora, uma mulher que se preze tem o controle de seu corpo e de suas vontades. Beijar estava fora de cogitação. Afinal de contas, o beijo é uma prova de amor e amor era a última coisa que ela poderia querer. Considerava os homens uma raça desprezível, serviam apenas para lhe pagarem as contas, usava e abusava deles. Seus poderes de sedução ficaram conhecidos e vinham homens de todos os cantos terem com ela alguns momentos de prazer que diziam valer a pena e o bolso. Ao contrário do que se possa pensar, o fato de não conseguirem arrancar de Ilka um beijo sequer era um afrodisíaco ainda mais potente e, com isso, a freguesia aumentava a cada dia. Todos apostando em quem conseguiria conquistar os ósculos mais desejados da cidade. Aumentavam as apostas, aumentavam os lucros, simples assim. Dizem que muitos dos homens que a conheceram nunca mais foram os mesmos. Alguns diminuíram consideravelmente suas riquezas ao deixarem nos aposentos de Ilka valores imensuráveis, joias, ações. Tudo em nome do prazer. Ninguém nunca a via caminhar pela cidade durante o dia. Para saber de Ilka só mesmo à noite, durante o expediente. E quanto mais negra a noite, melhor eram os seus serviços. Daí o sobrenome Blacknight. Enfim, não conseguiu um emprego como balconista, mas conseguiu sair da miséria e em pouco tempo já podia se regozijar de uma pequena fortuna. O sexo para ela era um trabalho tão digno como outro qualquer e se orgulhava disso, era uma excelente profissional, das poucas que ainda existiam no mercado. Depois de alguns bons anos de trabalho resolveu que iria se aposentar. Ainda era jovem, teria muitos anos pela frente, mas decidiu viver uma outra vida, em outro lugar. Entregou sua casa à primeira moça que veio se juntar à sua equipe. Distribuiu presentes às raparigas como forma de gratidão pelos serviços prestados com tanta fidelidade e preparou uma linda festa de despedida. Convidou seus clientes mais fiéis e mais generosos. Estavam todos animadíssimos, quem sabe, agora, já que está se despedindo, daria a graça de um beijo. E quem seria o sortudo? Por outro lado, pairava uma certa melancolia no ar. Nunca mais a cidade seria a mesma sem Ilka Blacknight. Ela sabia receber como ninguém. Em sua casa podia se encontrar a alegria, o prazer, a liberdade. Viviam-se momentos de puro gozo, longe das convenções sociais que escravizam. Lá, a seriedade dava lugar aos instintos, desfazia as rugas de preocupação e libertava as fantasias mais ocultas até mesmo dos mais tímidos, dos mais pudicos. Era uma terapia, que custava caro, é verdade, mas valia a pena. Inevitável que uma saudade precoce já começasse a invadir os corações sedentos de sexo. A festa começou às 19h e varou a noite estrelada e quente daquele vinte e cinco de setembro. Ilka adentrou a sala ampla do sobrado em um vestido transparente, azul turquesa, que esculpia em sombras suas curvas e acentuava os verdes olhos e a linda boca vermelha. Por que deixar todos aqueles amantes órfãos de seus carinhos, assim, tão cedo? Para um coração de teimosia, basta a teimosia. Não havia explicações, apenas a vontade imensa de ser outra em outro lugar. Quando todos, já bêbados, imploravam um beijo apenas, Ilka despediu-se. Houve quem se atirasse aos seus pés, houve quem oferecesse toda a sua fortuna. Houve quem lhe dirigisse palavras de ingratidão. Alguns faltaram com decoro, mas só alguns, os mais inconformados. Os outros logo compreenderam que aquela mulher ora Ariel ora Caliban devia ser eternizada em suas lembranças, apenas. Ilka começou a escalar a longa escada-caracol que a levaria a seus aposentos e, antes de desaparecer, olhou mais uma vez para todos que também a olhavam e viu, encostado no portal da sala de estar, um figura esguia, de chapéu panamá e um terno azul escuro. Diferente de todos os outros, este homem a olhava fixamente e podia-se ver suas pupilas dilatadas e a tensão muscular nas maçãs do rosto. Em poucos segundos Blaknigth reconheceu o homem do posto que a alimentara quando de sua chegada. O homem que, generosamente, ofereceu-lhe sorvete na praça. O homem que fora seu primeiro amante naquela nova cidade. O homem com quem poderia ter começado um romance e que sumira tão logo Ilka começasse seus trabalhos na casa nova. Sim, ela sentira falta do corpo quente e suado do frentista. Havia desenvolvido por ele um carinho e uma gratidão que nunca pudera pagar. Ali estava a figura que, naquele momento, fez com que Ilka estremecesse. Uma troca de olhares e o frentista rompeu o salão, desviando-se dos homens agora distraídos com as meninas dançantes e alcançou os primeiros degraus ao encontro da bela dama com quem já vivera momentos inebriantes. Sem palavras, os dois tornaram-se um, e envolvidos pelos lençóis macios que ainda guardavam o frescor da juventude, entrelaçaram-se e protagonizaram um momento único na vida de Ilka. O beijo. A despedida sonhada por todos os que agora se contentavam com as meninas dançantes no salão. Ele sabia. Ela sabia. Não mais se veriam, não mais se tocariam, não mais se amariam. Não mais se beijariam. Seriam um para o outro apenas uma lembrança, apenas um lapso nos momentos de devaneio. Mal a manhã chegou, Ilka despachou suas malas e seguiu rumo à sua nova vida, mais uma vez sem olhar para trás, levando consigo o gosto ainda quente e molhado do beijo dado em sua despedida. Mordiscou o cantinho da boca para sentir mais uma vez a sensação do primeiro beijo, como uma adolescente entorpecida pelas ilusões da idade. Seguiu adiante, estabeleceu-se em sua nova casa, comprada com afortuna economizada por ela dos antigos clientes. Linda casa, lindo jardim, bem maior que o sobrado que ficou para trás. Ali viveu o resto de sua vida entre lembranças que tentava esquecer e amigos novos que fizera ao chegar e que nada sabiam de seu passado. Era uma dama, generosa e bela, apenas. Frequentava as festas, os encontros sociais, os chás beneficentes. Nunca tivera medo de encontrar-se com alguém do passado, sabia ela que os que ficaram para trás temeriam ver desmascaradas as suas escapadelas do lar e seus segredos confidenciados em longas noites escuras na cama de Ilka. Agora, tomara para si seu nome de batismo. Cândida, Senhora Cândida. De gestos delicados, olhar profundo, sorriso leve encantava a todos a sua volta. Nunca mais voltara à cidade que lhe deu os proventos do presente. Nunca mais se encontrara com o único homem capaz de lhe beijar os lábios. Respeitada pelos amigos que fizera em sua nova vida, era outra em outro lugar. Hoje, pela manhã, recebeu um telefonema a cobrar e a voz tremida pedia que ela voltasse para uma outra despedida. Sua amiga de profissão estava moribunda e queria vê-la. Pensou, titubeou, mas uma lágrima de saudade, de melancolia brotou em seus olhos. Era Dalva, doente, cansada, amiga de luta com quem dividira momentos de tristeza e alegrias. Não podia dar as costas a ela. Não podia apagar de sua vida a vida que levara e a amizade construída. Era leal, era generosa. Desta vez não pediu ao motorista que lhe levasse a parte alguma. Arrumou uma pequena mala e foi, sozinha, ao encontro de sua amiga. Tomou o táxi e a cada quilômetro percorrido uma lembrança, um arrepio. Chegou enfim à cidade, desembarcou, caminhou, era dia de um sol radiante. Parou em um ponto de ônibus em frente a uma vitrine fumê onde se viu refletida. Olhou-se demoradamente. Quase perdeu a condução. Envelheceu de repente. Dormiu e acordou assim, feito uva passa. Dalva morreu antes de poder se despedir como queria. Cândida não se despediu, apenas olhou para o corpo cansado da amiga e sentiu a morte espreitá-la. Mas seu coração era de teimosia e teimou em não morrer tão cedo, mesmo que tão velha.</p>



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<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong>&nbsp;É natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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		<title>Clara</title>
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		<pubDate>Sun, 28 May 2023 18:57:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ano 005, N 165]]></category>
		<category><![CDATA[Joseani Adalemar Netto]]></category>
		<category><![CDATA[Literatura]]></category>
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		<category><![CDATA[cultura]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>por: Joseani Adalemar Netto</p>
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<p>1.&nbsp;</p>



<p>Clara. Nome simples. Duas sílabas. Fácil de pronunciar. Porém, era Clara um paradoxo. Vivera sem os pais por toda a infância. Criada por uma tia com fobia social, quase nunca saía de casa. Foi mandada a uma escola de freiras aos oito anos de idade e, lá, mais uma vez a clausura. Pela manhã, aulas de aritmética, língua portuguesa, francês e latim. À tarde, geografia, história, ciências. À noite, o terço, a novena, a prece ritualística, o jantar, a clausura. Menina doce, não entendia o porquê da escuridão em sua vida. Faltava-lhe a afetividade materna, o olhar paterno. Faltava-lhe liberdade. Faltava clareza na vida de Clara. Era ela um paradoxo. Não quis seguir a vida religiosa, mas cumpriu uma promessa: visitar velhinhos, tristes e solitários, enclausurados, buscando em cada um as figuras materna e paterna. Mas faltava-lhe liberdade. Ao sair do internato precisou trabalhar. Sua tia, cada vez mais, trancada em seu mundo de silêncios. Não tinha com quem conversar. Acostumou-se com a rotina: trabalho/casa/trabalho; casa/asilo/casa.Todas as quintas-feiras, dia de sua folga, visitava um grupo de idosos em um pequeno asilo do outro lado da cidade. Acordava cedo, tomava seu banho, um gole de café amargo e saía do prédio antigo, sujo, escuro e pesado. Atravessava a avenida, caminhava por um quarteirão e aguardava calmamente o ônibus 213 que a levaria até o Bairro das Graças. Descia do ônibus, caminhava por mais um quarteirão e pegava o metrô, disputando espaço com pessoas apressadas, barulhentas em seus silêncios, solitárias e nubladas. O batom vermelho de Clara contrastava com o cinza da cidade e das pessoas cimentadas em seus pensamentos. Enfim, depois de 2 horas de viagem entre caminhadas, ônibus e metrô chega à estação Bom Sucesso e continua sua saga até o Asilo São Francisco para encontrar com os idosos a quem atendia em silêncio, cumprindo sua promessa.Aos 30 anos, conheceu Isaac, um homem pálido, esguio e de olhar distante. Enfermeiro, estudante de Farmácia, 26 anos. Encontrou em Isaac a companhia perfeita: ele quase não falava, mas deixava-a em êxtase quando a tomava pela cintura e a apertava contra o peito. Sexo. Era a única coisa que deixava a vida de Clara um pouco mais leve. E as quintas-feiras se tornaram uma promessa fácil de ser cumprida. Compromisso? Não. Apenas sexo. Apenas o prazer. E que se danem os velhinhos. As quintas-feiras são melhores com Isaac.Na última quinta, Clara seguiu todo o ritual: banho, café amargo, caminhada pelo quarteirão. Ponto do ônibus 213. Todavia, percebeu algo estranho no ar. Um silêncio difícil de entender. Onde as pessoas estressadas? Onde os carros frenéticos? Tudo em silêncio. Esperou pelo 213 por mais de 30 minutos. E quando enfim o ônibus apontou na esquina, fez sinal e ele não parou. Sentiu-se invisível. Impotente. Ora, há anos o 213 passa por esta rua, por esta esquina, sempre na mesma hora. Acostumou-se com a rotina. Mas naquele dia, o 213 resolveu atrasar e, o pior, resolveu não parar pra sua mais fiel passageira. O que acontecera? Não havia tempo para lamentações. Resolveu seguir em frente e caminhar a pé até o Bairro das Graças para enfim pegar o metrô. Os velhinhos não podiam esperar. Isaac, na certa, estaria ansioso, aguardando Clara para mais alguns efêmeros momentos de sexo. E ela não poderia, jamais, deixar de cumprir sua promessa. Mas o dia realmente estava diferente. As poucas pessoas nas ruas comportavam-se tão bem, que Clara resolveu diminuir os passos para observar melhor aquela quinta-feira atípica, tão realmente silenciosa. Morrera alguém de importância nacional? Era dia de jogo do Brasil? Sem entender a real daquele dia, seguiu, observando as caras translúcidas das pessoas que há tantos anos, cumprindo uma rotina, eram desalmadas e cinzentas como as ruas da cidade.&nbsp;</p>



<p>“Recuso-me a correr!” Exclamou! “Não é minha culpa o atraso do dia.” Afirmou. “Que os velhinhos esperem”. Decidiu. E continuou sua caminhada pelos quarteirões. Na certa o metrô, assim como o ônibus, não obedeceria ao combinado de todas as quintas-feiras. Continuou a andar, tentando se esconder do sol que, agora escaldante, secava as gotas da chuva que a surpreenderam ao longo do caminho. Chegou, enfim, no cruzamento que dava para o Asilo São Francisco. Diferente das outras ruas, o cruzamento em movimento frenético impediu que Clara atravessasse rumo ao cumprimento de sua promessa. Fez uma, duas, três tentativas&#8230; Nada. Os automóveis pareciam implacáveis, os semáforos em contusão sempre acusavam o verde sem chances para que os transeuntes fizessem a travessia. Antes, sozinha na encruzilhada. Agora, abafada pelo aglomerado de pessoas confusas que, como Clara, não conseguiam atravessar. A calma e as certezas da caminhada outrora feita debaixo da chuva e do sol escaldante que se atreveu em aparecerdavam espaço à sensação de impotência tantas vezes provada pela menina solitária em seu mundo cinza e claustro. Pensara nos velhinhos que a esperavam, sedentos de sua atenção. Pensara em Isaac que a esperava tão sedento quanto. Pensara nas pessoas aglomeradas, como ratos de laboratório, sedentas por um espaço na encruzilhada tomada por carros insensatos que não percebiam a urgência de cada um. Pensara, finalmente, em si mesma. Em quatro longas horas de caminhada provara toda a sorte de sensações: raiva, desejo, solidão, medo, preocupação, calma&#8230; Como um milagre os semáforos voltaram a funcionar e os carros diminuíram a velocidade até pararem diante do vermelho que indicava a vez de quem ainda não havia tido vez. Todos, como que em reta final de uma corrida olímpica atravessaram. Menos Clara que virou seu corpo para o caminho de volta ao prédio de onde nunca deveria ter saído, como sua tia, que se trancafiara em um mundo só seu, sem carros, pessoas, velhinhos, sem Isaac, sem vida. Avistou uma placa de um bar qualquer e como sedenta de uma vida que nunca tivera, entregou-se a um copo de aguardente e a dois, e a três, cinco, embriagando-se de lembranças, rancores e desejos. Não voltou ao prédio, não visitou os velhinhos, não sentiu os braços de Isaac entrelaçando-a, não se mexeu. Deixou-se ficar no balcão, enternecida pelas cores dos cartazes que pipocavam as paredes daquele bar qualquer. Trocou sua promessa de noviça, trocou o silêncio de sua tia, trocou os abraços de Isaac, trocou sua vida fadada às cinzas da cidade pelo balcão daquele bar.&nbsp;</p>



<p>2.&nbsp;</p>



<p>Eram 22 horas quando o dono do bar, um homem calvo, de olhos azuis e cavanhaque torto, tocou nos ombros de Clara e a despertou de sua catarse.&nbsp;</p>



<p>__Moça, já vamos fechar.&nbsp;</p>



<p>Ela levantou seus olhos avermelhados dos efeitos do álcool, sorriu um sorriso franco. Agradeceu pela bebida, levou a mão em sua bolsa e depositou sobre o balcão o dinheiro de sua embriaguez. Olhou ao redor e sentiu-se mal. Como se provasse, naquele instante, dos olhares reprovadores das freiras com quem convivera a infância e a adolescência. Mas os olhos, agora, não eram das freiras complacentes e maternais. Eram olhos que a desnudavam como se quisessem devorar sua pele clara, tão clara para um lugar tão escuro como aquele.Era tarde. Era tarde para arrepender-se. Era tarde para voltar no tempo. Era tarde para voltar pra casa a pé. Era tarde para tomar o metrô, o ônibus e caminhar os quarteirões de sempre até seu prédio. Um táxi. Sim. Um táxi devolveria a rotina perdida daquela quinta-feira. Logo na esquina tomou a condução que a levaria de volta para sua vida insípida. Já em casa, sentindo-se mais segura, olhou pela fresta do quarto de sua tia. Lá estava a figura esquálida de tia Laura, assentada na beira da cama a ler uma bula de remédio vencido. Exatamente como Clara a deixara pela manhã. Tudo igual. Pelo visto nada mudara. “E deveria?”. Pôs-se nua diante do espelho, examinou-se. Tudo igual. Nada mudara. Abriu o chuveiro e deixou-se ficar por longos 15 minutos. A água lava o corpo, a alma maculada por um dia tão&#8230; tão&#8230;Mas e sua promessa? E Isaac? Na certa não sentiram sua falta. Para os velhos deveria ser apenas mais uma dessas voluntárias voluntariosas. Para Isaac, só mais uma mulher carente dentre tantas que, provavelmente, já passaram por seus abraços.O bar. Ah, o bar&#8230; nunca estivera em um por tanto tempo. No máximo entrava, comprava fósforos e saía, sem olhar ao redor. A cabeça doía. Seus pés fumegavam. As pontas dos dedos, dormentes. Autocomiseração. Não. Nada de sentir pena de si mesma ou de se autocondenar. Uma boa noite de sono bastaria. O sono cura qualquer ressaca, qualquer culpa. “O sono alimenta”. Não havia comido até agora. Também não comeria nada. Vestiu sua camisola rosa, calçou suas chinelas. Olhou pela fresta do quarto de tia Laura. Tudo igual. Nada mudara. Deitou-se e entregou-se a um sono profundo. “Amanhã.” “Amanhã será outro&#8230;”.&nbsp;</p>



<p>3.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>O despertador avisou que já era um novo dia. Clara abriu os olhos devagar. Sentiu-se despertando do torpor noturno e pôs-se de pé. Calçou as chinelas e foi até a cozinha arrastando-as como que correntes pregadas em seus tornozelos.Há tempos não se sentia assim. Era tão normal acordar a essa hora, fazer seu café amargo, arrumar-se para mais um dia de trabalho. Mas o que fora aquela quinta-feira rompendo a monotonia de sua vida?Tomou uma xícara do café, arrastou novamente suas correntes até o quarto de tia Laura, olhou pela fresta e lá estava ela, dormindo o sono dos justos.Arrumou-se para o trabalho na Quinta Avenida, segundo andar. Prédio antigo de paredes amareladas pelo tempo e grandes portas de madeira, janelas de venezianas e persianas que emperravam todos os dias. O prédio guardava escritórios de contabilidade, dentistas e pequenas empresas de cobrança. Clara trabalhava em uma delas. Como gerente financeira, passava oito horas do seu dia entre contas, boletos e borderôs. Não lidava diretamente com os funcionários, que eram em número de seis, contando com o chefe Hermenegildo. Tratava somente com Tônia e Oswaldo a quem passava os resultados e as metas a serem alcançadas. Cobrava deles que cobravam dos outros as cobranças a serem recebidas. E voltava novamente para as máquinas de calcular e a máquina de escrever. Almoçava, inevitavelmente, na lanchonete do outro lado da rua. Vinte minutos eram suficientes para atravessar a rua e engolir um salgado, um suco e um brigadeiro. Voltava ao escritório e subia os lances da escada com pressa de não deixar que o serviço acumulasse. Contas, números, nomes e às 17 horas já estava pronta para trancar a gaveta e voltar para casa. Todos os dias. A mesma coisa. “E por que seria diferente?” Foi esta a sua escolha. Uma vida insípida. Também, não quis se entregar ao matrimônio. Bem que Oswaldo a cortejou durante meses, tentou, mas Clara foi irredutível. Não se entregou ao celibato do convento, não se entregou a Oswaldo em casamento, mas entregou-se aos calorosos momentos com Isaac. Única pausa na rotina fria dos dias que se seguiram desde sua entrada no Convento Santa Helena.De vez em quando ainda sente os olhares de admiração de Oswaldo. Mas é em Isaac que pensa. Amor? Não. Ainda não havia provado do amor. Tinha consciência disso. Afinal, Clara conhecia bem o amor nos folhetins romanescos que lia todos os sábados na varanda de seu apartamento, enquanto observava as pessoas na rua que sustentava seu prédio velho e silencioso. Paixão? Talvez. Dessas que fazem perder o sono enquanto se aguarda o momento do encontro. Eram, na verdade, cômodos e rotineiros os encontros com Isaac. Sem perguntas, sem respostas. Apenas momentos que ela classificava como uma pausa na rotina. Mas&#8230; depois de um ano inteiro já não seria rotina? Um paradoxo, como Clara.Ao descer as escadas do prédio rumo à Quinta Avenida, segundo andar, sala 201, um frio percorreu sua espinha. Será que hoje as pessoas, os automóveis, os ônibus, o metrô estariam em perfeita harmonia com a rotina de sempre? Ou teriam enlouquecido de vez, desde ontem e estariam agindo ao bel prazer?Titubeou por uns instantes, coisa incomum para alguém que contraiu o hábito dos horários rígidos e dos protocolos inadiáveis. Pensou em voltar para casa e esconder-se, como fazia Laura, sua tia. Mas seguiu adiante. Caminhou por alguns minutos e lá estava diante do prédio impoluto que, como ela, cumpria horários e protocolos. Cumprimentou o porteiro e escalou as escadas até o segundo andar. Abriu a porta que rangia. “Oswaldo esqueceu-se do óleo mais uma vez”. Acendeu as luzes amareladas como as paredes e tentou abrir as persianas que emperravam todos os dias. Mas aquela sexta-feira não seria como as outras. A quinta rompera para sempre o ciclo que se iniciara há mais de dez anos.&nbsp;</p>



<p>4.&nbsp;</p>



<p>Mais uma vez cumpriu o contrato que assinalara há anos com o Doutor Hermenegildo, entre máquinas de calcular, máquina de escrever e cobranças a Tônia e Oswaldo. Quando deu a hora do almoço de vinte minutos na lanchonete do outro lado da rua, Clara foi tomada pela mesma sensação: o peso das correntes em seus tornozelos. Desceu as escadas arrastando suas correntes e sapatilhas cinza, não cumprimentou o porteiro. Seguiu em frente com um peso que lhe atormentava a alma. Atravessou a rua, entrou na lanchonete e não fez o pedido de sempre. Lembrou-se do dia anterior naquele bar qualquer do cruzamento que daria no Asilo São Francisco. Do escritório até o bar levaria horas. Subitamente lhe veio à lembrança as cores dos cartazes nas paredes sujas daquele lugar igualmente sujo e um desejo: fazer parte daquelas paredes. Colar-se e calar-se lá, para sempre. Ser um ponto claro na imundície daquelas paredes e sorver o aroma etílico de cada um que por lá passasse, como um espectro sugando a energia viva de cada um.“Não. Não é da minha natureza. Esta não sou eu. Não posso me entregar a esses pensamentos. Não nasci para estar nesses lugares. Não sou dada ao submundo. Ou já pertenço a ele e não percebi? Preciso trabalhar&#8230; Isaac, palpita-me o coração quando penso em você. Salva-me. Abraça-me. Deixa-me senti-lo&#8230; preciso trabalhar! Deus! O que está havendo? Eu sou Clara&#8230; hoje ainda é sexta, preciso voltar ao trabalho”.Caminhou alguns passos e não conseguiu mais se mexer. A cidade a engolia. As pessoas acotovelavam-se num imenso frenesi. O coração de Clara pulava tão forte que podia ser percebido debaixo das rendas de sua camisa. Os carros corriam num vai e vem frenético. Onde o silêncio de ontem? Onde as cinzas pinceladas nas paredes das casas e prédios? Onde o cinza do asfalto?Claramente, seus sentidos estavam perturbados. Algo havia mudado na cidade ou dentro dela?Fechou os olhos por alguns segundos na tentativa de recuperar a razão. Abriu-os e caminhou em direção ao ponto do ônibus 213. Mas hoje não é dia de visita. “Que se dane o calendário!” “Preciso de frescor.”“Preciso das mãos de Isaac atravessando meu corpo”. Assim, entrou no 213, abandonando a Quinta Avenida, deixando para trás o trabalho impoluto, as cobranças à Tônia e a Oswaldo que, igualmente, deveriam cobrar os outros funcionários que cobrariam Marias, Antônios e Josés.Desceu próximo ao metrô, mas decidiu caminhar até o cruzamento de todas as quintas-feiras. “Que se danem as quintas-feiras, as sextas e todos os dias dessa vida medíocre!” “Quero mais”.A essa altura, o peso nos calcanhares ganhava uma leveza de tirar o fôlego e seus passos dúbios ganhavam velocidade de lince e ia cruzando ruas, quarteirões. E feito um animal em dia de caça, espreitou as pessoas, seus olhares, seus movimentos, milimetricamente. Descobriu que o mundo é bem maior que seu quarto, seu apartamento, maior que a Quinta Avenida, que o asilo e maior até que os abraços de Isaac. Descobriu que não existem limites e que poderia subverter sua vida quando quisesse, sem rotinas, protocolos, sem velhinhos, sem tia Laura. Sem Isaac.Parou no cruzamento. Não atravessou. Voltou seu olhar para o bar do dia anterior e, decidida, adentrou o espaço imundo sob olhares curiosos. Não se intimidou. Sentou ao balcão, olhou fixamente para as paredes caiadas de cartazes de cerveja e mulheres de borracharia. Pediu uma aguardente. Subverteu a lógica de seus dias cinzas e apagados pela monotonia construída ao longo do tempo&#8230;&nbsp;</p>



<p>Dizem que Clara, até hoje, lá está, enternecida pelo caleidoscópio de cartazes colados nas paredes, enternecida por suas lembranças. Clara é um paradoxo na claridade daquele lugar sem luz.&nbsp;</p>



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<p><strong>Joseani Adalemar Netto</strong>&nbsp;</p>



<p>É natural de Santos Dumont, Minas Gerais. Formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Especialista em Educação Infantil, Especialista em Educação Contemporânea pelo IF-Sudeste, campus Santos Dumont e Mestre em Letras – ProfLetras UFJF. Leciona Língua Portuguesa e suas Literaturas na Rede Municipal e Particular de Santos Dumont. É membro efetivo da Sociedade Brasileira dos Poetas Adravianistas (SBPA), Coordenadora do Projeto de Leitura LeiturAMA-SD, membro atuante da Ação em Movimentos Artísticos de Santos Dumont (AMA-SD), fundadora e coordenadora da Academia Brasileira de Autores Aldravianistas Infantojuvenil – SD (ABRAAI-SD), membro correspondente da Academia Portuguesa de Ex-Libris (APEL). É contadora de histórias, palestra sobre Educação e Literatura, ministra oficinas e atividades culturais voltadas para o incentivo à leitura e à escrita tanto para estudantes quanto para a formação de professores na cidade de Santos Dumont e região. Tem seus textos publicados em antologias literárias como o Livro IV, V, VI, VII e VIII e IX das Aldravias; Antologia Juiz de Fora ao Luar; Antologia Múltiplas Palavras, UBT (JF), e-book Cronistas da Quarentena (2021), Livro foto-poema pela Lei Aldir Blanc. Possui capítulos em livros pedagógicos voltados para o Letramento Línguistico e Literário, artigos publicados em jornais e revistas voltados para a Educação. Já prefaciou livros e quarta capa para vários outros escritores e poetas. Trabalha como revisora linguística em várias publicações. É colaboradora externa no Projeto Propostas Pedagógicas para o Ensino de Língua Portuguesa e Literatura no Ensino Fundamental II e Ensino Médio, atuando como co-orientadora dos bolsistas de Letras na construção de sequências didáticas, do IF-Sudeste, campus Juiz de Fora e atua também no projeto de pesquisa Performances do Narrador, UFMG, com o olhar para as obras de Conceição Evaristo. Participa de forma atuante em oficinas, palestras, cursos, saraus e atividades afins. Possui certificados e medalhas de Mérito Cultural por sua atuação como fomentadora da cultura local e da região, oferecidas pela SBPA, Lesma Poesia, Rotaract, Interact, Câmara Municipal de Santos Dumont, dentre outros.&nbsp;</p>
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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://open.spotify.com/episode/7EC7yPVRK5Zra9LrSTb1wL?si=qoJJIBynQ_2pOfYDqgBZrQ"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-29026" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/03/ARTE-O-ANO-EU-NAO-ME-LEMBRO-dia2.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>



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<figure class="wp-block-image size-large"><a href="https://institucional.artebodoque.com/2023/05/24/escreva-sua-historia-de-amor-com-a-bodoque/"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/propaganda-dia-dos-namorados.png?resize=819%2C1024&#038;ssl=1" alt="" class="wp-image-30796" srcset="https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/propaganda-dia-dos-namorados.png?resize=819%2C1024&amp;ssl=1 819w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/propaganda-dia-dos-namorados.png?resize=240%2C300&amp;ssl=1 240w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/propaganda-dia-dos-namorados.png?resize=768%2C960&amp;ssl=1 768w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/propaganda-dia-dos-namorados.png?resize=600%2C750&amp;ssl=1 600w, https://i0.wp.com/revistatrama.artebodoque.com/wp-content/uploads/2023/05/propaganda-dia-dos-namorados.png?w=1080&amp;ssl=1 1080w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" data-recalc-dims="1" /></a><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Clique na imagem para mais informações!</strong></em></figcaption></figure>


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